Jornal Página 3
Coluna
Vinho comigo
Por Carlos Mayer

Linguagem do Vinho

A linguagem do vinho é algo que complica mais que o próprio vinho. Pode ser tão complicada, que chega frustrar a maioria dos bebedores usuais. Ao escutar a explicação do sommelier do mercado, loja, ou restaurante, muitas vezes é preciso fazer cara de paisagem e balançar de leve a cabeça, afirmativamente, para evitar que tentem te explicar tudo de novo. Aí, eu compro o rótulo mais bonito e pronto!
 
Consumidores respeitáveis de vinhos, quando intimados a descrever ou emitir opinião sobre um vinho, divagam em “bom”, “gostoso” e “interessante”, entre outros adjetivos do gênero. Descrições sinceras, mas básicas e bem pessoais.
O vinho é simples. Bebê-lo, mais ainda. Falar de vinho complica. Mas há dois pontos importantes nesta questão: O primeiro é que ninguém é obrigado a ter uma DR antes de abrir a garrafa, ou seja, explique se quiser, beba em silêncio, converse sobre outras coisas, o vinho vai te ajudar a encontrar assunto! A segunda, é que não é difícil se familiarizar com os termos enológicos, com um pouco de dedicação e treino, todo mundo chega lá! É mais fácil aprender estudando com uma taça à mão.
Pra quem se interessa, lá vai: Curto, redondo, frutado, untuoso, magro, mineral, vivo, seco, jovem, amadeirado, amarelo, equilibrado e elegante. Estes são apenas alguns dos milhares de termos que costumam ser usados para descrever um vinho. Só pra complicar, estas palavras podem não significar o que dizem ao pé da letra. Para descrever um vinho, usa-se muita analogia, muito comparativo e muita subjetividade. Importante eliminar o gosto pessoal, o vinho “bom” para você, pode ser “ótimo” para mim e ruim para um terceiro. Mas um vinho tinto será tinto para todos.
A descrição de um vinho costuma abranger três áreas principais: cor, aroma e sabor. É legal finalizar com um contexto geral, o resultado da união das três áreas. É o que fazemos quando avaliamos um vinho. Analisamos o visual, o olfativo e o gustativo, ao final, pensamos no vinho como um todo. A nota do vinho será uma soma das notas individuais de cada etapa e do todo.
Esse assunto precisa ser dividido agora. No próximo post, escreverei sobre o visual do vinho. Na sequência aroma e depois sabor. Separe lápis, papel e sua taça!
Escrito por Carlos Mayer, 17/10/2017 às 09h34 | carlos@casamayer.com.br

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25ª Avaliação Nacional de Vinhos

Neste último final de semana (23/9), ocorreu a 25º edição da Avaliação Nacional de Vinhos. Fui conferir.
O evento é impressionante! Só no dia final da avaliação, 1440 garrafas de vinhos foram servidas para 850 avaliadores de diversos lugares do Brasil e do mundo. Eram enólogos, estudantes de enologia, sommeliers, imprensa, apreciadores e amigos do vinho. Neste dia são apresentadas e avaliadas pelo público as 16 amostras de vinhos mais representativas da safra 2017. São os 16 vinhos que tiveram as melhores notas em sua categoria, de um total de 327 amostras inscritas. Inscreveram seus vinhos 59 vinícolas dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Paraná, São Paulo e Minas Gerais.
Foto: Jeferson Soldi/divulgação
 
Todas as amostras foram avaliadas de forma antecipada, por um time de 118 profissionais da área. Estes elegeram os 30% melhores vinhos, sempre às cegas, ou seja, as notas são dadas sem saber que vinho está sendo avaliado. Somente a categoria em que se enquadra é revelada. E destes 30% são escolhidos, por critérios de classificação pré-definidos, as 16 amostras finais.
Apesar de não ser considerado um concurso, mas sim uma avaliação, ter um vinho entre os finalistas sempre é motivo de comemoração para quem o produziu. Normalmente a avaliação acaba referendando com boas notas, vinhos e produtores com tradição e qualidade. Mas surpresas também costumam acontecer. Uma delas foi o Almadén Chardonnay, que ao lado de outros dois vinhos, marcou presença entre os melhores.
Os vinhos da linha Almadén, conhecidos por muitos apreciadores, são vinhos com uma pegada bem popular, vinhos para o cotidiano, jovens e baratinhos. É possível encontrá-los fácilmente na grande maioria dos supermercados, custando não muito mais que R$ 20,00. Mas quando você avalia às cegas, a força da marca, produtor ou preço, deixa de nos induzir na avaliação. Essa indução e influência de fatores externos ao vinho em si, são mais comuns do que imaginamos.
Voltando a Avaliação de Vinhos, quem quiser conferir o quadro total dos vinhos avaliados, pode fazê-lo no site da Associação Brasileira de Enologia (clicando aqui).
Há 25 anos, ou melhor, há 25 safras se realiza este evento. Apesar de ser um evento técnico, ele é aberto ao público, qualquer pessoa pode participar e conhecer melhor nossos vinhos. Uma oportunidade singular de provar bons vinhos, conhecer pessoas especiais que estão direta ou indiretamente ligadas ao mundo do vinho. Assim como o vinho no Brasil, a avaliação é predominantemente gaúcha, mas produtores de outros terroirs brasileiros já estão marcando presença. O Rio Grande do Sul será sempre o berço, mas os parreirais devem continuar se espalhando Brasil afora, tornando este evento ainda mais rico a cada ano.
Escrito por Carlos Mayer, 28/09/2017 às 11h33 | carlos@casamayer.com.br

