Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

É sobre EXISTIR (por Nívia Medeiros)

E é tomando conhecimento de mais um caso de ideação suicida, que me vejo ouvindo gritar silenciosamente e prestando atenção naquela fala adolescente, carregada de angústia e de falta de sentido de vida.

Ouço com atenção a resposta quando pergunto o por quê da vontade de morrer, e por vezes recebo respostas que giram em torno de situações, aparentemente resolutíveis: namoros que se acabaram ou que nem começaram pela não aceitação da outra parte, a nota baixa naquela matéria específica, a separação dos pais que fez desmoronar a qualidade de vida (e não apenas a material, mas a conformação familiar) tida até então, o bullyng  sofrido na escola ou muitas vezes na própria família, enfim, são tantas questões... porém, todas advindas de um lugar: o Não existir!

A dor sofrida por estes adolescentes vem de uma situação que o faz sentir-se não existente em seu mundo, seja em casa, na escola, na sociedade! A dor vem de uma intolerância à frustração, e naquele momento a única saída se encontra na corda, na sacada bem lá no alto do prédio, no veneno ou em outras formas que matariam aquela parte que dói. Digo matar aquela parte que dói, porque estes adolescentes estão realmente em sofrimento, e, por não suportar a dor do não existir, tentam de qualquer forma se livrar dela, mesmo que para isso paguem o preço altíssimo de abandonarem suas vidas! Matar a dor passa a ser o objetivo prioritário.

Os tantos relatos convergem sempre em um mesmo ponto: muitas vezes emitiram sinais de alerta através de mudanças em seus hábitos. Noites de insonia ou sono em demasia, falta de apetite ou fuga para doces (que por vezes são a possibilidade mágica de prazer imediato), auto agressões como cortes no próprio corpo ou fugas de casa, a reclusão ao quarto que inviabiliza o contato com a família, entre outras tantas mais... As "tentativas de existência" são muitas, mas nem sempre quem está ao redor consegue se aperceber delas e de seu significado, pois muitas vezes esses sintomas são confundidos com sintomas da própria adolescência! É preciso estar muito atento à qualquer mudança no padrão comportamental, principalmente nesse período de adolescência, onde as tantas mudanças físicas e hormonais nem sempre são comportadas por uma mente ainda em amadurecimento.

É possivel perceber, através dos relatos, a presença de mentes muito frágeis habitando corpos desproporcionalmente fortes. De onde vem essa fragilidade mental ainda é incerto, mas ao longo do diálogo, algumas pistas vão aparecendo e mostrando que a falta de frustração durante a infância, pode ter contribuído de forma  opulenta para a fragilidade psíquica. E ao prosseguir com a investigação, sem demora aparecem muitos “SIM” e quase inexistentes “NÃO” ao longo do desenvolvimento infantil e adolescente. São os NÃOs que os pais não conseguem dizer aos filhos, acreditando que estão fazendo o melhor por eles, que na verdade acabam por privá-los de aprender a suportar as frustações. São pequenas coisas, aparentemente insignificantes, como a permissividade de dormir no quarto dos pais por muito tempo (não confrontando aquela mente com seus medos e os privando de sentir capaz de derrotar o inimigo imaginário),  o brinquedo que veio sem motivo e muitas vezes sem desejo, pois não se significa mais as datas comemorativas, então para que esperar? O desejo é decapitado levando consigo a tolerância da espera, de contar os dias, os meses para receber o tão esperado “presente”!

E é também na falta de atividade dentro da própria estrutura familiar que se instala a sensação de inutilidade:  quando muitos pais acham que estão proporcionando uma boa qualidade de vida aos filhos, mas estão na verdade os privando de se sentirem úteis, quando não solicitam que arrumem uma mesa, por exemplo, ou lavem uma louça ou até mesmo arrumem suas camas. O adolescente vai se vendo inútil e inexistente, em um mundo que nós mesmos criamos, como todos os nossos sintomas. É louvável que se ofereça aos filhos a oportunidade de evitar algumas privações que tivemos, mas não podemos esquecer o papel que elas tiveram no crescimento individual de cada um.

Talvez a ressignificação da vida passe por aí, por entender que cada um desempenha um papel fundamental na estrutura familiar, e que este papel seja intransferível. O existir não se resume na pura existencia física do individuo, mas na sua atividade no meio em que está situado, em cada ato em que ele pode ser autor de sua própria historia, pode ser visto diante das suas escolhas e tambem reconhecido por elas.

Nestes tempos modernos em que claramente existimos atraves das redes sociais por exemplo, é urgente que voltemos a constatar que a verdadeira existencia se dá no campo do Real, nos momentos face a face, cuja significação perpassa pela escuta de um Ser que tem a necessidade de ser visto e ouvido!

por Nívia Medeiros

Psicóloga Clínica 

psiconivia@hotmail.com

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/02/2019 às 11h27 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
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É sobre EXISTIR (por Nívia Medeiros)

E é tomando conhecimento de mais um caso de ideação suicida, que me vejo ouvindo gritar silenciosamente e prestando atenção naquela fala adolescente, carregada de angústia e de falta de sentido de vida.

