Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Geral
Para sempre, por Fernando Baumann

De fusca de Balneário Camboriú a Buenos Aires

Segunda, 23/7/2018 12:07.
Arquivo Pessoal
Fernando e Henrique prontos para a aventura

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Já era um sonho antigo meu e do Henrique fazer uma viagem de fusca. Dizem que a paixão por Volkswagen foi influência minha, mas quero acreditar que não. Nosso objetivo inicial era ir a Ushuaia, na Argentina, mas os quase 10 mil quilômetros de ida e volta nos colocavam a barreira do tempo como empecilho. Não que achássemos que o bravo carrinho não desse conta, mas ficar 20 dias fora de casa e do trabalho seria difícil . Outro fator era conciliar a agenda de trabalho minha com a dele, hoje em próspera carreira de modelo em São Paulo.

Tanto o veículo como o caminho eram apenas os meios para desfrutarmos alguns dias juntos, então este plano poderia ser adiado ou substituído sem prejuízo a ideia original. E assim o tempo passou, até que um dia ele me ligou e disse: “pai, tenho dez dias de folga, vamos viajar com o fusca?” Um turbilhão de pensamentos e possibilidades surgiram na minha mente junto com àquele frio na espinha característico da aprovação emocional, então falei: “Vamos!”

Plano feito decidimos a data e o traçado, que seria Balneário Camboriú a Buenos Aires saindo do Brasil por Dionísio Cerqueira, depois cruzando o Rio de la Plata com a balsa até o Uruguai, passando por Colônia, Montevideo e Punta del Este.

Todos com os quais compartilhamos nosso plano riam da ideia. - “De fusca? Não tem forma melhor? Vão com àquela coisinha?” – muitos diziam, ou se não diziam pensavam. Dava para ver em suas expressões faciais.

No dia marcado saímos em direção a Dionísio Cerqueira. Muita chuva no caminho e estradas em péssimo estado, principalmente na parte que passa pelo Paraná. Fomos bem, média de 11,0 km/l e a fusqueta aguentando o tranco, sem surpresas ou desconfortos, ,isso para duas pessoas de estatura média/alta como o Henrique e eu.

No dia seguinte cruzamos a fronteira seca com a Argentina. Como as estradas são diferentes, muito melhores que as nossas! Já nos primeiros 10,0 km em uma barreira policial fomos parados para averiguação dos documentos. O agente foi rápido e educado. Naquele dia nos pararam mais quatro vezes. No final já ríamos quando víamos uma barreira, por que era certo que eles iam nos parar, pois na verdade o que queriam era ver era o fusca, não os documentos, por que lá não tem esse veículo, o que é uma atração.

Andamos bem e final da tarde chegamos a Paso de Los Libres, onde havíamos pensado dormir. Como estávamos bem(eu, Henrique e o fusca), decidimos ir mais adiante, por que daí no dia seguinte conseguiríamos chegar mais cedo em Buenos Aires. Paramos para dormir em um hotel a beira da rodovia, após uma jornada no dia de 870,0 km.

Sim, um pouco antes de chegar no hotel levamos um belo susto. Numa curva havia um animal de grande porte recém atropelado e ainda bastante inteiro. Consegui desviar a roda dianteira, mas a traseira não, então houve uma forte pancada e solavanco, acompanhado por um barulho estranho aos nossos ouvidos vindo da parte traseira do carro.

Tentando entender o que havia acontecido e no embalo em que estávamos coloquei o ponto morto e acelerei algumas vezes. Com o motor estava tudo certo. Então fiz movimentos laterais na direção para entender se havia danificado o pneu, e também estava tudo bem. No primeiro local iluminado que encontramos paramos para verificar melhor, e o que havia acontecido é que a dita carcaça entrou entre a roda traseira e o para-lama, que entornou e começou a raspar no pneu. Puxamos o para-lama de volta e resolvemos o problema.

Não tinha comentado, mas por conta da carteira provisória do Henrique decidimos que ele dirigiria no Brasil e eu na Argentina e no Uruguai.

