Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Entrevista
Pastor Valdim se despede de Balneário Camboriú e da comunidade que liderou por quase 30 anos

Quinta, 13/2/2020 15:02.
Foto: Marlise Schneider Cezar
"Termina um ciclo, mas não termina a vida", diz Pastor Valdim

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Por Marlise Schneider Cezar

Com 38 anos de ministério, 33 de ordenação e 63 de idade, pastor Valdim Utech está deixando a comunidade da igreja luterana Martin Luther, que liderou por quase três décadas. No domingo, 9 de fevereiro, ele realizou seu último culto naquela igreja que ajudou a construir ao longo destes anos, incentivando e liderando campanhas para concluir o templo que hoje tornou-se um marco turístico da cidade. Líder humanista desenvolveu atividades e campanhas para ajudar famílias e instituições necessitadas. Sempre preocupou-se em participar da vida comunitária da cidade, abriu espaço para cultura, música, educação, palestras e cursos e foi um dos líderes do Movimento pela Universidade Pública (Movup), que trouxe um braço da Udesc para Balneário Camboriú, que hoje já tem um campus no Bairro Nova Esperança.O compromisso com a comunidade de Balneário Camboriú encerra no próximo dia 29 e até lá, estará fazendo a transição para a nova morada, que será em Blumenau.Casado com a educadora Annemarie Liesenberg Utech, o casal tem três filhos, Mateus, Camila e Lucas; a nora Flora Wegner e duas netas, Sarah e Olívia.


Foto: Arquivo Pessoal

2016: O casal com os filhos Lucas, Camila, Flora (com a neta Sarah), Mateus e os pais Traudy e Bruno (ele falecido em 2016)


“Preciso agora de um ano sabático depois de praticamente 40 anos de ministério vou dar uma parada, fazer outras coisas, quem sabe fazer hortas, cuidar de bichos, ir para o mato, e depois ver o que vamos fazer mais adiante. Pode ser que surja ainda um trabalho mais ativo dentro da igreja em algum outro lugar. Se novos desafios vierem vamos encará-los”, disse Valdim ao Página3.

Acompanhe a entrevista:

JP3 - Em agosto de 2016 o sr. disse em uma entrevista ao Página 3, falando sobre planos para o futuro, ‘vou continuar a apascentar as ovelhas até a aposentadoria’. Essa hora chegou?

R - Olha, ela está às portas e antes de uma aposentadoria definitiva, preciso tomar algumas decisões que envolvem meu trabalho, minha família e que envolvem perspectivas de futuro, porque não pode parar de pensar no futuro. Mas uma aposentadoria como tal, ela já se deslumbra aí no horizonte, porque nós pastores temos um limite de idade para estarmos na atividade, que é quando completamos 68 anos. Eu já completei 63, esse limite não está muito longe.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Em agosto de 2016, Pastor Sinodal Breno Willrich homenageando 34 anos de ministério, 30 de ordenação e 25 anos de pastorado do Pastor Valdim


JP3 - Uma vez o sr. disse que não estava em seus planos vir para Balneário Camboriú, que não era seu perfil, mas foi o escolhido entre 17 candidatos e veio. Ficou 28 anos. Se adaptou ao perfil da cidade?

R - Aconteceram uma série de fatores. A comunidade é diferente de tantas outras do Brasil afora, porque ela não é estática, ela é muito dinâmica, o fluxo de pessoas que vem para cidade de um modo geral, também reflete dentro da igreja. Também na nossa. Então você sempre está lidando com parte de uma população nova, membros novos, pessoas que começam a frequentar a igreja e de repente somem sem dizer um tchau...isso foi criando uma dinâmica que possibilitou que fomos recriando a igreja, quer dizer, não chegamos em 5, 8, 10 anos de pastorado para dizer, bom agora deu, é hora de ir embora...nós pastores passamos por avaliações periódicas…

JP3 - ...e a comunidade sempre dizendo fica!

R - ...e eu respondendo bom, quando vocês acharem que devo ir eu vou...e eu fiquei.

JP3 - Mas isso é bom para uma comunidade. Ou não?

