Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Entrevista com Cláudio Koglin, comandante da 3ª Região da Polícia Militar.

Quinta, 5/10/2017 6:53.
Fotos Waldemar Cezar Neto

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Por Waldemar Cesar Neto & Marlise Schneider Cezar

 

 “Temos em Balneário um agente de segurança para cada 303 habitantes.
É índice de 1º mundo” 

No dia 31 de janeiro de 2016 Cláudio Roberto Koglin, 54, tornou-se um dos 32 coronéis em atividade na Polícia Militar de SC e alguns dias depois assumiu o Comando da 3a Região, responsável por três Batalhões (1o BPM/Itajaí; 12o BPM/Balneário Camboriú e 25o BPM/Navegantes), que compreendem 15 cidades, com 750 mil habitantes. Para cuidar desse território ele tem 653 policiais. A sede fica em Balneário Camboriú. 

Natural de Blumenau, quando adolescente, já chamava  atenção pela altura. Foi convocado para a seleção catarinense juvenil de basquete, mas o pai pediu um trabalho de meio expediente na prefeitura em troca. Não conseguiu. Então o jovem parou de jogar. Com 14 anos já tinha carteira de trabalho assinada como aprendiz de marcenaria. Passou na faculdade de Engenharia, conseguiu uma bolsa de estudos e voltou para o basquete. Mas não gostava de cálculos e nem de pedir dinheiro e o carro do pai no final de semana, porque sempre tinha que ouvir um ‘não’. Então uniu o útil ao agradável: já tinha servido no Exército, onde entrou porque jogava basquete e Blumenau queria ganhar a Olimpíada Catarinense. Jogou no time; no ano seguinte fez estágio, tornou-se oficial do Exército, aprendeu que é melhor mandar do que ser mandado. Dali para a academia de polícia militar foi rápido. Está completando 34 anos de carreira. É o maior policial da PM catarinense com seus 2,04m de altura. Em vez de coronel comandante poderia ser um astro do basquete, mas ele garante que seus anjos o guiaram e hoje é extremamente realizado no que faz, mas um tanto desapontado com a situação das polícias no Brasil que ele diz pressionadas por uma mídia e um judiciário que ‘não nos conhece’.

 

O Brasil tem a segunda ou a terceira população carcerária do mundo, vocês prendem não sei quantas mil pessoas por ano, mas às vezes o policial nem saiu da delegacia e o delinquente já saiu... vai delinquir de novo. Apesar disso tudo os juízes aplicam a lei, os policiais se revoltam às vezes e o Congresso Nacional não faz nada. É isso que tira um pouco do ânimo, como o senhor estava comentando antes?

Isso tira bastante do nosso ânimo. Não só do ânimo de um policial militar que está completando quase 34 anos de polícia militar, só de polícia militar, mas como também o ânimo de todos os policiais. Eu vejo nos policiais de hoje em dia que eles não têm mais aquele… nós definimos isso como olhar prescrutador do policial militar. Hoje eu costumo dizer, sim ele é chamado para atender uma ocorrência e essa ocorrência determina que… vamos lá, vamos fazer. Que dentro de uma sala tem um elefante e o policial militar chega naquele local e abre a porta daquela sala e ele não vê o elefante e aí ele reporta para central de rádio o seguinte “não tem nenhum elefante aqui”. Mas ele percebeu que existe um tapete naquela sala e debaixo daquele tapete tem um… 

...uma montanha...

...uma montanha. Mas como a lei hoje é tão restritiva e os policiais são tão cobrados, eles estão se limitando… olhar para aquilo que foram chamados. Porque se algo ou alguma coisa a mais é feita pela iniciativa do policial militar, ele passa a responder por esse algo a mais. 

Mas a Polícia Militar de SC teve um aperfeiçoamento quando passou a exigir até dos praças uma formação superior. Então é natural que o discernimento dessa rapaziada seja maior do que na época que entrava na polícia com ginásio, certo?

Em tese. E é uma pena que eles percam esse ânimo, porque é aquele plus que poderia fazer a diferença...

Mas é justamente esse plus que faz a diferença. 

Mas esse que é o receio...

Mas com o receio de serem mal interpretados, de lá na frente ter a sua verdade distorcida, de o próprio Estado não lhes dar o devido amparo, eles preferem cumprir apenas aquilo que efetivamente está sendo… 

...foi chamado para o elefante é elefante.

Se é um elefante… se é uma zebra já não se prende a zebra.

Pois é, mas aí a gestão dentro da corporação quanto no quartel, o oficial repreende o soldado que eventualmente não enxergou o tal elefante? 

Eu digo que isso é um ânimo assim que a gente percebe nos PMs, mas é um ânimo que mesmo assim ainda é combatido, mas muito pela fórmula PM ser uma instituição muito aguerrida e essa situação se transmite para os policiais militares, ainda entusiasma os PMs, mas o receio hoje de atuar na rua é muito grande. 

Aqui em SC não tem aquele motivo adicional, da vida permanentemente em perigo. Agora junta esse componente com a vida permanentemente em perigo como no Rio de Janeiro por exemplo, fica difícil trabalhar. 

Eu tenho 33 anos, estou indo pra 34 anos de polícia, levei esse tempo todo pra presenciar no Estado de SC, o que nós presenciamos  semanas atrás, quando um policial militar foi morto em Joinville e, 24 horas depois, outro em Camboriú. O de Joinville estava nas fileiras da corporação. Era um policial ativo e o de Camboriú era um policial da reserva remunerada. Eu demorei 33 anos para ver isso acontecer. Hoje o nosso serviço de inteligência está mapeando as informações em que esses criminosos que pertençam à facção, estão colhendo nos jornais que circulam, fotografias de policiais militares, fotografias de quartéis. 

Pra ficar exposto?

