Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Entrevista: conheça o autor da página BC Mil Grau

“Se eu escrevo lá é porque EU achei engraçado”, Magnums Santos

Terça, 28/11/2017 7:24.
Magnums e Tereza, a Tia da Cocada, no dia em que ela descobriu que ele fazia a BCMG e toda propaganda pra ela.

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Por Daniele Sisnandes

Magnums Santos, 30 anos, é um cara de jeito calmo que à primeira vista nem transparece ser o redator por trás das legendas que fazem 139 mil pessoas se acabarem de rir no Facebook. Com a página BC Mil Grau ele foi aonde nem imaginava chegar: atingiu leitores de todas as idades e fez da graça seu negócio com seus próprios horários e regras. Muito além de emplacar expressões como o famoso “como não amar?”, ele comemora que hoje consegue viver (e ainda guardar grana) de uma página totalmente independente e que faz as pessoas felizes. Pela primeira vez ele aceitou mostrar o rosto a um jornal e contar um pouco dessa história.

Antes de tudo conta pras pessoas, qual a tua história?

Meu nome é Magnums Santos, sou natural do Paraná, moro em Balneário Camboriú há 11 anos. Cheguei aqui e trabalhei meio que em tudo, desde garçom, subway, em várias empresas e fui para o camelô trabalhar de vendedor e ali as coisas começaram a melhorar um pouco, o salário era melhor. Daí fiz o BC Mil Grau meio que na brincadeira.

Que ano foi isso?

Foi em 2012. Eu vi esses dias, foi 23 de maio de 2012.

Foi numa época em que surgiram outras páginas do tipo?

Foi nesta época que deu uma febre de cidades mil grau. Mas até então só tinha o montagens mil grau, aquele tempo que não podia fazer humor pesado no Facebook e eles zoavam um monte, tanto que saiu do ar por isso. Aí eu fiz uma de Balneário. Era bem toscão...pegava mais pesado, fazia umas montagens toscas pra cacete, mas foi feito meio que na brincadeira, só com as piadas que fazia com Sukita e Juliano Simão. Mandei pra eles, eles compartilharam e no outro dia já tinha bastante gente pra época, umas 300 pessoas que entraram na noite. E não sei em qual momento as pessoas começaram a mandar coisas para o BC Mil Grau, não lembro quando ou porquê, mas começaram.

E foi tudo natural?

Foi, propaganda nunca fiz. Hoje são 139 mil pessoas, orgânico. A única coisa patrocinada que hoje em dia eu faço são as publicidades. Foi na raça mesmo, no Instagram também.

No Instagram você tem quantos seguidores?

Instagram tem 74,7 mil. E tem uma movimentação boa, melhor que Facebook, eu gosto mais do pessoal do Instagram. Acho menos chato, menos gente enchendo saco.

O Facebook é um terreno fértil para reclamações né...

É, demais, virou isso. Tem que tomar cuidado com o que posta porque qualquer detalhe, alguém vai lá e…

Você recebe muita crítica pela grafia ainda?

Hoje em dia não, mais nos primeiros anos. Aí teve uma época que a pessoa reclamava de como eu escrevia e o próprio seguidor já respondia.

Legal quando eles mesmos defendem a tua marca, porque virou uma marca né?

Virou uma marca. E não sei em qual momento eu comecei a receber bastante coisa. Era bastante copiado algumas coisas que eu fazia, aí comecei a caprichar mais nos textos. Porque as pessoas já elogiavam as legendas, “ah que engraçado a legenda, mais engraçado que o fato”. Daí eu decidi escrever mais e começou a melhorar a partir desse momento que fiz mais texto, caprichar.

Mais pensado para construir…

Exatamente. Parar e pensar para a pessoa ler e achar engraçado, mesmo que a imagem não favoreça, mas para mostrar o acontecido e para a pessoa imaginar uma história, achar engraçado.

Quanto tempo você leva para construir uma postagem?

Acho que uns 20 minutos. As coisas chegam e eu já penso.

É instantâneo ou você vai guardando?

