Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Vai ter Dia da Mulher, sim!

Na semana passada, ao participar da reunião sobre a construção das Políticas Públicas voltadas à Mulher, vários filmes passaram na minha cabeça. Lembrei de uma situação em que a esposa de um paciente veio me comunicar o óbito dele. Casados há mais de 50 anos, enquanto soluçava ela me dizia: "Um homem tão bom, nunca ergueu a mão pra mim...". Essa história faz anos que aconteceu, mas ficou gravada na minha cabeça e no meu coração: como uma pessoa pode ver como vantagem, como adjetivo, não ser agredida por seu parceiro?

Isto me remete também a situação tão discutida na psicanálise, na qual o agressor só existe porque alguém aceita fazer o papel da vítima. Por isso, combater a violência contra a mulher é muito mais complexo do que prender/punir/castrar o agressor. É preciso que a mulher se re-signifique, porque senão ela vai continuar sendo vítima em outras situações. Com efeito, esta mulher não é vítima só no relacionamento conjugal. O padrão de comportamento não está restrito às dimensões físicas da casa. É a mulher que aceita que o mercado de trabalho pague menos a ela do que ao homem na mesma função. É a mulher que justifica o comportamento do parceiro porque "é melhor estar casada do que largada". Aquela que aceita a premissa de mulher deve ser "bela, recatada e do lar".

Outro filme: estou na farmácia, paro na frente dos preservativos e pergunto a minha filha se precisa comprar. A atendente da farmácia (que já nos atende há anos), emite um pequeno comentário: "Ainda bem que não preciso me preocupar com isso, tenho dois meninos." Quase engasgo e, não resistindo, respondo: "Você deveria se preocupar muito mais que eu, porque se minha filha engravida eu ganho um neto, mas se teu filho engravida uma moça, tu podes nem ficar sabendo de ter um neto."

Anos atrás, assisti a uma psicóloga falando sobre a diferença na criação dos filhos. Porque o menino é criado dizendo: "Isto é o seu pênis, com ele você vai mandar no mundo." E as meninas ouvem: "Você tem que cuidar pra não mostrar a calcinha, só para seu marido." E este padrão é repetido continuamente por mulheres!

Basta uma olhada nos comentários nas notícias de violência e é possível perceber como a própria mulher transforma a vítima em culpada: "também, com essa roupa..." , "como assim, no primeiro encontro?", "isso não é lugar pra mulher ir", etc... E daí você se depara com a realidade de que a mulher não apenas aceita o discurso machista mas o reproduz perpetuando a situação.

No mês da mulher, a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) está veiculando vários vídeos que abordam os diferentes tipos de violência e o papel da mulher. Vale a pena entrar no site e conferir o trabalho. E, por tudo isso, acredito que as políticas de enfrentamento a violência contra a mulher devem obrigatoriamente passar pela re-significação do papel da mulher na sociedade/vida/familia. Que as mulheres realmente se empoderem, e que sejam solidárias entre si.

Sonho com o momento em que não precisemos mais ter um DIA DA MULHER pra lembrar disso.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 06/03/2019 às 10h22 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br

Página 3
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Vai ter Dia da Mulher, sim!

Na semana passada, ao participar da reunião sobre a construção das Políticas Públicas voltadas à Mulher, vários filmes passaram na minha cabeça. Lembrei de uma situação em que a esposa de um paciente veio me comunicar o óbito dele. Casados há mais de 50 anos, enquanto soluçava ela me dizia: "Um homem tão bom, nunca ergueu a mão pra mim...". Essa história faz anos que aconteceu, mas ficou gravada na minha cabeça e no meu coração: como uma pessoa pode ver como vantagem, como adjetivo, não ser agredida por seu parceiro?

Isto me remete também a situação tão discutida na psicanálise, na qual o agressor só existe porque alguém aceita fazer o papel da vítima. Por isso, combater a violência contra a mulher é muito mais complexo do que prender/punir/castrar o agressor. É preciso que a mulher se re-signifique, porque senão ela vai continuar sendo vítima em outras situações. Com efeito, esta mulher não é vítima só no relacionamento conjugal. O padrão de comportamento não está restrito às dimensões físicas da casa. É a mulher que aceita que o mercado de trabalho pague menos a ela do que ao homem na mesma função. É a mulher que justifica o comportamento do parceiro porque "é melhor estar casada do que largada". Aquela que aceita a premissa de mulher deve ser "bela, recatada e do lar".

Outro filme: estou na farmácia, paro na frente dos preservativos e pergunto a minha filha se precisa comprar. A atendente da farmácia (que já nos atende há anos), emite um pequeno comentário: "Ainda bem que não preciso me preocupar com isso, tenho dois meninos." Quase engasgo e, não resistindo, respondo: "Você deveria se preocupar muito mais que eu, porque se minha filha engravida eu ganho um neto, mas se teu filho engravida uma moça, tu podes nem ficar sabendo de ter um neto."

Anos atrás, assisti a uma psicóloga falando sobre a diferença na criação dos filhos. Porque o menino é criado dizendo: "Isto é o seu pênis, com ele você vai mandar no mundo." E as meninas ouvem: "Você tem que cuidar pra não mostrar a calcinha, só para seu marido." E este padrão é repetido continuamente por mulheres!

Basta uma olhada nos comentários nas notícias de violência e é possível perceber como a própria mulher transforma a vítima em culpada: "também, com essa roupa..." , "como assim, no primeiro encontro?", "isso não é lugar pra mulher ir", etc... E daí você se depara com a realidade de que a mulher não apenas aceita o discurso machista mas o reproduz perpetuando a situação.

No mês da mulher, a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) está veiculando vários vídeos que abordam os diferentes tipos de violência e o papel da mulher. Vale a pena entrar no site e conferir o trabalho. E, por tudo isso, acredito que as políticas de enfrentamento a violência contra a mulher devem obrigatoriamente passar pela re-significação do papel da mulher na sociedade/vida/familia. Que as mulheres realmente se empoderem, e que sejam solidárias entre si.

Sonho com o momento em que não precisemos mais ter um DIA DA MULHER pra lembrar disso.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 06/03/2019 às 10h22 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade



Publicidade