A questão das construções dos quartéis e principalmente identificar aqueles policiais que aparecem nas fotografias. Aí como hoje estamos conversando, amanhã vai sair uma fotografia minha com meu nome, eu não tenho esse receio, mas isso hoje está acontecendo. Então tudo aquilo que acontecia no Rio, em São Paulo começa a acontecer aqui. Nós estamos vendo isso acontecer, as coisas chegando lentamente, descendo o Brasil e hoje batendo nas portas de SC. A região sul era muito tranquila em termos de segurança pública. Hoje da região sul o único local ainda tranquilo é o Estado de SC.

O policial de Camboriú estava na reserva, não estava visível... mas era é um incômodo para o bandido ….

Mas é que ele era conhecido como PM. Ele estava fazendo uma atividade perfeitamente legal, inclusive desarmado. O porte de arma dele tinha vencido há 30 dias e todo o processo... ele fazia vigilância. Ele só foi morto por ser PM. Se ele estivesse em outro local, ele seria morto também. Se ele não fosse policial militar ele não seria morto. 

Quem o matou sabia que ele era um policial militar é isso?

Eles queriam mostrar que tinham coragem de atingir um policial e nós tivemos uma série de ações em que as ameaças não foram dirigidas diretamente a policiais, mas passaram a ser dirigidas a familiares, pais, esposas dos policiais militares. 

O Estado deu uma resposta a altura, botou 300 policiais em cima. Prendeu até gente que já estava presa.

A polícia militar prendeu 175 relacionadas a isso aí, mas foram prisões na rua. Prisões em situação de flagrante. A polícia civil fez uma operação concentrada, dentro da características da policia civil. Eles fizeram dentro da sua característica e nós somos a primeira polícia a se pôr em defesa do cidadão. A polícia militar nessa hora é a polícia de confronto e desse confronto resultaram essas prisões.

Ano passado também em outubro aconteceram aqueles atentados e agora de novo, quase um ano depois. O Sr. acha que a motivação é a mesma?

Nós vamos viver esses picos de crise, porque os motivos são os mais  variados. O motivo de outubro do ano passado não foi o mesmo motivo de agora…

Naquela ocasião era o regime prisional não é? 

É, naquela ocasião eles queriam reunir um grupo de uma facção em um determinado presídio. Agora eles estão se insurgindo justamente pela divisão dessa facção que estava concentrada num presídio. Isso estava causando a possibilidade deles ainda se organizarem. Foi dividido e surgiu essa revolta. Então daqui a pouco qualquer medida restritiva de direito do preso, de repente acabar com a visita íntima ou suspender uma saída temporária pode ensejar essas situações que estamos vivenciando e que no ano passado ocorreram. Volto a dizer, elas continuarão a ocorrer. Elas não serão uma constante, mas nós teremos picos, em um determinado momento surgirá uma nova crise.

Porque o povo tem dificuldade de entender que os caras estão presos e de lá mesmo estão comandando uma barbárie dessas...

Eu também tenho dificuldade de entender. Aí não quero me imiscuir num assunto que é do DEAP. Tenho uma visão muito simplista e às vezes esta visão simplista não se adequa às regras do sistema penitenciário que eu desconheço. Como policial militar e como cidadão, não posso entender que eles possam estabelecer uma comunicação com o mundo aqui fora. 

O universo da segurança pública é complicado.  O Sr. está lá há tantos anos percebe isso né? Tive um amigo que prestou serviço, não sei se era DEAP ou como era o nome na época, ele dizia que cadeias são uma maravilha, até cerveja tem... e aí se entra um linha dura lá e acaba com essa bandalheira, sobra pra vocês aqui na rua, porque eles vão tocar fogo em ônibus e vocês têm que ir lá. Talvez o correto mesmo fosse criar um sistema de segurança em que as forças falassem entre si, aliás é uma meta anunciada e perseguida desde que o Sr. entrou pra polícia e nunca obtida...

Eu chego a pensar que o estado brasileiro não tem interesse na unificação de polícias, porque se dispersas incomodam tanta gente, imagine no dia que todas estiverem unidas num único banco de dados, trocando informações, cada um complementando o serviço do outro. Hoje a Polícia Militar está completamente fora do  DEAP. Ele nem  pertence mais à Secretaria de Segurança Pública, é da Justiça e Cidadania.

A crise econômica dá um pico nos números, principalmente ocorrências de furtos, roubos…

É uma decorrência, é um fator que compõe o aspecto da criminalidade, mas eu não diria que é um  fator determinante, porque se fosse nós teríamos com certeza... se não me engano o índice de desemprego no Brasil gira em torno de 12 milhões, então teríamos 12 milhões de criminosos. Nós não temos 12 milhões de criminosos no Brasil. Ou melhor, aqueles criminosos que conseguimos botar as mãos, porque talvez aqueles que usam gravata…

...esses são mais dificeis... precisou de um Moro para botar a mão... 

Aí você vê o seguinte,  a lei aplicada pelo juiz Moro é a mesma lei… o mesmo Código Penal, é a mesma jurisprudência que qualquer juiz aplica em Balneário, no Estado de SC, no nordeste brasileiro… então, se efetivamente tivermos uma justiça forte, rápida não precisamos fazer muitas modificações no Código Penal…

Determinada a fazer né? Porque o cara pega o dinheiro do ilícito e lava aquele dinheiro, então ele comete mais de um crime. Quando ele faz uma rebelião no presídio, ele cometeu mais um crime lá dentro, se ele for julgado por isso vai agravar a pena dele. Essas coisas que a gente lê nos gibis americanos são verdades, né?

Engraçado, nós copiamos muitas coisas dos EUA, julgamos eles um dos países mais democráticos do mundo e não conseguimos trazer o modelo penitenciário americano pra cá, porque ele supostamente afronta os direitos humanos. 