Vou guardando algumas frases que acho legal, que escuto na TV ou na rua, no camelô...se eu acho engraçado eu anoto no bloquinho de ideias. Muitas coisas eu escrevi tipo “segue o day” era segue o dia, mas escrevi por escrever e a galera começou a falar demais.

São várias expressões que pegaram...uma conquista de influenciador digital né, como que você avalia o tamanho disso?

Pois é, acho demais cara. O que mais pegou como “BC Loka”, “lindro”...

“Como não amar”, né?

“Como não amar”!!! Uma coisa que o cara escreve e não espera que a pessoa vai…Mas se a pessoa comenta aquilo, eu uso de novo.

Então tu percebe as reações e vai construindo as próximas?

Isso, vou medindo a febre e vou reutilizando. Tanto que “segue o day” virou uma marca para o fim do texto.

A página foi passando por umas transformações com o tempo...porque antes você não falava só de forma cômica, rolava até algumas ocorrências, quando você decidiu tirar isso?

Resolvi tirar quando apareceu mais páginas focadas nessa parte da desgraça, sangue...E uma coisa que fez parar foi a diferença dos comentários do pessoal, que é bastante importante. Eu fazia um post e via muita gente discutindo nos comentários. Alguns começavam a se ofender e porra, isso não é legal. Não curto. E a diferença de fazer um post com um texto para a galera dar risada é que você percebe a galera marcando os outros, acho que meio que por isso, por essa energia ruim dessas notícias saca? A desgraceira dá bastante alcance. Se espalha muito mais fácil, mas mesmo assim...E também pela resposta da galera, muitas vezes acontece um fato, de uma morte, e muita gente mandando fotos, hoje em dia não mais, mas naquela época estavam acostumados. Falei, cara, valeu, mas não vou postar. Fazia um post dizendo que não ia publicar sobre aquilo e muita gente apoiando e aí eu parei. Hoje em dia é bem filtrado. Tanto que não é tanto post, é bem moderado.

Como é, você tem uma regularidade?

Agora procuro não fazer nada aos finais de semana, só se for uma coisa que seja “importante”. E durante a semana faço um ou dois posts por dia, intercalado com publicidade, que hoje rola bastante.

Como a publicidade surgiu na página?

Conheci uns amigos na Praia Brava e eles falaram ‘anuncia essa festa no BC Mil Grau, vê quando tu cobra’. Aí fiz lá um anúncio, daí fiz mais uma festa e a partir do momento que apareceu as pessoas se interessaram. Fui postando e foi, esse ano está sendo demais. As parcerias que fechei...é bem legal trabalhar com uma coisa que você criou em casa, bem independente mesmo.

Hoje tu só se dedica para a página?

Hoje só. Faz mais de um ano e meio.

Você deixou o camelô e ficou só na página?

Eu tinha deixado o camelô há uns três anos. Mas trabalhei em outras coisas, tive parceria em outras páginas para criar conteúdo, mas aí o BC Mil Grau começou a pedir mais tempo e não consegui fazer as outras. Foi aí que resolvi ficar só no BC e foi o certo.

As empresas que te procuram ou você oferece publicidade?

As empresas que me procuram.

Sério, sempre?

99%. Claro que não fecho todas que procuram, mas cada vez mais tenho fechado com empresas grandes, de importância na cidade e vejo isso como uma coisa muito boa, porque a empresa acreditar no marketing de uma página que não é convencional, é diferente...fico feliz.

No começo você manteve o anonimato e até hoje a autoria da página não é explícita, por quê?

Não sei, acho que sou meio tímido talvez. Não tenho muito a manha de ficar mostrando a cara. Fez parte assim, de não saber quem é. Tipo as pessoas comentam ‘ah queria saber quem escreve isso’, mas eu não falo ‘ah sou eu’. Isso dá uma cara legal para a página, não ficar mostrando muito e tal.

A impressão que nós leitores temos é que é um gurizão da praia, um malandrão narrando. É um personagem ou é você falando?

