Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Ela...

 

 

              Vagarosamente ela secou o corpo com a toalha. Devagar porque ainda sentia dor em vários locais, e tinha receio de deixar as equimoses ainda mais fortes. Ela não queria ir, tinha pedido, suplicado até para ficar em casa com as crianças. Mas ele não aceitou. Pelo menos ela não teria que escolher a roupa para usar, já que ele tinha providenciado um vestido leve e que disfarçava bem as marcas da última noite.

Diante do espelho, começou a passar base e corretivo na face, procurando dar um tom levemente bronzeado. Ele não gostava que ela usasse batom vermelho, nem que passasse o delineador e rímel que realçavam seus olhos. Mas ela também não queria que seus olhos chamassem atenção, assim evitaria comentários desconfortáveis como o da noite anterior. Tinha ido até o portão para pegar a correspondência quando seu olhar cruzou com o da vizinha. Ela abaixou rápido a cabeça, mas a vizinha a chamou pelo nome e perguntou: Tudo bem?

 

“Tudo bem?” –” Sim, tudo ótimo! O dia está lindo, as crianças estão de férias, o jardim cheio de flores... ah, e hoje não apanhei.” Que cara ela faria se ouvisse essa resposta? Mas não, não podia expor o marido. Pessoas importantes como ele não devem ser perturbadas com pequenos problemas domésticos. Além do que, ela tinha pensado bem e chegado a conclusão que ele tinha razão: pra que fazer faculdade, deixando de estar com a família, se ele providenciava tudo que eles precisavam? Era realmente muito egoísmo da parte dela ficar pensando em ter uma profissão. E, mesmo depois de formada, quem iria contratar uma pessoa tão sem graça como ela? Faculdade, emprego, carreira, eram coisas para pessoas fortes, especiais. Sem dúvida alguma, não eram coisas para ela.

 

Com um suspiro, ela pegou o vestido que ele tinha escolhido e vestiu. Do espelho, uma moça jovem e bonita olhou para ela com carinho. Sem dúvida ele tinha um ótimo gosto para roupas. Calçou uma rasteirinha e acariciou a aliança no dedo. Este ano tudo seria diferente. Ele havia prometido tratar dela com mais carinho, tinha até comprado uma pulseira com pingentes com o nome deles e dos filhos para que ela usasse esta noite. Sorriu quando se lembrou dele entregando a caixinha com a jóia escondida num ramalhete de rosas vermelhas. Ela era uma mulher de sorte por ter um marido que não economizava em presentes.

 

Feliz, ela foi ao encontro dele na sala para um drink antes de saírem. Não percebeu o nível do uísque na garrafa. Viu que a gravata dele estava meio fora do lugar e ergueu as mãos para arrumar. Ele também ergueu a mão. A pulseira ficou inerte, caída no chão ao lado do corpo dela. 

 
Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/01/2019 às 00h27 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Ela...

 

 

              Vagarosamente ela secou o corpo com a toalha. Devagar porque ainda sentia dor em vários locais, e tinha receio de deixar as equimoses ainda mais fortes. Ela não queria ir, tinha pedido, suplicado até para ficar em casa com as crianças. Mas ele não aceitou. Pelo menos ela não teria que escolher a roupa para usar, já que ele tinha providenciado um vestido leve e que disfarçava bem as marcas da última noite.

Diante do espelho, começou a passar base e corretivo na face, procurando dar um tom levemente bronzeado. Ele não gostava que ela usasse batom vermelho, nem que passasse o delineador e rímel que realçavam seus olhos. Mas ela também não queria que seus olhos chamassem atenção, assim evitaria comentários desconfortáveis como o da noite anterior. Tinha ido até o portão para pegar a correspondência quando seu olhar cruzou com o da vizinha. Ela abaixou rápido a cabeça, mas a vizinha a chamou pelo nome e perguntou: Tudo bem?

 

“Tudo bem?” –” Sim, tudo ótimo! O dia está lindo, as crianças estão de férias, o jardim cheio de flores... ah, e hoje não apanhei.” Que cara ela faria se ouvisse essa resposta? Mas não, não podia expor o marido. Pessoas importantes como ele não devem ser perturbadas com pequenos problemas domésticos. Além do que, ela tinha pensado bem e chegado a conclusão que ele tinha razão: pra que fazer faculdade, deixando de estar com a família, se ele providenciava tudo que eles precisavam? Era realmente muito egoísmo da parte dela ficar pensando em ter uma profissão. E, mesmo depois de formada, quem iria contratar uma pessoa tão sem graça como ela? Faculdade, emprego, carreira, eram coisas para pessoas fortes, especiais. Sem dúvida alguma, não eram coisas para ela.

 

Com um suspiro, ela pegou o vestido que ele tinha escolhido e vestiu. Do espelho, uma moça jovem e bonita olhou para ela com carinho. Sem dúvida ele tinha um ótimo gosto para roupas. Calçou uma rasteirinha e acariciou a aliança no dedo. Este ano tudo seria diferente. Ele havia prometido tratar dela com mais carinho, tinha até comprado uma pulseira com pingentes com o nome deles e dos filhos para que ela usasse esta noite. Sorriu quando se lembrou dele entregando a caixinha com a jóia escondida num ramalhete de rosas vermelhas. Ela era uma mulher de sorte por ter um marido que não economizava em presentes.

 

Feliz, ela foi ao encontro dele na sala para um drink antes de saírem. Não percebeu o nível do uísque na garrafa. Viu que a gravata dele estava meio fora do lugar e ergueu as mãos para arrumar. Ele também ergueu a mão. A pulseira ficou inerte, caída no chão ao lado do corpo dela. 

 
Escrito por Céres Fabiana Felski, 30/01/2019 às 00h27 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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