R - São algumas experiências feitas dentro da igreja que a gente está compartilhando internamente, porque num período de 28 para 29 anos já, você entra na vida das pessoas, muitas vezes no nascimento, depois confirmação, outras vezes, no casamento, imagina quantos sepultamentos fiz aqui, acompanhando as famílias enlutadas, problemas familiares, diálogos, conversas, então pastoralmente a gente tem uma bagagem enorme de conhecimento, de compartilhamento da vida das pessoas e isso certamente cria uma relação muito forte.

JP3 - Desde que chegou acompanhou muitas fases de grandes mudanças na cidade. A principal talvez seja o crescimento populacional, o adensamento da cidade. Em 1991 eram 40 mil moradores hoje são 140 mil…

R - O que mais me impressionou não é só uma questão que parte do meu pensamento como atuante em igreja, mas de uma forma geral na sociedade, à medida que a cidade foi crescendo em todos os sentidos, é como se fala na economia, que é a interação de todos os elementos de uma sociedade, que resultam em uma economia que se apresenta de uma forma ou de outra. A economia aqui como está é positiva, mas o que me chama atenção, talvez não seja um fenômeno só da nossa cidade, mas até mundial, não sei... os tempos modernos que vivemos, mas o sentimento é de que a gente vai perdendo a proximidade das pessoas, a intimidade das pessoas, as pessoas se afastam, se isolam cada vez mais, por exemplo, muitos nem querem uma visita pastoral, dizem não precisa, pode ser outro dia...isso é um reflexo dos tempos de hoje e isso me chama mais atenção.


Foto: Ottokar Hagemann

31/10/2017 - Câmara de Vereadores em sessão solene pelos 500 anos da Reforma de Lutero. Na foto, Frei Ladi Antoniazzi (pároco da Igreja Católica), Vereador André Meirinho (autor do projeto), Pastor Ezequiel (IELB) e Pastor Valdim(IECLB).


JP3 - Mais ainda em uma cidade como Balneário Camboriú que tem alta rotatividade…

R - ...sim pelo que a gente percebe claramente em uma igreja como a nossa, que tem em torno de duas mil pessoas batizadas, tem um grande número de afastados, um dia alguns reaparecem, e outras pessoas vão chegando. Imagino que o Brasil ainda é um país de um povo que migra em busca de novas oportunidades, melhores condições de vida, é um país que se movimenta muito, é um fenômeno muito forte em nossa região e que afeta toda essa área aqui.

JP3 - Esse crescimento também aconteceu na comunidade que o sr. liderou por quase três décadas. Quais foram as principais mudanças que percebeu ali.

R - A comunidade deixou de ser um pequeno agrupamento de pessoas que se reunia em torno de uma causa específica, o Evangelho, criando pequenos grupos de confraternização, trabalho e estudos, para de repente se ver diante de um mar de situações, de oportunidades de grupos que gostariam de se reunir, de outros que conseguem fazer isso e a gente está no meio disso tudo tentando administrar, buscando fortalecer, levar para esses grupos de trabalho os conteúdos, fazer com que pensem, reflitam, leiam, cantem, orem. Os cultos precisam ser melhorados, tornar-se mais dinâmicos dentro das exigências do tempo que vivemos, precisamos cada vez mais de gente voluntariosa, que se engaje nas questões e principalmente aquela ideia de sermos uma igreja que olha para além dos seus próprios muros, que olha para aqueles que estão mais adiante e de repente esperam algo da gente, de pessoas cristãs, inseridas neste mundo que precisam deixar o seu sinal de amor.

JP3 - De um modo geral fica a impressão que as igrejas estão envelhecendo e com grande dificuldade de trazer o jovem, porque ele tem muitas opções. Esse mundo tecnológico que o jovem vive no dia a dia, parece que tudo se concentra dentro desse ambiente, dentro do seu celular, o sr. sente isso?

R - No nosso tipo de igreja tem claramente essa realidade e essa dificuldade. Os jovens são como nós fomos, como nossos pais foram, com ideias, sonhos, possibilidades, mas posso estar muito equivocado, salvo exceções, mas o jovem hoje tem menos garra, menos vontade de descobrir os novos mundos, porque ele acredita que já os descobriu, que já os conhece, porque tudo está ao seu alcance e está mesmo, mas pela experiência dos outros. O mundo está ao meu alcance pela experiência que o outro teve e está me mostrando.. essa é sempre a nossa discussão com os jovens...vocês precisam ser agentes transformadores da sua própria vida, explorar esse mundo, ver os potenciais, fazer cursos, porque não ir para outro país, intercambio, aprender coisas novas, mas há uma certa anestesia desse movimento, salvo exceções, porque tem aqueles que se arriscam e vão mesmo...então é uma grande dificuldade para se lidar.