É uma parte de mim eu acho. Não adianta eu falar que é um personagem, eu penso assim, eu gosto de dar risada. Se eu escrevo lá é porque eu (frisa) achei engraçado. Talvez as pessoas não achem tanto, mas eu acho muito! Ás vezes eu não acho tanto e posto e a galera acha um monte, daí eu falo ‘pô, tem que arriscar’. Isso é verdade, às vezes quando eu conheço uma pessoa e ela fala, esse aqui é o cara do BC Mil Grau, o cara fala ‘nossa eu imaginava alguém totalmente diferente, você é calmo…”. Eles imaginam sei lá, um bicho doido.

Você tem ou já teve colaboradores?

Já tive, hoje em dia eu me viro sozinho mesmo. Os maiores colaboradores são as empresas que gostam da propaganda e voltam.

Mas você teve alguma assessoria para criar marca e tal?

Só registrei minha marca na contabilidade, mas foi só isso. Quando registrei tinha umas 20 mil pessoas, foi no início.

E podes falar quanto custa uma publicidade?

Posso, criei quatro planos, vendo por visualizações (contas alcançadas). Daí depende o que a empresa quer, se é uma festa e quer só uma chamada ou quer aparecer mais vezes. Isso eu sempre vou atualizando. A partir de R$ 210 já dá pra fazer alguma coisa.

O que gera mais engajamento?

Acontecimentos da cidade, por exemplo, nem acho tão fora do normal um cavalo passando na Atlântica, mas eu sabia que ia postar e a galera ia falar “nossa”! Essas coisas inusitadas, quando acontece algum acidente, daí a galera já manda de vários ângulos.

Você lembra o que mais bombou até hoje?

Um que bombou muito no início, foi um salto, quando o leão-marinho saiu do mar e atravessou na faixa. Depois teve um vídeo que eu postei, um bicho gritando, só que era uma dublagem e o cara gritava. Eu postei e viralizou demais, foram umas 15 milhões de visualizações.

Sério?

Sério, tanto que o cara que fez o vídeo, é italiano, e chegou até ele. Ele mandou mensagem na página pedindo os créditos porque foi ele que montou o vídeo. Foi bem gente boa e eu disse ‘claro, com certeza’. Não foi um fato da cidade, mas foi o que viralizou demais. Eu procuro sempre postar coisas que sejam da cidade, ou voltado. Eu vejo as outras páginas postando qualquer coisa que cai no Whatsapp…

Caçadores de clique…

Caçadores de clique pra cacete! Isso eu nem curto, prefiro nem postar.

Você tem problema com crédito das imagens?

Não, quase sempre recebo de quem fez. A pessoa gravou ou tirou a foto e manda e muitas nem querem que poste o crédito. Alguns querem, daí eu vou lá e coloco.

Tem muito flagrante bizarro, você acha que isso acontece mesmo por aqui ou o pessoal tá produzindo situações para aparecer na página?

Hoje em dia meio que esperam que saia. Às vezes quando posto algo vai lá alguém e comenta ‘olha aí, falei que ia aparecer’. E uma coisa de produzir, que você disse, teve uns guris que desceram o morro da Rainha com uma bicicleta sem freio. Tinha um amigo que ouviu o barulho da placa quebrando com a batida, tirou a foto e me mandou. Eu postei, antes dos guris chegarem em casa. Depois eles tinham gravado um vídeo que eu postei, gravando desde lá de cima. Foi um fato foda esse.

Quando o assunto é política, a página toma ou já tomou partido?

Fiz uns dois textos sobre política na época das eleições meio que tentando conscientizar o jovem a pensar, mas eu não gosto de tocar nesses assuntos. Muito político descobriu meu Whatsapp e manda coisas, não pede né, mas só falta pedir.

Não faz parte da tua política então?

Não, porque é uma coisa que divide muito a galera. Prefiro assuntos que a pessoa dê risada junto, do que fique discutindo os lados. Claro que vai ter umas críticas sobre a cidade...daí cada prefeito que tiver...faz parte né. Mas acho que até nas críticas que eu faço, é de leve. Não tomo um lado, ah é ruim ou é bom, eu falo da coisa. Por exemplo esse das casinhas de churros que mudaram. Eu sempre escrevo, não falando se é bom ou ruim, mas falando que aconteceu.

