Jornal Página 3
Review Adhana 2018: uma savana em plena SC
Bruno Camargo
O palco à luz do dia, por Bruno Camargo
O palco à luz do dia, por Bruno Camargo

Por Daniele Sisnandes

Era uma tarde quente e ensolarada do dia 28 de dezembro de 2018 quando eu e um casal de amigos chegamos à Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, no norte de Santa Catarina, para uma de nossas maiores aventuras: o Adhana Festival. Foram seis dias sem internet, convivendo com mais de cinco mil estranhos pacificamente em torno de uma paixão em comum: o psytrance, naquilo que muitos descreveram como o melhor ano novo da vida.

Eu tinha decidido ir sozinha ao Adhana, de carro, como havia feito no Psicodália ano passado (que acontece naquele mesmo local). Mas mudei de planos alguns dias antes de partir quando minha amiga Danúbia Janer convidou para dividir o carro com ela e o noivo, o DJ Binho Cemin, meus amigos de mais de uma década.

Nos atrasamos pra sair e acabamos chegando na fazenda no meio da tarde, sorte a nossa! Soubemos que praticamente desde a madrugada havia pessoas na fila. Uma longa e escaldante fila, da qual nos livramos sem pesar.

Isso porque para a maioria de nós a espera pelo Adhana foi de meses. E para se ter uma ideia da ansiedade, havia centenas de pessoas acampando nas imediações um dia antes da abertura dos portões.

Enfim. Ao chegarmos nos deparamos com artesãos tentando vender peças na entrada para conseguir comprar ingressos. Festivais são assim, atraem dezenas de artistas em busca de público e experiências.

Nos comprometemos em ajudá-lo na volta do “check in”, mas nem isso foi necessário. Há uma energia de realização engraçada nesses lugares (naquela fazenda especialmente)... as coisas acabam acontecendo e quando vimos, o casal de artistas estava mais adiantado que nós dentro do evento.

O único perrengue inicial de acampar é carregar as tralhas e montar tudo. É meio que um rito de desapego, depois daquilo você vai se libertando aos poucos. Como o estacionamento ficava longe, foi um caminho e tanto até achar um lugar.

Para nosso espanto, com apenas algumas horas de festival acontecendo, a pista estava repleta de gente.

A pista principal, por Guilherme Andrade

O grande medo do público e da organização era um festival debaixo d’água (havia chovido vários dias antes), mas o céu se abriu para nós. Pouquíssima chuva foi vista nesta edição, tão apropriadamente chamada de Savana!

Para quem não conhece a Fazenda Evaristo, é um lugar enorme, no meio da natureza, com várias áreas de camping e espaço para até cinco mil barracas.

O sinal de internet é um luxo por lá. Você até consegue fazer ligações em locais privilegiados, mas 3G é algo raro. Ruim para quem não desconecta, maravilhoso para quem quer descansar a mente.

Os campings circundam a área central da fazenda, onde tudo acontecia. Neste centrinho, além do super Palco Savanah, havia uma cozinha coletiva, a praça de alimentação (um refeitório com grande capacidade, venda de café, pizza artesanal e um macarrão fenomenal que funcionava noite e dia), bares, lojinhas de artistas, crepe, açaí e hamburger, tudo muito gostoso, mas sempre cheio.

Também pudera, mais de cinco mil pessoas dançando dia e noite, a fome e a sede batiam a qualquer hora. Mas nada que a alegria de estar fazendo parte de um evento daquele não compensasse.

Essa questão do consumo era realmente algo impressionante. O vai e vem de caminhões abastecendo o festival era intenso e numa logística apavorante, não faltava nada e as bebidas estavam sempre geladas. Fui sentir falta de alguma coisa só no penúltimo dia.

A DM7, que realiza o Adhana, tem uma política de copos reutilizáveis e colecionáveis muito legal. Você não vê copos descartáveis pelo evento, então quem chega pode trocar seu copo por um quilo de alimento. Os donativos foram encaminhados para entidades assistenciais. Isso é praxe, inclusive nas festas que a empresa realiza em sua sede, Curitiba.Foto: Adhana Festival Oficial

Quando se vai para um festival é preciso ir preparado. Os espelhos são raros, os banheiros são coletivos, a água quente dos chuveiros só funciona das 18h às 10h. É como se esses pequenos "perrengues" fizessem um equilíbrio com toda a parte fantástica de ver seus ídolos tão de perto.

