Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Economia
Copom reduz taxa básica da economia para 5% ao ano e indica novo corte

'Queda de juros Ajuda, mas não faz mágica' explica economista

Quinta, 31/10/2019 8:19.
EBC.

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Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues
A recuperação lenta da economia brasileira e os índices controlados de inflação levaram o Banco Central a promover, na noite desta quarta-feira, 30, a terceira redução consecutiva de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou corte de 0,50 ponto porcentual da Selic (a taxa básica da economia), de 5,5% para 5% ao ano. Com isso, a taxa está agora em um novo piso da série histórica, iniciada em junho de 1996. Em comunicado, o BC ainda deixou margem para um novo corte de meio ponto porcentual até o fim do ano.

A decisão era largamente esperada pelo mercado financeiro. De um total de 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas projetavam corte de 0,50 ponto porcentual.

Na avaliação do Copom, as reformas econômicas têm avançado no Brasil, mas é preciso "perseverar nesse processo".

A reunião foi a primeira do colegiado desde que as mudanças na Previdência foram aprovadas no Congresso. A expectativa do BC é de que, com o reequilíbrio das contas públicas com as reformas, a queda dos juros se consolide e a economia se recupere de forma sustentável.

O BC avaliou ainda que os indicadores de atividade reforçam a continuidade do processo de recuperação da economia, mas que "essa recuperação ocorrerá em ritmo gradual".

Na avaliação do Copom, o ambiente externo segue "relativamente favorável" para países emergentes, mas os riscos de uma desaceleração global mais intensa permanecem.

A instituição também levou em conta os índices de inflação, que estão controlados, e deixou margem para novo corte de meio ponto porcentual em dezembro, o que faria a Selic atingir 4,5%. "A consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir um ajuste adicional, de igual magnitude", disse a instituição, em sua linguagem técnica. Para o início de 2020, porém, a sinalização é de que o corte pode ser menor ou nem mesmo ocorrer.

Para o economista Julio Cesar Barros, da Mongeral Aegon Investimentos, "a janela para juro abaixo de 4,5% ficou bem menor do que o mercado estava esperando." O economista-chefe do Haitong Banco de Investimentos, Flávio Serrano, segue a mesma linha. "O Copom deixa claro que haverá mais uma queda de 0,5 ponto em dezembro, mas a tendência é não fazer mais nada depois disso."

A nova taxa básica levou Banco do Brasil, Caixa, Itaú e Bradesco a anunciarem cortes em diversas linhas, de empréstimo pessoal a crédito imobiliário.

O Brasil ainda tem uma das maiores taxas reais (descontada a inflação) do mundo. Levantamento do site MoneYou e da Infinity Asset mostra que o juro real do Brasil, de 1,65%, é o oitavo maior entre as 40 economias mais relevantes.

'Queda de juros Ajuda, mas não faz mágica'

Por Douglas Gavras
O atual cenário de inflação baixa e de necessidade de estimular a atividade econômica são indicativos de que o ciclo de juros baixos no Brasil deve ser longo, analisa o economista e chefe do Centro de Estudos Monetários, do FGV/Ibre, José Júlio Senna. Ele, que também foi diretor do Banco Central, avalia, porém, que os juros baixos não são garantia de recuperação da economia e que o País precisa manter a agenda de reformas estruturais. A seguir, trechos da entrevista.

O ciclo atual de juros baixos no Brasil tende a ser longo?

Eu diria que sim. A estratégia do BC de controlar a inflação está se mostrando eficiente, e o comportamento médio da inflação nos últimos cinco meses mostra uma sequência fantástica. As projeções apontam que as metas devem ser cumpridas, com folga, até 2021.

Isso é comum?

Não. É raro encontrar no Brasil períodos em que o BC não esteja remando contra a maré, ou seja, preocupado em trazer a inflação para baixo. Em outros períodos, o objetivo de controlar os preços conflitava com uma política de gastos públicos expansionista e desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O cenário internacional pode suspender os cortes de juros?

O ambiente internacional, de algum modo, traz até benefícios para a inflação brasileira. O mundo todo está experimentando um fenômeno de inflação baixa. Nos países avançados, o problema é o contrário, fazer com que a atividade e os preços subam. Os países ricos estão com carência de instrumentos adequados para turbinar as suas economias.