E vem alguém dos órgãos para comentar?

Raramente, só se eu comento com a página em algum órgão, por exemplo na Fundação, se eu vou lá eles respondem. Mas evito falar de política.

O que você considera que foi a tua maior conquista com essa história até hoje?

Com certeza foi poder viver disso, largar patrão, fazer teu horário, isso aí não tem preço! E o que eu mais gosto é ver a pessoa elogiando, que tá dando risada com o texto ou manda um inbox dizendo que se diverte muito. Ganhar dinheiro é bom, pagar as contas é bom, mas se não tivesse isso não ia ter o mesmo pique, o reconhecimento da galera é sem palavras, dá orgulho.

E tu consegue ler tudo?

Leio tudo, tem bastante coisa, mas dá pra ler. Às vezes demora um pouco, mas respondo um por um.

Você já teve vários projetos...festa, marca de cerveja, o que você planeja agora para a página?

Vai rolar ainda umas festas em parceria com At Home, estou mais focando na parte da publicidade, dos textos e estou pensando em fazer umas entrevistas. Escolher umas pessoas que eu acho legal, admiro ou que tá um assunto rolando e fazer umas entrevistas cômicas.

Em vídeo?

Não sei, talvez uma entrevista breve escrita, a foto da pessoa, uma montagem, estou vendo ainda. Mas acho que seria legal conversar com as pessoas assim.

E como você acha que vai ser o futuro?

Fez cinco anos BC Mil Grau, consegui estabilizar ele. No Facebook pretendo continuar dessa forma, nesse estilo, e se surgir outra mídia fazer também, mas o foco é internet, não saio disso não.

Ainda tens aquela lojinha virtual?

Não, abandonei, site também, canal no Youtube.

Pois é, começaram a fazer uns vídeos e não foi pra frente?

Fizemos uns vídeos com o Pedrão (de Batata) e o Dimas (panfleteiro), mas dá muito trabalho, coisa difícil. Daí o Pedrão se candidatou e a gente parou. Ele queria fazer, e eu disse não. Não curto tanto assim, muita trabalheira, prefiro continuar ali mesmo.

E já teve de alguém te reconhecer?

Hoje em dia está mais comum, pessoas que eu não conheço me conhecem. Semana passada estava chegando em casa e um gurizinho de skate ficou me olhando e disse “você é do BC Mil Grau né?” Falei sim. Fui no aniversário da filha de uma amiga minha e a sogra dela, bem velhinha, queria me conhecer, eu fiquei tão feliz! Várias idades, você escreve e não tem noção. Outra coisa legal que rolou, eu fui num show do Diogo Portugal e tinha um rapaz que tinha deficiência visual. Ele falou, cara você tem que por vírgula e ponto final, se não o aparelho que eu uso não consegue ler. Eu nunca tinha pensado nisso. Fiquei com aquilo na cabeça e escrevi e não esperava, ele comentou ‘agora sim eu posso ler’. Eu nem imaginava, foi foda! Depois foi lá e respondeu ainda.

Antes de começar tudo isso o que você planejava pra tua vida?

Tinha uma grande dúvida do que poderia fazer, não tinha um foco. ‘O que vai ser da minha vida?’. Antes do BC Mil Grau eu fiz um texto tirando uma onda e umas pessoas falaram que eu devia fazer isso... eu fiz o Mil Grau e fui ligando, acho que é isso mesmo que eu tenho que fazer.

E você levaria isso para um show de stand up, alguma coisa assim?

Não, fica engraçado se a pessoa ler o que eu escrevi, se for falar não vai ficar engraçado. Não num stand up, talvez na mesa com os amigos fique engraçado, mas não pra fazer um show. Não penso nisso, acho que não é muito a minha cara.

Acesse: facebook.com/bcm1lgr4u
instagram.com/bcm1lgr4u


Esta entrevista foi publicada na edição de outubro na versão impressa do Página 3. Para ficar por dentro de tudo que acontece na cidade bem antes assine na banca virtual ou veja os pontos de venda.


