Era um dia qualquer num intimista e tradicional salão de beleza na pequena cidade cosmopolita catarinense. Jovens senhoras bronzeadas conversavam sobre pintar ou não cabelos brancos, render-se ou não aos caprichos da estética, tomar ou não remédios alopáticos. Até que uma delas, com a naturalidade de quem não sabe o que faz, contou que seguiu a recomendação do médico por dois dias, mas quando as pílulas começaram a incomodar-lhe o estômago, jogou tudo dentro do vaso sanitário e puxou a descarga. Oras! Um ato de rebeldia contra os efeitos colaterais dos fármacos, que a deixou orgulhosa e decidida, senhora de si quanto ao que o corpo lhe disse. O corpo é seu, é ela quem manda.
Criou-se um pequeno alvoroço, não pelo desprezo aos alopáticos e ao doutor-que-sabe, mas das que entendem que o vaso sanitário não é lixo, não é lugar de jogar remédio, já basta o que excretamos, cheio de composições e químicos que deixaria qualquer lúcido de cabelos em pé. Ali é ainda a nossa água e diga-se de passagem, difícil de purificar. E às vezes, quase impossível.
Existe a ideia de que basta puxar a descarga que todas as sujeiras desaparecem no misterioso ralo do mundo. Às vezes alguma criança desavisada insiste em jogar um rolo inteiro de papel higiênico, ou quem sabe uma boneca que precise um banho ou qualquer outro objeto que se dá para a experiência do mini humano, que deve confabular internamente, com o seu vocabulário, questões filosóficas profundas: “onde vão parar as coisas indesejadas?”. “Há fundo na privada do mundo?” “Se a boneca cabe, caberia eu também nesse pequeno reservatório aquático?” Todos que convivem com crianças sabem que a quase maioria não resiste ao convite da água.


E uma água limpa, clara, fresca, é água, seja lá onde estiver. Sim, o que está dentro do vaso sanitário é água! E, se houver os mínimos cuidados de higiene nas louças sanitárias, água limpa.
Se você vive em cidades que têm saneamento básico, a água que chega para sua descarga é água limpa, tratada, tão limpa quanto a que chega na sua cozinha para cozinhar, tão limpa quanto a que sai do seu chuveiro onde você se banha todos os dias. A mesma água. Mesma água que corre lá no rio, que desemboca no mar. Mesma água. Ninguém fabrica água, água se trata, se purifica.
A avó da minha mãe dizia pra ela ainda criança, “um dia vão cobrar a água que a gente bebe”. Já chegou esse tempo faz um tempo e é isso, temos um mercado inteiro que não pára de se desenvolver ao redor da água de beber, em garrafinhas, garrafões, com gás, sem gás, galões, filtros, alcalinizadores, ionizadores e por aí vai, a tecnologia e a indústria a serviço da nossa necessidade mais básica da vida: beber água. Mas ninguém ainda, fabrica água.

Às vezes, na roça, você tem sorte de viver perto de uma nascente, a água que brota do chão. Aí você tem que desenvolver todo um caminho para que ela chegue nas suas torneiras, fazer poço, bombear, puxar cano, ficar de olho na época da seca se a nascente está “funcionando bem”. E como tem cada vez mais gente da cidade querendo voltar para a “vida tranquila”, chega lá na roça com dinheiros, faz poços enormes -pois precisam muita água para suas muitas necessidades- com máquinas que vão até os confins da terra. Dessa forma a superlativa necessidade do outro vai rareando as nascentes que atendiam o tiozinho do poço caipira lá na vida toda, esse sim, que usava só o que precisava mesmo. Aí ele tem que cuidar mais daquela nascente, cercar pros bichos não pisarem, plantar mais e mais em volta, fazer manutenção, porque senão a nascente seca, rareia. E lá na roça não chega a água da cidade. Como diz o bordão da agricultura sintrópica, “água se planta”.

