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Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Quem matou a nossa infância?

Quando um adolescente atira nos colegas como ocorreu na semana passada, prontamente a explicação dada foi que ele sofria bulling. O agressor passou a ser vítima e uma das vítimas passou a ser agressor. Mas será que são estes mesmo os papéis? É muito fácil julgar, condenar, rotular.

Numa pesquisa rápida no Google sobre o tema, aparecem milhares de resultados. E, a um olhar mais atento, é possível perceber que estes números vem aumentando perigosamente. Claro que hoje a informação é praticamente instantânea, e sempre tem alguém filmando e divulgando imediatamente os fatos, o que poderia, teoricamente, responder pelo aumento de casos. Mas a verdade é que nossas crianças mudaram. Ou será que fomos nós que mudamos?

Lembro que quando eu era criança tive vários apelidos, porque era magra demais, baixinha, etc. Na minha turma de escola tinha o "quatro olhos", o "pintor de rodapé", o "salva vidas de aquário", etc. Havia brigas entre nós, mas nada sério demais. Até porque todas as brigas acabavam quando batia o sino do final da aula e a gente sabia que só enfrentaria o "inimigo" novamente no dia seguinte. Lembro inclusive de uma vez que a minha turma recebeu uma suspensão de um dia, e quando cheguei em casa a minha mãe me botou de castigo por isso. Talvez eu esteja velha demais, mas naquela época a gente respeitava professor, policial, padre, médico... Ensinavam pra gente a respeitar os mais velhos, a ficar quieto na igreja, a usar as "palavrinhas mágicas". 

Hoje o que vemos são crianças que são criadas por terceiros porque os pais não tem tempo para isso. Não tem tempo porque tem que trabalhar pra trocar o carro, pra pagar a escola particular, o plano de saúde, essas coisas. E, diante de tudo isso, a função de educar acaba sendo delegada a escola. Por outro lado, como estes pais ficam pouco tempo com seus filhos, não querem também entrar em conflito e retiram da escola a autoridade assim que algo os desagrade.

Se educar é função da família e a escola cabe ensinar, faz parte do papel da sociedade também fiscalizar para que não haja desvios. Isto porque educar é muito mais complexo, exige vivência, exemplo. Não adianta dizer que roubar é feio e ficar com o troco excedente do mercado... Não adianta fazer os filhos irem a igreja, fazer comunhão, etc e fingir que não vê quando alguém pede um prato de comida, ou jogar o carro em cima do motorista da frente pra ele mudar de pista. 

E daí, a criança que vive este dia a dia vê nas redes sociais as típicas famílias de comercial de margarina: todo mundo lindo e feliz, num lar perfeito. Bem, este lar perfeito não está ao alcance dela, mas ela pode ser famosa. Como? Me diga ai quem é o prêmio nobel da paz. Mas todo mundo sabe o nome dos serial killers. O próprio adolescente atirador do inicio do texto refere que se inspirou em outros massacres provocados por outros adolescentes. Por que não estamos enxergando o que está acontecendo com nossas crianças? Por que ninguém está ouvindo seus gritos de socorro? Quanto mais elas terão que gritar para que ouçamos?

Quando a sociedade se esvazia de valores, a infância se perde. Que esta reflexão nos leve a mudar, porque nossas crianças merecem um mundo melhor e real, onde elas possam ser crianças de novo. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 24/10/2017 às 11h14 | cereshmrc@gmail.com

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Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há quase 20 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)
















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