Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Cirurgia inédita pode devolver o sonho de ser mãe

Mulheres que passaram por tratamento de câncer podem engravidar

Quarta, 22/11/2017 8:47.

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Por Marlise Schneider Cezar

O oncologista Reitan Ribeiro, 37, catarinense de Florianópolis, mas gosta de dizer que é de Urubici, onde a família tem um sítio, fez uma descoberta há três anos que mantém aceso o sonho de mulheres com câncer que tiveram que fazer radioterapia e mesmo assim, poderão engravidar. A cirurgia inédita no mundo consiste em deslocar o útero enquanto a paciente faz radioterapia. Junto com os ovários ele é transferido para o abdome. A menstruação é expelida pelo umbigo. Quando o tratamento contra o câncer terminar, nova cirurgia é feita, para recolocar útero e ovário no lugar, permitindo a gravidez. Sem o procedimento, as mulheres ficavam estéreis com a radioterapia.

Reitan é formado na Universidade Federal de Porto Alegre, especializou-se em cirurgia oncológica e atualmente trabalha no Hospital Erasto Gaertner e Instituto de Oncologia do Paraná.

Nunca morou em Balneário, mas tem ligação com a cidade onde passa finais de semana e muitas férias, porque aqui residem seus pais, Ieda e Hélvion Ribeiro, ele o principal responsável pela vinda de uma extensão da Udesc para Balneário Camboriú.

A notícia desta cirurgia repercutiu forte, atraindo especialistas de vários países e reportagens em revistas especializadas em novidades médicas.

Convidado pela reportagem, Reitan concedeu entrevista ao Página3. Acompanhe:

Em 2015 criou uma técnica revolucionária que preserva a fertilidade de mulheres com câncer na região uterina, que passaram por radioterapia. Como nasceu este estudo?

O estudo nasceu de uma paciente de 30 anos que atendi há cerca de seis anos. Ela tinha um câncer no reto e casamento marcado para menos de 30 dias. A princípio achei que ela iria precisar de radioterapia da pelve. O problema é que a radioterapia da pelve deixa as mulheres estéreis por alterações nos ovários, trompas e útero. Foram muitos dias pensando em como resolver o problema enquanto ela fazia os exames. Quando ela voltou com os resultados percebi que ela tinha uma boa chance de não precisar de radioterapia e portanto não ficaria estéril. Ela acabou apenas retirando o tumor e não precisou da radioterapia, mas a idéia ficou na minha cabeça.

Como é feito o procedimento?

É feito por laparoscopia. São pequeno cortes, no abdome, por onde entram os instrumentos, uma câmera. Com estes instrumentos, o útero é separado da vagina e dos seus ligamentos na pelve. Ele fica solto, mas com alguns vasos sanguíneos que vem da parte de cima do abdome preservados. Quando ele está solto, fica fácil colocar na parte de cima do abdome, perto do estômago e fígado. Nessa posição ele é fixado e continua recebendo sangue por aqueles vasos sanguíneos que nós preservamos. O colo do útero, por onde a menstruação sai, é ligado ao umbigo, bem lá dentro, para permitir que a paciente menstrue por um pequeno furo. Não dá para ver o colo no umbigo é apenas um pequeno furo. Então a paciente vai para a radioterapia. Como o útero, os ovários e as trompas estão longe, eles não sofrem os efeitos da radioterapia. Quando a paciente acaba a radioterapia, colocamos o útero de volta no lugar.

Quanto tempo precisou para aplicar na prática a descoberta?

Entre ter a idéia, estudar as possibilidade e aparecer a primeira paciente se passaram cerca de três anos.

Como surgiu a primeira paciente?

Em 2015 me procurou outra paciente, ainda mais jovem, 26 anos, com câncer de reto e que precisaria da radioterapia. Quando falei sobre a radioterapia e que ela não poderia gestar, ela e a família ficaram desesperados. O caso anterior e a idéia da cirurgia voltou imediatamente na minha cabeça. Pra mim foi óbvio. Aquela sensação de “como ninguém nunca pensou nisso antes!” Expliquei tudo para ela e a família, sobre ser a primeira vez, sobre as incertezas e possíveis complicações. Ela foi uma heroína.

Qual foi o resultado?

Ela evoluiu muito bem. Fez a cirurgia e recebeu alta em seguida. Conseguiu realizar todo tratamento da radioterapia junto com quimioterapia sem problemas. Depois, realizamos a cirurgia para o câncer do reto junto com o reposicionamento do útero na pelve. Ela está ótima, tem uma vida normal, casou e pretende ter filhos ano que vem.

Quanto tempo dura esse tratamento, do deslocamento do útero até ele voltar ao seu lugar?

Normalmente a radioterapia dura quatro semanas. A primeira cirurgia é feita uma semana antes da radioterapia e o útero pode ser recolocado duas semanas depois do final da radioterapia. Entre tirar e colocar de volta, 45 a 60 dias.