Só um adendo para lembrar como na vida urbana esquecemos dos caminhos que percorrem as coisas que compramos antes que cheguem na porta da nossa casa. “Mas eu estou pagando, tenho direito”. Sim, você está pagando por um recurso natural, porém FI-NI-TO. Finito significa: que acaba. É só correr o dedo aí na sua tela para entender que para muitas pessoas e regiões, a água é extremamente escassa. Períodos prolongados de seca, mau uso, poluição e contaminação, distribuição desigual são alguns dos fatores. Iê dá volta ao mundo, camará!
Mas voltemos à sua torneira, que deixa eu te contar, não é o centro do universo. Faz parte de uma rede, abastecida por empresas que cuidam dessa água. Empresas que não são santas milagreiras, vale lembrar, têm ação limitada, e que dependem da colaboração dos usuários.
Serviço funciona assim: a gente paga e recebe, tem direito, às vezes porque o governo oferece, -o que também vem na nossa conta-, outras porque contratamos diretamente, de qualquer maneira, cidadão respeitado que somos, pagamos e recebemos serviços. Cabe a nós reclamar algo que não está saindo como deveria, informar a empresa sobre possíveis falhas e ajustes, trazer pontos de vista que melhore tudo pra todo mundo, agregue valor e aprimore o que está sendo oferecido. Gostamos de reclamar não é mesmo? Temos espaços exclusivos para isso, internet é nossa privada virtual, vejam o Reclame Aqui com seu um milhão de acessos e mais de 45 mil reclamações POR DIA em média.
Podemos aprimorar o verbo, sem dúvida. Reclamar, no sentido de ajuste e aprimoramento, é ótimo.



Mas cabe MUITO a nós, cidadãos respeitados que somos, cumprir também os nossos deveres, viver como parte de uma grande engrenagem, lembrar que nossa rebeldia ou distração de jogar nossas pílulas na água, não vão deixar de afetar nosso estômago, vão ampliar a contaminação para muito além do nosso mundinho, aliás, que também é nosso mundinho. Tcharan! Não tem lá fora. A água contaminada, vai voltar pra você. Não é carma, castigo de Deus, qualquer coisa tipo frase de efeito, “aqui se faz, aqui se paga”. É simplesmente o caminho da água, como funciona. A gente só percebe um pouco disso quando alguma coisa teimosa entope o cano e aquelas nojeiras todas que desapareciam magicamente começam a voltar. Já enfiou a mão no ralo? Pois é.
Vamos didaticamente:
Faz de conta que a torneira é o que você recebe do mundo e o ralo é o que você despeja no mundo. Quando suas coisas todas passam pelos canos, chegam lá numa outra ponta, que tem uma pessoa de carne e osso que recebe o que você e sua vizinhança mandaram. No ralo gigante da empresa de tratamento, essa pessoa, como você, que fica com nojo do retorno da privada, vai separar MA-NU-AL-MEN-TE aquela montoeira de cabelos, que são os campeões do entupimento, e outros “sólidos grosseiros” como são chamados os dejetos que ficam nessa retenção física: muita areia, plásticos, fibras de roupa também tem bastante, tampinhas diversas, chepas de cigarro, camisinhas em quantidade, e muito, muito milho, aquele apelidado de “te vejo amanhã”, coisa que a gente come, e nosso corpo não consegue processar, mas que vão para algum lugar. Na temporada da cidade litorânea aumenta. Saca? Barraquinha de milho na praia, passa o dia na praia, come milho, vai pra casa, faz suas necessidades e vale atualizar, “alguém te vê amanhã”, porque no nosso caso, cidadãos respeitados com ligação de água e esgoto, provavelmente não é você que vai lidar com isso. Bom, o milho é o de menos.