E foram seis dias de muita música boa. O Adhana conseguiu reunir ícones de diversas vertentes da cena eletrônica, especialmente do psytrance. Apresentações fantásticas, músicas que nunca ouvimos antes, sons aclamados pelo público, novos e velhos nomes dos palcos, artistas locais dividindo espaço com ícones: foi lindo de se ver.

A tenda vermelho, verde e amarelo

Foto via André Belém

O coração desse grande festival estava à frente do Palco Savanah, sob a tenda inacreditável de um dos maiores decoradores deste país, André Belém, que por acaso mora bem aqui em Balneário Camboriú e é um grande amigo.

Só de ver aquilo montado já era surpreendente, mas eu também sabia das dificuldades que ele e companheira Thaiene Carvalho tinham tido pra conseguir finalizar aquilo em tempo. Não foi fácil, foi meio que uma dessas provações que a vida da gente prega vez ou outra pra testar a nossa força.

Aquela tenda era especial e por isso era perfeita para emoldurar a segunda edição do Adhana Festival.

Debaixo daquelas padronagens em amarelo, preto, vermelho e verde sonhos foram realizados, amores despertados e amizades construídas.

O palco à noite, porAnalu Hackenhaar

Para completar o cenário exuberante, o palco do Savanah era uma obra de arte produzida pelo Beco-Rs-Brasil, crew formada pelos artistas Erick Citron e Rodrigo Miranda, a Careca, artistas urbanos que alçaram voos sob as cores fluorescentes dos eventos de música eletrônica. Conheci eles no festival. Ficaram 30 dias longe de casa, dedicados em imprimir sonhos em cores. Foi o palco mais lindo que eu já vi, uma composição de grafite em pano e madeira, dando profundidade e sensação de 3D.

Todo esse conjunto visual ganhava uma vida inexplicável à noite, com o show cenográfico da internacional Laser Beam Factory, que já performou nos maiores festivais do mundo. Difícil explicar o conjunto da obra, mas foi a maior experiência visual até o momento, vai ser difícil superar.

Os cenários do festival, incluindo praça de alimentação e chill out, só ficaram completos com arte cuidadosa e simbólica pelas mãos do casal Bruna e Kadu, da Arte Astral. Eles também dedicaram um mês inteiro para o Adhana, hospedados em uma das cabanas, entre máquina de costura, estruturas de madeira, fios coloridos e tecidos. Só não passaram o Natal batido porque de surpresa os pais apareceram com uma ceia improvisada. Entrega, reconhecimento e amor, visíveis também em sua arte.

Os tons quentes da savana

Foto: Guilherme Andrade

Você já percebeu a tendência que temos de se assemelhar com o meio e com as pessoas que estão à nossa volta? A Danúbia, minha amiga, notou isso no Adhana. Com alguns dias de festival era incrível de ver. As pessoas iam ficando cada vez mais parecidas, usando os tons da savana, reconstruídas em uma paleta de cores vibrante que por pouco não emitia uns rugidos.

A gente foi entrando naquele clima selvático e quente, se acostumando ao melado da pele, suor incontido e constante que explodia a cada virada.

Com tantos dias e temperaturas sempre acima de 30ºC, as roupas ficam suadas, é preciso trocar várias vezes ao dia e lá pelas tantas as combinações vão ficando estranhas, mas estranhamente tudo faz sentido.

Vamos deixando as vaidades de lado, porque é tudo quente demais. Maquiagem derrete, o cabelo escorre e acaba preso no alto da cabeça. Espelho de corpo inteiro vi um, mas vontade era zero de ir até ele. Vamos nos despindo, dia a dia, de “necessidades” do cotidiano.

Dor, perdão, conexão e alegria:

o poder do dancefloor

Foto: Guilherme Andrade

Eu fui bem ingênua e no primeiro dia usei um calçado meio fechado que me rendeu dois calos enormes nos dedões. Os coturnos cozinhavam os dedos, as havaianas acabavam em montanhas de calçados empoeirados no meio da pista...eu só queria saber de pisar na terra e tenho certeza que só por essa conexão consegui me manter firme na pista mesmo com dor.

Doía também o braço direito. No último momento antes de sair eu botei um leque na mala. Foi minha salvação e meu castigo. Logo eu que tirei férias para aliviar o braço com Lesão do Esforço Repetitivo. Mesmo assim, faria de novo, aquele leque passou em várias mãos, salvou o momento de estranhos, rendeu bons sorrisos.

