Jornal Página 3
Rumo a Poconé: distante 2.000 km de Balneário Camboriú

Por Waldemar Cezar Neto

“Vai até o apartamento 403 porque tem um sapo em cima da pia”.

O aviso foi passado pelo rádio, a forma como se comunicam diversos dos quase 200 empregados do hotel Sesc Porto Cercado, em Poconé, uma das portas de entrada do pantanal Mato-Grossense.

O local realmente tem muitos sapos... além de jacarés, veados, capivaras, iguanas, tatus e uma infinidade de aves multicoloridas.

No começo de maio eu estava ali porque ganhei, no final do ano passado, o 3º Prêmio Sincomércio de Jornalismo, na categoria melhor reportagem, recebendo um passeio ao hotel do Sesc no Pantanal para mim e minha acompanhante.

Antes de embarcarmos o pessoal do Sincomércio de Balneário Camboriú me pediu uma foto- para ilustrar a edição de 2017 do prêmio- e eu prometi que em vez disso faria uma reportagem, promessa que estou pagando agora.

Não conhecia o Pantanal, pousei duas vezes em aeroportos da região nas pescarias amazônicas, mas sabia da fama do calor e dos mosquitos.

Quando viajo para aqueles lados gosto de repetir a infame piada: “Sabe qual a diferença entre Cuiabá e o inferno? No inferno não tem mosquitos”.

O calor estava lá, sempre em torno dos 33 graus, mas mosquitos havia poucos. Me disseram que na época das chuvas eles atacam em esquadrilhas -os livros definem como diluvianas essas chuvas que ocorrem entre novembro e fevereiro.

A viagem de Balneário até Porto Cercado é tão desconfortável quanto qualquer outra do Sul para o Norte, não há voos diretos. É preciso pingar de Navegantes a São Paulo e dali a Cuiabá, com direito a ser assaltado nos caixas de todas as lanchonetes dos aeroportos.

O trecho final, entre o aeroporto de Cuiabá e o hotel, feito por vans, demora menos de duas horas, em estrada asfaltada.

O hotel faz parte de um conjunto de iniciativas socioambientais do Serviço Social do Comércio (SESC) que criaram a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Brasil, com 107.996 hectares. Isso equivale a 21 vezes o município de Balneário Camboriú.

O empreendimento é composto pela base administrativa (que fica em Várzea Grande, ao lado da capital, Cuiabá); o hotel; a RPPN; o Centro de Atividades de Poconé; o Parque Baía das Pedras (próximo ao hotel) e o Serra Azul, um hotel ecológico que nunca saiu do papel.

Não consegui esclarecer nem entender o motivo de uma associação do comércio comprar tantas terras alagáveis, antigas fazendas, para implantar uma reserva e hotéis ecológicos tão distantes.

Aquisição mais recente e menor, também no Mato Grosso, para construir o Refúgio Ecológico Sesc Serra Azul, foi alvo de acusações de superfaturamento.

Quem comprou a terra, Pedro Nadaf, ex-presidente da Fecomércio do Mato Grosso, acabou na cadeia por suposta corrupção quando exerceu a função de secretário de Estado de Indústria, Comércio, Minas, Energia e Casa Civil do Estado.

Independente dos motivos que levaram à criação da RPPN a verdade é que ela existe e se tornou importante principalmente para a pequena Poconé, 32 mil habitantes, distante 40 Km do hotel e onde mora a maioria dos seus empregados que vão e voltam diariamente com transporte pago pela empresa.

Poconé não seria tão importante mundialmente se ali não nascesse a Transpantaneira, estrada com apenas 150 Km que liga os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Quem já passou por ela, quando as áreas alagadas permitem, conta que é uma experiência inesquecível por causa da fauna.

Nesta pequena cidade, com 240 anos de história por causa do ouro, município desde 1831, o Sesc tem o Centro de Atividades de Poconé, uma unidade com oito salas de aulas para ensino fundamental e infantil, cinema, odontoclínica, áreas para esportes, cursos de culinária etc.

