Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
JP3 Entrevista: Fabrício Carpinejar defende o amor e fala sobre o futuro da literatura no Brasil

“Não existe espaço para melancolia no Instagram ou no Facebook”, diz o escritor

Sexta, 27/9/2019 17:47.
Fotos Renata Rutes

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Renata Rutes

O jornalista e escritor Fabrício Carpinejar, considerado um dos principais nomes da poesia contemporânea, premiado pelo Prêmio Jabuti e autor de mais de 40 livros esteve em Balneário Camboriú na noite de quinta-feira (26), no evento Balneário Trends, no Balneário Shopping. Ele falou sobre ‘EssênciaxAparência’, citando relacionamentos e defendendo a confiança e a singularidade. Grande defensor do amor monogâmico, Carpinejar tratou das relações atuais, salientando o quanto a internet pode ser perigosa para os casais. Antes de falar ao público, o escritor conversou com o Página 3. Confira.

JP3: Como você vê a questão da essência e da aparência com as redes sociais, a ida no Instagram...? Acha que isso tudo é uma ‘ilusão’?

Carpinejar: A gente parte do princípio de que a rede social é feita para mentir, e já é um erro. A gente perde a autenticidade, e é o que faz toda a diferença. A gente não vê como uma extensão da nossa vida e sim como ‘a outra vida’ em que temos que impressionar, agradar, tentar ser unânime. E isso só traz sofrimentos, e sofrimentos inimagináveis. Nunca houve tanta solidão e aliamento como nas redes sociais, porque você tenta ser algo que você não é. E não tem como sustentar essa farsa durante muito tempo. Você se quebra. Não existe espaço para melancolia no Instagram ou no Facebook, ou seja, você não é capaz de ser normal. Você vive numa ditadura da euforia, sempre rindo, sabe? Não tem nem como suportar mais fotos de pratos de comida (risos). A gente nunca posta foto do nosso strogonoff, é sempre aquele super prato preparado por algum chef; e a gente deixa de viver para alimentar essas ilusões. As pessoas preferem ir num show e filmar todo o show do que enxergar o show.

JP3: Como você analisa a questão dos relacionamentos hoje? Acha que o amor mudou?

Carpinejar: Eu acredito que o amor é feito pra discordância, para uma oposição divertida. Até um dos temas recentes, o PTinder (aplicativo para tentar unir casais esquerdistas), ou seja, pra tu se aproximar de alguém que tenha a mesma inclinação ideológica. E isso é um crime. Tu tem que, na verdade, amar para se ampliar, pela alteridade, pela diversidade, para pensar diferente. Tu sente igual, mas pensa diferente. O que está acontecendo no amor? A criação de redutos. Ou seja, tu não tem mais tempo a perder, então tu quer que a outra pessoa se encaixe perfeitamente nas suas afinidades. Isso é um erro. Tu quer que a outra pessoa não dê trabalho, e amor é ter trabalho. Amor é cansaço, amor é permutar, amor é se esforçar. Amor é você planejar algo e sair tudo errado e ter que planejar de novo. Isso é amor.

Carpinejar em Balneário Camboriú, foto Renata Rutes

JP3: Como você vê o contato dos jovens com a literatura hoje?

Carpinejar: Os jovens leem por paixão. Ou seja, se eles gostam de algum autor é cabo a rabo, se tornam estudiosos nesse autor. Compram tudo. Cada vez mais eu acho que a literatura será paixão. Eu não sei até que ponto isso pode nos favorecer ou não. Eu li muitos livros que eu não gostava e isso fez com que eu não fosse alienado. Se a gente vai ler apenas aquilo que a gente gosta, a gente vai se repetir e vai se empobrecer. Como eu gostava de ler algo que eu nunca iria ler na vida. Por isso que é tão importante esses clubes de livros, como a TAG. A TAG manda um livro que você não sabe o que é, e você de repente vai descobrir um autor que nunca iria comprar. Isso é importantíssimo. A partir da surpresa há uma reeducação emocional para o imprevisto.

JP3: E o seu futuro na literatura? Você pensa nisso?

Carpinejar: Bah, o meu futuro é queimar (risos). Acho que tudo vai pra fogueira. Mas assim, o que eu tento fazer é estabelecer empatia, me colocar no lugar do outro. Seja na questão dos pais mais velhos com ‘Cuide dos pais antes que seja tarde’, seja na questão do casamento, com ‘Minha esposa tem a senha do meu celular’. Eu tento me colocar cada vez mais no lugar do outro, estabelecer um espaço de diálogo. Ou seja, sair desse autocentramento, dessa megalomania, do egoísmo, de só querer ter razão. Razão não serve pra nada na vida. Razão só serve pra dividir e para brigar.

JP3: E o futuro da literatura no Brasil como você vê?

Carpinejar: Eu não consigo imaginar o futuro, porque a gente está lutando pra manter o presente. Eu acho que a gente tem que relocar uma importância na literatura infantil, na literatura infantojuvenil, na contação de histórias. A literatura infantojuvenil é pouco valorizada. Eu acho que a criança na medida que consegue organizar mentalmente as suas dificuldades numa história infantil isso faz com que a terapia também entre na literatura. Ou seja, você lê para se entender.