Mas aposto que minha dor nem se comparava a de tantos outros ali. Acho que eu nunca fui - ou ao menos nunca percebi - uma festa com tantas pessoas com algum tipo de dificuldade de mobilidade. Pessoas em cadeiras de roda, muletas, gente com imobilizadores. Nada os impedia de curtir um bom momento, nem a brita que circundava o palco, nem o sobe e desce dos caminhos. Tenho certeza que toda aquela energia lhes fez muito bem.

A dança é ao meu ver um dos meios terapêuticos de mais rápida resposta e no trance isso é elevado à terceira potência. Ninguém se policia, os movimentos são livres, é expressão à flor da pele.

Dança e conexão, pelas lentes de Bruno Camargo

Dançar cura a níveis difíceis de explicar. Depois de horas e dias nessa rotina boêmia de contemplação, a cabeça da gente vai desligando e ao mesmo tempo se religando a muita coisa. Há muita epifania no dancefloor. Lembranças, perdão e inspiração para tudo aquilo que vem pela frente, e neste caso, um 2019 todinho por explorar!

No Adhana isso foi ainda mais intenso, não só pelo grande número de dias, mas por ser na virada de ano. Nós brasileiros somos um povo de muita fé e superstição, a esperança estava na cara das pessoas, no branco da noite de Réveillon, nas manifestações silenciosas no altar sem religião definida no caminho para o banheiro. Todos respeitando suas diferenças.

Nesse clima eufórico de realização a gente abre a guarda. Sorri para estranhos, cinco minutos depois temos novos amigos. Conversamos em línguas de sinais na fila do banheiro quando o idioma é estranho...damos lugar na fila do bar, compartilhamos gentilezas.

Um festival é assim e aos poucos o público do Adhana foi compreendendo isso. Muitas pessoas estavam ali pela primeira vez, outras já era macacos velhos de trance, mas não vi em momento algum, desavença.

Aliás, vi muitos laços de afeto florescerem. Eu também aproveitei a energia de realização e no dia 31 foi minha vez de abrir o coração, um desses presentes que a gente nem acredita merecer.

O Adhana não foi feito apenas de música e festa. O fator humano falou alto, a dedicação das pessoas em fazer aquilo acontecer, a equipe e o público que literalmente vestiram a camisa da DM7, o público se interessando pela arte que era exposta ali, as centenas de pessoas envolvidas no trabalho contínuo de manter uma pequena cidade funcionando.

O único lamento foi a Justiça ter, poucos dias antes de Adhana, determinado a proibição das crianças. Muitas famílias deixaram de ir ou tiveram que deixar seus pequenos em casa por causa de uma visão conservadora que vai impactar diretamente nos eventos de Rio Negrinho. O mesmo está sendo aplicado para o Psicodália neste ano, agora é esperar para ver até onde isso vai parar.

O motivo maior: a música

Astrix, pelas lentes de Guilherme Andrade

Não foi à toa que decidi falar dela só no final. Toda a experiência do festival é um convite, mas é a música que mobiliza. O line up da segunda edição do Adhana Festival era inacreditável. Nos meus 16 anos de trance, nunca tinha testemunhado algo assim. Pelo menos para o meu humilde gosto, foi o melhor que já ouvi falar no Brasil.

Era difícil até escolher a hora de deixar a pista e almoçar ou dormir. Ou pior, escolher entre a pista principal e a Tribus, ao lado do lago, onde rolavam as apresentações com bpms mais tranquilos.

A DM7 tem um feeling impressionante de seleção de artistas (e isso ficou muito evidente no festival), não à toa também é uma agência.

O Adhana começou na sexta-feira (28/12) de dia e lá pelas 4h, 5h silenciava no palco principal. O som recomeçava cedo, era difícil levantar de pronto. Depois do dia 31 o break acabou e o som não parou mais até o final do evento, no dia 2 de janeiro.

Armei minha barraca numa subida de frente para a tenda principal e confesso que ouvi muita gente que queria ver tocar de lá, principalmente no início das manhãs. O instrumental experimental da curitibana Mumbai Express e o projeto Conscious Comfort, do produtor Ryanosaurus foram algumas dessas sonoridades surreais que agradeci ao universo por abrirem meus dias.

