Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Dandara Manoela, cantora: 'Falar sobre afeto tem sido muito político'

Quinta, 22/8/2019 0:33.
Guilherme Meneghelli

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Por Caroline Cezar, Chris Melo e Noemi Carvalho

Dandara Manoela é cantora, compositora e percussionista. Artista independente que 'nasceu' em Florianópolis, apesar de ter vindo ao mundo em Campinas (SP).

Dandara esteve em Balneário Camboriú dia 15, na premiere do filme queniano Rafiki, de Wanuri Kahiu, no Cinerama Arthouse BC fazendo um pocket show e um debate sobre a temática. O homossexualismo ainda é proibido no Quênia e em 70 países do mundo. Rafiki foi o primeiro filme queniano exibido em Cannes e aborda com delicadeza questões profundas de quem vive na pele o preconceito: mulheres, negras, gays, vivendo em uma sociedade que aprova a violência e condena o amor. Participaram do debate Pamela Fonseca, Fabi Mansur (Pogo Filmes), e as cantoras Chris Melo e Noemi Carvalho (Duo Eu e Ela), que moram em BC e entrevistaram Dandara para o Página3 com Caroline Cezar.


Dandara entre Chris Melo e Noemi Carvalho (Duo Eu e Ela), na premiére de Rafiki em Balneário Camboriú, que teve debate e música ao vivo.

"Já estive na premiere em Floripa e depois fiquei pensando como é forte, pra mim, estar aqui, no mês de agosto falando sobre lesbianismo. Porque desde que estou em Floripa, sempre fui associada à causa, mas isso era mal resolvido na família, então eu dava um jeito de escapar, não participar das coisas... porque diziam 'cantora, lésbica, eu pensava, ai lésbica não, o que minha tia vai dizer...' Ficava me sentindo mal, porque gosto muito dela, e sei que ela não aceitava. Faz só dois anos que falei com ela abertamente. Talvez ano passado eu não teria aceitado vir, estaria em crise, mas foi tão natural, nem pensei sobre isso. Todo meu movimento de vir pro Sul, e de estar aqui falando é resistência, falar com a minha tia... uma liberação, há esperança. O medo é um tipo de cuidado, eu entendo, muitas vezes é nossa vida que está em jogo, só que a gente não pode deixar de ser quem é, precisamos arrumar estratégias, se fortalecer umas nas outras", contou Dandara.

Guilherme Meneghelli

Carol - Você tá numa fase boa, tipo lua cheia assim? Exuberante, apaixonada, realizada criativamente, com reconhecimento, sendo associada a causas super importantes no período político que a gente vive e que refletem tua vida pessoal mesmo, você sendo você mesmo e compartilhando isso com o mundo. É mesmo uma fase legal ou uma visão romântica?

Dandara - Acho que óóótima fase, pensando como artista independente e com todas as questões que me atravessam quanto à pessoa que eu sou, é quase utópico. Mas eu sou muito grata, to muito feliz, por onde eu cheguei, das pessoas que tenho encontrado no caminho, de como eu tenho me fortalecido, das pessoas que botam fé em mim e no meu trabalho…. então consciente de quem eu sou, enquanto mulher preta, lésbica e periférica, nesse contexto sim estou numa ótima fase porque muitas de nós estão morrendo, apanhando nesse exato momento, então sim, estou numa ótima fase, só que não aceitamos migalhas, então essa fase tem que melhorar pra todas nós. Estamos na luta, na batalha, música independente não é fácil, ainda mais nos tempos de hoje, falando sobre o que eu me proponho falar, discutir, trazer. Mas ao mesmo tempo sinto que tem espaços que abraçam, como o fato da gente estar aqui na estreia desse filme, politicamente importante, pro seu lugar, pro Brasil, que tem uma democracia falsa, é muito válido o ato de refletir sobre os nossos corpos, nossos direitos e nossa resistência.