Para ovular, a mulher precisa menstruar. Fica complicada a menstruação com esse procedimento?

Enquando o útero está na parte de cima do abdome, as pacientes menstruam por um pequeno furo dentro do umbigo. Normalmente, isso vai acontecer duas vezes. É o tempo de fazer o tratamento e colocar o útero de volta no lugar.

Toda mulher que passar por radioterapia pode se submeter a esse tratamento? Não tem contra-indicações?

Só precisa realizar essa cirurgia se a radioterapia for realizada na pelve. Se a radioterapia for na mama, por exemplo, não precisa. As contra-indicações são se houver tumor no útero, trompas ou ovários. Ou se a paciente já tiver tirado os ovários ou outra cirurgia que comprometa a vascularização do útero.

Por ser um procedimento inédito no mundo, vem atraindo a atenção de especialistas de vários países. O que eles dizem sobre essa técnica?
Muitos colegas de todo o mundo já me procuraram. A reação mais comum é “como ninguém pensou nisso antes”. No meio acadêmico os comentários tem sido muito bons e espero que em breve tenhamos outros colegas fazendo.

Quais são os caminhos a seguir quando surge algo novo como esse?

Existe um caminho muito longo entre a ideia e a cirurgia virar passo. Hoje no Hospital Erasto Gaertner nós temos um protocolo de pesquisa de viabilidade. Ele é feito para avaliar a segurança da cirurgia. Para autorizá-lo encaminhamos para apreciação do comitê de ética do hospital, para os Conselhos Regional e Federal de Medicina, para o comitê de ética em pesquisa do Hospital e para o Comitê nacional de ética em pesquisa. Até sair a aprovação foi um longo caminho.

A cirurgia foi feita em duas mulheres. Quais os próximos passos para que todas as mulheres que passam por esta situação tenham acesso?

Quando a técnica provar funcionar, então a câmara técnica da Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de medicina devem dar parecer liberando a cirurgia. Aí a técnica deve ficar acessível a todos. Hoje, o único hospital autorizado para fazer a cirurgia é o Erasto Gaertner dentro do protocolo de pesquisa. A notícia boa é que conseguimos recursos para fazer de graça a cirurgia em 10 pacientes, que é o número de casos do protocolo.

Informações: reitanribeiro@hotmail.com


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Página 3

Cirurgia inédita pode devolver o sonho de ser mãe

Mulheres que passaram por tratamento de câncer podem engravidar

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Quarta, 22/11/2017 8:47.

Por Marlise Schneider Cezar

O oncologista Reitan Ribeiro, 37, catarinense de Florianópolis, mas gosta de dizer que é de Urubici, onde a família tem um sítio, fez uma descoberta há três anos que mantém aceso o sonho de mulheres com câncer que tiveram que fazer radioterapia e mesmo assim, poderão engravidar. A cirurgia inédita no mundo consiste em deslocar o útero enquanto a paciente faz radioterapia. Junto com os ovários ele é transferido para o abdome. A menstruação é expelida pelo umbigo. Quando o tratamento contra o câncer terminar, nova cirurgia é feita, para recolocar útero e ovário no lugar, permitindo a gravidez. Sem o procedimento, as mulheres ficavam estéreis com a radioterapia.

Reitan é formado na Universidade Federal de Porto Alegre, especializou-se em cirurgia oncológica e atualmente trabalha no Hospital Erasto Gaertner e Instituto de Oncologia do Paraná.

Nunca morou em Balneário, mas tem ligação com a cidade onde passa finais de semana e muitas férias, porque aqui residem seus pais, Ieda e Hélvion Ribeiro, ele o principal responsável pela vinda de uma extensão da Udesc para Balneário Camboriú.

A notícia desta cirurgia repercutiu forte, atraindo especialistas de vários países e reportagens em revistas especializadas em novidades médicas.

Convidado pela reportagem, Reitan concedeu entrevista ao Página3. Acompanhe:

Em 2015 criou uma técnica revolucionária que preserva a fertilidade de mulheres com câncer na região uterina, que passaram por radioterapia. Como nasceu este estudo?

O estudo nasceu de uma paciente de 30 anos que atendi há cerca de seis anos. Ela tinha um câncer no reto e casamento marcado para menos de 30 dias. A princípio achei que ela iria precisar de radioterapia da pelve. O problema é que a radioterapia da pelve deixa as mulheres estéreis por alterações nos ovários, trompas e útero. Foram muitos dias pensando em como resolver o problema enquanto ela fazia os exames. Quando ela voltou com os resultados percebi que ela tinha uma boa chance de não precisar de radioterapia e portanto não ficaria estéril. Ela acabou apenas retirando o tumor e não precisou da radioterapia, mas a idéia ficou na minha cabeça.