A pista principal vivenciou muitos momentos épicos. O produtor israelense Astrix continua sendo ao longo de muitos anos o maior nome da cena e a espera por ele na tarde do dia 30 foi angustiante. Dava pra sentir na pista, que mesmo tórrida, ficava cada vez mais cheia. A sua chegada gerou uma onda inexplicável, as pessoas pulavam alto, gritavam sorrindo. Foi um privilégio estar ali.

Pixel reinventado foi uma das maiores e mais felizes surpresas de todo o Adhana. A tarde do dia 31 marcante com Vini Vici, Ace Ventura, Liquid Soul e Captain Hook, que deram lições sobre progressividade.

O som carregado de ancestralidade de Merkaba (projeto do australiano Kalya Scintilla) promoveu um rito coletivo de conexão em pleno dancefloor. Nunca tinha presenciado algo assim. Música densa, sem firulas, introspectiva.

Foi Kalya que abriu os portais de uma sequência impecável flertando forte com o lado obscuro do prog, que contou com Freedom Fighters, Ryanosaurus, Fábio Leal (Brasi)e mais.

Aliás, os brasileiros fizeram bonito no Adhana. Dos que eu presenciei, o ponto alto foi a virada do ano, capitaneada pelo casal número 1 da DM7: Thatha (Altruism) e Burn in Noise. Também deixaram suas marcas Anginha (a rainha do hitech), Klipsun com uma musicalidade impressionante, Subverso, Jhou, Zecodelico com um goa surpreendente e Element, o idealizador do Adhana, entre tantos outros, nos dois palcos!

Veja como foi o momento da virada do ano:

Do progressivo que dominava os dias ao full on do entardecer à madrugada, não vi defeitos, no entanto, fui percebendo um luto coletivo e prévio tomando conta da audiência uns dois dias antes de acabar. Naquela altura de Adhana os rostos foram se tornando familiares, os caminhos, havia rotina na bagunça. Ninguém queria que aquilo acabasse e todos deixavam bem claro, afinal, foi o melhor ano novo de nossas vidas. Que venha o próximo.


Daniele Sisnandes é jornalista, escreve para o Página 3 desde 2007. Também é DJ e apaixonada por aventuras. Mais crônicas na coluna Frente e Verso.

https://www.instagram.com/danisisnandes/


Página 3

Review Adhana 2018: uma savana em plena SC

Bruno Camargo
O palco à luz do dia, por Bruno Camargo
O palco à luz do dia, por Bruno Camargo

Por Daniele Sisnandes

Era uma tarde quente e ensolarada do dia 28 de dezembro de 2018 quando eu e um casal de amigos chegamos à Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, no norte de Santa Catarina, para uma de nossas maiores aventuras: o Adhana Festival. Foram seis dias sem internet, convivendo com mais de cinco mil estranhos pacificamente em torno de uma paixão em comum: o psytrance, naquilo que muitos descreveram como o melhor ano novo da vida.

Eu tinha decidido ir sozinha ao Adhana, de carro, como havia feito no Psicodália ano passado (que acontece naquele mesmo local). Mas mudei de planos alguns dias antes de partir quando minha amiga Danúbia Janer convidou para dividir o carro com ela e o noivo, o DJ Binho Cemin, meus amigos de mais de uma década.

Nos atrasamos pra sair e acabamos chegando na fazenda no meio da tarde, sorte a nossa! Soubemos que praticamente desde a madrugada havia pessoas na fila. Uma longa e escaldante fila, da qual nos livramos sem pesar.

Isso porque para a maioria de nós a espera pelo Adhana foi de meses. E para se ter uma ideia da ansiedade, havia centenas de pessoas acampando nas imediações um dia antes da abertura dos portões.

Enfim. Ao chegarmos nos deparamos com artesãos tentando vender peças na entrada para conseguir comprar ingressos. Festivais são assim, atraem dezenas de artistas em busca de público e experiências.

Nos comprometemos em ajudá-lo na volta do “check in”, mas nem isso foi necessário. Há uma energia de realização engraçada nesses lugares (naquela fazenda especialmente)... as coisas acabam acontecendo e quando vimos, o casal de artistas estava mais adiantado que nós dentro do evento.

O único perrengue inicial de acampar é carregar as tralhas e montar tudo. É meio que um rito de desapego, depois daquilo você vai se libertando aos poucos. Como o estacionamento ficava longe, foi um caminho e tanto até achar um lugar.

Para nosso espanto, com apenas algumas horas de festival acontecendo, a pista estava repleta de gente.