Também cometi uma falha ao entrar na Argentina apenas com dólar e reais. Durante a viagem encontramos vários pedágios. No primeiro paramos na administração para nos informar e foi nos dito que poderia ser pago em reais. Ufa!!

Entretanto no terceiro dia de viagem chegando na capital Argentina e último pedágio a passar ficamos parados no guichê de cobrança com uma fila enorme atrás de nós. O cobrador não aceitou nossa moeda e com muita indignação falou: “Mas aqui é Buenos Aires!!!! No aceptamos reales”. Confusão armada, ele saiu muito indignado do seu posto vindo em nossa direção. Quando viu o fusca de frente parou com olhar de espanto, dando meia volta e retornando ao seu lugar. Fez uma ligação e instantes depois disse: “ Adelante! Adelante! Acho que ficou com pena de nós.

O dia seguinte foi de descanso e passeios. Aproveitamos para caminhar pela chuvosa e fria Buenos Aires. Para não perder o hábito, aproveitei e marquei um almoço com um parceiro local de negócios. O Henrique ficou um pouco chateado, mas tudo bem, faz parte também aproveitar a oportunidade e trabalhar um pouco. Como rodamos muito nos três dias anteriores, estranhamos a parada deste dia, não vendo a hora de retornar para a estrada, ou rutas, como dito por lá.

Domingo acordamos cedo para fazer a travessia ao Uruguai de Buquebus. Tem uma certa burocracia esta migração, aliado ao fato de o terminal estar muito mal sinalizado. Sem contar o alto custo, por volta de 165 dólares para os três.

Uma hora depois descíamos em solo uruguaio e aproveitamos para circular por Colônia del Sacramento, importante centro histórico reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Acha a gasolina brasileira cara? Vá ver a do país vizinho, algo em torno de seis reais o litro.

A caminho de Montevideo paramos em um posto para abastecer. Por intuição o Henrique abriu a tampa do motor para dar uma verificada como estava. Ficou assustado quando viu jorrar gasolina pelo carburador. Preocupado fui verificar o que era, e constatei que um lacre havia se rompido. Num golpe de sorte encontrei um único parafuso em minha caixa de ferramentas, e que era exatamente a bitola e rosca do furo.. Nosso consumo nesse trecho foi de 7,7 km/l, para ver quanto combustível perdemos, fora o risco de incêndio. A natureza estava conspirando a nosso favor e descobrimos que nossos anjos também gostam de VW.

Neste mesmo dia passamos por Punta del Este, pernoitando em Punta del Diablo, um povoado de pescadores no Departamento de Rocha, a 40 km da divisa com o Brasil. O Uruguai é sem igual. É outro astral.

No penúltimo dia de viagem o Henrique assumiu a boléia. Era nítida a alegria dele após três dias sentado no banco do carona. Já passei dessa idade então para mim não faz diferença, mas entendo ele perfeitamente. A noite, após muita chuva, neblina e estradas em péssimo estado chegamos em Caxias do Sul. A opção de passar por lá foi em razão do abraço que queria dar no meu irmão, morador daquela cidade a muito tempo.

A tocada final até Balneário Camboriú foi muito tranquila, com um belíssimo dia de sol e céu azul. A fusqueta aguentou muito bem, sendo até confortável e agradável de andar. Por conta das baixas temperaturas desses dias imaginamos passar muito frio em seu interior, o que acabou não acontecendo, pois é um veículo muito integro e confiável. Pra saber tem até ar condicionado.

Na memória as boas lembranças de sete dias de viagem, sendo seis de estrada e 3.600 km percorridos. Dos largos sorrisos e cumprimentos recebidos. Das buzinadas e abanos de mão para um veículo simpático e diferente. Muitas vezes nanico perto dos carros atuais, mas um gigante que não se acovardou por longos trechos a 110 km/h de velocidade de cruzeiro.

Mas o principal e mais importante: pai e filho unidos pelo objetivo de se curtir, se divertir e dar muitas risadas. Consegui me desligar um pouco da rotina de compromissos e aproveitar cada minuto com meu filho como sendo único, o que realmente foi.

E por que com o fusca?

Bom, o fusca foi só uma desculpa.