Como é feito o procedimento?

É feito por laparoscopia. São pequeno cortes, no abdome, por onde entram os instrumentos, uma câmera. Com estes instrumentos, o útero é separado da vagina e dos seus ligamentos na pelve. Ele fica solto, mas com alguns vasos sanguíneos que vem da parte de cima do abdome preservados. Quando ele está solto, fica fácil colocar na parte de cima do abdome, perto do estômago e fígado. Nessa posição ele é fixado e continua recebendo sangue por aqueles vasos sanguíneos que nós preservamos. O colo do útero, por onde a menstruação sai, é ligado ao umbigo, bem lá dentro, para permitir que a paciente menstrue por um pequeno furo. Não dá para ver o colo no umbigo é apenas um pequeno furo. Então a paciente vai para a radioterapia. Como o útero, os ovários e as trompas estão longe, eles não sofrem os efeitos da radioterapia. Quando a paciente acaba a radioterapia, colocamos o útero de volta no lugar.

Quanto tempo precisou para aplicar na prática a descoberta?

Entre ter a idéia, estudar as possibilidade e aparecer a primeira paciente se passaram cerca de três anos.

Como surgiu a primeira paciente?

Em 2015 me procurou outra paciente, ainda mais jovem, 26 anos, com câncer de reto e que precisaria da radioterapia. Quando falei sobre a radioterapia e que ela não poderia gestar, ela e a família ficaram desesperados. O caso anterior e a idéia da cirurgia voltou imediatamente na minha cabeça. Pra mim foi óbvio. Aquela sensação de “como ninguém nunca pensou nisso antes!” Expliquei tudo para ela e a família, sobre ser a primeira vez, sobre as incertezas e possíveis complicações. Ela foi uma heroína.

Qual foi o resultado?

Ela evoluiu muito bem. Fez a cirurgia e recebeu alta em seguida. Conseguiu realizar todo tratamento da radioterapia junto com quimioterapia sem problemas. Depois, realizamos a cirurgia para o câncer do reto junto com o reposicionamento do útero na pelve. Ela está ótima, tem uma vida normal, casou e pretende ter filhos ano que vem.

Quanto tempo dura esse tratamento, do deslocamento do útero até ele voltar ao seu lugar?

Normalmente a radioterapia dura quatro semanas. A primeira cirurgia é feita uma semana antes da radioterapia e o útero pode ser recolocado duas semanas depois do final da radioterapia. Entre tirar e colocar de volta, 45 a 60 dias.

Para ovular, a mulher precisa menstruar. Fica complicada a menstruação com esse procedimento?

Enquando o útero está na parte de cima do abdome, as pacientes menstruam por um pequeno furo dentro do umbigo. Normalmente, isso vai acontecer duas vezes. É o tempo de fazer o tratamento e colocar o útero de volta no lugar.

Toda mulher que passar por radioterapia pode se submeter a esse tratamento? Não tem contra-indicações?

Só precisa realizar essa cirurgia se a radioterapia for realizada na pelve. Se a radioterapia for na mama, por exemplo, não precisa. As contra-indicações são se houver tumor no útero, trompas ou ovários. Ou se a paciente já tiver tirado os ovários ou outra cirurgia que comprometa a vascularização do útero.

Por ser um procedimento inédito no mundo, vem atraindo a atenção de especialistas de vários países. O que eles dizem sobre essa técnica?
Muitos colegas de todo o mundo já me procuraram. A reação mais comum é “como ninguém pensou nisso antes”. No meio acadêmico os comentários tem sido muito bons e espero que em breve tenhamos outros colegas fazendo.

Quais são os caminhos a seguir quando surge algo novo como esse?

Existe um caminho muito longo entre a ideia e a cirurgia virar passo. Hoje no Hospital Erasto Gaertner nós temos um protocolo de pesquisa de viabilidade. Ele é feito para avaliar a segurança da cirurgia. Para autorizá-lo encaminhamos para apreciação do comitê de ética do hospital, para os Conselhos Regional e Federal de Medicina, para o comitê de ética em pesquisa do Hospital e para o Comitê nacional de ética em pesquisa. Até sair a aprovação foi um longo caminho.

A cirurgia foi feita em duas mulheres. Quais os próximos passos para que todas as mulheres que passam por esta situação tenham acesso?

Quando a técnica provar funcionar, então a câmara técnica da Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de medicina devem dar parecer liberando a cirurgia. Aí a técnica deve ficar acessível a todos. Hoje, o único hospital autorizado para fazer a cirurgia é o Erasto Gaertner dentro do protocolo de pesquisa. A notícia boa é que conseguimos recursos para fazer de graça a cirurgia em 10 pacientes, que é o número de casos do protocolo.

Informações: reitanribeiro@hotmail.com


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