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Página 3
Magnums e Tereza, a Tia da Cocada, no dia em que ela descobriu que ele fazia a BCMG e toda propaganda pra ela.
Magnums e Tereza, a Tia da Cocada, no dia em que ela descobriu que ele fazia a BCMG e toda propaganda pra ela.

Entrevista: conheça o autor da página BC Mil Grau

“Se eu escrevo lá é porque EU achei engraçado”, Magnums Santos

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Terça, 28/11/2017 7:24.

Por Daniele Sisnandes

Magnums Santos, 30 anos, é um cara de jeito calmo que à primeira vista nem transparece ser o redator por trás das legendas que fazem 139 mil pessoas se acabarem de rir no Facebook. Com a página BC Mil Grau ele foi aonde nem imaginava chegar: atingiu leitores de todas as idades e fez da graça seu negócio com seus próprios horários e regras. Muito além de emplacar expressões como o famoso “como não amar?”, ele comemora que hoje consegue viver (e ainda guardar grana) de uma página totalmente independente e que faz as pessoas felizes. Pela primeira vez ele aceitou mostrar o rosto a um jornal e contar um pouco dessa história.

Antes de tudo conta pras pessoas, qual a tua história?

Meu nome é Magnums Santos, sou natural do Paraná, moro em Balneário Camboriú há 11 anos. Cheguei aqui e trabalhei meio que em tudo, desde garçom, subway, em várias empresas e fui para o camelô trabalhar de vendedor e ali as coisas começaram a melhorar um pouco, o salário era melhor. Daí fiz o BC Mil Grau meio que na brincadeira.

Que ano foi isso?

Foi em 2012. Eu vi esses dias, foi 23 de maio de 2012.

Foi numa época em que surgiram outras páginas do tipo?

Foi nesta época que deu uma febre de cidades mil grau. Mas até então só tinha o montagens mil grau, aquele tempo que não podia fazer humor pesado no Facebook e eles zoavam um monte, tanto que saiu do ar por isso. Aí eu fiz uma de Balneário. Era bem toscão...pegava mais pesado, fazia umas montagens toscas pra cacete, mas foi feito meio que na brincadeira, só com as piadas que fazia com Sukita e Juliano Simão. Mandei pra eles, eles compartilharam e no outro dia já tinha bastante gente pra época, umas 300 pessoas que entraram na noite. E não sei em qual momento as pessoas começaram a mandar coisas para o BC Mil Grau, não lembro quando ou porquê, mas começaram.

E foi tudo natural?

Foi, propaganda nunca fiz. Hoje são 139 mil pessoas, orgânico. A única coisa patrocinada que hoje em dia eu faço são as publicidades. Foi na raça mesmo, no Instagram também.

No Instagram você tem quantos seguidores?

Instagram tem 74,7 mil. E tem uma movimentação boa, melhor que Facebook, eu gosto mais do pessoal do Instagram. Acho menos chato, menos gente enchendo saco.

O Facebook é um terreno fértil para reclamações né...

É, demais, virou isso. Tem que tomar cuidado com o que posta porque qualquer detalhe, alguém vai lá e…

Você recebe muita crítica pela grafia ainda?

Hoje em dia não, mais nos primeiros anos. Aí teve uma época que a pessoa reclamava de como eu escrevia e o próprio seguidor já respondia.

Legal quando eles mesmos defendem a tua marca, porque virou uma marca né?

Virou uma marca. E não sei em qual momento eu comecei a receber bastante coisa. Era bastante copiado algumas coisas que eu fazia, aí comecei a caprichar mais nos textos. Porque as pessoas já elogiavam as legendas, “ah que engraçado a legenda, mais engraçado que o fato”. Daí eu decidi escrever mais e começou a melhorar a partir desse momento que fiz mais texto, caprichar.

Mais pensado para construir…

Exatamente. Parar e pensar para a pessoa ler e achar engraçado, mesmo que a imagem não favoreça, mas para mostrar o acontecido e para a pessoa imaginar uma história, achar engraçado.