Carol - Você acha que a tua expressão como artista vem amadurecendo devido ao teu trabalho interno, o desenrolar das tuas questões pessoais? Isso que você traz pro palco, essa coisa da mulher de luta, quanto você teve trabalhar dentro pra isso vir pra fora?

Dandara - Então, esse trabalho já tem um tempo e já estou numa fase de repensar… porque tem muita força no meu trabalho, eu me coloco assim mas ando num momento que percebo que até essa força é violenta, no sentido que a sociedade cobra que a mulher preta tem que estar nesse lugar, de ser muito forte, de muita luta. Tenho repensado, não no sentido de deslegitimar tudo isso que tenho feito, mas de entender outros lugares que a gente pode pensar nossa existência mesmo, acho que falar sobre afeto tem sido muito político, e tem sido muito importante, e a questão de autocuidado e tal. Estou pensando em outras coisas, tendo como base tudo isso que eu construí, que foi sim um descobrimento, de cura, de entender até o processo ancestral da minha família, por que essas mulheres sofreram tanto pra eu chegar aqui onde eu estou... e começando a olhar pra esse trabalho com outros olhos, entendendo a importância dele, to muito feliz com o que eu tenho produzido.

Duo - A gente conheceu sua arte ano passado, procurando artistas LGBT negras aqui no Sul, eu como mestiça me sinto muito bem representada e a Chris como negra, e acho interessante, que além de preta, lésbica, tem essa coisa de ser artista do Sul, você de Floripa, a gente de Curitiba, e agora em Balneário… Não tivemos muitas referências musicais aqui, quem está no centro oeste, norte, nordeste não vê que tem, acham que aqui é mais fácil, que a gente é privilegiado… já saí de todos movimentos possíveis, meu movimento hoje é a música, porque existe uma cobrança muito grande nesse sentido.

Dandara - Na verdade não nasci no sul né, nasci em Campinas, São Paulo, e há seis anos vim pra Floripa, e nasci aqui enquanto artista. Em qualquer lugar que eu vou é a Dandara de Floripa, e é a forma que eu me sinto representando mesmo, e acho muito importante que a cena daqui seja ressignificada e mudada, porque a gente tem alguns nomes de destaque, fazendo a mesma coisa há um tempo no sul, só que nem elas saem dessa barreira e o estouro que elas fazem também é num lugar restrito, homens brancos na maioria e tal… Penso que a gente tá num momento que as coisas tem mudado, aparece Mulamba, aparece Tuyo, vocês também, fiquei muito emocionada quando escutei vocês...e mostrando que existe representatividade no sul, acabar com essa ideia que aqui não tem música boa, que a gente não tá pensando, refletindo, trazendo pautas importantes. Fico até chateada que tem alguns editais que nos excluem mesmo, o Spotfy por exemplo, que abriu um edital para mulheres que estão começando na música, mas só pra Grande São Paulo, então sinto que a gente é geograficamente excluído e isso me dá uma agonia muito forte. E ainda tem o público que não nos abraça, porque não é interessante né, se a gente for ver resultado de eleições percebemos que o que estamos falando eles não querem muito ouvir. Parece que é uma tripla barreira, isso só musicalmente falando, pra além dos nossos corpos, quem somos o que a gente é. Acho que é muito importante nesse momento se encontrar, trocar ideia, se juntar, as pessoas artistas que conheço daqui tem essa abertura… mas acho que a gente que ainda não tanto destaque é dar as mãos e deixar essa cena forte.

Duo - É, nós nos apresentamos aqui desde janeiro do ano passado, e nossos temas, a gordofobia, o feminismo, parece que incomodam um pouco... eu falo mesmo porque não vou cantar pão com ovo vou cantar minha vivência né, e eles querem que toque o dia a dia que os barzinho tocam né… Mas pra mim já saturou, eu quero cantar minha arte, minha música autoral.