Sim, crisálidas, você já vai saber o motivo.

Hotel comum num ambiente incomum

O motorista da van nos ensinou que o nome Porto Cercado decorre do fato que o lugar era -e continua sendo- cercado por água.

O Rio Cuiabá passa acelerado ao lado do hotel nesta época de vazante e as atividades em suas águas constituem algumas das principais atrações para os hóspedes.

Me disseram que foi um porto porque na antigas descobriram que levar cimento para Cuiabá por ali era mais rápido e barato do que outras opções de transporte usadas até então.

As diárias para casal ficam na faixa de R$ 600,00 com todas as refeições, sem bebidas alcoólicas (para os chegados informo que uma “Bud” custa R$ 7,00).

Associados ao Sesc pagam menos. A entidade é flexível para matricular associados, grande parte dos aposentados, por exemplo, é aceita.

O hotel com 140 apartamentos distribuídos em vários blocos é bem conservado e semiautônomo. Gera parte da energia, trata sua água, seu esgoto, recicla seu lixo, tem telefone fixo, celular, internet e TV a Cabo.

Tenho o hábito de fazer contas e fico imaginando como o hotel fecha as dele no final do mês. Suponho que com um empregado para cada dois hospedes e todas as dificuldades logísticas seja deficitário.

Na dúvida, consulto a assessoria de imprensa do empreendimento que me confirma: o objetivo não é lucro, visa conservação ambiental e lazer a preço subsidiado. Porque entre as atribuições do Sesc está a de proporcionar lazer aos seus associados através de diversos hotéis e pousadas espalhados pelo Brasil.

Se o Sesc Pantanal estivesse situado em outro local seria apenas mais um hotel de quatro estrelas, o que o diferencia é o extraordinário meio ambiente em que está inserido.

O fuso com uma hora de diferença em relação a Balneário Camboriú aumenta a já estranha impressão que lá amanhece e anoitece mais cedo. É como se o sol ficasse menos tempo no céu, dando um show de beleza na hora em que nasce e se põe.

Durante o dia um calor de rachar, amenizado pelas várias piscinas e ar-condicionado em todos os ambientes.

Os pássaros não sossegam, estão sempre presentes, mais ativos no início e final do dia. Com a estação seca (de maio a setembro) eles estão a mil, com a plumagem mais bonita, para acasalar.

A “seca” faz outros animais se agruparem, são os melhores meses para observar a fauna.

O ambiente é realmente incomum. Em quantos hotéis seria possível ver um tamanduá-bandeira caminhando a poucas dezenas de metros dos hóspedes?

Um animal sempre “presente” é a onça, ela faz parte do imaginário do Pantanal e de quem o visita. Histórias de jacarés, cães e homens devorados pelo bicho são contadas aqui e ali, até de maneira um pouco folclórica pelos guias do hotel.

Na verdade existem poucas onças, a espécie está ameaçada de extinção. O biólogo Douglas Brian Trent, da ONG Bichos do Pantanal, catalogou 42 exemplares em suas três décadas de pesquisas naquela área.

Eu já vi uma onça, de dia, pescando na Amazônia Boliviana, mas ela se disfarça tão bem entre a vegetação que sem um mateiro treinado para me orientar, o animal teria passado desapercebido.

No Pantanal não vi nenhuma, mas para não deixar a família frustrada copiei a foto do protetor de tela de um computador do hotel e enviei para casa onde a imagem despertou animado interesse.

Peculiares atividades num hotel pantaneiro

Formigueiro

Sempre quis ver de perto um formigueiro em exposição, desses que ficam dentro de estruturas de vidro, mas não levei sorte, a antiga rainha morreu depois de 14 anos de reinado e a nova está apenas começando a sua dinastia, sobre uma mesa gigante cheia de tubos transparentes. A única alimentação fornecida são folhas secas.