Quanto tempo você leva para construir uma postagem?

Acho que uns 20 minutos. As coisas chegam e eu já penso.

É instantâneo ou você vai guardando?

Vou guardando algumas frases que acho legal, que escuto na TV ou na rua, no camelô...se eu acho engraçado eu anoto no bloquinho de ideias. Muitas coisas eu escrevi tipo “segue o day” era segue o dia, mas escrevi por escrever e a galera começou a falar demais.

São várias expressões que pegaram...uma conquista de influenciador digital né, como que você avalia o tamanho disso?

Pois é, acho demais cara. O que mais pegou como “BC Loka”, “lindro”...

“Como não amar”, né?

“Como não amar”!!! Uma coisa que o cara escreve e não espera que a pessoa vai…Mas se a pessoa comenta aquilo, eu uso de novo.

Então tu percebe as reações e vai construindo as próximas?

Isso, vou medindo a febre e vou reutilizando. Tanto que “segue o day” virou uma marca para o fim do texto.

A página foi passando por umas transformações com o tempo...porque antes você não falava só de forma cômica, rolava até algumas ocorrências, quando você decidiu tirar isso?

Resolvi tirar quando apareceu mais páginas focadas nessa parte da desgraça, sangue...E uma coisa que fez parar foi a diferença dos comentários do pessoal, que é bastante importante. Eu fazia um post e via muita gente discutindo nos comentários. Alguns começavam a se ofender e porra, isso não é legal. Não curto. E a diferença de fazer um post com um texto para a galera dar risada é que você percebe a galera marcando os outros, acho que meio que por isso, por essa energia ruim dessas notícias saca? A desgraceira dá bastante alcance. Se espalha muito mais fácil, mas mesmo assim...E também pela resposta da galera, muitas vezes acontece um fato, de uma morte, e muita gente mandando fotos, hoje em dia não mais, mas naquela época estavam acostumados. Falei, cara, valeu, mas não vou postar. Fazia um post dizendo que não ia publicar sobre aquilo e muita gente apoiando e aí eu parei. Hoje em dia é bem filtrado. Tanto que não é tanto post, é bem moderado.

Como é, você tem uma regularidade?

Agora procuro não fazer nada aos finais de semana, só se for uma coisa que seja “importante”. E durante a semana faço um ou dois posts por dia, intercalado com publicidade, que hoje rola bastante.

Como a publicidade surgiu na página?

Conheci uns amigos na Praia Brava e eles falaram ‘anuncia essa festa no BC Mil Grau, vê quando tu cobra’. Aí fiz lá um anúncio, daí fiz mais uma festa e a partir do momento que apareceu as pessoas se interessaram. Fui postando e foi, esse ano está sendo demais. As parcerias que fechei...é bem legal trabalhar com uma coisa que você criou em casa, bem independente mesmo.

Hoje tu só se dedica para a página?

Hoje só. Faz mais de um ano e meio.

Você deixou o camelô e ficou só na página?

Eu tinha deixado o camelô há uns três anos. Mas trabalhei em outras coisas, tive parceria em outras páginas para criar conteúdo, mas aí o BC Mil Grau começou a pedir mais tempo e não consegui fazer as outras. Foi aí que resolvi ficar só no BC e foi o certo.

As empresas que te procuram ou você oferece publicidade?

As empresas que me procuram.

Sério, sempre?

99%. Claro que não fecho todas que procuram, mas cada vez mais tenho fechado com empresas grandes, de importância na cidade e vejo isso como uma coisa muito boa, porque a empresa acreditar no marketing de uma página que não é convencional, é diferente...fico feliz.

No começo você manteve o anonimato e até hoje a autoria da página não é explícita, por quê?

Não sei, acho que sou meio tímido talvez. Não tenho muito a manha de ficar mostrando a cara. Fez parte assim, de não saber quem é. Tipo as pessoas comentam ‘ah queria saber quem escreve isso’, mas eu não falo ‘ah sou eu’. Isso dá uma cara legal para a página, não ficar mostrando muito e tal.