A pista principal, por Guilherme Andrade

O grande medo do público e da organização era um festival debaixo d’água (havia chovido vários dias antes), mas o céu se abriu para nós. Pouquíssima chuva foi vista nesta edição, tão apropriadamente chamada de Savana!

Para quem não conhece a Fazenda Evaristo, é um lugar enorme, no meio da natureza, com várias áreas de camping e espaço para até cinco mil barracas.

O sinal de internet é um luxo por lá. Você até consegue fazer ligações em locais privilegiados, mas 3G é algo raro. Ruim para quem não desconecta, maravilhoso para quem quer descansar a mente.

Os campings circundam a área central da fazenda, onde tudo acontecia. Neste centrinho, além do super Palco Savanah, havia uma cozinha coletiva, a praça de alimentação (um refeitório com grande capacidade, venda de café, pizza artesanal e um macarrão fenomenal que funcionava noite e dia), bares, lojinhas de artistas, crepe, açaí e hamburger, tudo muito gostoso, mas sempre cheio.

Também pudera, mais de cinco mil pessoas dançando dia e noite, a fome e a sede batiam a qualquer hora. Mas nada que a alegria de estar fazendo parte de um evento daquele não compensasse.

Essa questão do consumo era realmente algo impressionante. O vai e vem de caminhões abastecendo o festival era intenso e numa logística apavorante, não faltava nada e as bebidas estavam sempre geladas. Fui sentir falta de alguma coisa só no penúltimo dia.

A DM7, que realiza o Adhana, tem uma política de copos reutilizáveis e colecionáveis muito legal. Você não vê copos descartáveis pelo evento, então quem chega pode trocar seu copo por um quilo de alimento. Os donativos foram encaminhados para entidades assistenciais. Isso é praxe, inclusive nas festas que a empresa realiza em sua sede, Curitiba.Foto: Adhana Festival Oficial

Quando se vai para um festival é preciso ir preparado. Os espelhos são raros, os banheiros são coletivos, a água quente dos chuveiros só funciona das 18h às 10h. É como se esses pequenos "perrengues" fizessem um equilíbrio com toda a parte fantástica de ver seus ídolos tão de perto.

E foram seis dias de muita música boa. O Adhana conseguiu reunir ícones de diversas vertentes da cena eletrônica, especialmente do psytrance. Apresentações fantásticas, músicas que nunca ouvimos antes, sons aclamados pelo público, novos e velhos nomes dos palcos, artistas locais dividindo espaço com ícones: foi lindo de se ver.

A tenda vermelho, verde e amarelo

Foto via André Belém

O coração desse grande festival estava à frente do Palco Savanah, sob a tenda inacreditável de um dos maiores decoradores deste país, André Belém, que por acaso mora bem aqui em Balneário Camboriú e é um grande amigo.

Só de ver aquilo montado já era surpreendente, mas eu também sabia das dificuldades que ele e companheira Thaiene Carvalho tinham tido pra conseguir finalizar aquilo em tempo. Não foi fácil, foi meio que uma dessas provações que a vida da gente prega vez ou outra pra testar a nossa força.

Aquela tenda era especial e por isso era perfeita para emoldurar a segunda edição do Adhana Festival.

Debaixo daquelas padronagens em amarelo, preto, vermelho e verde sonhos foram realizados, amores despertados e amizades construídas.

O palco à noite, porAnalu Hackenhaar

Para completar o cenário exuberante, o palco do Savanah era uma obra de arte produzida pelo Beco-Rs-Brasil, crew formada pelos artistas Erick Citron e Rodrigo Miranda, a Careca, artistas urbanos que alçaram voos sob as cores fluorescentes dos eventos de música eletrônica. Conheci eles no festival. Ficaram 30 dias longe de casa, dedicados em imprimir sonhos em cores. Foi o palco mais lindo que eu já vi, uma composição de grafite em pano e madeira, dando profundidade e sensação de 3D.

Todo esse conjunto visual ganhava uma vida inexplicável à noite, com o show cenográfico da internacional Laser Beam Factory, que já performou nos maiores festivais do mundo. Difícil explicar o conjunto da obra, mas foi a maior experiência visual até o momento, vai ser difícil superar.