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Página 3

Para sempre, por Fernando Baumann

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Fernando e Henrique prontos para a aventura
Fernando e Henrique prontos para a aventura

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Segunda, 23/7/2018 12:07.

Já era um sonho antigo meu e do Henrique fazer uma viagem de fusca. Dizem que a paixão por Volkswagen foi influência minha, mas quero acreditar que não. Nosso objetivo inicial era ir a Ushuaia, na Argentina, mas os quase 10 mil quilômetros de ida e volta nos colocavam a barreira do tempo como empecilho. Não que achássemos que o bravo carrinho não desse conta, mas ficar 20 dias fora de casa e do trabalho seria difícil . Outro fator era conciliar a agenda de trabalho minha com a dele, hoje em próspera carreira de modelo em São Paulo.

Tanto o veículo como o caminho eram apenas os meios para desfrutarmos alguns dias juntos, então este plano poderia ser adiado ou substituído sem prejuízo a ideia original. E assim o tempo passou, até que um dia ele me ligou e disse: “pai, tenho dez dias de folga, vamos viajar com o fusca?” Um turbilhão de pensamentos e possibilidades surgiram na minha mente junto com àquele frio na espinha característico da aprovação emocional, então falei: “Vamos!”

Plano feito decidimos a data e o traçado, que seria Balneário Camboriú a Buenos Aires saindo do Brasil por Dionísio Cerqueira, depois cruzando o Rio de la Plata com a balsa até o Uruguai, passando por Colônia, Montevideo e Punta del Este.

Todos com os quais compartilhamos nosso plano riam da ideia. - “De fusca? Não tem forma melhor? Vão com àquela coisinha?” – muitos diziam, ou se não diziam pensavam. Dava para ver em suas expressões faciais.

No dia marcado saímos em direção a Dionísio Cerqueira. Muita chuva no caminho e estradas em péssimo estado, principalmente na parte que passa pelo Paraná. Fomos bem, média de 11,0 km/l e a fusqueta aguentando o tranco, sem surpresas ou desconfortos, ,isso para duas pessoas de estatura média/alta como o Henrique e eu.

No dia seguinte cruzamos a fronteira seca com a Argentina. Como as estradas são diferentes, muito melhores que as nossas! Já nos primeiros 10,0 km em uma barreira policial fomos parados para averiguação dos documentos. O agente foi rápido e educado. Naquele dia nos pararam mais quatro vezes. No final já ríamos quando víamos uma barreira, por que era certo que eles iam nos parar, pois na verdade o que queriam era ver era o fusca, não os documentos, por que lá não tem esse veículo, o que é uma atração.

Andamos bem e final da tarde chegamos a Paso de Los Libres, onde havíamos pensado dormir. Como estávamos bem(eu, Henrique e o fusca), decidimos ir mais adiante, por que daí no dia seguinte conseguiríamos chegar mais cedo em Buenos Aires. Paramos para dormir em um hotel a beira da rodovia, após uma jornada no dia de 870,0 km.

Sim, um pouco antes de chegar no hotel levamos um belo susto. Numa curva havia um animal de grande porte recém atropelado e ainda bastante inteiro. Consegui desviar a roda dianteira, mas a traseira não, então houve uma forte pancada e solavanco, acompanhado por um barulho estranho aos nossos ouvidos vindo da parte traseira do carro.

Tentando entender o que havia acontecido e no embalo em que estávamos coloquei o ponto morto e acelerei algumas vezes. Com o motor estava tudo certo. Então fiz movimentos laterais na direção para entender se havia danificado o pneu, e também estava tudo bem. No primeiro local iluminado que encontramos paramos para verificar melhor, e o que havia acontecido é que a dita carcaça entrou entre a roda traseira e o para-lama, que entornou e começou a raspar no pneu. Puxamos o para-lama de volta e resolvemos o problema.

Não tinha comentado, mas por conta da carteira provisória do Henrique decidimos que ele dirigiria no Brasil e eu na Argentina e no Uruguai.