O juro real no Brasil pode ficar perto de zero?

Já está praticamente assim. O Brasil vive uma experiência excelente de redução da inflação e dos juros. No passado, a discussão era se faria diferença ter uma inflação de 4% ou de 7% Hoje, está claro que é a inflação baixa que está permitindo juros baixos. É uma demonstração da importância de ter uma inflação baixa.

Mas a inflação está baixa, também, pela atividade econômica ainda muito retraída, certo?

Sim. Sem medidas de incentivo, o Brasil vai continuar com crescimento baixo. Mas na medida que o País consolidar uma situação fiscal mais equilibrada, com o mercado de capitais tendo resultados melhores e as empresas reestruturando seus passivos, a economia vai se beneficiar muito.

Mas em que medida a queda nos juros pode incentivar o crescimento do País?

A gente está colhendo hoje o resultado das medidas tomadas a partir de 2016, como o teto de gastos (que limita os gastos públicos federais). Mas os juros baixos não são suficientes para recuperar a economia. Há uma relutância em entender que esse enfraquecimento econômico do Brasil não é circunstancial. A recessão de 2015 e 2016 agravou um problema de desempenho que já existe há quatro décadas.

Ajuda, mas não resolve?

Ajuda, anima um pouco a atividade econômica, mas não resolve os problemas, porque o estímulo monetário tem limitações. O consumo das famílias cai com o desemprego elevado e há um grau de endividamento ainda alto. A queda de juros não faz mágica. No caso do investimento, muita coisa ainda precisa acontecer para o empresário ficar mais confiante.

O que precisaria melhorar?

Seria preciso estimular o esforço produtivo, diminuindo a burocracia para o setor empresarial, simplificando o regime de impostos, melhorando a infraestrutura e a estabilidade jurídica. Resumindo: é preciso fazer reformas e mais reformas.

Além dos esforços do BC, o governo tem ido nessa direção?

Em partes. O governo tem tido dificuldade em tocar o programa de privatizações, pelas resistências de natureza política. Ainda assim, parte importante do Congresso, com sorte, tem tido uma postura reformista.


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Página 3
EBC.

Copom reduz taxa básica da economia para 5% ao ano e indica novo corte

'Queda de juros Ajuda, mas não faz mágica' explica economista

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Quinta, 31/10/2019 8:19.

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues
A recuperação lenta da economia brasileira e os índices controlados de inflação levaram o Banco Central a promover, na noite desta quarta-feira, 30, a terceira redução consecutiva de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou corte de 0,50 ponto porcentual da Selic (a taxa básica da economia), de 5,5% para 5% ao ano. Com isso, a taxa está agora em um novo piso da série histórica, iniciada em junho de 1996. Em comunicado, o BC ainda deixou margem para um novo corte de meio ponto porcentual até o fim do ano.

A decisão era largamente esperada pelo mercado financeiro. De um total de 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas projetavam corte de 0,50 ponto porcentual.

Na avaliação do Copom, as reformas econômicas têm avançado no Brasil, mas é preciso "perseverar nesse processo".

A reunião foi a primeira do colegiado desde que as mudanças na Previdência foram aprovadas no Congresso. A expectativa do BC é de que, com o reequilíbrio das contas públicas com as reformas, a queda dos juros se consolide e a economia se recupere de forma sustentável.

O BC avaliou ainda que os indicadores de atividade reforçam a continuidade do processo de recuperação da economia, mas que "essa recuperação ocorrerá em ritmo gradual".

Na avaliação do Copom, o ambiente externo segue "relativamente favorável" para países emergentes, mas os riscos de uma desaceleração global mais intensa permanecem.

A instituição também levou em conta os índices de inflação, que estão controlados, e deixou margem para novo corte de meio ponto porcentual em dezembro, o que faria a Selic atingir 4,5%. "A consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir um ajuste adicional, de igual magnitude", disse a instituição, em sua linguagem técnica. Para o início de 2020, porém, a sinalização é de que o corte pode ser menor ou nem mesmo ocorrer.