O Leonel Pavan foi numa dessas excursões de políticos para os EUA, visitaram um presídio e o agente penitenciário estava vigiando os presos inclusive na parte íntima das celas, na privada e tal. Alguém do grupo questionou sobre privacidade e o agente respondeu ‘aqui não tem privacidade, isso ele tem lá fora”.

São situações assim que fogem da nossa compreensão, por que temos um sistema carcerário tão benevolente quando em outros países não é. Eu não quero que o cidadão viva de uma forma insalubre, longe disso. Mas no entanto nós temos problemas de Terceiro Mundo que atingem o cidadão de bem e que também não deveriam acontecer (...).

Mas para quem está lá e quer voltar, já é uma opção de vida, ele não quer trabalhar, não quer estudar, quer delinquir. É isso?

É uma opção de vida. Eu não posso pensar de outra forma, existem situações que o diferenciam que são os criminosos eventuais…

...os passionais

... justamente pra esses que o Código Penal tem algumas excludentes que podem ser aplicadas, mas é justamente pra essa minoria que ele serve. Agora quando você faz do crime o seu modo de vida, sua profissão, não pode reclamar das condições que o Estado tem pra lhe oferecer. 

O efetivo por aqui continua parecido como no tempo em que o Sr. foi comandante em Balneário. 

Hoje poderíamos dizer que estamos com 150 policiais militares, ou seja um efetivo inalterado desde 2011. Isso não é um privilégio de BC, é geral. Há 20 anos tínhamos 12.500 homens na PM. que faziam o policiamento para 4 milhões  e cento e poucos mil habitantes. Hoje com a formatura desses novos 958 policiais até o final do ano, estaremos chegando aos 11.400 com a população estimada, se não me engano em torno de 6,5 milhões (…). É o resultado do descaso que houve há 15, 20 anos em que não se recompletou o efetivo. Tivemos agora um período até esse ano que durou uns 10 anos de uma grande evasão de policiais militares que completaram o seu tempo e que a partir do ano que vem teremos uma tropa com mais de 50% de renovação. Se o governo do Estado daqui pra frente mantiver um inclusão média de 500 a 600 policiais/ano, vamos estar crescendo numa ordem de 400 policiais/ano daqui pra frente.

Como está o cenário da 3ª Região que o Sr. comanda?

Ela se manteve ao largo dessas crises na segurança pública. Ainda somos uma região com índices bastante críticos, principalmente na questão furto, roubo, a nossa região sozinha atende mais ocorrências que a região de Joinville (...). Somos uma região extremamente produtiva, talvez a mais produtiva do Estado, no atendimento de ocorrências por policial militar.

Com 34 anos de carreira, agora troca o governo, o Sr. pode chegar ao comando geral, faz parte da sua conta?

Não é assim. O objetivo de qualquer oficial é chegar ao posto de coronel. Chegando lá está no limite da sua carreira, não existem postos superiores. Entre os 32 coronéis da polícia militar hoje, um deles ano que vem ou provavelmente em 2019  será escolhido para ser o comandante geral da corporação. Acho que nenhum dos meus 31 colegas poderá dizer que não tem aspiração de verificar a possibilidade de ser o comandante geral ou subcomandante. Isso é um direito que assiste a qualquer coronel, no entanto há de se ter um trabalho, um respaldo dentro da instituição que o credencie para gerenciar, principalmente a aprovação dentro do aspecto técnico e não voltado pro componente político porque se tem um troço sensível e avesso à política é a questão de segurança pública. Não dá pra fazer política com segurança pública (...). 

Não é um cargo político, mas o secretário de segurança sempre é, esse é o problema.

Sim, eu sei, mas se você fizer uma pesquisa no Brasil como um todo, dificilmente vai encontrar um secretário que é oriundo da polícia civil ou da polícia militar como secretário da segurança pública. 

Até porque a polícia civil e a militar não se bicam, a gente acompanha essas crises à distância, ali é um espelho. Então tem que ser um que não é daqui e nem dali, senão fica confuso.

Nos meus 33 anos, o melhor momento da gestão da segurança pública foi através do atual secretário, essas divergências entre as polícias militares e civil, foram bastante contidas, tivemos avanços nesse aspecto, muito embora estejamos longe… porque o modelo policial brasileiro pra mim é um modelo falido. Precisamos rever esse modelo policial,  precisamos trazer outros personagens pra dentro da questão de segurança pública e a minha instituição não pode mais fazer metade do serviço e entregar pronto. Você não pode confiar a educação do teu filho até uma determinada idade, agora dos 10 anos em diante quem cria é o outro. Essa é a mesma situação que nós vivemos aqui. Há uma tendência no cenário nacional disso ser modificado e eu acredito que ainda não aconteceu, pela questão econômica e política (...).

Estamos sem luz no fim do túnel, não sabemos para onde vamos...

Eles estão muito mais preocupados em salvar a sua pele, mas a partir de 2019 vamos experimentar mudanças significativas na segurança pública e como as polícias militar, civil e as próprias guardas hoje estão atuando, vai ser modificado, porque estamos chegando no limite. O limite que estava no RJ e SP chegou a SC como um atentado contra policiais militares por serem policiais militares, então daqui pra frente as coisas tendem a piorar (...). 

Há pouco tempo acompanhamos de novo esses episódios de polícia militar, civil, guarda municipal... o Sr. chegou a dizer que virou bombeiro, tá em outra corporação… disse brincando né?

