Jornal Página 3
Coluna
Céres Felski
Por Céres Fabiana Felski

Pais e filhos

 Lembro que quando eu era criança e questionava minha mãe, a última frase era: “porque eu sou tua mãe e pronto”. A gente não discutia, não tinha como argumentar depois disso. Aliás, a maior parte dos pais e mães de hoje foram criados neste ritmo de obediência sem muito direito a questionamento.

Por que falo sobre isso? Porque tem gente que ainda acredita nisto. Tem gente indo pra televisão, dando palestras, fazendo discursos dizendo que tem que fiscalizar o celular dos filhos, que filho não tem direito a privacidade, e outros absurdos. Absurdos sim! A criança tem direito a privacidade e os pais é que tem que se reinventar! Essa teoria pré-histórica de ditadura familiar gera apenas mais problemas. Quem nunca ouviu que o que é proibido é mais gostoso? Regime militar dentro da relação pais e filhos faz com que eles busquem na rua o apoio e a orientação que não encontram em casa.

Só para ilustrar melhor, atendi alguns casos de crianças/pré-adolescentes com envolvimento digamos inadequado com adultos. Conversando com estes menores, questionando o que os levou a esta situação, ouvi várias vezes a frase: “ele (a) me escuta”. E escutar significa ouvir e entender, se colocar no lugar do (a) filho (a) que está sofrendo angústias que para os adultos podem parecer triviais, mas para eles são questões sérias. E jovens do ensino fundamental já estão preocupados com o futuro, com a escolha da profissão, e tem sonhos. Quem nunca sonhou em ser famoso? Jogador de futebol, modelo, atriz, jornalista? E por que não ouvir estes sonhos, estas dúvidas? Por que não acolher nossos filhos?

Na contramão disto tudo, ouvi uma conversa de jovens outro dia em que uma dizia a outra que não podia brigar com a mãe porque a mãe era a melhor amiga dela, e se ela brigasse com a mãe com quem iria desabafar? Esta jovem com certeza não tem seu celular monitorado pelos pais, tem direito a sua privacidade porque ela tem o mais importante: ela tem o direito a existir de fato. Tem direito a se manifestar e a questionar. Ela recebe orientação em casa, não um manual de normas e rotinas.

É preciso criar os filhos em lares que tenham calor humano, não em celas frias de quartéis.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 12/02/2020 às 20h34 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

Assina a coluna Céres Felski

Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)














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Por Céres Fabiana Felski

Pais e filhos

 Lembro que quando eu era criança e questionava minha mãe, a última frase era: “porque eu sou tua mãe e pronto”. A gente não discutia, não tinha como argumentar depois disso. Aliás, a maior parte dos pais e mães de hoje foram criados neste ritmo de obediência sem muito direito a questionamento.

Por que falo sobre isso? Porque tem gente que ainda acredita nisto. Tem gente indo pra televisão, dando palestras, fazendo discursos dizendo que tem que fiscalizar o celular dos filhos, que filho não tem direito a privacidade, e outros absurdos. Absurdos sim! A criança tem direito a privacidade e os pais é que tem que se reinventar! Essa teoria pré-histórica de ditadura familiar gera apenas mais problemas. Quem nunca ouviu que o que é proibido é mais gostoso? Regime militar dentro da relação pais e filhos faz com que eles busquem na rua o apoio e a orientação que não encontram em casa.

Só para ilustrar melhor, atendi alguns casos de crianças/pré-adolescentes com envolvimento digamos inadequado com adultos. Conversando com estes menores, questionando o que os levou a esta situação, ouvi várias vezes a frase: “ele (a) me escuta”. E escutar significa ouvir e entender, se colocar no lugar do (a) filho (a) que está sofrendo angústias que para os adultos podem parecer triviais, mas para eles são questões sérias. E jovens do ensino fundamental já estão preocupados com o futuro, com a escolha da profissão, e tem sonhos. Quem nunca sonhou em ser famoso? Jogador de futebol, modelo, atriz, jornalista? E por que não ouvir estes sonhos, estas dúvidas? Por que não acolher nossos filhos?

Na contramão disto tudo, ouvi uma conversa de jovens outro dia em que uma dizia a outra que não podia brigar com a mãe porque a mãe era a melhor amiga dela, e se ela brigasse com a mãe com quem iria desabafar? Esta jovem com certeza não tem seu celular monitorado pelos pais, tem direito a sua privacidade porque ela tem o mais importante: ela tem o direito a existir de fato. Tem direito a se manifestar e a questionar. Ela recebe orientação em casa, não um manual de normas e rotinas.

É preciso criar os filhos em lares que tenham calor humano, não em celas frias de quartéis.

Escrito por Céres Fabiana Felski, 12/02/2020 às 20h34 | cereshmrc@gmail.com



Céres Fabiana Felski

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Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira (www.ceresfelski.com.br)