Dandara - Não é de hoje que as pessoas querem dizer o que a gente tem que fazer, acho que tem que continuar falando, cantando, expondo a realidade nas redes sociais, onde a gente sente que ganha visibilidade, tem gente apoiando. Mas é isso, não é fácil, nunca foi e ainda tá longe de ser.

Carol - Quando me refiro a ótima fase, é que ao mesmo que vivemos esse momento tragicômico na política, existe um movimento artístico, cultural que prospera no país, como se fosse um combustível, um propósito de expressão. Mas pra quem ainda tá no meio do caminho, qual tua dica pra manifestar essa arte?


Marissol Mwaba,François Mulekae Dandara: parceria forte.

Dandara - É (risos) as redes passam uma ideia que não é tão real, então eu vou falar pra quem tá no meio do caminho, mas eu nem sei se já cheguei lá nesse meio (risos), qualquer coisa se alguém tiver mais ali me fala (risos). Mas sim, acho que é botar a cara né, e se juntar. Porque quando cheguei em Floripa a pessoa que me abraçou foi um cara preto, o François, que inclusive recentemente, sofreu um episódio de racismo brutal em São Paulo onde tá morando. Eu seguia ele pela internet e pensava "nooossa, ele tá lá", e ele tava ali na esquina de casa, inclusive a gente morava na mesma rua e um dia ele começou a me chamar pros shows dele, conheci o Meneghelli, meus vídeos começaram a rolar na internet e aí tudo começou pra mim. Pra mim isso foi uma super lição de generosidade e do que a gente tem que fazer, que na verdade não é nada muito, é nós por nós, simplesmente isso. Sou eternamente grata ao François, não só ele, como outros artistas também, mas pra mim é emblemático por ser um cara negro que tá há tempo nessa batalha do autoral, enfim um artista incrível, cantor, compositor, instrumentista, artista visual… ele é f...uma inspiração. Minha única dica é falar "cês acham que eu tô em algum lugar? Eu tô aqui pra vocês, pra nós".

Carol - Esse lugar que eu falo de sucesso é do ponto de vista de fã, público, seguidora, que considera sucesso total essa expressão autêntica, verdadeira... Quando vi você pela primeira vez, com Marissol e François, chorei do princípio ao fim, foi muito impactante.

Dandara - É, realmente, não quero ser totalmente pessimista, existe uma realização pessoal, um sucesso interno gigante, porque às vezes eu fico pensando na Dandara que eu era, e nas coisas que eu almejava assim, bem pequenininhas, e sim, estou muito aquém daquele pouquinho que eu pensei. Só que é isso, a gente tá acostumada com pouco, tô olhando o mundo com outros olhos, de uma forma mais ampla, e quero mais sim, não no sentido super ambicioso, mas de mudar nosso lugar nessa história.

Duo - Você vive só da música?

Dandara - Tenho muito apoio, sempre tive, cheguei em Floripa já dentro da universidade, morei no estudantil, tive bolsa, tudo isso foi uma base pra eu ter o privilégio, entre muitas aspas, pra conseguir investir na música. Mas eu digo isso porque é muito louco, que a gente é tão atravessado de várias questões que a sociedade nos oprime, que a gente não consegue enxergar que tem gente muito pior. Na minha família acho que sou a única que entrou numa universidade pública, às vezes olho pra alguns irmãos, e vejo que estou em outro lugar. É importante a gente ter esse entendimento.


Carol - E foi a arte que levou pra esse lugar?

Dandara - Na verdade eu vim pra cantar. Entrar na universidade foi uma desculpa, porque em São Paulo eu trabalhava o dia inteiro num hotel, estudava à noite, era insano, não tinha tempo pra cantar. Eu tinha convicção que ia conseguir entrar na faculdade e ter tempo, meio relativo, pra olhar pra música, mas se seu tivesse naquela dinâmica de trabalhar o dia todo pra sustentar o estudo, impossível criar. Eu comecei a compor em Florianópolis, por isso que Dandara Manoela enquanto artista, nasceu ali… porque tive tempo pra refletir minha vivência, minha história, olhar pra minha própria história e criar, não coisas novas, mas criar em cima do que eu era.