Na carreira você muda os diversos planos gerenciais que eram esperados de um oficial. Quando chega ao posto de coronel, você tem mais um gerenciamento institucional  e os outros continuam na visão operacional. Você hoje tem uma visão muito mais estratégica, principalmente os tenente coronéis e coronéis (...). Evidentemente que houve alguns atritos significativos e que foram transparecer para a sociedade, mas em nenhum momento as polícias deixaram de atender…“ eu não vou mais receber preso da polícia civil, eu não vou mais lá na delegacia, as coisas continuaram, o pessoal de nariz torcido um para o outro e o passar do tempo fez com que esse narizes torcidos voltassem novamente. Hoje eu acredito que nós superamos isso (…). Mas é ainda uma situação muito dificil, porque depende de ajustes que estão muito claros na legislação e isso não é tão simples quanto possa parecer para o cidadão (...). Ele quer ter a sua ocorrência atendida não importa por quem. Ele quer ligar para o 190 e pede o mais rápido possível que alguém chegue. Ele liga pro 153 também e espera que alguém venha socorrê-lo. 

Ele liga para os dois...

Aí existe uma série de situações em que a vontade pessoal minha, do Evaldo, do Egidio ou do delegado Davi e do secretário Castanheira, não consegue transpor a lei. Vou citar um exemplo, todas essas tratativas que foram feitas em prol de uma união, nasceram de uma conversa minha com o delegado Davi assim que ele assumiu e foram sendo desencadeadas e depois de tomar corpo, o Ministério Público foi chamado a acompanhar. No desenvolvimento dessas intenções, várias reuniões foram feitas e atas foram feitas, está lá na oitava promotoria. Pois bem, tivemos aquele incidente envolvendo a prisão dos policiais militares que a PM não discute, eles são grandinhos que chega e vão se defender da acusação. Agora nós discutimos a forma  cinematográfica, a questão de humilhação em cinco policiais militares, isso foi tudo de caso pensado, mas passou. Posteriormente teve a condução de um guarda municipal, que não tem como negar que ele estava errado (...).

No meio desse clima foi tentado novamente uma aproximação...

Novamente fizemos uma rodada de negociações, a polícia militar e a civil concordaram que a Guarda passasse a ter um modelo de polícia que ela não tem. Todos concordaram. Naquela ocasião estava de passagem por BC, nosso comandante, ele disse perfeito, todos concordam, vamos redigir um protocolo de intenções, mostrando que cada um aqui cede, que todos concordam. Todo mundo assina? Sim, todos nós assinamos. “Inclusive o senhor promotor?” “Não, eu não posso assinar”. “Então o senhor leva pro procurador geral do Estado assinar e chancelar, porque daí vamos criar um case com acompanhamento dos diversos órgãos (Judiciário, MP, polícias) e vamos mostrar esse case como um exemplo pro Brasil. Aí o MP que é o fiscal da lei disse o seguinte, “eu não posso assinar”. E porque não pode assinar? Porque estávamos atribuindo funções para as polícias, para a Guarda, que não são permitidas em lei. Por isso não saiu (...).

Temporada chegando...como é que estamos nos preparando?

A Operação Veraneio não pesa para nós policiais militares, ela é como algumas operações no Estado (Oktober/Reveillon/Carnaval) como um todo, já é um desencadear automático. O que limita as ações da polícia militar é o financeiro.

O Sr. se refere ao orçamento...

Ano passado se não me engano a Operação Veraneio custou de 12  a 15 milhões extra para o governo do Estado. Esse ano estamos numa situação melhor de efetivo do que ano passado. Em 2016 para todo o Estado era na ordem de 650 policiais que se formaram naquele ano, esse ano temos 200 policiais a mais. Fora isso todas as unidades especializadas da capital (Batalhão de Operações Especiais, o Choque, o Batalhão Aéreo) são distribuídas para dar apoio desde Passos de Torres até a Garuva…

Lá no início da entrevista o Sr. comentava que estava desapontado…

Sim, a minha frustração só não é maior aos 34 anos de polícia, porque eu sei que me esforcei e esse testemunho poderá ser cobrado de colegas …“como é que era o cara?” Porque senão a minha frustração seria maior, porque sou da época que andávamos aqui na rádio patrulha de BC num Fiat 147 ou um fusquinha com o nariz de fora, pra descobrir os maconheiros... nós chegávamos lá no Marambaia e desligava, ia a pé por trás das pedras pra pegar os cara lá. Há 33 anos era isso. Quando foi pego um papelote de cocaína em Blumenau, foi um dia que eu tirei serviço… fazíamos um teste… adormecia a língua é da boa. Hoje o policial que não prender 10 papelotes toma um puxão de orelha no quartel.

Gostaria de colocar mais alguma coisa?

Nós atribuímos muito a responsabilidade para os outros, não temos mentalidade pra enfrentar catástrofes, desastres naturais, achamos que tudo tudo o Estado tem que resolver e não vai funcionar. O Estado não vai conseguir atender a demanda por policiais militares para cada municipio. 

Qual é a solução?

A municipalização das polícias é um caminho perigoso que aqui em BC está se tomando, porque hoje é assim, a Guarda Municipal hoje tem uma presença inegável na condução da segurança pública de BC. Hoje não dá pra ficarmos sem a Guarda. Eu fiz essa conversa com o prefeito Fabricio, ele pensa diferente do que eu penso. O que um gestor público quer? Quer economizar onde pode. O que que o Estado vem fazendo desde 1988 com a nova Constituição? Vem atribuindo ao municipio uma série de responsabilidades que antes ele exercia (...). Quantos agentes de segurança existem hoje em BC? 140 policiais militares aproximadamente, uns 50 policiais civis,  148 guardas municipais e se não me engano 68 agentes de trânsito. São todos agentes de segurança pública. Somados e divididos pela população fixa de 130 mil, temos um agente de segurança pública para cada 303 habitantes. Cara isso aqui é índice de Primeiro Mundo, então a gente tem que dar uma resposta adequada pra isso (...).