Para o economista Julio Cesar Barros, da Mongeral Aegon Investimentos, "a janela para juro abaixo de 4,5% ficou bem menor do que o mercado estava esperando." O economista-chefe do Haitong Banco de Investimentos, Flávio Serrano, segue a mesma linha. "O Copom deixa claro que haverá mais uma queda de 0,5 ponto em dezembro, mas a tendência é não fazer mais nada depois disso."

A nova taxa básica levou Banco do Brasil, Caixa, Itaú e Bradesco a anunciarem cortes em diversas linhas, de empréstimo pessoal a crédito imobiliário.

O Brasil ainda tem uma das maiores taxas reais (descontada a inflação) do mundo. Levantamento do site MoneYou e da Infinity Asset mostra que o juro real do Brasil, de 1,65%, é o oitavo maior entre as 40 economias mais relevantes.

'Queda de juros Ajuda, mas não faz mágica'

Por Douglas Gavras
O atual cenário de inflação baixa e de necessidade de estimular a atividade econômica são indicativos de que o ciclo de juros baixos no Brasil deve ser longo, analisa o economista e chefe do Centro de Estudos Monetários, do FGV/Ibre, José Júlio Senna. Ele, que também foi diretor do Banco Central, avalia, porém, que os juros baixos não são garantia de recuperação da economia e que o País precisa manter a agenda de reformas estruturais. A seguir, trechos da entrevista.

O ciclo atual de juros baixos no Brasil tende a ser longo?

Eu diria que sim. A estratégia do BC de controlar a inflação está se mostrando eficiente, e o comportamento médio da inflação nos últimos cinco meses mostra uma sequência fantástica. As projeções apontam que as metas devem ser cumpridas, com folga, até 2021.

Isso é comum?

Não. É raro encontrar no Brasil períodos em que o BC não esteja remando contra a maré, ou seja, preocupado em trazer a inflação para baixo. Em outros períodos, o objetivo de controlar os preços conflitava com uma política de gastos públicos expansionista e desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O cenário internacional pode suspender os cortes de juros?

O ambiente internacional, de algum modo, traz até benefícios para a inflação brasileira. O mundo todo está experimentando um fenômeno de inflação baixa. Nos países avançados, o problema é o contrário, fazer com que a atividade e os preços subam. Os países ricos estão com carência de instrumentos adequados para turbinar as suas economias.

O juro real no Brasil pode ficar perto de zero?

Já está praticamente assim. O Brasil vive uma experiência excelente de redução da inflação e dos juros. No passado, a discussão era se faria diferença ter uma inflação de 4% ou de 7% Hoje, está claro que é a inflação baixa que está permitindo juros baixos. É uma demonstração da importância de ter uma inflação baixa.

Mas a inflação está baixa, também, pela atividade econômica ainda muito retraída, certo?

Sim. Sem medidas de incentivo, o Brasil vai continuar com crescimento baixo. Mas na medida que o País consolidar uma situação fiscal mais equilibrada, com o mercado de capitais tendo resultados melhores e as empresas reestruturando seus passivos, a economia vai se beneficiar muito.

Mas em que medida a queda nos juros pode incentivar o crescimento do País?

A gente está colhendo hoje o resultado das medidas tomadas a partir de 2016, como o teto de gastos (que limita os gastos públicos federais). Mas os juros baixos não são suficientes para recuperar a economia. Há uma relutância em entender que esse enfraquecimento econômico do Brasil não é circunstancial. A recessão de 2015 e 2016 agravou um problema de desempenho que já existe há quatro décadas.

Ajuda, mas não resolve?

Ajuda, anima um pouco a atividade econômica, mas não resolve os problemas, porque o estímulo monetário tem limitações. O consumo das famílias cai com o desemprego elevado e há um grau de endividamento ainda alto. A queda de juros não faz mágica. No caso do investimento, muita coisa ainda precisa acontecer para o empresário ficar mais confiante.

O que precisaria melhorar?

Seria preciso estimular o esforço produtivo, diminuindo a burocracia para o setor empresarial, simplificando o regime de impostos, melhorando a infraestrutura e a estabilidade jurídica. Resumindo: é preciso fazer reformas e mais reformas.

Além dos esforços do BC, o governo tem ido nessa direção?

Em partes. O governo tem tido dificuldade em tocar o programa de privatizações, pelas resistências de natureza política. Ainda assim, parte importante do Congresso, com sorte, tem tido uma postura reformista.


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