JP3 - Hoje ninguém mais consegue viver sem a tecnologia, ela é uma contribuição essencial, importante, mas também traz coisas negativas, acomodação, isolamento, tem um lado meio perverso nessa modernidade…

R - Também não sei até que ponto isso não é alimentado... Porque quanto mais alienado da realidade propriamente dita, do pão de cada dia, melhor para governos estabelecidos, melhor para aqueles que querem se aproveitar do próximo, quanto menos movimentação tiver, menos organização do povo tiver, melhor para o status quo que está aí, que vai avançando da melhor maneira possível. Acho que a tecnologia na qual a gente se insere, eu que estou indo para terceira idade, vejo que preciso me esforçar muito para poder acompanhar todas as questões e estou indo bem, daqui uns dias não sei...mas todos vamos envelhecendo, mesmo aqueles que já nascem dentro da tecnologia, vão ter mais dificuldades sim, principalmente no sentido relacional.

JP3 - A igreja está conseguindo correr junto nessa evolução tecnológica...

R - Quando iniciei meu ministério na década de 80 havia no Brasil uma onda migratória para as novas áreas de colonização, significava que o povo estava indo do sul para o Mato Grosso, depois Mato Grosso do norte, depois Amazônia em geral, Rondônia, Espírito Santo e assim por diante, nessa corrida a gente estava envolvido, enviando pastores e missionários na linha de frente, organizando essas famílias e tudo mais. Uma coisa bem parecida estamos vivendo hoje, só que de uma forma bem mais dramática, bem mais difícil, porque hoje não é uma família que se desloca para uma novidade, para um novo tempo de vida, hoje é cada indivíduo daquela família, do seu jeito, para um lugar que ele está escolhendo com os seus aparatos tecnológicos, já não há mais nenhuma união familiar e fica difícil para a igreja sim acompanhar tudo isso.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Agosto de 2018, Integrantes do Movup em audiência pública na igreja luterana: início de um novo movimento para trazer um curso (Belas Artes) da UFSC para a região.


JP3 - Nesses quase 30 anos o sr. foi uma forte liderança, sempre abriu as portas para cultura, educação, a igreja fornecendo cestas básicas, acompanhou a luta para trazer a Udesc para Balneário Camboriú, aliás é o vice-presidente do Movup até hoje...tem todo um histórico de liderança dentro e também fora da comunidade, é um perfil seu...

R - Talvez seja de fato um perfil, uma necessidade, uma visão que a igreja não pode estar totalmente fechada em si mesma, precisa olhar para fora, se tivéssemos mais gente fazendo isso, talvez teríamos um município bem mais agitado, movimentado culturalmente, onde pudéssemos nos desenvolver mais. Com o tempo isso ficou mais complicado, hoje existem pequenos nichos, onde até para atender famílias carentes é uma dificuldade, se põe dificuldades... mas vamos fazendo a nossa parte para minimizar um pouquinho o sofrimento alheio.

JP3 - O cenário religioso parece um tanto desvirtuado no Brasil. Tem religiosos corrompidos pelo dinheiro, pelo poder, e tudo sempre em nome de Deus, de Jesus, a igreja vai se tornando um negócio em nome de Deus para essa gente? Um trampolim para se dar bem na política?

R - Se olharmos para os primórdios da igreja cristã, veremos que ela surge com muita dificuldade, muito sofrimento, muita morte, muitos mártires, mas ela resistiu, esteve por um fio algumas vezes, foi se desenvolvendo, tanto que nos 2 mil e tantos anos depois de Cristo somos cristãos, andamos nessa fé, que muitas vezes é um mistério, mas ela nos movimenta, nos leva para a igreja, nos leva a orar, a confiar em Deus, que Deus age em nossas vidas. É claro que já no tempo de Jesus havia os espertalhões, agindo..também existem hoje, gente que vê na simplicidade da fé do povo uma forma de tirar dinheiro, ganhar dinheiro, fazendo promessas de curas, milagres, de uma forma que sabemos que não vai trazer esses resultados, mas o desespero da doença, da fome, do desemprego, a ganância, olho grande leva as pessoas a procurar esses charlatões e eles estão se fazendo, tem mega pastores neste Brasil afora que, no meu entender, são usurpadores da palavra de Deus, estão no caminho equivocado.

