Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Ele...

 

 

             Ele colocou a cabeça no travesseiro e mais uma vez sentiu o perfume dela. Lembrava claramente o dia em que haviam comprado este e outros perfumes, numa lojinha simpática em Paris. Ela havia dito que não poderiam voltar para casa sem trazer perfumes para as melhores amigas. Tinham gastado uma pequena fortuna, mas tinha valido cada centavo. As essências tinham um fixador maravilhoso, e permaneciam no ambiente deixando a casa toda perfumada como se ela tivesse acabado de sair do banho...

Com os olhos fechados, ele revisou e acariciou cada contorno do rosto dela, tirando até aquela mecha de cabelo que caía as vezes sobre os olhos e que ela teimava em tentar prender num coque frouxo. Aquela mecha de cabelo que tinha sido o primeiro toque no rosto dela, anos atrás. A desculpa perfeita para se aproximar da moça séria que estava estudando sozinha na biblioteca da faculdade. Talvez até tenha sido esta mecha a culpada de tudo. Foi ali que ele começou a sentir uma necessidade incontrolável de cuidar dela, de proteger sempre.

 

Ela sorriu levemente naquele dia, com os pequenos olhos verdes escondidos atrás dos óculos de grau que lhe conferiam um ar de nerd. Ficou ruborizada quando encontrou com os olhos dele e pediu desculpas. Foi ali, naquele exato momento, que ele se apaixonou por ela: gente, pedir desculpas por uma mecha do cabelo ter saído do lugar? Naquele instante ele percebeu o quanto ela era frágil, e a necessidade de protegê-la começou a doer no peito dele.

 

Mesmo estando no último ano da faculdade e tendo todos os livros necessários em casa, ele passou a freqüentar a biblioteca sempre no mesmo horário, para poder estar mais próximo dela. Um dia, uma chuva torrencial lhe deu o álibi perfeito para oferecer uma carona e poder saber um pouquinho mais dela. Devagar, ele foi se aproximando, até que por fim durante um café na casa dela, ele pediu a mão dela em casamento. Ela engasgou, tossiu, ficou vermelha como um pimentão e perguntou como, já que eles nem estavam namorando. E ele disse que ela não era mulher para namorar, era mulher para casar. Em poucos meses já estavam casados, ele formado e com um bom emprego e ela em casa, grávida do primeiro filho deles.

 

Os amigos sempre comentavam o casal perfeito que eles formavam... Tinha até a impressão que alguns cobiçavam a mulher dele, por isso preferia que ela ficasse em casa na maior parte do tempo, cuidando dos filhos, da casa, e dele. As pequenas brigas entre eles (sempre por causa da mania dele de continuar protegendo) eram sempre resolvidas com flores, jóias e um pedido de desculpas. Ela então erguia para ele aqueles olhos verdes, e  perdoava. Sempre. Por isso agora ele não sabia o que fazer com aquele ramalhete de rosas vermelhas. Caminhou até a sala... Ela estava usando a pulseira que ele havia dado. Mas não abria mais olhos.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 31/01/2019 às 11h25 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
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Ele...

 

 

             Ele colocou a cabeça no travesseiro e mais uma vez sentiu o perfume dela. Lembrava claramente o dia em que haviam comprado este e outros perfumes, numa lojinha simpática em Paris. Ela havia dito que não poderiam voltar para casa sem trazer perfumes para as melhores amigas. Tinham gastado uma pequena fortuna, mas tinha valido cada centavo. As essências tinham um fixador maravilhoso, e permaneciam no ambiente deixando a casa toda perfumada como se ela tivesse acabado de sair do banho...

Com os olhos fechados, ele revisou e acariciou cada contorno do rosto dela, tirando até aquela mecha de cabelo que caía as vezes sobre os olhos e que ela teimava em tentar prender num coque frouxo. Aquela mecha de cabelo que tinha sido o primeiro toque no rosto dela, anos atrás. A desculpa perfeita para se aproximar da moça séria que estava estudando sozinha na biblioteca da faculdade. Talvez até tenha sido esta mecha a culpada de tudo. Foi ali que ele começou a sentir uma necessidade incontrolável de cuidar dela, de proteger sempre.

 

Ela sorriu levemente naquele dia, com os pequenos olhos verdes escondidos atrás dos óculos de grau que lhe conferiam um ar de nerd. Ficou ruborizada quando encontrou com os olhos dele e pediu desculpas. Foi ali, naquele exato momento, que ele se apaixonou por ela: gente, pedir desculpas por uma mecha do cabelo ter saído do lugar? Naquele instante ele percebeu o quanto ela era frágil, e a necessidade de protegê-la começou a doer no peito dele.

 

Mesmo estando no último ano da faculdade e tendo todos os livros necessários em casa, ele passou a freqüentar a biblioteca sempre no mesmo horário, para poder estar mais próximo dela. Um dia, uma chuva torrencial lhe deu o álibi perfeito para oferecer uma carona e poder saber um pouquinho mais dela. Devagar, ele foi se aproximando, até que por fim durante um café na casa dela, ele pediu a mão dela em casamento. Ela engasgou, tossiu, ficou vermelha como um pimentão e perguntou como, já que eles nem estavam namorando. E ele disse que ela não era mulher para namorar, era mulher para casar. Em poucos meses já estavam casados, ele formado e com um bom emprego e ela em casa, grávida do primeiro filho deles.

 

Os amigos sempre comentavam o casal perfeito que eles formavam... Tinha até a impressão que alguns cobiçavam a mulher dele, por isso preferia que ela ficasse em casa na maior parte do tempo, cuidando dos filhos, da casa, e dele. As pequenas brigas entre eles (sempre por causa da mania dele de continuar protegendo) eram sempre resolvidas com flores, jóias e um pedido de desculpas. Ela então erguia para ele aqueles olhos verdes, e  perdoava. Sempre. Por isso agora ele não sabia o que fazer com aquele ramalhete de rosas vermelhas. Caminhou até a sala... Ela estava usando a pulseira que ele havia dado. Mas não abria mais olhos.

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 31/01/2019 às 11h25 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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