Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre a virada do ano...

 

 

              Neste ano ela quis fazer diferente: não usou roupa nova. Cansada de tudo, não quis ir para a praia ver os shows de fogos no céu. Preferiu ficar em casa em silêncio, aquietando o coração pra poder entrar o ano em paz. Com uma roupa já bem usada, daquelas bem confortáveis, de chinelo, ela recebeu o ano novo.

Alguns usaram branco, pela paz. Outros, amarelo, querendo a prosperidade. Vermelho, a procura do amor... Ela vestiu uma roupa velha e confortável, em busca de algo diferente: ela buscava o velho. Se alguns acharam estranho, nada disseram, até porque todos estavam ocupados demais tirando selfies na festa da virada para postar nas redes. Todos estavam extremamente ocupados em postarem fotos felizes, de famílias felizes, de amizades perfeitas, de lugares incríveis.

Ela só queria o velho. Sozinha, quietinha no seu canto, ela fez sua prece. Pediu pelos velhos amigos, aqueles que chegavam a qualquer hora, abriam a geladeira e até faziam a comida. Aqueles que ela recebia de pijama sem precisar ficar com vergonha. Pediu pela velha família, aquela que se reunia em torno da mesa de almoço que virava café da tarde que virava jantar, porque ninguém tinha pressa de ir embora e sempre tinha mais um causo pra contar. Pediu pelos velhos sentimentos, de amor e empatia... pediu pelos velhos costumes, de se olhar nos olhos, de abraçar apertado...

O velho hábito de tomar um café da tarde com os vizinhos enquanto as crianças brincavam na calçada em frente de casa. O velho ritual de fazer bolinho de chuva nos dias cinzentos e úmidos do outono, ou de tomar banho de mangueira nos dias abafados de verão. De ir colher uma fruta no quintal e dividir com os vizinhos quando a colheita era farta...

Aquele velho costume de preparar uma canja pra quem estivesse doente, e levar com uma cesta de pãozinho recém-saído do forno. O cheiro gostoso de café feito no coador misturado com o cheiro de biscoitinhos de maisena assando no forno...

De repente, tudo ficou tão novo que ela se sentiu perdida, absolutamente deslocada e desconfortável. Por isso, optou por roupas e sentimentos velhos. Porque, de repente, ela se sentiu velha demais pra tudo isso.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/01/2019 às 16h13 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Sobre a virada do ano...

 

 

              Neste ano ela quis fazer diferente: não usou roupa nova. Cansada de tudo, não quis ir para a praia ver os shows de fogos no céu. Preferiu ficar em casa em silêncio, aquietando o coração pra poder entrar o ano em paz. Com uma roupa já bem usada, daquelas bem confortáveis, de chinelo, ela recebeu o ano novo.

Alguns usaram branco, pela paz. Outros, amarelo, querendo a prosperidade. Vermelho, a procura do amor... Ela vestiu uma roupa velha e confortável, em busca de algo diferente: ela buscava o velho. Se alguns acharam estranho, nada disseram, até porque todos estavam ocupados demais tirando selfies na festa da virada para postar nas redes. Todos estavam extremamente ocupados em postarem fotos felizes, de famílias felizes, de amizades perfeitas, de lugares incríveis.

Ela só queria o velho. Sozinha, quietinha no seu canto, ela fez sua prece. Pediu pelos velhos amigos, aqueles que chegavam a qualquer hora, abriam a geladeira e até faziam a comida. Aqueles que ela recebia de pijama sem precisar ficar com vergonha. Pediu pela velha família, aquela que se reunia em torno da mesa de almoço que virava café da tarde que virava jantar, porque ninguém tinha pressa de ir embora e sempre tinha mais um causo pra contar. Pediu pelos velhos sentimentos, de amor e empatia... pediu pelos velhos costumes, de se olhar nos olhos, de abraçar apertado...

O velho hábito de tomar um café da tarde com os vizinhos enquanto as crianças brincavam na calçada em frente de casa. O velho ritual de fazer bolinho de chuva nos dias cinzentos e úmidos do outono, ou de tomar banho de mangueira nos dias abafados de verão. De ir colher uma fruta no quintal e dividir com os vizinhos quando a colheita era farta...

Aquele velho costume de preparar uma canja pra quem estivesse doente, e levar com uma cesta de pãozinho recém-saído do forno. O cheiro gostoso de café feito no coador misturado com o cheiro de biscoitinhos de maisena assando no forno...

De repente, tudo ficou tão novo que ela se sentiu perdida, absolutamente deslocada e desconfortável. Por isso, optou por roupas e sentimentos velhos. Porque, de repente, ela se sentiu velha demais pra tudo isso.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 01/01/2019 às 16h13 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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