JP3 - O sr. gostou de morar aqui?

R - Sim, mas já gostava mais. Hoje a locomoção ficou bastante complicada por vários fatores que a gente entende. Quando meus filhos eram pequenos, eu podia andar com eles na garupa pelas ruas, praia e hoje já não me arrisco a fazer isso com minhas netas, mas claro que a cidade cresceu muito numericamente, verticalmente, dificultou uma série de situações, mas é uma cidade boa de viver, tanto que muita gente a escolhe. Há um risco aqui do isolamento, esta cidade tem milhares de pessoas isoladas em seus apartamentos, que não tem ninguém, não convivem, não estão em nenhuma igreja, em nenhum clube, nenhum grupo, é algo para se preocupar também com esta situação de risco. Ao mesmo tempo que a cidade é glamourosa ela também tem seus becos obscuros que a gente precisa revitalizar, mas é bom sim viver aqui.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Com a esposa Annemarie e o filho caçula Lucas na despedida da comunidade.


JP3 - Gostaria de deixar alguma mensagem?

R - Eu gostaria que constasse uma palavra de gratidão, muitas famílias com as quais convivemos, relacionamentos de amizade, não estou só pensando nas pessoas da comunidade, mas de uma forma geral com quem a gente pôde trocar tempo de vida isso foi, é e sempre será importante e muito lembrado por nós. Termina um ciclo, mas não termina a vida. A gente vai continuar por perto e Balneário Camboriú é um lugar de se visitar constantemente, estaremos circulando por aqui, temos filhos morando aqui. Mas essa palavra de gratidão que queria deixar por tantas oportunidades que eu tive, que minha família teve, sempre fomos tratados com muito carinho, muito cuidado, muito zelo, sempre nos sentimos amparados de todos os lados, nunca nos faltou nada, sempre pudemos transitar livremente, visitar pessoas e famílias, e fazer as coisas que mais gostávamos que era justamente nos dedicar às questões da palavra de Deus para a vivência da fé.



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Página 3
Foto: Marlise Schneider Cezar
"Termina um ciclo, mas não termina a vida", diz Pastor Valdim

Pastor Valdim se despede de Balneário Camboriú e da comunidade que liderou por quase 30 anos

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Quinta, 13/2/2020 15:02.
Por Marlise Schneider Cezar

Com 38 anos de ministério, 33 de ordenação e 63 de idade, pastor Valdim Utech está deixando a comunidade da igreja luterana Martin Luther, que liderou por quase três décadas. No domingo, 9 de fevereiro, ele realizou seu último culto naquela igreja que ajudou a construir ao longo destes anos, incentivando e liderando campanhas para concluir o templo que hoje tornou-se um marco turístico da cidade. Líder humanista desenvolveu atividades e campanhas para ajudar famílias e instituições necessitadas. Sempre preocupou-se em participar da vida comunitária da cidade, abriu espaço para cultura, música, educação, palestras e cursos e foi um dos líderes do Movimento pela Universidade Pública (Movup), que trouxe um braço da Udesc para Balneário Camboriú, que hoje já tem um campus no Bairro Nova Esperança.O compromisso com a comunidade de Balneário Camboriú encerra no próximo dia 29 e até lá, estará fazendo a transição para a nova morada, que será em Blumenau.Casado com a educadora Annemarie Liesenberg Utech, o casal tem três filhos, Mateus, Camila e Lucas; a nora Flora Wegner e duas netas, Sarah e Olívia.


Foto: Arquivo Pessoal

2016: O casal com os filhos Lucas, Camila, Flora (com a neta Sarah), Mateus e os pais Traudy e Bruno (ele falecido em 2016)


“Preciso agora de um ano sabático depois de praticamente 40 anos de ministério vou dar uma parada, fazer outras coisas, quem sabe fazer hortas, cuidar de bichos, ir para o mato, e depois ver o que vamos fazer mais adiante. Pode ser que surja ainda um trabalho mais ativo dentro da igreja em algum outro lugar. Se novos desafios vierem vamos encará-los”, disse Valdim ao Página3.