Borboletário

Foi o que mais gostei no hotel, resultado de um trabalho complicado para satisfazer visitantes que usufruem dessa atração.

As borboletas colocam os ovos em folhagens que as atraem, no próprio borboletário. Esses ovos são coletados e enviados para cuidadoras em Poconé que depois alimentam as larvas e finalmente enviam as crisálidas (também chamadas de pupas) de volta ao hotel. Ali elas ficam penduradas em palitos de bambu até nascerem novas borboletas. O ciclo ovo-larva-crisálida daquelas 13 espécies de borboletas demora de um a dois meses e elas vivem apenas 30 dias.

Cada cuidadora ganha entre um e três reais por crisálida fornecida e a demanda é de 300 por dia.

O que as borboletas comem? Não se espante, bananas maduras.

Insetário

Trata-se de uma Coleção entomológica que está sendo montada, tem 8.000 exemplares e o objetivo é chegar a 20.000. Ali estão alguns dos maiores cascudos que vi na vida, além de um fascinante conjunto de diversos insetos, a maioria borboletas.

Os gafanhotos, de todos os tamanhos, despertaram lembranças das minhas leituras infantis de Francisco Marins e Monteiro Lobato.

Manter a coleção entomológica custa caro, o mobiliário é especial, a temperatura e a umidade ficam dia e noite sob controle para evitar que fungos ataquem a coleção.

Passeios impressionam quem não está acostumado com mato e água

O hotel Sesc Porto Cercado oferece diversas atividades atraentes e que para mim deram um pouco de trabalho porque minha mulher não anda de barco, tem medo da mata no escuro etc.

Estou habituado a navegar em rios, mesmo assim me animei a conhecer o Corixo do Moquém, distante 16 Km do hotel, rio Cuiabá abaixo.

Corixos no Pantanal são equivalentes aos igarapés da Amazônia, braços do rio principal que entram mata adentro.

Esse do Moquém avança seis quilômetros na mata e percorremos toda sua extensão, um passeio de barco seguro e interessante que deixou outros hóspedes fascinados. Volta e meia se avista um pássaro bonitão ou um jacaré.

Fomos a uma “focagem noturna”, embarcados num caminhão antigo que já viu dias melhores no Exército. Percorremos a vizinhança do hotel, com um potente foco de luz, em busca de animais.

Tivemos sorte, avistamos alguns (capivaras, veados, jacarés, iguana, algumas aves, tatu...), mas outros hóspedes contaram que nem sempre é assim, às vezes os bichos somem.

Também andamos num bondinho puxado por um trator até o Parque Sesc Baía das Pedras, que eles chamam de ‘fazendinha’,que tem pôneis, cavalos para cavalgadas e onde a principal atração são os jacarés.

Cevados pelos restos de carne da cozinha do hotel eles ficam por ali esperando comida fácil. Os mais antigos são chamados pelo nome. Chico é o mais velho de todos. Um dos funcionários contou, denotando certa reprovação, que o Parque agora tem uma bióloga que quer acabar com essa forma de alimentar os jacarés.

Se isso ocorrer, provavelmente eles irão embora e ficará só o Parque, meio sem graça, igual a tantos existentes por aí. Com tanto jacaré no Pantanal, alimentar alguns de maneira heterodoxa não deveria violentar eco-consciências.

O hotel oferece diversos passeios e atividades, todos pagos à parte, mas naquele calor eu preferi na maior parte do tempo ficar na piscina lendo e me hidratando com cervejas variadas.

Um passeio interessante (R$ 75,00) é percorrer a Transpantaneira num veículo 4 4. Dura cinco horas e por isso não fui, achei que acabaria me enchendo de ver aves e jacarés naqueles alagados infindáveis.

Se um dia você for ao Sesc Pantanal, leve cortador de unhas e secador de cabelos. Foram os dois itens que esquecemos de colocar na mala onde estavam maiôs, óculos escuros, protetor, repelente, binóculo, câmara fotográfica, chapéu que protege a nuca, calças e camisas de manga comprida.


