Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

A virada do ano dele...

 

 

                Como em todos os anos, ele se preparou para a virada. Alguns dias antes, comprou uma roupa branca, bem confortável, e chinelos para ir a praia saudar o novo ano junto com os amigos de sempre. Espumante na geladeira, bolsa térmica com gelo, cadeira de praia separada. Check list perfeito.

Mas, ao sair do banho e passar pelo espelho algo mudou. Naquele segundo em que normalmente ele nem se apercebia, ele viu um vulto. Quase gritou, mas resolveu olhar de novo. Lá fora, o barulho dos fogos e a música alta dos carros de repente pareceram ser de outro mundo.

Do lado de dentro, o vulto continuava lá, no espelho, num cantinho encolhido. Ele chegou mais perto e viu. Viu um menino de seis ou sete anos de idade, que tremia de medo e tinha uma lágrima escorrendo pela face. O menino chorava em silêncio, num silêncio constrangedor.

Ele sentou ao lado do menino e ficou em silêncio também. E, então, viu nos olhos dele um filme passando. Sem som. Sem legenda. Viu várias crianças rindo enquanto ele tropeçava na escola e caía ao chão. Viu adolescentes apontando o dedo e cochichando enquanto ele passava. Sentiu a dor de um olhar de desapontamento de alguém e o calor do abraço apertado da mãe.

Ficou alguns minutos assim, sentado ao lado do menino, até que por fim estendeu a mão para ele e ofertou um abraço. E, no momento em que sentiu os braços do menino lhe tocando, ele também deixou cair uma lágrima. E acalentou o pequeno com carinho, sem pressa para acabar de se arrumar. Afagou seus cabelos e fez uma anotação mental de não permitir que ninguém jamais voltasse a magoar o menino.

Quando ele voltou a abrir os olhos, o menino tinha ido embora. Faltavam poucos minutos para a virada do ano, e de repente, ele percebeu que já estava pronto. Sim, tinha feito as pazes com o passado e selado um compromisso com o futuro. Levantou do chão, pegou uma foto do menino que estava numa gaveta e pôs no bolso da bermuda.

Neste ano seria tudo diferente. O menino tinha finalmente crescido. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 11h41 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
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A virada do ano dele...

 

 

                Como em todos os anos, ele se preparou para a virada. Alguns dias antes, comprou uma roupa branca, bem confortável, e chinelos para ir a praia saudar o novo ano junto com os amigos de sempre. Espumante na geladeira, bolsa térmica com gelo, cadeira de praia separada. Check list perfeito.

Mas, ao sair do banho e passar pelo espelho algo mudou. Naquele segundo em que normalmente ele nem se apercebia, ele viu um vulto. Quase gritou, mas resolveu olhar de novo. Lá fora, o barulho dos fogos e a música alta dos carros de repente pareceram ser de outro mundo.

Do lado de dentro, o vulto continuava lá, no espelho, num cantinho encolhido. Ele chegou mais perto e viu. Viu um menino de seis ou sete anos de idade, que tremia de medo e tinha uma lágrima escorrendo pela face. O menino chorava em silêncio, num silêncio constrangedor.

Ele sentou ao lado do menino e ficou em silêncio também. E, então, viu nos olhos dele um filme passando. Sem som. Sem legenda. Viu várias crianças rindo enquanto ele tropeçava na escola e caía ao chão. Viu adolescentes apontando o dedo e cochichando enquanto ele passava. Sentiu a dor de um olhar de desapontamento de alguém e o calor do abraço apertado da mãe.

Ficou alguns minutos assim, sentado ao lado do menino, até que por fim estendeu a mão para ele e ofertou um abraço. E, no momento em que sentiu os braços do menino lhe tocando, ele também deixou cair uma lágrima. E acalentou o pequeno com carinho, sem pressa para acabar de se arrumar. Afagou seus cabelos e fez uma anotação mental de não permitir que ninguém jamais voltasse a magoar o menino.

Quando ele voltou a abrir os olhos, o menino tinha ido embora. Faltavam poucos minutos para a virada do ano, e de repente, ele percebeu que já estava pronto. Sim, tinha feito as pazes com o passado e selado um compromisso com o futuro. Levantou do chão, pegou uma foto do menino que estava numa gaveta e pôs no bolso da bermuda.

Neste ano seria tudo diferente. O menino tinha finalmente crescido. 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 02/01/2019 às 11h41 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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