Carol - Você canta desde sempre?

Dandara - Desde criança. Comecei a cantar na igreja.

Duo - Novas, eu também (risos).

Dandara - É a história de todo mundo né, igreja tem que servir pra alguma coisa (risos)... Canto desde os sete anos, e aí assisti aquele filme, Mudança de Hábito, com a Whoopy (Goldberg), e aí entendo a importância da representatividade, vi uma mulher negra regendo um coral, eu falei, cara é isso, vou ser cantora. Aos sete anos me vi num bom lugar pra além dos serviços domésticos, que é normalmente o que a gente vê nas novelas, e disse, é isso que vou ser.

Carol - E hoje taí sendo fonte.

Dandara - Tenho percebido por alguns retornos que parece que sim, acho isso muito massa.

Duo - Como você lida com esse papel, de ser fonte, de mudar a perspectiva das pessoas?

Dandara - Ah meu, fico grata, acho que cada vez tem que ter mais de nós fazendo isso... esses dias tava com umas crianças, uma menina de 13 anos, 'ah vou cantar pra vocês', e ficou cantando, perguntou como é no palco, acho bonito porque eu já vi tudo, dali a pouco ela vai estar muito pra além inspirando outras… Então não é individual né, não é egóico, não é sobre mim, "ai como é bom eu estar inspirando", não só na música, como em diversas outras áreas, vai ampliando a opção de estarmos ocupando lugares melhores na sociedade. Pra ficar cada vez melhor pros que vem depois. Eu ouço minha avó contando as histórias né, não consigo acreditar… nascemos em tempos melhores, apesar de ainda acontecerem coisas absurdas, mas é isso, sem migalhas e vamos pra luta.



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Página 3
Guilherme Meneghelli

Dandara Manoela, cantora: 'Falar sobre afeto tem sido muito político'

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Quinta, 22/8/2019 0:33.

Por Caroline Cezar, Chris Melo e Noemi Carvalho

Dandara Manoela é cantora, compositora e percussionista. Artista independente que 'nasceu' em Florianópolis, apesar de ter vindo ao mundo em Campinas (SP).

Dandara esteve em Balneário Camboriú dia 15, na premiere do filme queniano Rafiki, de Wanuri Kahiu, no Cinerama Arthouse BC fazendo um pocket show e um debate sobre a temática. O homossexualismo ainda é proibido no Quênia e em 70 países do mundo. Rafiki foi o primeiro filme queniano exibido em Cannes e aborda com delicadeza questões profundas de quem vive na pele o preconceito: mulheres, negras, gays, vivendo em uma sociedade que aprova a violência e condena o amor. Participaram do debate Pamela Fonseca, Fabi Mansur (Pogo Filmes), e as cantoras Chris Melo e Noemi Carvalho (Duo Eu e Ela), que moram em BC e entrevistaram Dandara para o Página3 com Caroline Cezar.


Dandara entre Chris Melo e Noemi Carvalho (Duo Eu e Ela), na premiére de Rafiki em Balneário Camboriú, que teve debate e música ao vivo.

"Já estive na premiere em Floripa e depois fiquei pensando como é forte, pra mim, estar aqui, no mês de agosto falando sobre lesbianismo. Porque desde que estou em Floripa, sempre fui associada à causa, mas isso era mal resolvido na família, então eu dava um jeito de escapar, não participar das coisas... porque diziam 'cantora, lésbica, eu pensava, ai lésbica não, o que minha tia vai dizer...' Ficava me sentindo mal, porque gosto muito dela, e sei que ela não aceitava. Faz só dois anos que falei com ela abertamente. Talvez ano passado eu não teria aceitado vir, estaria em crise, mas foi tão natural, nem pensei sobre isso. Todo meu movimento de vir pro Sul, e de estar aqui falando é resistência, falar com a minha tia... uma liberação, há esperança. O medo é um tipo de cuidado, eu entendo, muitas vezes é nossa vida que está em jogo, só que a gente não pode deixar de ser quem é, precisamos arrumar estratégias, se fortalecer umas nas outras", contou Dandara.