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Geografia do vinho.

Existe uma teoria, bastante difundida entre especialistas, de que apenas algumas partes do mundo, seriam as ideais para a produção de vinhos, e que, fora delas, não seria recomendado produzir.
Essas partes, na verdade faixas, estão entre os paralelos 30 e 50, tanto no hemisfério sul como no norte. Nestas faixas, ao norte, encontram-se a praticamente a totalidade dos Estados Unidos, da Europa, com destaque para toda região em volta do Mar Mediterrâneo e a China. Ao sul, áreas bem menores, como o Chile, Argentina, Uruguai, o extremo sul do Brasil, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. A não ser que você seja realmente um explorador de vinhos diferentões, os vinhos que você já tomou, vem de uma dessas regiões citadas acima.
 
A principal característica em comum destas grandes áreas do mundo é o clima, que é marcado por estações do ano bem definidas. Invernos frios e verões quentes. Este equilíbrio e regularidade sempre foi importante para o bom desenvolvimento dos parreirais e das uvas, o que resulta, ou pelo menos facilita, a produção de bons vinhos. Fora dessas faixas a natureza costuma se comportar de forma mais instável, é normal, por exemplo, um inverno quentinho ou uma geada no início do verão, fatos que podem estragar uma safra inteira. Além de um comportamento irregular, ano após ano, o que dificulta o aprendizado em relação ao terroir, e também qualquer tipo de previsão do tempo mais precisa.
Apesar das dificuldades, produtores estão desbravando novas regiões e saindo da zona de conforto oferecida pela natureza. Estão indo ao centro do globo, chegando mais próximos da linha do Equador, experimentando novas técnicas e produzindo vinhos de boa qualidade em regiões bastante inusitadas. Por exemplo, Madagascar, Zimbábue, Etiópia, México, Canadá, Cuba, Panamá e centro-norte do Brasil.
Para falar de casa, as novas regiões vinícolas brasileiras estão se espalhando por todo país. Nós que somos catarinenses, já sabemos que aqui se produz vinhos de grande qualidade já há vários anos, e que novos produtores não param de surgir. Também, num post anterior, falei sobre um vinho premiado mundialmente feito no interior de São Paulo. O Ibravin, Instituto Brasileiro do Vinho, divulga um mapa interessante com as principais regiões vinícolas do Brasil, onde aparecem ainda, os estados do Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, como produtores de vinhos.
Veja o mapa do Ibravin aqui.
Estas regiões que ficam fora dos paralelos 30-50, precisam trabalhar de forma diferente da tradicional, praticadas nas regiões típicas. As técnicas não são definidas e cada local deve buscar seu próprio aprendizado, só para citar alguns exemplos, há regiões que buscam compensar a distância dos paralelos com altitude, como fazem alguns produtores catarinenses. Na Bahia, o clima árido e sem chuvas do sertão é associado à irrigação artificial, em Minas Gerais inverteram a época da colheita, com técnicas diferentes de poda e irrigação, tornando possível fazer a colheita das uvas no inverno, quando normalmente seria no verão. Há muita coisa para aprender e desenvolver no mundo do vinho!
Essas novas fronteiras e tecnologias só contribuem para que possamos ter à nossa disposição, mais, novos e diferentes vinhos. Com novas áreas produtoras, a cultura do consumo de vinho também se difunde, e mais uma vez aprendemos que não há verdades absolutas em relação ao vinho.
Se você tem um amigo que só bebe vinho chileno, ou que diz que o Brasil não faz vinho bom, que tal surpreende-lo com um vinho do Zimbábue ou um mineiro, uai!
Escrito por Carlos Mayer, 25/08/2017 às 14h24 | carlos@casamayer.com.br

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"O Rei da Cortiça"

Mês passado morreu uma pessoa importantíssima do mundo do vinho: Américo Amorim, português, com 82 anos, dono da maior fortuna daquele país. Conhecido como o “rei da cortiça” dirigia a maior empresa produtora de rolhas para vinho do mundo. Se você costuma abrir uma garrafa de vinho de vez em quando, a chance de ter tido nas mãos um produto feito por ele é muito grande.
 