Também cometi uma falha ao entrar na Argentina apenas com dólar e reais. Durante a viagem encontramos vários pedágios. No primeiro paramos na administração para nos informar e foi nos dito que poderia ser pago em reais. Ufa!!

Entretanto no terceiro dia de viagem chegando na capital Argentina e último pedágio a passar ficamos parados no guichê de cobrança com uma fila enorme atrás de nós. O cobrador não aceitou nossa moeda e com muita indignação falou: “Mas aqui é Buenos Aires!!!! No aceptamos reales”. Confusão armada, ele saiu muito indignado do seu posto vindo em nossa direção. Quando viu o fusca de frente parou com olhar de espanto, dando meia volta e retornando ao seu lugar. Fez uma ligação e instantes depois disse: “ Adelante! Adelante! Acho que ficou com pena de nós.

O dia seguinte foi de descanso e passeios. Aproveitamos para caminhar pela chuvosa e fria Buenos Aires. Para não perder o hábito, aproveitei e marquei um almoço com um parceiro local de negócios. O Henrique ficou um pouco chateado, mas tudo bem, faz parte também aproveitar a oportunidade e trabalhar um pouco. Como rodamos muito nos três dias anteriores, estranhamos a parada deste dia, não vendo a hora de retornar para a estrada, ou rutas, como dito por lá.

Domingo acordamos cedo para fazer a travessia ao Uruguai de Buquebus. Tem uma certa burocracia esta migração, aliado ao fato de o terminal estar muito mal sinalizado. Sem contar o alto custo, por volta de 165 dólares para os três.

Uma hora depois descíamos em solo uruguaio e aproveitamos para circular por Colônia del Sacramento, importante centro histórico reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Acha a gasolina brasileira cara? Vá ver a do país vizinho, algo em torno de seis reais o litro.

A caminho de Montevideo paramos em um posto para abastecer. Por intuição o Henrique abriu a tampa do motor para dar uma verificada como estava. Ficou assustado quando viu jorrar gasolina pelo carburador. Preocupado fui verificar o que era, e constatei que um lacre havia se rompido. Num golpe de sorte encontrei um único parafuso em minha caixa de ferramentas, e que era exatamente a bitola e rosca do furo.. Nosso consumo nesse trecho foi de 7,7 km/l, para ver quanto combustível perdemos, fora o risco de incêndio. A natureza estava conspirando a nosso favor e descobrimos que nossos anjos também gostam de VW.

Neste mesmo dia passamos por Punta del Este, pernoitando em Punta del Diablo, um povoado de pescadores no Departamento de Rocha, a 40 km da divisa com o Brasil. O Uruguai é sem igual. É outro astral.

No penúltimo dia de viagem o Henrique assumiu a boléia. Era nítida a alegria dele após três dias sentado no banco do carona. Já passei dessa idade então para mim não faz diferença, mas entendo ele perfeitamente. A noite, após muita chuva, neblina e estradas em péssimo estado chegamos em Caxias do Sul. A opção de passar por lá foi em razão do abraço que queria dar no meu irmão, morador daquela cidade a muito tempo.

A tocada final até Balneário Camboriú foi muito tranquila, com um belíssimo dia de sol e céu azul. A fusqueta aguentou muito bem, sendo até confortável e agradável de andar. Por conta das baixas temperaturas desses dias imaginamos passar muito frio em seu interior, o que acabou não acontecendo, pois é um veículo muito integro e confiável. Pra saber tem até ar condicionado.

Na memória as boas lembranças de sete dias de viagem, sendo seis de estrada e 3.600 km percorridos. Dos largos sorrisos e cumprimentos recebidos. Das buzinadas e abanos de mão para um veículo simpático e diferente. Muitas vezes nanico perto dos carros atuais, mas um gigante que não se acovardou por longos trechos a 110 km/h de velocidade de cruzeiro.

Mas o principal e mais importante: pai e filho unidos pelo objetivo de se curtir, se divertir e dar muitas risadas. Consegui me desligar um pouco da rotina de compromissos e aproveitar cada minuto com meu filho como sendo único, o que realmente foi.

E por que com o fusca?

Bom, o fusca foi só uma desculpa.


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