 

 

 


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Página 3
Fotos Waldemar Cezar Neto

Entrevista com Cláudio Koglin, comandante da 3ª Região da Polícia Militar.

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Quinta, 5/10/2017 6:53.

Por Waldemar Cesar Neto & Marlise Schneider Cezar

 

 “Temos em Balneário um agente de segurança para cada 303 habitantes.
É índice de 1º mundo” 

No dia 31 de janeiro de 2016 Cláudio Roberto Koglin, 54, tornou-se um dos 32 coronéis em atividade na Polícia Militar de SC e alguns dias depois assumiu o Comando da 3a Região, responsável por três Batalhões (1o BPM/Itajaí; 12o BPM/Balneário Camboriú e 25o BPM/Navegantes), que compreendem 15 cidades, com 750 mil habitantes. Para cuidar desse território ele tem 653 policiais. A sede fica em Balneário Camboriú. 

Natural de Blumenau, quando adolescente, já chamava  atenção pela altura. Foi convocado para a seleção catarinense juvenil de basquete, mas o pai pediu um trabalho de meio expediente na prefeitura em troca. Não conseguiu. Então o jovem parou de jogar. Com 14 anos já tinha carteira de trabalho assinada como aprendiz de marcenaria. Passou na faculdade de Engenharia, conseguiu uma bolsa de estudos e voltou para o basquete. Mas não gostava de cálculos e nem de pedir dinheiro e o carro do pai no final de semana, porque sempre tinha que ouvir um ‘não’. Então uniu o útil ao agradável: já tinha servido no Exército, onde entrou porque jogava basquete e Blumenau queria ganhar a Olimpíada Catarinense. Jogou no time; no ano seguinte fez estágio, tornou-se oficial do Exército, aprendeu que é melhor mandar do que ser mandado. Dali para a academia de polícia militar foi rápido. Está completando 34 anos de carreira. É o maior policial da PM catarinense com seus 2,04m de altura. Em vez de coronel comandante poderia ser um astro do basquete, mas ele garante que seus anjos o guiaram e hoje é extremamente realizado no que faz, mas um tanto desapontado com a situação das polícias no Brasil que ele diz pressionadas por uma mídia e um judiciário que ‘não nos conhece’.

 

O Brasil tem a segunda ou a terceira população carcerária do mundo, vocês prendem não sei quantas mil pessoas por ano, mas às vezes o policial nem saiu da delegacia e o delinquente já saiu... vai delinquir de novo. Apesar disso tudo os juízes aplicam a lei, os policiais se revoltam às vezes e o Congresso Nacional não faz nada. É isso que tira um pouco do ânimo, como o senhor estava comentando antes?

Isso tira bastante do nosso ânimo. Não só do ânimo de um policial militar que está completando quase 34 anos de polícia militar, só de polícia militar, mas como também o ânimo de todos os policiais. Eu vejo nos policiais de hoje em dia que eles não têm mais aquele… nós definimos isso como olhar prescrutador do policial militar. Hoje eu costumo dizer, sim ele é chamado para atender uma ocorrência e essa ocorrência determina que… vamos lá, vamos fazer. Que dentro de uma sala tem um elefante e o policial militar chega naquele local e abre a porta daquela sala e ele não vê o elefante e aí ele reporta para central de rádio o seguinte “não tem nenhum elefante aqui”. Mas ele percebeu que existe um tapete naquela sala e debaixo daquele tapete tem um… 

...uma montanha...

...uma montanha. Mas como a lei hoje é tão restritiva e os policiais são tão cobrados, eles estão se limitando… olhar para aquilo que foram chamados. Porque se algo ou alguma coisa a mais é feita pela iniciativa do policial militar, ele passa a responder por esse algo a mais. 

Mas a Polícia Militar de SC teve um aperfeiçoamento quando passou a exigir até dos praças uma formação superior. Então é natural que o discernimento dessa rapaziada seja maior do que na época que entrava na polícia com ginásio, certo?

Em tese. E é uma pena que eles percam esse ânimo, porque é aquele plus que poderia fazer a diferença...

Mas é justamente esse plus que faz a diferença. 

Mas esse que é o receio...

Mas com o receio de serem mal interpretados, de lá na frente ter a sua verdade distorcida, de o próprio Estado não lhes dar o devido amparo, eles preferem cumprir apenas aquilo que efetivamente está sendo… 

...foi chamado para o elefante é elefante.

Se é um elefante… se é uma zebra já não se prende a zebra.

Pois é, mas aí a gestão dentro da corporação quanto no quartel, o oficial repreende o soldado que eventualmente não enxergou o tal elefante? 

Eu digo que isso é um ânimo assim que a gente percebe nos PMs, mas é um ânimo que mesmo assim ainda é combatido, mas muito pela fórmula PM ser uma instituição muito aguerrida e essa situação se transmite para os policiais militares, ainda entusiasma os PMs, mas o receio hoje de atuar na rua é muito grande. 

Aqui em SC não tem aquele motivo adicional, da vida permanentemente em perigo. Agora junta esse componente com a vida permanentemente em perigo como no Rio de Janeiro por exemplo, fica difícil trabalhar. 

Eu tenho 33 anos, estou indo pra 34 anos de polícia, levei esse tempo todo pra presenciar no Estado de SC, o que nós presenciamos  semanas atrás, quando um policial militar foi morto em Joinville e, 24 horas depois, outro em Camboriú. O de Joinville estava nas fileiras da corporação. Era um policial ativo e o de Camboriú era um policial da reserva remunerada. Eu demorei 33 anos para ver isso acontecer. Hoje o nosso serviço de inteligência está mapeando as informações em que esses criminosos que pertençam à facção, estão colhendo nos jornais que circulam, fotografias de policiais militares, fotografias de quartéis. 

Pra ficar exposto?

