Jornal Página 3
Superdotação e altas habilidades: Balneário e região possuem ‘crianças especiais’
Foto: Renata Rutes

Há diversos filmes e series de TV que retratam crianças e adolescentes superdotados, mas o que parece distante e coisa de produção Hollywoodiana é a realidade de pelo menos 10 crianças da região de Balneário Camboriú. Na Univali de Itajaí funciona, desde 2018, o Laboratório de Inovação Tecnológica na Educação (Lite), em parceria com as escolas públicas da região e o Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Secretaria de Educação Estadual, para auxiliar e incentivar o desenvolvimento desses alunos, além de ainda apoiá-los psicologica e emocionalmente. O AEE da região fica na Escola Pedro Paulo Felipe, em Itajaí, e atende também Balneário Camboriú e Navegantes.

Foto: Divulgação UnivaliGabriel e Joaquim, dois dos superdotados atendidos pela Univali, no Lite.

O Página 3 esteve no Lite, onde encontrou os alunos de Itajaí Gabriel Nóvoa Fernandes e Joaquim Mendonça Santos, ambos com 13 anos. Lá eles desenvolvem projetos nas mais diversas áreas, como arte, mecânica, programação, impressão 3D. Gabriel prefere a parte física e de produção. Joaquim gosta das áreas mais técnicas.

Em conversa com a reportagem, eles contaram que sempre demonstraram facilidade para desempenhar atividades diversas, além de serem bastante curiosos. E, após uma série de testes, foi confirmado que ambos são superdotados. Joaquim relatou que antes disso, na sala de aula na escola em que estuda, sempre queria saber mais sobre o conteúdo explicado pela professora, e por isso os colegas o isolavam e os professores ‘reclamavam’. Ele diz que isso melhorou, mas que ainda é preciso avanços, tanto no entendimento das diferenças quanto na inclusão. Ambos afirmaram sentir falta de um ambiente como o Lite, o qual frequentam toda semana no contraturno, na escola regular.

É um sonho ter algo assim no colégio normal. Precisamos dessas conexões diferentes e aqui, que temos contato com pessoas parecidas com a gente, é melhor”, acrescenta Gabriel.

Foto: Renata Rutes

A psicóloga voluntária do Lite, Renate de Oliveira Raabe(acima), desenvolveu sua tese de Mestrado sobre a superdotação e altas habilidades, conversando com representantes de escolas, pais e crianças e adolescentes superdotadas.

Eles possuem espírito de liderança, pensam fora da caixa. Muitas pessoas não entendem, é algo novo e acontece até de ser confundido com o autismo. Essas crianças precisam sim de apoio psicológico e emocional, mas precisam se desenvolver, não podem estagnar. Precisam de incentivo, e por isso estamos com o Lite”, salienta.

Renate conta que é normal os pais acharem que seus filhos são especiais, mas há diferença em ter altas habilidades, ser superdotado ou até genial (como Albert Einstein, por exemplo). Normalmente quem auxilia o AEE (responsável pelos testes e análises para descobrir se a criança é superdotada) são as escolas.

Atendemos hoje crianças e adolescentes dos oito aos 17 anos. São três meninas e sete meninos. Superdotação não é só alto QI. Pode haver uma habilidade que se destaque mais, atletas como o Bolt e Michael Phelps são certamente dotados na área esportiva, por exemplo. Por isso que no Lite eles não ficam apenas em uma estação, passam por atividades no meio eletrônico, digital e artístico. O nosso foco principal são as lógicas matemáticas, mas também atendemos os criativos e produtivos”, diz.

A profissional lembra ainda que há muitos mitos ligados aos superdotados, como a respeito de que só crianças ricas podem ser, quando na realidade isso faz parte de quem a criança é, independente de sua classe social. Não há um perfil definido: há superdotados tímidos e introspectivos, e outros mais ativos. “Há ainda o estigma de que eles precisam ser bons em tudo, e isso não é verdade mesmo. O emocional afeta, há dias que eles não querem participar das atividades e isso é ok. É algo muito novo e vemos hoje que não é certo classificar a criança como superdotada somente com teste de inteligência, há outros fatores a serem analisados. Sem o acompanhamento correto para se desenvolver o superdotado pode se perder. Eles têm necessidade de interação e acolhimento, e no Lite estão entre seus pares, sempre dizem que no Laboratório podem ser quem eles são de verdade”, completa a psicóloga. Há casos também de superdotação em que a criança pula séries na escola, como a jovem filipina Mikaela Fudolig, que aos 18 anos já possuía Mestrado em Física, além de outros vários casos famosos. Por isso, Renate vê que é imprescindível o acompanhamento da escola junto com a família, pois a criança pode não ter psicológico para aguentar a diferença de idade entre os colegas.