A impressão que nós leitores temos é que é um gurizão da praia, um malandrão narrando. É um personagem ou é você falando?

É uma parte de mim eu acho. Não adianta eu falar que é um personagem, eu penso assim, eu gosto de dar risada. Se eu escrevo lá é porque eu (frisa) achei engraçado. Talvez as pessoas não achem tanto, mas eu acho muito! Ás vezes eu não acho tanto e posto e a galera acha um monte, daí eu falo ‘pô, tem que arriscar’. Isso é verdade, às vezes quando eu conheço uma pessoa e ela fala, esse aqui é o cara do BC Mil Grau, o cara fala ‘nossa eu imaginava alguém totalmente diferente, você é calmo…”. Eles imaginam sei lá, um bicho doido.

Você tem ou já teve colaboradores?

Já tive, hoje em dia eu me viro sozinho mesmo. Os maiores colaboradores são as empresas que gostam da propaganda e voltam.

Mas você teve alguma assessoria para criar marca e tal?

Só registrei minha marca na contabilidade, mas foi só isso. Quando registrei tinha umas 20 mil pessoas, foi no início.

E podes falar quanto custa uma publicidade?

Posso, criei quatro planos, vendo por visualizações (contas alcançadas). Daí depende o que a empresa quer, se é uma festa e quer só uma chamada ou quer aparecer mais vezes. Isso eu sempre vou atualizando. A partir de R$ 210 já dá pra fazer alguma coisa.

O que gera mais engajamento?

Acontecimentos da cidade, por exemplo, nem acho tão fora do normal um cavalo passando na Atlântica, mas eu sabia que ia postar e a galera ia falar “nossa”! Essas coisas inusitadas, quando acontece algum acidente, daí a galera já manda de vários ângulos.

Você lembra o que mais bombou até hoje?

Um que bombou muito no início, foi um salto, quando o leão-marinho saiu do mar e atravessou na faixa. Depois teve um vídeo que eu postei, um bicho gritando, só que era uma dublagem e o cara gritava. Eu postei e viralizou demais, foram umas 15 milhões de visualizações.

Sério?

Sério, tanto que o cara que fez o vídeo, é italiano, e chegou até ele. Ele mandou mensagem na página pedindo os créditos porque foi ele que montou o vídeo. Foi bem gente boa e eu disse ‘claro, com certeza’. Não foi um fato da cidade, mas foi o que viralizou demais. Eu procuro sempre postar coisas que sejam da cidade, ou voltado. Eu vejo as outras páginas postando qualquer coisa que cai no Whatsapp…

Caçadores de clique…

Caçadores de clique pra cacete! Isso eu nem curto, prefiro nem postar.

Você tem problema com crédito das imagens?

Não, quase sempre recebo de quem fez. A pessoa gravou ou tirou a foto e manda e muitas nem querem que poste o crédito. Alguns querem, daí eu vou lá e coloco.

Tem muito flagrante bizarro, você acha que isso acontece mesmo por aqui ou o pessoal tá produzindo situações para aparecer na página?

Hoje em dia meio que esperam que saia. Às vezes quando posto algo vai lá alguém e comenta ‘olha aí, falei que ia aparecer’. E uma coisa de produzir, que você disse, teve uns guris que desceram o morro da Rainha com uma bicicleta sem freio. Tinha um amigo que ouviu o barulho da placa quebrando com a batida, tirou a foto e me mandou. Eu postei, antes dos guris chegarem em casa. Depois eles tinham gravado um vídeo que eu postei, gravando desde lá de cima. Foi um fato foda esse.

Quando o assunto é política, a página toma ou já tomou partido?

Fiz uns dois textos sobre política na época das eleições meio que tentando conscientizar o jovem a pensar, mas eu não gosto de tocar nesses assuntos. Muito político descobriu meu Whatsapp e manda coisas, não pede né, mas só falta pedir.

Não faz parte da tua política então?