A questão das construções dos quartéis e principalmente identificar aqueles policiais que aparecem nas fotografias. Aí como hoje estamos conversando, amanhã vai sair uma fotografia minha com meu nome, eu não tenho esse receio, mas isso hoje está acontecendo. Então tudo aquilo que acontecia no Rio, em São Paulo começa a acontecer aqui. Nós estamos vendo isso acontecer, as coisas chegando lentamente, descendo o Brasil e hoje batendo nas portas de SC. A região sul era muito tranquila em termos de segurança pública. Hoje da região sul o único local ainda tranquilo é o Estado de SC.

O policial de Camboriú estava na reserva, não estava visível... mas era é um incômodo para o bandido ….

Mas é que ele era conhecido como PM. Ele estava fazendo uma atividade perfeitamente legal, inclusive desarmado. O porte de arma dele tinha vencido há 30 dias e todo o processo... ele fazia vigilância. Ele só foi morto por ser PM. Se ele estivesse em outro local, ele seria morto também. Se ele não fosse policial militar ele não seria morto. 

Quem o matou sabia que ele era um policial militar é isso?

Eles queriam mostrar que tinham coragem de atingir um policial e nós tivemos uma série de ações em que as ameaças não foram dirigidas diretamente a policiais, mas passaram a ser dirigidas a familiares, pais, esposas dos policiais militares. 

O Estado deu uma resposta a altura, botou 300 policiais em cima. Prendeu até gente que já estava presa.

A polícia militar prendeu 175 relacionadas a isso aí, mas foram prisões na rua. Prisões em situação de flagrante. A polícia civil fez uma operação concentrada, dentro da características da policia civil. Eles fizeram dentro da sua característica e nós somos a primeira polícia a se pôr em defesa do cidadão. A polícia militar nessa hora é a polícia de confronto e desse confronto resultaram essas prisões.

Ano passado também em outubro aconteceram aqueles atentados e agora de novo, quase um ano depois. O Sr. acha que a motivação é a mesma?

Nós vamos viver esses picos de crise, porque os motivos são os mais  variados. O motivo de outubro do ano passado não foi o mesmo motivo de agora…

Naquela ocasião era o regime prisional não é? 

É, naquela ocasião eles queriam reunir um grupo de uma facção em um determinado presídio. Agora eles estão se insurgindo justamente pela divisão dessa facção que estava concentrada num presídio. Isso estava causando a possibilidade deles ainda se organizarem. Foi dividido e surgiu essa revolta. Então daqui a pouco qualquer medida restritiva de direito do preso, de repente acabar com a visita íntima ou suspender uma saída temporária pode ensejar essas situações que estamos vivenciando e que no ano passado ocorreram. Volto a dizer, elas continuarão a ocorrer. Elas não serão uma constante, mas nós teremos picos, em um determinado momento surgirá uma nova crise.

Porque o povo tem dificuldade de entender que os caras estão presos e de lá mesmo estão comandando uma barbárie dessas...

Eu também tenho dificuldade de entender. Aí não quero me imiscuir num assunto que é do DEAP. Tenho uma visão muito simplista e às vezes esta visão simplista não se adequa às regras do sistema penitenciário que eu desconheço. Como policial militar e como cidadão, não posso entender que eles possam estabelecer uma comunicação com o mundo aqui fora. 

O universo da segurança pública é complicado.  O Sr. está lá há tantos anos percebe isso né? Tive um amigo que prestou serviço, não sei se era DEAP ou como era o nome na época, ele dizia que cadeias são uma maravilha, até cerveja tem... e aí se entra um linha dura lá e acaba com essa bandalheira, sobra pra vocês aqui na rua, porque eles vão tocar fogo em ônibus e vocês têm que ir lá. Talvez o correto mesmo fosse criar um sistema de segurança em que as forças falassem entre si, aliás é uma meta anunciada e perseguida desde que o Sr. entrou pra polícia e nunca obtida...

Eu chego a pensar que o estado brasileiro não tem interesse na unificação de polícias, porque se dispersas incomodam tanta gente, imagine no dia que todas estiverem unidas num único banco de dados, trocando informações, cada um complementando o serviço do outro. Hoje a Polícia Militar está completamente fora do  DEAP. Ele nem  pertence mais à Secretaria de Segurança Pública, é da Justiça e Cidadania.

A crise econômica dá um pico nos números, principalmente ocorrências de furtos, roubos…

É uma decorrência, é um fator que compõe o aspecto da criminalidade, mas eu não diria que é um  fator determinante, porque se fosse nós teríamos com certeza... se não me engano o índice de desemprego no Brasil gira em torno de 12 milhões, então teríamos 12 milhões de criminosos. Nós não temos 12 milhões de criminosos no Brasil. Ou melhor, aqueles criminosos que conseguimos botar as mãos, porque talvez aqueles que usam gravata…

...esses são mais dificeis... precisou de um Moro para botar a mão... 

Aí você vê o seguinte,  a lei aplicada pelo juiz Moro é a mesma lei… o mesmo Código Penal, é a mesma jurisprudência que qualquer juiz aplica em Balneário, no Estado de SC, no nordeste brasileiro… então, se efetivamente tivermos uma justiça forte, rápida não precisamos fazer muitas modificações no Código Penal…

Determinada a fazer né? Porque o cara pega o dinheiro do ilícito e lava aquele dinheiro, então ele comete mais de um crime. Quando ele faz uma rebelião no presídio, ele cometeu mais um crime lá dentro, se ele for julgado por isso vai agravar a pena dele. Essas coisas que a gente lê nos gibis americanos são verdades, né?

Engraçado, nós copiamos muitas coisas dos EUA, julgamos eles um dos países mais democráticos do mundo e não conseguimos trazer o modelo penitenciário americano pra cá, porque ele supostamente afronta os direitos humanos. 