Guilherme Meneghelli

Carol - Você tá numa fase boa, tipo lua cheia assim? Exuberante, apaixonada, realizada criativamente, com reconhecimento, sendo associada a causas super importantes no período político que a gente vive e que refletem tua vida pessoal mesmo, você sendo você mesmo e compartilhando isso com o mundo. É mesmo uma fase legal ou uma visão romântica?

Dandara - Acho que óóótima fase, pensando como artista independente e com todas as questões que me atravessam quanto à pessoa que eu sou, é quase utópico. Mas eu sou muito grata, to muito feliz, por onde eu cheguei, das pessoas que tenho encontrado no caminho, de como eu tenho me fortalecido, das pessoas que botam fé em mim e no meu trabalho…. então consciente de quem eu sou, enquanto mulher preta, lésbica e periférica, nesse contexto sim estou numa ótima fase porque muitas de nós estão morrendo, apanhando nesse exato momento, então sim, estou numa ótima fase, só que não aceitamos migalhas, então essa fase tem que melhorar pra todas nós. Estamos na luta, na batalha, música independente não é fácil, ainda mais nos tempos de hoje, falando sobre o que eu me proponho falar, discutir, trazer. Mas ao mesmo tempo sinto que tem espaços que abraçam, como o fato da gente estar aqui na estreia desse filme, politicamente importante, pro seu lugar, pro Brasil, que tem uma democracia falsa, é muito válido o ato de refletir sobre os nossos corpos, nossos direitos e nossa resistência.

Carol - Você acha que a tua expressão como artista vem amadurecendo devido ao teu trabalho interno, o desenrolar das tuas questões pessoais? Isso que você traz pro palco, essa coisa da mulher de luta, quanto você teve trabalhar dentro pra isso vir pra fora?

Dandara - Então, esse trabalho já tem um tempo e já estou numa fase de repensar… porque tem muita força no meu trabalho, eu me coloco assim mas ando num momento que percebo que até essa força é violenta, no sentido que a sociedade cobra que a mulher preta tem que estar nesse lugar, de ser muito forte, de muita luta. Tenho repensado, não no sentido de deslegitimar tudo isso que tenho feito, mas de entender outros lugares que a gente pode pensar nossa existência mesmo, acho que falar sobre afeto tem sido muito político, e tem sido muito importante, e a questão de autocuidado e tal. Estou pensando em outras coisas, tendo como base tudo isso que eu construí, que foi sim um descobrimento, de cura, de entender até o processo ancestral da minha família, por que essas mulheres sofreram tanto pra eu chegar aqui onde eu estou... e começando a olhar pra esse trabalho com outros olhos, entendendo a importância dele, to muito feliz com o que eu tenho produzido.

Duo - A gente conheceu sua arte ano passado, procurando artistas LGBT negras aqui no Sul, eu como mestiça me sinto muito bem representada e a Chris como negra, e acho interessante, que além de preta, lésbica, tem essa coisa de ser artista do Sul, você de Floripa, a gente de Curitiba, e agora em Balneário… Não tivemos muitas referências musicais aqui, quem está no centro oeste, norte, nordeste não vê que tem, acham que aqui é mais fácil, que a gente é privilegiado… já saí de todos movimentos possíveis, meu movimento hoje é a música, porque existe uma cobrança muito grande nesse sentido.