A professora da Univali e mestre em engenharia ambiental, Tânia Pedrelli, que estuda os caminhos das águas há 30 anos, em Balneário e Camboriú, diz que uma coisa que se observa, lá do começo da profissão, até hoje, é o aumento considerável de gordura na água. Não apenas porque se multiplicaram exponencialmente o número de restaurantes e gentes que frequentam a cidade, mas pela mudança de hábitos. Aquela máxima individualista contemporânea de “eu pago minhas contas, ninguém tem nada com isso” não se sustenta se você entender que TUDO absolutamente que você ingere, vai para a água de TODO MUNDO. Não inventaram ainda um ser humaninho que não precise fazer xixi e cocô, ou faça isso num lugar “só seu”, apesar da falsa ilusão de que fecha a porta está isolado. Bebidas, drogas, medicamentos, alimentos ultraprocessados, qualquer coisa que o individualista ingira, vai ser partilhado com os coleguinhas. Em cidades industriais, ainda tem a contribuição, muitas vezes irregular, de compostos químicos pesados, venenos para a vida humana que correm soltos por aí. Que desespero a lucidez!
(Corta pra pessoa imaginando alguns dos seus vizinhos próximos, ou até a si mesmo, num consumo semanal tranquilinho-moderno…aaaaah meu deus, então ferrou!?)
É, mais ou menos por aí, ferrou.
Mas tem como minimizar.
Segundo Tânia, muito do que chega na água pode ser tratado, mas além do custo ser muito alto, tem um custo alto também para a natureza, pois são necessários tratamentos específicos de acordo com a substância, muitas vezes com excesso de componentes químicos, o que também é prejudicial.
O tratamento da água, convencionalmente, é feito em algumas etapas: separa os sólidos grosseiros (vale sempre ressaltar: manualmente, feito por pessoas), e dessa “limpeza de cesto”, os rejeitos são recolhidas por uma empresa que encaminha para um aterro classe 2, a um custo significativo.
Próxima etapa, retira os poluentes, a matéria orgânica e chega num esgoto claro, para que não precise de muito produto para dissolver/ limpar. Depois faz a desinfecção, com o cloro, tira os patogênicos, as bactérias. E finalmente retira o nitrogênio, que reduz o cloro no “produto final” e aumenta a potabilidade da água.
E aí, aquela coisa nojenta que chegou lá no ralo gigante, depois de tratada, volta pros rios e mares, mas já já estará na sua torneira de novo.

Seria perfeito para o sistema de tratamento receber na água apenas o que é biodegradável, porque funcionaria “redondo”, degrada o que precisa, purifica e retorna. Mas infelizmente hoje lidamos com cada vez mais substâncias não degradáveis, como os componentes de muitos medicamentos (o popular ibuprofeno, por exemplo, que segundo a engenheira, tem moléculas muito resistentes, precisaria um tratamento específico para limpar); a cafeína, os hormônios, a gasolina, óleos, inúmeras substâncias de uso cotidiano na vida moderna, que estão cada vez mais presentes nos nossos rios, nas nossas águas.
“Estou apavorado, como posso ajudar?”
Prestar muita atenção e selecionar muito bem o que desce pelos seus ralos é uma boa maneira de colaborar com a boa fluidez dos sistemas de água. Existem maneiras menos prejudiciais de descartar substâncias específicas e vale sempre rever os seus hábitos, pois tudo que se ingere, que se usa na pele, nos cabelos, passa pelo corpo e desce por água abaixo. Também é assim com os produtos de limpeza.
“E o que faço com as coisas que não podem ir para a água?”