Acompanhe a entrevista:

JP3 - Em agosto de 2016 o sr. disse em uma entrevista ao Página 3, falando sobre planos para o futuro, ‘vou continuar a apascentar as ovelhas até a aposentadoria’. Essa hora chegou?

R - Olha, ela está às portas e antes de uma aposentadoria definitiva, preciso tomar algumas decisões que envolvem meu trabalho, minha família e que envolvem perspectivas de futuro, porque não pode parar de pensar no futuro. Mas uma aposentadoria como tal, ela já se deslumbra aí no horizonte, porque nós pastores temos um limite de idade para estarmos na atividade, que é quando completamos 68 anos. Eu já completei 63, esse limite não está muito longe.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Em agosto de 2016, Pastor Sinodal Breno Willrich homenageando 34 anos de ministério, 30 de ordenação e 25 anos de pastorado do Pastor Valdim


JP3 - Uma vez o sr. disse que não estava em seus planos vir para Balneário Camboriú, que não era seu perfil, mas foi o escolhido entre 17 candidatos e veio. Ficou 28 anos. Se adaptou ao perfil da cidade?

R - Aconteceram uma série de fatores. A comunidade é diferente de tantas outras do Brasil afora, porque ela não é estática, ela é muito dinâmica, o fluxo de pessoas que vem para cidade de um modo geral, também reflete dentro da igreja. Também na nossa. Então você sempre está lidando com parte de uma população nova, membros novos, pessoas que começam a frequentar a igreja e de repente somem sem dizer um tchau...isso foi criando uma dinâmica que possibilitou que fomos recriando a igreja, quer dizer, não chegamos em 5, 8, 10 anos de pastorado para dizer, bom agora deu, é hora de ir embora...nós pastores passamos por avaliações periódicas…

JP3 - ...e a comunidade sempre dizendo fica!

R - ...e eu respondendo bom, quando vocês acharem que devo ir eu vou...e eu fiquei.

JP3 - Mas isso é bom para uma comunidade. Ou não?

R - São algumas experiências feitas dentro da igreja que a gente está compartilhando internamente, porque num período de 28 para 29 anos já, você entra na vida das pessoas, muitas vezes no nascimento, depois confirmação, outras vezes, no casamento, imagina quantos sepultamentos fiz aqui, acompanhando as famílias enlutadas, problemas familiares, diálogos, conversas, então pastoralmente a gente tem uma bagagem enorme de conhecimento, de compartilhamento da vida das pessoas e isso certamente cria uma relação muito forte.

JP3 - Desde que chegou acompanhou muitas fases de grandes mudanças na cidade. A principal talvez seja o crescimento populacional, o adensamento da cidade. Em 1991 eram 40 mil moradores hoje são 140 mil…

R - O que mais me impressionou não é só uma questão que parte do meu pensamento como atuante em igreja, mas de uma forma geral na sociedade, à medida que a cidade foi crescendo em todos os sentidos, é como se fala na economia, que é a interação de todos os elementos de uma sociedade, que resultam em uma economia que se apresenta de uma forma ou de outra. A economia aqui como está é positiva, mas o que me chama atenção, talvez não seja um fenômeno só da nossa cidade, mas até mundial, não sei... os tempos modernos que vivemos, mas o sentimento é de que a gente vai perdendo a proximidade das pessoas, a intimidade das pessoas, as pessoas se afastam, se isolam cada vez mais, por exemplo, muitos nem querem uma visita pastoral, dizem não precisa, pode ser outro dia...isso é um reflexo dos tempos de hoje e isso me chama mais atenção.


Foto: Ottokar Hagemann

31/10/2017 - Câmara de Vereadores em sessão solene pelos 500 anos da Reforma de Lutero. Na foto, Frei Ladi Antoniazzi (pároco da Igreja Católica), Vereador André Meirinho (autor do projeto), Pastor Ezequiel (IELB) e Pastor Valdim(IECLB).


JP3 - Mais ainda em uma cidade como Balneário Camboriú que tem alta rotatividade…

R - ...sim pelo que a gente percebe claramente em uma igreja como a nossa, que tem em torno de duas mil pessoas batizadas, tem um grande número de afastados, um dia alguns reaparecem, e outras pessoas vão chegando. Imagino que o Brasil ainda é um país de um povo que migra em busca de novas oportunidades, melhores condições de vida, é um país que se movimenta muito, é um fenômeno muito forte em nossa região e que afeta toda essa área aqui.