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Página 3
Fotos Renata Rutes

JP3 Entrevista: Fabrício Carpinejar defende o amor e fala sobre o futuro da literatura no Brasil

“Não existe espaço para melancolia no Instagram ou no Facebook”, diz o escritor

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Sexta, 27/9/2019 17:47.
Renata Rutes

O jornalista e escritor Fabrício Carpinejar, considerado um dos principais nomes da poesia contemporânea, premiado pelo Prêmio Jabuti e autor de mais de 40 livros esteve em Balneário Camboriú na noite de quinta-feira (26), no evento Balneário Trends, no Balneário Shopping. Ele falou sobre ‘EssênciaxAparência’, citando relacionamentos e defendendo a confiança e a singularidade. Grande defensor do amor monogâmico, Carpinejar tratou das relações atuais, salientando o quanto a internet pode ser perigosa para os casais. Antes de falar ao público, o escritor conversou com o Página 3. Confira.

JP3: Como você vê a questão da essência e da aparência com as redes sociais, a ida no Instagram...? Acha que isso tudo é uma ‘ilusão’?

Carpinejar: A gente parte do princípio de que a rede social é feita para mentir, e já é um erro. A gente perde a autenticidade, e é o que faz toda a diferença. A gente não vê como uma extensão da nossa vida e sim como ‘a outra vida’ em que temos que impressionar, agradar, tentar ser unânime. E isso só traz sofrimentos, e sofrimentos inimagináveis. Nunca houve tanta solidão e aliamento como nas redes sociais, porque você tenta ser algo que você não é. E não tem como sustentar essa farsa durante muito tempo. Você se quebra. Não existe espaço para melancolia no Instagram ou no Facebook, ou seja, você não é capaz de ser normal. Você vive numa ditadura da euforia, sempre rindo, sabe? Não tem nem como suportar mais fotos de pratos de comida (risos). A gente nunca posta foto do nosso strogonoff, é sempre aquele super prato preparado por algum chef; e a gente deixa de viver para alimentar essas ilusões. As pessoas preferem ir num show e filmar todo o show do que enxergar o show.

JP3: Como você analisa a questão dos relacionamentos hoje? Acha que o amor mudou?

Carpinejar: Eu acredito que o amor é feito pra discordância, para uma oposição divertida. Até um dos temas recentes, o PTinder (aplicativo para tentar unir casais esquerdistas), ou seja, pra tu se aproximar de alguém que tenha a mesma inclinação ideológica. E isso é um crime. Tu tem que, na verdade, amar para se ampliar, pela alteridade, pela diversidade, para pensar diferente. Tu sente igual, mas pensa diferente. O que está acontecendo no amor? A criação de redutos. Ou seja, tu não tem mais tempo a perder, então tu quer que a outra pessoa se encaixe perfeitamente nas suas afinidades. Isso é um erro. Tu quer que a outra pessoa não dê trabalho, e amor é ter trabalho. Amor é cansaço, amor é permutar, amor é se esforçar. Amor é você planejar algo e sair tudo errado e ter que planejar de novo. Isso é amor.

Carpinejar em Balneário Camboriú, foto Renata Rutes

JP3: Como você vê o contato dos jovens com a literatura hoje?

Carpinejar: Os jovens leem por paixão. Ou seja, se eles gostam de algum autor é cabo a rabo, se tornam estudiosos nesse autor. Compram tudo. Cada vez mais eu acho que a literatura será paixão. Eu não sei até que ponto isso pode nos favorecer ou não. Eu li muitos livros que eu não gostava e isso fez com que eu não fosse alienado. Se a gente vai ler apenas aquilo que a gente gosta, a gente vai se repetir e vai se empobrecer. Como eu gostava de ler algo que eu nunca iria ler na vida. Por isso que é tão importante esses clubes de livros, como a TAG. A TAG manda um livro que você não sabe o que é, e você de repente vai descobrir um autor que nunca iria comprar. Isso é importantíssimo. A partir da surpresa há uma reeducação emocional para o imprevisto.

JP3: E o seu futuro na literatura? Você pensa nisso?

Carpinejar: Bah, o meu futuro é queimar (risos). Acho que tudo vai pra fogueira. Mas assim, o que eu tento fazer é estabelecer empatia, me colocar no lugar do outro. Seja na questão dos pais mais velhos com ‘Cuide dos pais antes que seja tarde’, seja na questão do casamento, com ‘Minha esposa tem a senha do meu celular’. Eu tento me colocar cada vez mais no lugar do outro, estabelecer um espaço de diálogo. Ou seja, sair desse autocentramento, dessa megalomania, do egoísmo, de só querer ter razão. Razão não serve pra nada na vida. Razão só serve pra dividir e para brigar.

JP3: E o futuro da literatura no Brasil como você vê?

Carpinejar: Eu não consigo imaginar o futuro, porque a gente está lutando pra manter o presente. Eu acho que a gente tem que relocar uma importância na literatura infantil, na literatura infantojuvenil, na contação de histórias. A literatura infantojuvenil é pouco valorizada. Eu acho que a criança na medida que consegue organizar mentalmente as suas dificuldades numa história infantil isso faz com que a terapia também entre na literatura. Ou seja, você lê para se entender.


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