MEDICAMENTOS
Nunca, em hipótese alguma descarte medicamentos, vencidos ou não, na pia ou vaso sanitário da sua casa ou qualquer estabelecimento (mercado, hospital etc). Eles exigem tratamento específico, o convencional não dá conta de purificar as substâncias e o acúmulo gera uma contaminação significativa das nossas águas. Já basta o que consumimos e excretamos através do nosso corpo.
“Desde 2020 os medicamentos fazem parte da Logística Reversa da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê que para certos tipos de resíduos sólidos o fabricante precisa “coletar e dar disposição final do seu resíduo”, mas ainda é algo que precisa ser divulgado e praticado com mais insistência, ainda é de pouco conhecimento da população”, explica Tânia. Veja no link os pontos de coleta mais próximos https://www.logmed.org.br/#coleta
ÓLEO DE COZINHA
Não se joga óleo de cozinha na pia nem no vaso sanitário, pois ele é altamente poluente. Da mesma maneira que não se joga no solo, já que no fim, os diversos caminhos vão levar ao mesmo ponto: as águas. Como é um “ingrediente” muito usado na reciclagem, seu recolhimento é mais difundido, existem diversos pontos de coletas, em bairros, mercados e estabelecimentos diversos, alguns até pagam pelo material, que pode ser usado para fazer sabão, ração e biodiesel. Para descartar o óleo, espere esfriar, coloque numa garrafa pet e procure o posto de coleta mais próximo (há alguns que recolhem em casa).
OUTRAS GORDURAS
Item preocupante nas estações de tratamento, devido aos excessos de gorduras na alimentação, e por falta de manutenção nos sistemas das casas, edifícios, e principalmente, em cidades como Balneário Camboriú, restaurantes e bares. As caixas de gordura, que ficam na saída dos canos e deveriam reter boa parte do que desce pelo ralo, não dão conta, ou estão muitos sujas, sem a manutenção periódica que deveriam receber. Algumas nem foram feitas especificamente para receber tanta matéria. Vaza pra rede, chega nas estações, que consegue tratar uma parte mas não tudo, volta para as águas. E assim vai.
CABELOS
Parece inofensivo, mas no volume total, vira um nó difícil de desatar. Misturado com gordura e areia, conta a especialista, vira um tijolo. Aqui o ato responsável é bem prático: juntar os cabelos do ralo e dispensar numa lixeira. Sempre. Vale para a barba também, pia não é lugar para isso (digam as donas de casa, que em grande número são as que precisam limpar o estrago depois da barba feita). Também é uma forma de garantir a boa manutenção dos seus canos e circulação caseiros, para que não entupam com frequência.
CAMISINHAS
Alôu, precisa avisar? Embrulha num papelzinho e põe no lixo minha gente. Além de ser deselegante (às vezes a descarga nem é tão eficiente e fica aquela coisa boiando até resolver), causa um problema sério na rede, porque o látex estica, enrola, prende em outras coisas.
PAPEL HIGIÊNICO
Normalmente ele se decompõe, mas se quiser ajudar mesmo, melhor não jogar no vaso sanitário. Pensa o seu uso de papel multiplicado por dez, agora por cinquenta e por cem mil, uma grande meleca de papel molhado, misturada com areia, gordura, cabelos. Facilita, põe na lixeirinha. Outros papéis então, são ainda piores de dissolver.
OBJETOS SÓLIDOS
Nunca absolutamente jogue nada sólido (além das suas fezes rs) no vaso sanitário ou em qualquer ralo. Dependendo da substância, é muito danoso, e tem também as questões mecânicas, às vezes algum objeto estoura a bomba, entope a rede, e isso gera um custo alto e uma manutenção geral, por causa de um “pequeno” ato irresponsável de uma só pessoa.
MUDANÇA DE HÁBITOS
E por último, mas não menos importante por ser mais subjetivo, VALE MUITO A REFLEXÃO de como você se alimenta, que tipo de substâncias ingere, como pode minimizar a química na sua vida, o que passa nos cabelos, na pele, com o que limpa a casa, como lava suas roupas e por aí vai. Se for na raiz é quase enlouquecedor o quão dormindo estamos para as agressões diárias que cometemos com o nosso corpo, e consequentemente, o corpo da terra, que tem mais de 80% de sua constituição feita de águas.



FICA A DICA
Vale lembrar que na quase totalidade de linhas terapêuticas a água, relacionada à “origem de todas as coisas”, é o elemento associado às emoções, então se quiser aproveitar para fazer um paralelo de como esse elemento está sendo cuidado em você e ao seu redor, também terá muitas dicas para reflexões sobre si mesmo.