Já houve casos de bullying até com crianças da mesma idade, pois os superdotados têm um nível intelectual diferente. No Lite eles interagem com universitários, que são bolsistas do laboratório e os ajudam. Em 2018 eles desenvolveram projetos de robótica, além de um projeto de uma cidade inteligente e de uma casa sustentável. Gostamos de trazer profissionais para conversarem com eles, como arquitetos, engenheiros, jornalistas”, afirma.

O Lite fica no segundo andar do bloco B6, na Univali de Itajaí. Mais informações: 3341-4236.

Balneário possui casos

A Secretária de Educação de Balneário Camboriú, Rosângela Percegona Borba, conta que há pelo menos oito crianças da rede municipal de ensino passando por testes. Por enquanto há um caso confirmado. O menino está no ensino fundamental e a secretária preferiu não identificar para não expor ele.

No primeiro momento as famílias ficam orgulhosas, mas também se preocupam porque infelizmente muitos lugares não estão preparados para receber essas crianças com altas habilidades”, diz.

Rosângela afirma que sabem do estresse que pode ser a escola regular para a criança, já que ela domina o conteúdo, e por isso pode ficar inquieta e irritada. Ela cita um caso que acompanhou, onde enquanto os colegas estavam sendo alfabetizados, o menino já lia e escrevia. Hoje, esse garoto tem 15 anos e trabalha na NASA.

O caso confirmado que temos foi descoberto recentemente. Ele ainda está na turma de acordo com a idade dele, mas estamos monitorando-o para ver se ele vai subir de ano. Sonhamos em abrir um polo de altas habilidades, com atividades em contraturno. Essas habilidades precisam ser incentivadas, não podemos ‘matar’ esses diferenciais. A escola não pode ser rasa”, destaca.

A secretária pontua ainda a necessidade de um olhar diferenciado para essas crianças, assim como os outros alunos especiais, que contam com um currículo e material personalizado para eles.

Estamos olhando com bastante carinho. Queremos que esses talentos sejam aflorados, que essas crianças consigam ir além de seus conhecimentos, que possam avançar. É um trabalho de muitas mãos, todos devem ajudar”, finaliza.



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Superdotação e altas habilidades: Balneário e região possuem ‘crianças especiais’

Foto: Renata Rutes

Há diversos filmes e series de TV que retratam crianças e adolescentes superdotados, mas o que parece distante e coisa de produção Hollywoodiana é a realidade de pelo menos 10 crianças da região de Balneário Camboriú. Na Univali de Itajaí funciona, desde 2018, o Laboratório de Inovação Tecnológica na Educação (Lite), em parceria com as escolas públicas da região e o Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Secretaria de Educação Estadual, para auxiliar e incentivar o desenvolvimento desses alunos, além de ainda apoiá-los psicologica e emocionalmente. O AEE da região fica na Escola Pedro Paulo Felipe, em Itajaí, e atende também Balneário Camboriú e Navegantes.

Foto: Divulgação UnivaliGabriel e Joaquim, dois dos superdotados atendidos pela Univali, no Lite.

O Página 3 esteve no Lite, onde encontrou os alunos de Itajaí Gabriel Nóvoa Fernandes e Joaquim Mendonça Santos, ambos com 13 anos. Lá eles desenvolvem projetos nas mais diversas áreas, como arte, mecânica, programação, impressão 3D. Gabriel prefere a parte física e de produção. Joaquim gosta das áreas mais técnicas.

Em conversa com a reportagem, eles contaram que sempre demonstraram facilidade para desempenhar atividades diversas, além de serem bastante curiosos. E, após uma série de testes, foi confirmado que ambos são superdotados. Joaquim relatou que antes disso, na sala de aula na escola em que estuda, sempre queria saber mais sobre o conteúdo explicado pela professora, e por isso os colegas o isolavam e os professores ‘reclamavam’. Ele diz que isso melhorou, mas que ainda é preciso avanços, tanto no entendimento das diferenças quanto na inclusão. Ambos afirmaram sentir falta de um ambiente como o Lite, o qual frequentam toda semana no contraturno, na escola regular.

É um sonho ter algo assim no colégio normal. Precisamos dessas conexões diferentes e aqui, que temos contato com pessoas parecidas com a gente, é melhor”, acrescenta Gabriel.

Foto: Renata Rutes

A psicóloga voluntária do Lite, Renate de Oliveira Raabe(acima), desenvolveu sua tese de Mestrado sobre a superdotação e altas habilidades, conversando com representantes de escolas, pais e crianças e adolescentes superdotadas.