Página 3

Rumo a Poconé: distante 2.000 km de Balneário Camboriú

Por Waldemar Cezar Neto

“Vai até o apartamento 403 porque tem um sapo em cima da pia”.

O aviso foi passado pelo rádio, a forma como se comunicam diversos dos quase 200 empregados do hotel Sesc Porto Cercado, em Poconé, uma das portas de entrada do pantanal Mato-Grossense.

O local realmente tem muitos sapos... além de jacarés, veados, capivaras, iguanas, tatus e uma infinidade de aves multicoloridas.

No começo de maio eu estava ali porque ganhei, no final do ano passado, o 3º Prêmio Sincomércio de Jornalismo, na categoria melhor reportagem, recebendo um passeio ao hotel do Sesc no Pantanal para mim e minha acompanhante.

Antes de embarcarmos o pessoal do Sincomércio de Balneário Camboriú me pediu uma foto- para ilustrar a edição de 2017 do prêmio- e eu prometi que em vez disso faria uma reportagem, promessa que estou pagando agora.

Não conhecia o Pantanal, pousei duas vezes em aeroportos da região nas pescarias amazônicas, mas sabia da fama do calor e dos mosquitos.

Quando viajo para aqueles lados gosto de repetir a infame piada: “Sabe qual a diferença entre Cuiabá e o inferno? No inferno não tem mosquitos”.

O calor estava lá, sempre em torno dos 33 graus, mas mosquitos havia poucos. Me disseram que na época das chuvas eles atacam em esquadrilhas -os livros definem como diluvianas essas chuvas que ocorrem entre novembro e fevereiro.

A viagem de Balneário até Porto Cercado é tão desconfortável quanto qualquer outra do Sul para o Norte, não há voos diretos. É preciso pingar de Navegantes a São Paulo e dali a Cuiabá, com direito a ser assaltado nos caixas de todas as lanchonetes dos aeroportos.

O trecho final, entre o aeroporto de Cuiabá e o hotel, feito por vans, demora menos de duas horas, em estrada asfaltada.

O hotel faz parte de um conjunto de iniciativas socioambientais do Serviço Social do Comércio (SESC) que criaram a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Brasil, com 107.996 hectares. Isso equivale a 21 vezes o município de Balneário Camboriú.

O empreendimento é composto pela base administrativa (que fica em Várzea Grande, ao lado da capital, Cuiabá); o hotel; a RPPN; o Centro de Atividades de Poconé; o Parque Baía das Pedras (próximo ao hotel) e o Serra Azul, um hotel ecológico que nunca saiu do papel.

Não consegui esclarecer nem entender o motivo de uma associação do comércio comprar tantas terras alagáveis, antigas fazendas, para implantar uma reserva e hotéis ecológicos tão distantes.

Aquisição mais recente e menor, também no Mato Grosso, para construir o Refúgio Ecológico Sesc Serra Azul, foi alvo de acusações de superfaturamento.

Quem comprou a terra, Pedro Nadaf, ex-presidente da Fecomércio do Mato Grosso, acabou na cadeia por suposta corrupção quando exerceu a função de secretário de Estado de Indústria, Comércio, Minas, Energia e Casa Civil do Estado.

Independente dos motivos que levaram à criação da RPPN a verdade é que ela existe e se tornou importante principalmente para a pequena Poconé, 32 mil habitantes, distante 40 Km do hotel e onde mora a maioria dos seus empregados que vão e voltam diariamente com transporte pago pela empresa.

Poconé não seria tão importante mundialmente se ali não nascesse a Transpantaneira, estrada com apenas 150 Km que liga os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Quem já passou por ela, quando as áreas alagadas permitem, conta que é uma experiência inesquecível por causa da fauna.

Nesta pequena cidade, com 240 anos de história por causa do ouro, município desde 1831, o Sesc tem o Centro de Atividades de Poconé, uma unidade com oito salas de aulas para ensino fundamental e infantil, cinema, odontoclínica, áreas para esportes, cursos de culinária etc.

