Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Obrigada, Mafê Probst!

               

                Uma das coisas legais de escrever é que a gente presta muito mais atenção a tudo o que lê. E não apenas isso, não apenas ler: a gente tenta entender o que o outro escreveu. Coisas que parecem ter um sentido para quem lê, e que no entanto quem escreveu pensou em algo totalmente diferente. Acontece bastante isso comigo, escrevo uma coisa e vem alguém comentar  o que sentiu lendo, e era algo muitas vezes que eu nem imaginava. Confesso que essa perspectiva me deixou bem mais atenta ao escrever, mais preocupada com o que pode ser interpretado.

Tem  escritores que chegam a usar um “fotoshop” do texto para que ele fique como o leitor espera. Tipo aquela coisa de escrever por encomenda: textinho pro dia do professor, pro aniversário da amiga, etc. Uma literatura basicamente comercial, digamos. Tem seu valor, não nego, mas não creio que reflita a alma de quem escreveu.

Eu sou consumidora fiel de escritores viscerais. Tenho verdadeira paixão por textos que tenham sido forjados no calor da emoção e que não raro venham tingidos de sangue e lágrimas. Textos que tenham passado por uma gestação e tenham sido paridos com o amor que parimos os filhos.

Hoje li um texto destes. Não aguentei. Na mesma hora mandei uma mensagem pra autora, minha parceira-amiga-madrinha literária, a Mafê Probst. Sangrei lendo cada palavra. Aplaudi. Se eu já a admirava, hoje agradeço a ela por ter, com este texto, nos permitido ser imperfeitos. Eu que me julgava escritora fiquei sem palavras. Obrigada, Mafê.

 

"Desde pequena eu sabia que tinha uma perda auditiva leve e isso nunca me incomodou, tampouco atrapalhou. Fazia acompanhamentos periódicos e sempre esteve tudo bem. Até que eu parei de acompanhar, sabe? Sei lá, não via sentido.

.

Ano passado, minha mãe pediu, encarecidamente, que eu voltasse na otorrino para verificar minha audição. Bufei, revirei os olhos, mas fui. O que a mãe não pede sorrindo que eu não faço? Marquei horário, fiz audiometria e, bom, a coisa não estava tão "tudo bem" assim.

.

O diagnóstico caiu como uma bomba no meu colo. Eu deixava de ter 'só uma perda auditiva' para me enquadrar como deficiente auditiva unilateral e, diante de tal quadro, fez-se necessário o uso de aparelhos auditivos.

.

Não consigo mensurar pra vocês o tanto que chorei aquele dia, aquela noite, aquela semana. Foram seis dias até que eu fizesse o teste no aparelho (igual ao da foto, que postei anterior) e, bem, me vi maravilhada. Eu não fazia ideia que eu escutava tão mal e tão pouco, sabe?

.

Coloquei os aparelhos em setembro. Fiz testes até dezembro, quando consegui um empréstimo para comprá-los. Eu ainda tinha vergonha de falar abertamente para as pessoas, eu escondia o aparelho entre os cabelos, eu corava quando me perguntavam "o que é isso?".

.

Agora não. Faz parte de mim, sabe? É um detalhe tão bobo e tão meu. Me abriu um mundo de possibilidades, descobri sons que eram inaudíveis para mim. O piar dos passarinhos que é mais alto do que eu supunha, a chave que bate, irritantemente, enquanto dirijo e a educação que volta, porque antes eu não ouvia quando as pessoas falavam comigo — era tachada de distraída e mal educada, mas na verdade era só surdinha mesmo.

.

Abracei minha condição. Sou completa diante da imperfeição e, felizmente, tenho meios para contornar. Agora tudo é música— até me acostumar. E tomara que eu jamais me acostume e fique sempre fazendo dança com cada som novo que aparece aos meus ouvidos..."

 

#relatosdamafê #MafêProbst  #deficienciaauditiva #dau #widex

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/03/2019 às 21h02 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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Céres Felski
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Obrigada, Mafê Probst!