O Leonel Pavan foi numa dessas excursões de políticos para os EUA, visitaram um presídio e o agente penitenciário estava vigiando os presos inclusive na parte íntima das celas, na privada e tal. Alguém do grupo questionou sobre privacidade e o agente respondeu ‘aqui não tem privacidade, isso ele tem lá fora”.

São situações assim que fogem da nossa compreensão, por que temos um sistema carcerário tão benevolente quando em outros países não é. Eu não quero que o cidadão viva de uma forma insalubre, longe disso. Mas no entanto nós temos problemas de Terceiro Mundo que atingem o cidadão de bem e que também não deveriam acontecer (...).

Mas para quem está lá e quer voltar, já é uma opção de vida, ele não quer trabalhar, não quer estudar, quer delinquir. É isso?

É uma opção de vida. Eu não posso pensar de outra forma, existem situações que o diferenciam que são os criminosos eventuais…

...os passionais

... justamente pra esses que o Código Penal tem algumas excludentes que podem ser aplicadas, mas é justamente pra essa minoria que ele serve. Agora quando você faz do crime o seu modo de vida, sua profissão, não pode reclamar das condições que o Estado tem pra lhe oferecer. 

O efetivo por aqui continua parecido como no tempo em que o Sr. foi comandante em Balneário. 

Hoje poderíamos dizer que estamos com 150 policiais militares, ou seja um efetivo inalterado desde 2011. Isso não é um privilégio de BC, é geral. Há 20 anos tínhamos 12.500 homens na PM. que faziam o policiamento para 4 milhões  e cento e poucos mil habitantes. Hoje com a formatura desses novos 958 policiais até o final do ano, estaremos chegando aos 11.400 com a população estimada, se não me engano em torno de 6,5 milhões (…). É o resultado do descaso que houve há 15, 20 anos em que não se recompletou o efetivo. Tivemos agora um período até esse ano que durou uns 10 anos de uma grande evasão de policiais militares que completaram o seu tempo e que a partir do ano que vem teremos uma tropa com mais de 50% de renovação. Se o governo do Estado daqui pra frente mantiver um inclusão média de 500 a 600 policiais/ano, vamos estar crescendo numa ordem de 400 policiais/ano daqui pra frente.

Como está o cenário da 3ª Região que o Sr. comanda?

Ela se manteve ao largo dessas crises na segurança pública. Ainda somos uma região com índices bastante críticos, principalmente na questão furto, roubo, a nossa região sozinha atende mais ocorrências que a região de Joinville (...). Somos uma região extremamente produtiva, talvez a mais produtiva do Estado, no atendimento de ocorrências por policial militar.

Com 34 anos de carreira, agora troca o governo, o Sr. pode chegar ao comando geral, faz parte da sua conta?

Não é assim. O objetivo de qualquer oficial é chegar ao posto de coronel. Chegando lá está no limite da sua carreira, não existem postos superiores. Entre os 32 coronéis da polícia militar hoje, um deles ano que vem ou provavelmente em 2019  será escolhido para ser o comandante geral da corporação. Acho que nenhum dos meus 31 colegas poderá dizer que não tem aspiração de verificar a possibilidade de ser o comandante geral ou subcomandante. Isso é um direito que assiste a qualquer coronel, no entanto há de se ter um trabalho, um respaldo dentro da instituição que o credencie para gerenciar, principalmente a aprovação dentro do aspecto técnico e não voltado pro componente político porque se tem um troço sensível e avesso à política é a questão de segurança pública. Não dá pra fazer política com segurança pública (...). 

Não é um cargo político, mas o secretário de segurança sempre é, esse é o problema.

Sim, eu sei, mas se você fizer uma pesquisa no Brasil como um todo, dificilmente vai encontrar um secretário que é oriundo da polícia civil ou da polícia militar como secretário da segurança pública. 

Até porque a polícia civil e a militar não se bicam, a gente acompanha essas crises à distância, ali é um espelho. Então tem que ser um que não é daqui e nem dali, senão fica confuso.

Nos meus 33 anos, o melhor momento da gestão da segurança pública foi através do atual secretário, essas divergências entre as polícias militares e civil, foram bastante contidas, tivemos avanços nesse aspecto, muito embora estejamos longe… porque o modelo policial brasileiro pra mim é um modelo falido. Precisamos rever esse modelo policial,  precisamos trazer outros personagens pra dentro da questão de segurança pública e a minha instituição não pode mais fazer metade do serviço e entregar pronto. Você não pode confiar a educação do teu filho até uma determinada idade, agora dos 10 anos em diante quem cria é o outro. Essa é a mesma situação que nós vivemos aqui. Há uma tendência no cenário nacional disso ser modificado e eu acredito que ainda não aconteceu, pela questão econômica e política (...).

Estamos sem luz no fim do túnel, não sabemos para onde vamos...

Eles estão muito mais preocupados em salvar a sua pele, mas a partir de 2019 vamos experimentar mudanças significativas na segurança pública e como as polícias militar, civil e as próprias guardas hoje estão atuando, vai ser modificado, porque estamos chegando no limite. O limite que estava no RJ e SP chegou a SC como um atentado contra policiais militares por serem policiais militares, então daqui pra frente as coisas tendem a piorar (...). 

Há pouco tempo acompanhamos de novo esses episódios de polícia militar, civil, guarda municipal... o Sr. chegou a dizer que virou bombeiro, tá em outra corporação… disse brincando né?