JP3 - Esse crescimento também aconteceu na comunidade que o sr. liderou por quase três décadas. Quais foram as principais mudanças que percebeu ali.

R - A comunidade deixou de ser um pequeno agrupamento de pessoas que se reunia em torno de uma causa específica, o Evangelho, criando pequenos grupos de confraternização, trabalho e estudos, para de repente se ver diante de um mar de situações, de oportunidades de grupos que gostariam de se reunir, de outros que conseguem fazer isso e a gente está no meio disso tudo tentando administrar, buscando fortalecer, levar para esses grupos de trabalho os conteúdos, fazer com que pensem, reflitam, leiam, cantem, orem. Os cultos precisam ser melhorados, tornar-se mais dinâmicos dentro das exigências do tempo que vivemos, precisamos cada vez mais de gente voluntariosa, que se engaje nas questões e principalmente aquela ideia de sermos uma igreja que olha para além dos seus próprios muros, que olha para aqueles que estão mais adiante e de repente esperam algo da gente, de pessoas cristãs, inseridas neste mundo que precisam deixar o seu sinal de amor.

JP3 - De um modo geral fica a impressão que as igrejas estão envelhecendo e com grande dificuldade de trazer o jovem, porque ele tem muitas opções. Esse mundo tecnológico que o jovem vive no dia a dia, parece que tudo se concentra dentro desse ambiente, dentro do seu celular, o sr. sente isso?

R - No nosso tipo de igreja tem claramente essa realidade e essa dificuldade. Os jovens são como nós fomos, como nossos pais foram, com ideias, sonhos, possibilidades, mas posso estar muito equivocado, salvo exceções, mas o jovem hoje tem menos garra, menos vontade de descobrir os novos mundos, porque ele acredita que já os descobriu, que já os conhece, porque tudo está ao seu alcance e está mesmo, mas pela experiência dos outros. O mundo está ao meu alcance pela experiência que o outro teve e está me mostrando.. essa é sempre a nossa discussão com os jovens...vocês precisam ser agentes transformadores da sua própria vida, explorar esse mundo, ver os potenciais, fazer cursos, porque não ir para outro país, intercambio, aprender coisas novas, mas há uma certa anestesia desse movimento, salvo exceções, porque tem aqueles que se arriscam e vão mesmo...então é uma grande dificuldade para se lidar.

JP3 - Hoje ninguém mais consegue viver sem a tecnologia, ela é uma contribuição essencial, importante, mas também traz coisas negativas, acomodação, isolamento, tem um lado meio perverso nessa modernidade…

R - Também não sei até que ponto isso não é alimentado... Porque quanto mais alienado da realidade propriamente dita, do pão de cada dia, melhor para governos estabelecidos, melhor para aqueles que querem se aproveitar do próximo, quanto menos movimentação tiver, menos organização do povo tiver, melhor para o status quo que está aí, que vai avançando da melhor maneira possível. Acho que a tecnologia na qual a gente se insere, eu que estou indo para terceira idade, vejo que preciso me esforçar muito para poder acompanhar todas as questões e estou indo bem, daqui uns dias não sei...mas todos vamos envelhecendo, mesmo aqueles que já nascem dentro da tecnologia, vão ter mais dificuldades sim, principalmente no sentido relacional.

JP3 - A igreja está conseguindo correr junto nessa evolução tecnológica...

R - Quando iniciei meu ministério na década de 80 havia no Brasil uma onda migratória para as novas áreas de colonização, significava que o povo estava indo do sul para o Mato Grosso, depois Mato Grosso do norte, depois Amazônia em geral, Rondônia, Espírito Santo e assim por diante, nessa corrida a gente estava envolvido, enviando pastores e missionários na linha de frente, organizando essas famílias e tudo mais. Uma coisa bem parecida estamos vivendo hoje, só que de uma forma bem mais dramática, bem mais difícil, porque hoje não é uma família que se desloca para uma novidade, para um novo tempo de vida, hoje é cada indivíduo daquela família, do seu jeito, para um lugar que ele está escolhendo com os seus aparatos tecnológicos, já não há mais nenhuma união familiar e fica difícil para a igreja sim acompanhar tudo isso.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Agosto de 2018, Integrantes do Movup em audiência pública na igreja luterana: início de um novo movimento para trazer um curso (Belas Artes) da UFSC para a região.