A rolha de cortiça é o fechamento para garrafas de vinho preferido da maioria dos produtores e consumidores, apesar de que outras tampas para garrafas de vinhos estão cada vez mais populares. Rolhas feitas de outros materiais sintéticos, semelhantes ao plástico ou a borracha, rolhas de vidro e tampas com roscas de plástico ou alumínio, para abrir com a mão mesmo, são as algumas tendências de mercado.
Mas será que isso faz diferença no vinho?
Uma pesquisa feita recentemente nos Estados Unidos mostrou que quase 97% dos consumidores americanos entrevistados associam a rolha de cortiça aos vinhos de melhor qualidade, o que de fato pode ser verdade. Todavia, pouquíssimas pessoas conheciam as razões para tal associação. Quando muito, lembraram-se da tradição, do ritual de abertura do vinho com o saca-rolha e o barulhinho “pop” da rolha sendo liberada, que só de escrever dá sede. Cá entre nós, apesar de puramente psicológicos, concordo que são razões muito nobres!
Respondendo a pergunta anterior, sim, a forma que o vinho é fechado faz toda diferença. A rolha de cortiça natural permite a evolução do vinho com o passar do tempo, isso porque a cortiça é um material poroso, na medida certa, para que o vinho não vaze, mas que oxigênio, em mínimas quantidades, entre em contato com o vinho proporcionando sua evolução. Chamamos esse processo de micro oxigenação, sem a qual, a evolução do vinho na garrafa seria muito diferente, podendo até mesmo, não existir, não amadurecer.
Outra pergunta: todo vinho precisa amadurecer? Não. Na verdade, a grande maioria dos vinhos não precisa, ou até não deve amadurecer. Nestes casos o passar do tempo significa perder qualidade, e se o vinho não será guardado, o tipo da tampa não interfere desde que ela realmente feche a garrafa.
Mas falando dos pontos fortes da rolha de cortiça, até em homenagem ao Seu Amorim que nos deixou, são as mais queridas dos consumidores, são totalmente recicláveis e fazem parte de uma indústria bastante sustentável e pouco poluente. Aliás, segundo representantes do setor, as florestas de sobreiros, árvores cujas cascas são feitas as rolhas, são responsáveis por significativa renovação do ar, pela manutenção da biodiversidade e do clima regional.
Não há como ter um veredicto definitivo sobre qual fechamento é o melhor e esse assunto não dá para esgotar hoje. Por enquanto, na próxima vez que usar o saca-rolha, lembre-se da devida importância cultural, social, econômica e ecológica que uma simples rolha pode ter.
Escrito por Carlos Mayer, 03/08/2017 às 15h40 | carlos@casamayer.com.br

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Vinhos e medalhas.

Pra quem tem espírito competitivo até na hora de beber, foi liberada a lista de um dos mais importantes concurso de vinhos do mundo, Decanter World Wine Awards, realizado na Inglaterra. Participaram mais de 17 mil diferentes vinhos e destes, 34 receberam as notas máximas na avaliação: Uma medalha chamada de “Platinum Best in Show”. À medida que as notas vão baixando, seguem outras medalhas em ordem decrescente: Platinum, Gold, Silver, Bronze e por último a Commended, uma espécie de consolo pela participação.
 