Na carreira você muda os diversos planos gerenciais que eram esperados de um oficial. Quando chega ao posto de coronel, você tem mais um gerenciamento institucional  e os outros continuam na visão operacional. Você hoje tem uma visão muito mais estratégica, principalmente os tenente coronéis e coronéis (...). Evidentemente que houve alguns atritos significativos e que foram transparecer para a sociedade, mas em nenhum momento as polícias deixaram de atender…“ eu não vou mais receber preso da polícia civil, eu não vou mais lá na delegacia, as coisas continuaram, o pessoal de nariz torcido um para o outro e o passar do tempo fez com que esse narizes torcidos voltassem novamente. Hoje eu acredito que nós superamos isso (…). Mas é ainda uma situação muito dificil, porque depende de ajustes que estão muito claros na legislação e isso não é tão simples quanto possa parecer para o cidadão (...). Ele quer ter a sua ocorrência atendida não importa por quem. Ele quer ligar para o 190 e pede o mais rápido possível que alguém chegue. Ele liga pro 153 também e espera que alguém venha socorrê-lo. 

Ele liga para os dois...

Aí existe uma série de situações em que a vontade pessoal minha, do Evaldo, do Egidio ou do delegado Davi e do secretário Castanheira, não consegue transpor a lei. Vou citar um exemplo, todas essas tratativas que foram feitas em prol de uma união, nasceram de uma conversa minha com o delegado Davi assim que ele assumiu e foram sendo desencadeadas e depois de tomar corpo, o Ministério Público foi chamado a acompanhar. No desenvolvimento dessas intenções, várias reuniões foram feitas e atas foram feitas, está lá na oitava promotoria. Pois bem, tivemos aquele incidente envolvendo a prisão dos policiais militares que a PM não discute, eles são grandinhos que chega e vão se defender da acusação. Agora nós discutimos a forma  cinematográfica, a questão de humilhação em cinco policiais militares, isso foi tudo de caso pensado, mas passou. Posteriormente teve a condução de um guarda municipal, que não tem como negar que ele estava errado (...).

No meio desse clima foi tentado novamente uma aproximação...

Novamente fizemos uma rodada de negociações, a polícia militar e a civil concordaram que a Guarda passasse a ter um modelo de polícia que ela não tem. Todos concordaram. Naquela ocasião estava de passagem por BC, nosso comandante, ele disse perfeito, todos concordam, vamos redigir um protocolo de intenções, mostrando que cada um aqui cede, que todos concordam. Todo mundo assina? Sim, todos nós assinamos. “Inclusive o senhor promotor?” “Não, eu não posso assinar”. “Então o senhor leva pro procurador geral do Estado assinar e chancelar, porque daí vamos criar um case com acompanhamento dos diversos órgãos (Judiciário, MP, polícias) e vamos mostrar esse case como um exemplo pro Brasil. Aí o MP que é o fiscal da lei disse o seguinte, “eu não posso assinar”. E porque não pode assinar? Porque estávamos atribuindo funções para as polícias, para a Guarda, que não são permitidas em lei. Por isso não saiu (...).

Temporada chegando...como é que estamos nos preparando?

A Operação Veraneio não pesa para nós policiais militares, ela é como algumas operações no Estado (Oktober/Reveillon/Carnaval) como um todo, já é um desencadear automático. O que limita as ações da polícia militar é o financeiro.

O Sr. se refere ao orçamento...

Ano passado se não me engano a Operação Veraneio custou de 12  a 15 milhões extra para o governo do Estado. Esse ano estamos numa situação melhor de efetivo do que ano passado. Em 2016 para todo o Estado era na ordem de 650 policiais que se formaram naquele ano, esse ano temos 200 policiais a mais. Fora isso todas as unidades especializadas da capital (Batalhão de Operações Especiais, o Choque, o Batalhão Aéreo) são distribuídas para dar apoio desde Passos de Torres até a Garuva…

Lá no início da entrevista o Sr. comentava que estava desapontado…

Sim, a minha frustração só não é maior aos 34 anos de polícia, porque eu sei que me esforcei e esse testemunho poderá ser cobrado de colegas …“como é que era o cara?” Porque senão a minha frustração seria maior, porque sou da época que andávamos aqui na rádio patrulha de BC num Fiat 147 ou um fusquinha com o nariz de fora, pra descobrir os maconheiros... nós chegávamos lá no Marambaia e desligava, ia a pé por trás das pedras pra pegar os cara lá. Há 33 anos era isso. Quando foi pego um papelote de cocaína em Blumenau, foi um dia que eu tirei serviço… fazíamos um teste… adormecia a língua é da boa. Hoje o policial que não prender 10 papelotes toma um puxão de orelha no quartel.

Gostaria de colocar mais alguma coisa?

Nós atribuímos muito a responsabilidade para os outros, não temos mentalidade pra enfrentar catástrofes, desastres naturais, achamos que tudo tudo o Estado tem que resolver e não vai funcionar. O Estado não vai conseguir atender a demanda por policiais militares para cada municipio. 

Qual é a solução?

A municipalização das polícias é um caminho perigoso que aqui em BC está se tomando, porque hoje é assim, a Guarda Municipal hoje tem uma presença inegável na condução da segurança pública de BC. Hoje não dá pra ficarmos sem a Guarda. Eu fiz essa conversa com o prefeito Fabricio, ele pensa diferente do que eu penso. O que um gestor público quer? Quer economizar onde pode. O que que o Estado vem fazendo desde 1988 com a nova Constituição? Vem atribuindo ao municipio uma série de responsabilidades que antes ele exercia (...). Quantos agentes de segurança existem hoje em BC? 140 policiais militares aproximadamente, uns 50 policiais civis,  148 guardas municipais e se não me engano 68 agentes de trânsito. São todos agentes de segurança pública. Somados e divididos pela população fixa de 130 mil, temos um agente de segurança pública para cada 303 habitantes. Cara isso aqui é índice de Primeiro Mundo, então a gente tem que dar uma resposta adequada pra isso (...).


 

 

 


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