JP3 - Nesses quase 30 anos o sr. foi uma forte liderança, sempre abriu as portas para cultura, educação, a igreja fornecendo cestas básicas, acompanhou a luta para trazer a Udesc para Balneário Camboriú, aliás é o vice-presidente do Movup até hoje...tem todo um histórico de liderança dentro e também fora da comunidade, é um perfil seu...

R - Talvez seja de fato um perfil, uma necessidade, uma visão que a igreja não pode estar totalmente fechada em si mesma, precisa olhar para fora, se tivéssemos mais gente fazendo isso, talvez teríamos um município bem mais agitado, movimentado culturalmente, onde pudéssemos nos desenvolver mais. Com o tempo isso ficou mais complicado, hoje existem pequenos nichos, onde até para atender famílias carentes é uma dificuldade, se põe dificuldades... mas vamos fazendo a nossa parte para minimizar um pouquinho o sofrimento alheio.

JP3 - O cenário religioso parece um tanto desvirtuado no Brasil. Tem religiosos corrompidos pelo dinheiro, pelo poder, e tudo sempre em nome de Deus, de Jesus, a igreja vai se tornando um negócio em nome de Deus para essa gente? Um trampolim para se dar bem na política?

R - Se olharmos para os primórdios da igreja cristã, veremos que ela surge com muita dificuldade, muito sofrimento, muita morte, muitos mártires, mas ela resistiu, esteve por um fio algumas vezes, foi se desenvolvendo, tanto que nos 2 mil e tantos anos depois de Cristo somos cristãos, andamos nessa fé, que muitas vezes é um mistério, mas ela nos movimenta, nos leva para a igreja, nos leva a orar, a confiar em Deus, que Deus age em nossas vidas. É claro que já no tempo de Jesus havia os espertalhões, agindo..também existem hoje, gente que vê na simplicidade da fé do povo uma forma de tirar dinheiro, ganhar dinheiro, fazendo promessas de curas, milagres, de uma forma que sabemos que não vai trazer esses resultados, mas o desespero da doença, da fome, do desemprego, a ganância, olho grande leva as pessoas a procurar esses charlatões e eles estão se fazendo, tem mega pastores neste Brasil afora que, no meu entender, são usurpadores da palavra de Deus, estão no caminho equivocado.

JP3 - O sr. gostou de morar aqui?

R - Sim, mas já gostava mais. Hoje a locomoção ficou bastante complicada por vários fatores que a gente entende. Quando meus filhos eram pequenos, eu podia andar com eles na garupa pelas ruas, praia e hoje já não me arrisco a fazer isso com minhas netas, mas claro que a cidade cresceu muito numericamente, verticalmente, dificultou uma série de situações, mas é uma cidade boa de viver, tanto que muita gente a escolhe. Há um risco aqui do isolamento, esta cidade tem milhares de pessoas isoladas em seus apartamentos, que não tem ninguém, não convivem, não estão em nenhuma igreja, em nenhum clube, nenhum grupo, é algo para se preocupar também com esta situação de risco. Ao mesmo tempo que a cidade é glamourosa ela também tem seus becos obscuros que a gente precisa revitalizar, mas é bom sim viver aqui.


Foto: Marlise Schneider Cezar

Com a esposa Annemarie e o filho caçula Lucas na despedida da comunidade.


JP3 - Gostaria de deixar alguma mensagem?

R - Eu gostaria que constasse uma palavra de gratidão, muitas famílias com as quais convivemos, relacionamentos de amizade, não estou só pensando nas pessoas da comunidade, mas de uma forma geral com quem a gente pôde trocar tempo de vida isso foi, é e sempre será importante e muito lembrado por nós. Termina um ciclo, mas não termina a vida. A gente vai continuar por perto e Balneário Camboriú é um lugar de se visitar constantemente, estaremos circulando por aqui, temos filhos morando aqui. Mas essa palavra de gratidão que queria deixar por tantas oportunidades que eu tive, que minha família teve, sempre fomos tratados com muito carinho, muito cuidado, muito zelo, sempre nos sentimos amparados de todos os lados, nunca nos faltou nada, sempre pudemos transitar livremente, visitar pessoas e famílias, e fazer as coisas que mais gostávamos que era justamente nos dedicar às questões da palavra de Deus para a vivência da fé.



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