Eles possuem espírito de liderança, pensam fora da caixa. Muitas pessoas não entendem, é algo novo e acontece até de ser confundido com o autismo. Essas crianças precisam sim de apoio psicológico e emocional, mas precisam se desenvolver, não podem estagnar. Precisam de incentivo, e por isso estamos com o Lite”, salienta.

Renate conta que é normal os pais acharem que seus filhos são especiais, mas há diferença em ter altas habilidades, ser superdotado ou até genial (como Albert Einstein, por exemplo). Normalmente quem auxilia o AEE (responsável pelos testes e análises para descobrir se a criança é superdotada) são as escolas.

Atendemos hoje crianças e adolescentes dos oito aos 17 anos. São três meninas e sete meninos. Superdotação não é só alto QI. Pode haver uma habilidade que se destaque mais, atletas como o Bolt e Michael Phelps são certamente dotados na área esportiva, por exemplo. Por isso que no Lite eles não ficam apenas em uma estação, passam por atividades no meio eletrônico, digital e artístico. O nosso foco principal são as lógicas matemáticas, mas também atendemos os criativos e produtivos”, diz.

A profissional lembra ainda que há muitos mitos ligados aos superdotados, como a respeito de que só crianças ricas podem ser, quando na realidade isso faz parte de quem a criança é, independente de sua classe social. Não há um perfil definido: há superdotados tímidos e introspectivos, e outros mais ativos. “Há ainda o estigma de que eles precisam ser bons em tudo, e isso não é verdade mesmo. O emocional afeta, há dias que eles não querem participar das atividades e isso é ok. É algo muito novo e vemos hoje que não é certo classificar a criança como superdotada somente com teste de inteligência, há outros fatores a serem analisados. Sem o acompanhamento correto para se desenvolver o superdotado pode se perder. Eles têm necessidade de interação e acolhimento, e no Lite estão entre seus pares, sempre dizem que no Laboratório podem ser quem eles são de verdade”, completa a psicóloga. Há casos também de superdotação em que a criança pula séries na escola, como a jovem filipina Mikaela Fudolig, que aos 18 anos já possuía Mestrado em Física, além de outros vários casos famosos. Por isso, Renate vê que é imprescindível o acompanhamento da escola junto com a família, pois a criança pode não ter psicológico para aguentar a diferença de idade entre os colegas.

Já houve casos de bullying até com crianças da mesma idade, pois os superdotados têm um nível intelectual diferente. No Lite eles interagem com universitários, que são bolsistas do laboratório e os ajudam. Em 2018 eles desenvolveram projetos de robótica, além de um projeto de uma cidade inteligente e de uma casa sustentável. Gostamos de trazer profissionais para conversarem com eles, como arquitetos, engenheiros, jornalistas”, afirma.

O Lite fica no segundo andar do bloco B6, na Univali de Itajaí. Mais informações: 3341-4236.

Balneário possui casos

A Secretária de Educação de Balneário Camboriú, Rosângela Percegona Borba, conta que há pelo menos oito crianças da rede municipal de ensino passando por testes. Por enquanto há um caso confirmado. O menino está no ensino fundamental e a secretária preferiu não identificar para não expor ele.

No primeiro momento as famílias ficam orgulhosas, mas também se preocupam porque infelizmente muitos lugares não estão preparados para receber essas crianças com altas habilidades”, diz.

Rosângela afirma que sabem do estresse que pode ser a escola regular para a criança, já que ela domina o conteúdo, e por isso pode ficar inquieta e irritada. Ela cita um caso que acompanhou, onde enquanto os colegas estavam sendo alfabetizados, o menino já lia e escrevia. Hoje, esse garoto tem 15 anos e trabalha na NASA.

O caso confirmado que temos foi descoberto recentemente. Ele ainda está na turma de acordo com a idade dele, mas estamos monitorando-o para ver se ele vai subir de ano. Sonhamos em abrir um polo de altas habilidades, com atividades em contraturno. Essas habilidades precisam ser incentivadas, não podemos ‘matar’ esses diferenciais. A escola não pode ser rasa”, destaca.

A secretária pontua ainda a necessidade de um olhar diferenciado para essas crianças, assim como os outros alunos especiais, que contam com um currículo e material personalizado para eles.

Estamos olhando com bastante carinho. Queremos que esses talentos sejam aflorados, que essas crianças consigam ir além de seus conhecimentos, que possam avançar. É um trabalho de muitas mãos, todos devem ajudar”, finaliza.