Os cenários do festival, incluindo praça de alimentação e chill out, só ficaram completos com arte cuidadosa e simbólica pelas mãos do casal Bruna e Kadu, da Arte Astral. Eles também dedicaram um mês inteiro para o Adhana, hospedados em uma das cabanas, entre máquina de costura, estruturas de madeira, fios coloridos e tecidos. Só não passaram o Natal batido porque de surpresa os pais apareceram com uma ceia improvisada. Entrega, reconhecimento e amor, visíveis também em sua arte.

Os tons quentes da savana

Foto: Guilherme Andrade

Você já percebeu a tendência que temos de se assemelhar com o meio e com as pessoas que estão à nossa volta? A Danúbia, minha amiga, notou isso no Adhana. Com alguns dias de festival era incrível de ver. As pessoas iam ficando cada vez mais parecidas, usando os tons da savana, reconstruídas em uma paleta de cores vibrante que por pouco não emitia uns rugidos.

A gente foi entrando naquele clima selvático e quente, se acostumando ao melado da pele, suor incontido e constante que explodia a cada virada.

Com tantos dias e temperaturas sempre acima de 30ºC, as roupas ficam suadas, é preciso trocar várias vezes ao dia e lá pelas tantas as combinações vão ficando estranhas, mas estranhamente tudo faz sentido.

Vamos deixando as vaidades de lado, porque é tudo quente demais. Maquiagem derrete, o cabelo escorre e acaba preso no alto da cabeça. Espelho de corpo inteiro vi um, mas vontade era zero de ir até ele. Vamos nos despindo, dia a dia, de “necessidades” do cotidiano.

Dor, perdão, conexão e alegria:

o poder do dancefloor

Foto: Guilherme Andrade

Eu fui bem ingênua e no primeiro dia usei um calçado meio fechado que me rendeu dois calos enormes nos dedões. Os coturnos cozinhavam os dedos, as havaianas acabavam em montanhas de calçados empoeirados no meio da pista...eu só queria saber de pisar na terra e tenho certeza que só por essa conexão consegui me manter firme na pista mesmo com dor.

Doía também o braço direito. No último momento antes de sair eu botei um leque na mala. Foi minha salvação e meu castigo. Logo eu que tirei férias para aliviar o braço com Lesão do Esforço Repetitivo. Mesmo assim, faria de novo, aquele leque passou em várias mãos, salvou o momento de estranhos, rendeu bons sorrisos.

Mas aposto que minha dor nem se comparava a de tantos outros ali. Acho que eu nunca fui - ou ao menos nunca percebi - uma festa com tantas pessoas com algum tipo de dificuldade de mobilidade. Pessoas em cadeiras de roda, muletas, gente com imobilizadores. Nada os impedia de curtir um bom momento, nem a brita que circundava o palco, nem o sobe e desce dos caminhos. Tenho certeza que toda aquela energia lhes fez muito bem.

A dança é ao meu ver um dos meios terapêuticos de mais rápida resposta e no trance isso é elevado à terceira potência. Ninguém se policia, os movimentos são livres, é expressão à flor da pele.

Dança e conexão, pelas lentes de Bruno Camargo

Dançar cura a níveis difíceis de explicar. Depois de horas e dias nessa rotina boêmia de contemplação, a cabeça da gente vai desligando e ao mesmo tempo se religando a muita coisa. Há muita epifania no dancefloor. Lembranças, perdão e inspiração para tudo aquilo que vem pela frente, e neste caso, um 2019 todinho por explorar!

No Adhana isso foi ainda mais intenso, não só pelo grande número de dias, mas por ser na virada de ano. Nós brasileiros somos um povo de muita fé e superstição, a esperança estava na cara das pessoas, no branco da noite de Réveillon, nas manifestações silenciosas no altar sem religião definida no caminho para o banheiro. Todos respeitando suas diferenças.

Nesse clima eufórico de realização a gente abre a guarda. Sorri para estranhos, cinco minutos depois temos novos amigos. Conversamos em línguas de sinais na fila do banheiro quando o idioma é estranho...damos lugar na fila do bar, compartilhamos gentilezas.

Um festival é assim e aos poucos o público do Adhana foi compreendendo isso. Muitas pessoas estavam ali pela primeira vez, outras já era macacos velhos de trance, mas não vi em momento algum, desavença.

Aliás, vi muitos laços de afeto florescerem. Eu também aproveitei a energia de realização e no dia 31 foi minha vez de abrir o coração, um desses presentes que a gente nem acredita merecer.