Sim, crisálidas, você já vai saber o motivo.

Hotel comum num ambiente incomum

O motorista da van nos ensinou que o nome Porto Cercado decorre do fato que o lugar era -e continua sendo- cercado por água.

O Rio Cuiabá passa acelerado ao lado do hotel nesta época de vazante e as atividades em suas águas constituem algumas das principais atrações para os hóspedes.

Me disseram que foi um porto porque na antigas descobriram que levar cimento para Cuiabá por ali era mais rápido e barato do que outras opções de transporte usadas até então.

As diárias para casal ficam na faixa de R$ 600,00 com todas as refeições, sem bebidas alcoólicas (para os chegados informo que uma “Bud” custa R$ 7,00).

Associados ao Sesc pagam menos. A entidade é flexível para matricular associados, grande parte dos aposentados, por exemplo, é aceita.

O hotel com 140 apartamentos distribuídos em vários blocos é bem conservado e semiautônomo. Gera parte da energia, trata sua água, seu esgoto, recicla seu lixo, tem telefone fixo, celular, internet e TV a Cabo.

Tenho o hábito de fazer contas e fico imaginando como o hotel fecha as dele no final do mês. Suponho que com um empregado para cada dois hospedes e todas as dificuldades logísticas seja deficitário.

Na dúvida, consulto a assessoria de imprensa do empreendimento que me confirma: o objetivo não é lucro, visa conservação ambiental e lazer a preço subsidiado. Porque entre as atribuições do Sesc está a de proporcionar lazer aos seus associados através de diversos hotéis e pousadas espalhados pelo Brasil.

Se o Sesc Pantanal estivesse situado em outro local seria apenas mais um hotel de quatro estrelas, o que o diferencia é o extraordinário meio ambiente em que está inserido.

O fuso com uma hora de diferença em relação a Balneário Camboriú aumenta a já estranha impressão que lá amanhece e anoitece mais cedo. É como se o sol ficasse menos tempo no céu, dando um show de beleza na hora em que nasce e se põe.

Durante o dia um calor de rachar, amenizado pelas várias piscinas e ar-condicionado em todos os ambientes.

Os pássaros não sossegam, estão sempre presentes, mais ativos no início e final do dia. Com a estação seca (de maio a setembro) eles estão a mil, com a plumagem mais bonita, para acasalar.

A “seca” faz outros animais se agruparem, são os melhores meses para observar a fauna.

O ambiente é realmente incomum. Em quantos hotéis seria possível ver um tamanduá-bandeira caminhando a poucas dezenas de metros dos hóspedes?

Um animal sempre “presente” é a onça, ela faz parte do imaginário do Pantanal e de quem o visita. Histórias de jacarés, cães e homens devorados pelo bicho são contadas aqui e ali, até de maneira um pouco folclórica pelos guias do hotel.

Na verdade existem poucas onças, a espécie está ameaçada de extinção. O biólogo Douglas Brian Trent, da ONG Bichos do Pantanal, catalogou 42 exemplares em suas três décadas de pesquisas naquela área.

Eu já vi uma onça, de dia, pescando na Amazônia Boliviana, mas ela se disfarça tão bem entre a vegetação que sem um mateiro treinado para me orientar, o animal teria passado desapercebido.

No Pantanal não vi nenhuma, mas para não deixar a família frustrada copiei a foto do protetor de tela de um computador do hotel e enviei para casa onde a imagem despertou animado interesse.

Peculiares atividades num hotel pantaneiro

Formigueiro

Sempre quis ver de perto um formigueiro em exposição, desses que ficam dentro de estruturas de vidro, mas não levei sorte, a antiga rainha morreu depois de 14 anos de reinado e a nova está apenas começando a sua dinastia, sobre uma mesa gigante cheia de tubos transparentes. A única alimentação fornecida são folhas secas.

Borboletário

Foi o que mais gostei no hotel, resultado de um trabalho complicado para satisfazer visitantes que usufruem dessa atração.