Dandara - Na verdade não nasci no sul né, nasci em Campinas, São Paulo, e há seis anos vim pra Floripa, e nasci aqui enquanto artista. Em qualquer lugar que eu vou é a Dandara de Floripa, e é a forma que eu me sinto representando mesmo, e acho muito importante que a cena daqui seja ressignificada e mudada, porque a gente tem alguns nomes de destaque, fazendo a mesma coisa há um tempo no sul, só que nem elas saem dessa barreira e o estouro que elas fazem também é num lugar restrito, homens brancos na maioria e tal… Penso que a gente tá num momento que as coisas tem mudado, aparece Mulamba, aparece Tuyo, vocês também, fiquei muito emocionada quando escutei vocês...e mostrando que existe representatividade no sul, acabar com essa ideia que aqui não tem música boa, que a gente não tá pensando, refletindo, trazendo pautas importantes. Fico até chateada que tem alguns editais que nos excluem mesmo, o Spotfy por exemplo, que abriu um edital para mulheres que estão começando na música, mas só pra Grande São Paulo, então sinto que a gente é geograficamente excluído e isso me dá uma agonia muito forte. E ainda tem o público que não nos abraça, porque não é interessante né, se a gente for ver resultado de eleições percebemos que o que estamos falando eles não querem muito ouvir. Parece que é uma tripla barreira, isso só musicalmente falando, pra além dos nossos corpos, quem somos o que a gente é. Acho que é muito importante nesse momento se encontrar, trocar ideia, se juntar, as pessoas artistas que conheço daqui tem essa abertura… mas acho que a gente que ainda não tanto destaque é dar as mãos e deixar essa cena forte.

Duo - É, nós nos apresentamos aqui desde janeiro do ano passado, e nossos temas, a gordofobia, o feminismo, parece que incomodam um pouco... eu falo mesmo porque não vou cantar pão com ovo vou cantar minha vivência né, e eles querem que toque o dia a dia que os barzinho tocam né… Mas pra mim já saturou, eu quero cantar minha arte, minha música autoral.

Dandara - Não é de hoje que as pessoas querem dizer o que a gente tem que fazer, acho que tem que continuar falando, cantando, expondo a realidade nas redes sociais, onde a gente sente que ganha visibilidade, tem gente apoiando. Mas é isso, não é fácil, nunca foi e ainda tá longe de ser.

Carol - Quando me refiro a ótima fase, é que ao mesmo que vivemos esse momento tragicômico na política, existe um movimento artístico, cultural que prospera no país, como se fosse um combustível, um propósito de expressão. Mas pra quem ainda tá no meio do caminho, qual tua dica pra manifestar essa arte?


Marissol Mwaba,François Mulekae Dandara: parceria forte.

Dandara - É (risos) as redes passam uma ideia que não é tão real, então eu vou falar pra quem tá no meio do caminho, mas eu nem sei se já cheguei lá nesse meio (risos), qualquer coisa se alguém tiver mais ali me fala (risos). Mas sim, acho que é botar a cara né, e se juntar. Porque quando cheguei em Floripa a pessoa que me abraçou foi um cara preto, o François, que inclusive recentemente, sofreu um episódio de racismo brutal em São Paulo onde tá morando. Eu seguia ele pela internet e pensava "nooossa, ele tá lá", e ele tava ali na esquina de casa, inclusive a gente morava na mesma rua e um dia ele começou a me chamar pros shows dele, conheci o Meneghelli, meus vídeos começaram a rolar na internet e aí tudo começou pra mim. Pra mim isso foi uma super lição de generosidade e do que a gente tem que fazer, que na verdade não é nada muito, é nós por nós, simplesmente isso. Sou eternamente grata ao François, não só ele, como outros artistas também, mas pra mim é emblemático por ser um cara negro que tá há tempo nessa batalha do autoral, enfim um artista incrível, cantor, compositor, instrumentista, artista visual… ele é f...uma inspiração. Minha única dica é falar "cês acham que eu tô em algum lugar? Eu tô aqui pra vocês, pra nós".