               

                Uma das coisas legais de escrever é que a gente presta muito mais atenção a tudo o que lê. E não apenas isso, não apenas ler: a gente tenta entender o que o outro escreveu. Coisas que parecem ter um sentido para quem lê, e que no entanto quem escreveu pensou em algo totalmente diferente. Acontece bastante isso comigo, escrevo uma coisa e vem alguém comentar  o que sentiu lendo, e era algo muitas vezes que eu nem imaginava. Confesso que essa perspectiva me deixou bem mais atenta ao escrever, mais preocupada com o que pode ser interpretado.

Tem  escritores que chegam a usar um “fotoshop” do texto para que ele fique como o leitor espera. Tipo aquela coisa de escrever por encomenda: textinho pro dia do professor, pro aniversário da amiga, etc. Uma literatura basicamente comercial, digamos. Tem seu valor, não nego, mas não creio que reflita a alma de quem escreveu.

Eu sou consumidora fiel de escritores viscerais. Tenho verdadeira paixão por textos que tenham sido forjados no calor da emoção e que não raro venham tingidos de sangue e lágrimas. Textos que tenham passado por uma gestação e tenham sido paridos com o amor que parimos os filhos.

Hoje li um texto destes. Não aguentei. Na mesma hora mandei uma mensagem pra autora, minha parceira-amiga-madrinha literária, a Mafê Probst. Sangrei lendo cada palavra. Aplaudi. Se eu já a admirava, hoje agradeço a ela por ter, com este texto, nos permitido ser imperfeitos. Eu que me julgava escritora fiquei sem palavras. Obrigada, Mafê.

 

"Desde pequena eu sabia que tinha uma perda auditiva leve e isso nunca me incomodou, tampouco atrapalhou. Fazia acompanhamentos periódicos e sempre esteve tudo bem. Até que eu parei de acompanhar, sabe? Sei lá, não via sentido.

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Ano passado, minha mãe pediu, encarecidamente, que eu voltasse na otorrino para verificar minha audição. Bufei, revirei os olhos, mas fui. O que a mãe não pede sorrindo que eu não faço? Marquei horário, fiz audiometria e, bom, a coisa não estava tão "tudo bem" assim.

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O diagnóstico caiu como uma bomba no meu colo. Eu deixava de ter 'só uma perda auditiva' para me enquadrar como deficiente auditiva unilateral e, diante de tal quadro, fez-se necessário o uso de aparelhos auditivos.

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Não consigo mensurar pra vocês o tanto que chorei aquele dia, aquela noite, aquela semana. Foram seis dias até que eu fizesse o teste no aparelho (igual ao da foto, que postei anterior) e, bem, me vi maravilhada. Eu não fazia ideia que eu escutava tão mal e tão pouco, sabe?

.

Coloquei os aparelhos em setembro. Fiz testes até dezembro, quando consegui um empréstimo para comprá-los. Eu ainda tinha vergonha de falar abertamente para as pessoas, eu escondia o aparelho entre os cabelos, eu corava quando me perguntavam "o que é isso?".

.

Agora não. Faz parte de mim, sabe? É um detalhe tão bobo e tão meu. Me abriu um mundo de possibilidades, descobri sons que eram inaudíveis para mim. O piar dos passarinhos que é mais alto do que eu supunha, a chave que bate, irritantemente, enquanto dirijo e a educação que volta, porque antes eu não ouvia quando as pessoas falavam comigo — era tachada de distraída e mal educada, mas na verdade era só surdinha mesmo.

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Abracei minha condição. Sou completa diante da imperfeição e, felizmente, tenho meios para contornar. Agora tudo é música— até me acostumar. E tomara que eu jamais me acostume e fique sempre fazendo dança com cada som novo que aparece aos meus ouvidos..."

 

#relatosdamafê #MafêProbst  #deficienciaauditiva #dau #widex

 

 

Escrito por Céres Fabiana Felski, 22/03/2019 às 21h02 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)


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