As borboletas colocam os ovos em folhagens que as atraem, no próprio borboletário. Esses ovos são coletados e enviados para cuidadoras em Poconé que depois alimentam as larvas e finalmente enviam as crisálidas (também chamadas de pupas) de volta ao hotel. Ali elas ficam penduradas em palitos de bambu até nascerem novas borboletas. O ciclo ovo-larva-crisálida daquelas 13 espécies de borboletas demora de um a dois meses e elas vivem apenas 30 dias.

Cada cuidadora ganha entre um e três reais por crisálida fornecida e a demanda é de 300 por dia.

O que as borboletas comem? Não se espante, bananas maduras.

Insetário

Trata-se de uma Coleção entomológica que está sendo montada, tem 8.000 exemplares e o objetivo é chegar a 20.000. Ali estão alguns dos maiores cascudos que vi na vida, além de um fascinante conjunto de diversos insetos, a maioria borboletas.

Os gafanhotos, de todos os tamanhos, despertaram lembranças das minhas leituras infantis de Francisco Marins e Monteiro Lobato.

Manter a coleção entomológica custa caro, o mobiliário é especial, a temperatura e a umidade ficam dia e noite sob controle para evitar que fungos ataquem a coleção.

Passeios impressionam quem não está acostumado com mato e água

O hotel Sesc Porto Cercado oferece diversas atividades atraentes e que para mim deram um pouco de trabalho porque minha mulher não anda de barco, tem medo da mata no escuro etc.

Estou habituado a navegar em rios, mesmo assim me animei a conhecer o Corixo do Moquém, distante 16 Km do hotel, rio Cuiabá abaixo.

Corixos no Pantanal são equivalentes aos igarapés da Amazônia, braços do rio principal que entram mata adentro.

Esse do Moquém avança seis quilômetros na mata e percorremos toda sua extensão, um passeio de barco seguro e interessante que deixou outros hóspedes fascinados. Volta e meia se avista um pássaro bonitão ou um jacaré.

Fomos a uma “focagem noturna”, embarcados num caminhão antigo que já viu dias melhores no Exército. Percorremos a vizinhança do hotel, com um potente foco de luz, em busca de animais.

Tivemos sorte, avistamos alguns (capivaras, veados, jacarés, iguana, algumas aves, tatu...), mas outros hóspedes contaram que nem sempre é assim, às vezes os bichos somem.

Também andamos num bondinho puxado por um trator até o Parque Sesc Baía das Pedras, que eles chamam de ‘fazendinha’,que tem pôneis, cavalos para cavalgadas e onde a principal atração são os jacarés.

Cevados pelos restos de carne da cozinha do hotel eles ficam por ali esperando comida fácil. Os mais antigos são chamados pelo nome. Chico é o mais velho de todos. Um dos funcionários contou, denotando certa reprovação, que o Parque agora tem uma bióloga que quer acabar com essa forma de alimentar os jacarés.

Se isso ocorrer, provavelmente eles irão embora e ficará só o Parque, meio sem graça, igual a tantos existentes por aí. Com tanto jacaré no Pantanal, alimentar alguns de maneira heterodoxa não deveria violentar eco-consciências.

O hotel oferece diversos passeios e atividades, todos pagos à parte, mas naquele calor eu preferi na maior parte do tempo ficar na piscina lendo e me hidratando com cervejas variadas.

Um passeio interessante (R$ 75,00) é percorrer a Transpantaneira num veículo 4 4. Dura cinco horas e por isso não fui, achei que acabaria me enchendo de ver aves e jacarés naqueles alagados infindáveis.

Se um dia você for ao Sesc Pantanal, leve cortador de unhas e secador de cabelos. Foram os dois itens que esquecemos de colocar na mala onde estavam maiôs, óculos escuros, protetor, repelente, binóculo, câmara fotográfica, chapéu que protege a nuca, calças e camisas de manga comprida.