Ouço com atenção a resposta quando pergunto o por quê da vontade de morrer, e por vezes recebo respostas que giram em torno de situações, aparentemente resolutíveis: namoros que se acabaram ou que nem começaram pela não aceitação da outra parte, a nota baixa naquela matéria específica, a separação dos pais que fez desmoronar a qualidade de vida (e não apenas a material, mas a conformação familiar) tida até então, o bullyng  sofrido na escola ou muitas vezes na própria família, enfim, são tantas questões... porém, todas advindas de um lugar: o Não existir!

A dor sofrida por estes adolescentes vem de uma situação que o faz sentir-se não existente em seu mundo, seja em casa, na escola, na sociedade! A dor vem de uma intolerância à frustração, e naquele momento a única saída se encontra na corda, na sacada bem lá no alto do prédio, no veneno ou em outras formas que matariam aquela parte que dói. Digo matar aquela parte que dói, porque estes adolescentes estão realmente em sofrimento, e, por não suportar a dor do não existir, tentam de qualquer forma se livrar dela, mesmo que para isso paguem o preço altíssimo de abandonarem suas vidas! Matar a dor passa a ser o objetivo prioritário.

Os tantos relatos convergem sempre em um mesmo ponto: muitas vezes emitiram sinais de alerta através de mudanças em seus hábitos. Noites de insonia ou sono em demasia, falta de apetite ou fuga para doces (que por vezes são a possibilidade mágica de prazer imediato), auto agressões como cortes no próprio corpo ou fugas de casa, a reclusão ao quarto que inviabiliza o contato com a família, entre outras tantas mais... As "tentativas de existência" são muitas, mas nem sempre quem está ao redor consegue se aperceber delas e de seu significado, pois muitas vezes esses sintomas são confundidos com sintomas da própria adolescência! É preciso estar muito atento à qualquer mudança no padrão comportamental, principalmente nesse período de adolescência, onde as tantas mudanças físicas e hormonais nem sempre são comportadas por uma mente ainda em amadurecimento.

É possivel perceber, através dos relatos, a presença de mentes muito frágeis habitando corpos desproporcionalmente fortes. De onde vem essa fragilidade mental ainda é incerto, mas ao longo do diálogo, algumas pistas vão aparecendo e mostrando que a falta de frustração durante a infância, pode ter contribuído de forma  opulenta para a fragilidade psíquica. E ao prosseguir com a investigação, sem demora aparecem muitos “SIM” e quase inexistentes “NÃO” ao longo do desenvolvimento infantil e adolescente. São os NÃOs que os pais não conseguem dizer aos filhos, acreditando que estão fazendo o melhor por eles, que na verdade acabam por privá-los de aprender a suportar as frustações. São pequenas coisas, aparentemente insignificantes, como a permissividade de dormir no quarto dos pais por muito tempo (não confrontando aquela mente com seus medos e os privando de sentir capaz de derrotar o inimigo imaginário),  o brinquedo que veio sem motivo e muitas vezes sem desejo, pois não se significa mais as datas comemorativas, então para que esperar? O desejo é decapitado levando consigo a tolerância da espera, de contar os dias, os meses para receber o tão esperado “presente”!

E é também na falta de atividade dentro da própria estrutura familiar que se instala a sensação de inutilidade:  quando muitos pais acham que estão proporcionando uma boa qualidade de vida aos filhos, mas estão na verdade os privando de se sentirem úteis, quando não solicitam que arrumem uma mesa, por exemplo, ou lavem uma louça ou até mesmo arrumem suas camas. O adolescente vai se vendo inútil e inexistente, em um mundo que nós mesmos criamos, como todos os nossos sintomas. É louvável que se ofereça aos filhos a oportunidade de evitar algumas privações que tivemos, mas não podemos esquecer o papel que elas tiveram no crescimento individual de cada um.

Talvez a ressignificação da vida passe por aí, por entender que cada um desempenha um papel fundamental na estrutura familiar, e que este papel seja intransferível. O existir não se resume na pura existencia física do individuo, mas na sua atividade no meio em que está situado, em cada ato em que ele pode ser autor de sua própria historia, pode ser visto diante das suas escolhas e tambem reconhecido por elas.

Nestes tempos modernos em que claramente existimos atraves das redes sociais por exemplo, é urgente que voltemos a constatar que a verdadeira existencia se dá no campo do Real, nos momentos face a face, cuja significação perpassa pela escuta de um Ser que tem a necessidade de ser visto e ouvido!

por Nívia Medeiros

Psicóloga Clínica 

psiconivia@hotmail.com

Escrito por Céres Fabiana Felski, 26/02/2019 às 11h27 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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