Carol - Esse lugar que eu falo de sucesso é do ponto de vista de fã, público, seguidora, que considera sucesso total essa expressão autêntica, verdadeira... Quando vi você pela primeira vez, com Marissol e François, chorei do princípio ao fim, foi muito impactante.

Dandara - É, realmente, não quero ser totalmente pessimista, existe uma realização pessoal, um sucesso interno gigante, porque às vezes eu fico pensando na Dandara que eu era, e nas coisas que eu almejava assim, bem pequenininhas, e sim, estou muito aquém daquele pouquinho que eu pensei. Só que é isso, a gente tá acostumada com pouco, tô olhando o mundo com outros olhos, de uma forma mais ampla, e quero mais sim, não no sentido super ambicioso, mas de mudar nosso lugar nessa história.

Duo - Você vive só da música?

Dandara - Tenho muito apoio, sempre tive, cheguei em Floripa já dentro da universidade, morei no estudantil, tive bolsa, tudo isso foi uma base pra eu ter o privilégio, entre muitas aspas, pra conseguir investir na música. Mas eu digo isso porque é muito louco, que a gente é tão atravessado de várias questões que a sociedade nos oprime, que a gente não consegue enxergar que tem gente muito pior. Na minha família acho que sou a única que entrou numa universidade pública, às vezes olho pra alguns irmãos, e vejo que estou em outro lugar. É importante a gente ter esse entendimento.


Carol - E foi a arte que levou pra esse lugar?

Dandara - Na verdade eu vim pra cantar. Entrar na universidade foi uma desculpa, porque em São Paulo eu trabalhava o dia inteiro num hotel, estudava à noite, era insano, não tinha tempo pra cantar. Eu tinha convicção que ia conseguir entrar na faculdade e ter tempo, meio relativo, pra olhar pra música, mas se seu tivesse naquela dinâmica de trabalhar o dia todo pra sustentar o estudo, impossível criar. Eu comecei a compor em Florianópolis, por isso que Dandara Manoela enquanto artista, nasceu ali… porque tive tempo pra refletir minha vivência, minha história, olhar pra minha própria história e criar, não coisas novas, mas criar em cima do que eu era.

Carol - Você canta desde sempre?

Dandara - Desde criança. Comecei a cantar na igreja.

Duo - Novas, eu também (risos).

Dandara - É a história de todo mundo né, igreja tem que servir pra alguma coisa (risos)... Canto desde os sete anos, e aí assisti aquele filme, Mudança de Hábito, com a Whoopy (Goldberg), e aí entendo a importância da representatividade, vi uma mulher negra regendo um coral, eu falei, cara é isso, vou ser cantora. Aos sete anos me vi num bom lugar pra além dos serviços domésticos, que é normalmente o que a gente vê nas novelas, e disse, é isso que vou ser.

Carol - E hoje taí sendo fonte.

Dandara - Tenho percebido por alguns retornos que parece que sim, acho isso muito massa.

Duo - Como você lida com esse papel, de ser fonte, de mudar a perspectiva das pessoas?

Dandara - Ah meu, fico grata, acho que cada vez tem que ter mais de nós fazendo isso... esses dias tava com umas crianças, uma menina de 13 anos, 'ah vou cantar pra vocês', e ficou cantando, perguntou como é no palco, acho bonito porque eu já vi tudo, dali a pouco ela vai estar muito pra além inspirando outras… Então não é individual né, não é egóico, não é sobre mim, "ai como é bom eu estar inspirando", não só na música, como em diversas outras áreas, vai ampliando a opção de estarmos ocupando lugares melhores na sociedade. Pra ficar cada vez melhor pros que vem depois. Eu ouço minha avó contando as histórias né, não consigo acreditar… nascemos em tempos melhores, apesar de ainda acontecerem coisas absurdas, mas é isso, sem migalhas e vamos pra luta.



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