O primeiro brasileiro a aparecer na lista é um vinho chamado Vista do Chá Syrah (foto), produzido pela Guaspari no interior de São Paulo, com uma medalha de ouro. Na sequência aparecem 5 vinhos brasileiros com medalha de prata, 15 bronzes e 6 vinhos que apenas receberam a comenda por participação. O Brasil não conseguiu emplacar vinhos nas primeiras posições, mas isso não significa que temos um problema de qualidade, se temos um problema, ele é outro.
Para ver a lista completa dos vinhos premiados clique aqui.
Comparados a outros países produzimos pouco vinho, bebemos pouco vinho, investimos pouco em pesquisa e participamos pouco de concursos. O Brasil produz diversos vinhos de qualidade que podem ser comparados a vinhos de renome mundial, mas no mar de vinhos que envolve o mundo, os brazucas ainda ficam tímidos. Só para exemplificar, neste concurso o Brasil inscreveu 27 vinhos, a França 3748, a Argentina 495 e o Chile 597. Quanto maior a “aposta” maior a chance de ganhar.
Mas qual a real importância desses concursos de vinho para eu e vocês, consumidores comuns? Resposta: Muita!
Estes grandes concursos são como a Maratona de São Silvestre, qualquer pessoa pode participar, mas a gente sabe que quem vai ganhar vai ser um queniano. Com os vinhos é semelhante, qualquer um pode concorrer, mas o normal é que europeus dominem a dianteira. Quando um produtor brasileiro ou de qualquer lugar do mundo resolve participar de uma “corrida” dessas, significa que ele está tentando produzir um vinho melhor, e para isso é preciso caprichar! Fazer a lição de casa, tentar várias vezes, ano após ano, entender do terroir, da uva, da vinificação, do amadurecimento e tudo o mais que possa interferir no vinho final. Esse aprendizado interfere em todos os vinhos produzidos, não só naquele que vai para o concurso, mas também naquele que vai pra loja de vinhos, para prateleira do mercado e para a carta do restaurante.
Um concurso eleva o padrão de qualidade dos vinhos como um todo. É aí que eu e vocês ganhamos, mesmo que nunca vejamos (ou bebamos) um vinho com medalha.
Escrito por Carlos Mayer, 26/06/2017 às 14h34 | carlos@casamayer.com.br

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Você pode cheirar tão bem quanto seu cachorro.

Há um duplo sentido no título, não estou me referindo ao seu cheiro, mas à sua capacidade de sentir aromas. Quando se trata de vinhos, sentir aromas deixa tudo mais gostoso.
A revista Science publicou essa semana, um artigo que questiona o conhecimento comum de que animais como cachorros e ratos, por exemplo, teriam um olfato mais apurado que os seres humanos. A matéria afirma que isso pode não ser verdade e que pode até ser o inverso, devido a, já comprovada, superioridade de memória e raciocínio dos humanos. Acontece que na prática, nós deixamos de utilizar este sentido devido a fatores culturais, sociais e de desenvolvimento. O olfato deixou de ser tão importante para nós e apenas perdemos o jeito.
 
Quem bebe vinho com mais frequência já deve ter ouvido falar, lido em um rótulo ou carta de vinhos a respeito dos aromas do vinho: Aromas de frutas vermelhas, frutas negras, trufas, cítricos, ervas, madeira e uma infinidade de outros. Porém, poucas pessoas dizem ter capacidade de identificar tais aromas nos vinhos, muitos até desconfiam se eles realmente existam. Mas eu garanto para você que os aromas estão lá e são importantíssimos para definir o estilo do vinho. Os aromas podem até ser o fator responsável por gostarmos ou não de um vinho, sem que percebamos isso, de forma inconsciente. Se você tem curiosidade e gostaria de notar melhor os aromas do vinho, o segredo é apenas um: treinar.
Para reconhecer um aroma no vinho, precisamos primeiro cheirar o vinho e na sequência pensar sobre o que estamos sentido. Pensar é importantíssimo! Pensando sobre o aroma, passamos a identificar, lembrar, dar nomes e reconhecer. Essa atividade trabalha o que chamamos de memória olfativa, ou seja, nossa capacidade de sentir um aroma e saber do que se trata, qual a sua referência. É comum termos muita dificuldade em reconhecer um aroma  sem uma referência visual, por mais conhecido que ele seja. Se sentirmos cheiro de maracujá, mas não enxergamos o maracujá, ele pode nos parecer confuso. É aí que entra o treino, o desenvolvimento da memória olfativa. Parece brincadeira, mas faça o teste e cheire coisas sem ver ou pegar. Talvez você precise que alguém te ajude preparando os testes escondidos de você...
Uma dica que dou para todos que querem apurar o olfato é criar a hábito de cheirar tudo no dia-a-dia. Não somente vinho, mas comida, roupa, produto de limpeza, madeira, papel, tudo mesmo. Tudo tem cheiro. Mas lembre de sentir o cheiro e pensar sobre ele, memorize! Na antiguidade o homem usava do seu olfato para decidir se comia ou não algo que encontrava, assim como fazem os animais. Hoje, essa capacidade um tanto quanto desnecessária, ainda pode nos salvar de algo esquecido dentro da geladeira ou dedurar um vinho fora dos padrões de qualidade.
Escrito por Carlos Mayer, 18/05/2017 às 10h27 | carlos@casamayer.com.br

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