Não, porque é uma coisa que divide muito a galera. Prefiro assuntos que a pessoa dê risada junto, do que fique discutindo os lados. Claro que vai ter umas críticas sobre a cidade...daí cada prefeito que tiver...faz parte né. Mas acho que até nas críticas que eu faço, é de leve. Não tomo um lado, ah é ruim ou é bom, eu falo da coisa. Por exemplo esse das casinhas de churros que mudaram. Eu sempre escrevo, não falando se é bom ou ruim, mas falando que aconteceu.

E vem alguém dos órgãos para comentar?

Raramente, só se eu comento com a página em algum órgão, por exemplo na Fundação, se eu vou lá eles respondem. Mas evito falar de política.

O que você considera que foi a tua maior conquista com essa história até hoje?

Com certeza foi poder viver disso, largar patrão, fazer teu horário, isso aí não tem preço! E o que eu mais gosto é ver a pessoa elogiando, que tá dando risada com o texto ou manda um inbox dizendo que se diverte muito. Ganhar dinheiro é bom, pagar as contas é bom, mas se não tivesse isso não ia ter o mesmo pique, o reconhecimento da galera é sem palavras, dá orgulho.

E tu consegue ler tudo?

Leio tudo, tem bastante coisa, mas dá pra ler. Às vezes demora um pouco, mas respondo um por um.

Você já teve vários projetos...festa, marca de cerveja, o que você planeja agora para a página?

Vai rolar ainda umas festas em parceria com At Home, estou mais focando na parte da publicidade, dos textos e estou pensando em fazer umas entrevistas. Escolher umas pessoas que eu acho legal, admiro ou que tá um assunto rolando e fazer umas entrevistas cômicas.

Em vídeo?

Não sei, talvez uma entrevista breve escrita, a foto da pessoa, uma montagem, estou vendo ainda. Mas acho que seria legal conversar com as pessoas assim.

E como você acha que vai ser o futuro?

Fez cinco anos BC Mil Grau, consegui estabilizar ele. No Facebook pretendo continuar dessa forma, nesse estilo, e se surgir outra mídia fazer também, mas o foco é internet, não saio disso não.

Ainda tens aquela lojinha virtual?

Não, abandonei, site também, canal no Youtube.

Pois é, começaram a fazer uns vídeos e não foi pra frente?

Fizemos uns vídeos com o Pedrão (de Batata) e o Dimas (panfleteiro), mas dá muito trabalho, coisa difícil. Daí o Pedrão se candidatou e a gente parou. Ele queria fazer, e eu disse não. Não curto tanto assim, muita trabalheira, prefiro continuar ali mesmo.

E já teve de alguém te reconhecer?

Hoje em dia está mais comum, pessoas que eu não conheço me conhecem. Semana passada estava chegando em casa e um gurizinho de skate ficou me olhando e disse “você é do BC Mil Grau né?” Falei sim. Fui no aniversário da filha de uma amiga minha e a sogra dela, bem velhinha, queria me conhecer, eu fiquei tão feliz! Várias idades, você escreve e não tem noção. Outra coisa legal que rolou, eu fui num show do Diogo Portugal e tinha um rapaz que tinha deficiência visual. Ele falou, cara você tem que por vírgula e ponto final, se não o aparelho que eu uso não consegue ler. Eu nunca tinha pensado nisso. Fiquei com aquilo na cabeça e escrevi e não esperava, ele comentou ‘agora sim eu posso ler’. Eu nem imaginava, foi foda! Depois foi lá e respondeu ainda.

Antes de começar tudo isso o que você planejava pra tua vida?

Tinha uma grande dúvida do que poderia fazer, não tinha um foco. ‘O que vai ser da minha vida?’. Antes do BC Mil Grau eu fiz um texto tirando uma onda e umas pessoas falaram que eu devia fazer isso... eu fiz o Mil Grau e fui ligando, acho que é isso mesmo que eu tenho que fazer.

E você levaria isso para um show de stand up, alguma coisa assim?

Não, fica engraçado se a pessoa ler o que eu escrevi, se for falar não vai ficar engraçado. Não num stand up, talvez na mesa com os amigos fique engraçado, mas não pra fazer um show. Não penso nisso, acho que não é muito a minha cara.

Acesse: facebook.com/bcm1lgr4u
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