O Adhana não foi feito apenas de música e festa. O fator humano falou alto, a dedicação das pessoas em fazer aquilo acontecer, a equipe e o público que literalmente vestiram a camisa da DM7, o público se interessando pela arte que era exposta ali, as centenas de pessoas envolvidas no trabalho contínuo de manter uma pequena cidade funcionando.

O único lamento foi a Justiça ter, poucos dias antes de Adhana, determinado a proibição das crianças. Muitas famílias deixaram de ir ou tiveram que deixar seus pequenos em casa por causa de uma visão conservadora que vai impactar diretamente nos eventos de Rio Negrinho. O mesmo está sendo aplicado para o Psicodália neste ano, agora é esperar para ver até onde isso vai parar.

O motivo maior: a música

Astrix, pelas lentes de Guilherme Andrade

Não foi à toa que decidi falar dela só no final. Toda a experiência do festival é um convite, mas é a música que mobiliza. O line up da segunda edição do Adhana Festival era inacreditável. Nos meus 16 anos de trance, nunca tinha testemunhado algo assim. Pelo menos para o meu humilde gosto, foi o melhor que já ouvi falar no Brasil.

Era difícil até escolher a hora de deixar a pista e almoçar ou dormir. Ou pior, escolher entre a pista principal e a Tribus, ao lado do lago, onde rolavam as apresentações com bpms mais tranquilos.

A DM7 tem um feeling impressionante de seleção de artistas (e isso ficou muito evidente no festival), não à toa também é uma agência.

O Adhana começou na sexta-feira (28/12) de dia e lá pelas 4h, 5h silenciava no palco principal. O som recomeçava cedo, era difícil levantar de pronto. Depois do dia 31 o break acabou e o som não parou mais até o final do evento, no dia 2 de janeiro.

Armei minha barraca numa subida de frente para a tenda principal e confesso que ouvi muita gente que queria ver tocar de lá, principalmente no início das manhãs. O instrumental experimental da curitibana Mumbai Express e o projeto Conscious Comfort, do produtor Ryanosaurus foram algumas dessas sonoridades surreais que agradeci ao universo por abrirem meus dias.

A pista principal vivenciou muitos momentos épicos. O produtor israelense Astrix continua sendo ao longo de muitos anos o maior nome da cena e a espera por ele na tarde do dia 30 foi angustiante. Dava pra sentir na pista, que mesmo tórrida, ficava cada vez mais cheia. A sua chegada gerou uma onda inexplicável, as pessoas pulavam alto, gritavam sorrindo. Foi um privilégio estar ali.

Pixel reinventado foi uma das maiores e mais felizes surpresas de todo o Adhana. A tarde do dia 31 marcante com Vini Vici, Ace Ventura, Liquid Soul e Captain Hook, que deram lições sobre progressividade.

O som carregado de ancestralidade de Merkaba (projeto do australiano Kalya Scintilla) promoveu um rito coletivo de conexão em pleno dancefloor. Nunca tinha presenciado algo assim. Música densa, sem firulas, introspectiva.

Foi Kalya que abriu os portais de uma sequência impecável flertando forte com o lado obscuro do prog, que contou com Freedom Fighters, Ryanosaurus, Fábio Leal (Brasi)e mais.

Aliás, os brasileiros fizeram bonito no Adhana. Dos que eu presenciei, o ponto alto foi a virada do ano, capitaneada pelo casal número 1 da DM7: Thatha (Altruism) e Burn in Noise. Também deixaram suas marcas Anginha (a rainha do hitech), Klipsun com uma musicalidade impressionante, Subverso, Jhou, Zecodelico com um goa surpreendente e Element, o idealizador do Adhana, entre tantos outros, nos dois palcos!

Veja como foi o momento da virada do ano:

Do progressivo que dominava os dias ao full on do entardecer à madrugada, não vi defeitos, no entanto, fui percebendo um luto coletivo e prévio tomando conta da audiência uns dois dias antes de acabar. Naquela altura de Adhana os rostos foram se tornando familiares, os caminhos, havia rotina na bagunça. Ninguém queria que aquilo acabasse e todos deixavam bem claro, afinal, foi o melhor ano novo de nossas vidas. Que venha o próximo.


Daniele Sisnandes é jornalista, escreve para o Página 3 desde 2007. Também é DJ e apaixonada por aventuras. Mais crônicas na coluna Frente e Verso.

https://www.instagram.com/danisisnandes/