Jornal Página 3

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Após anos de ostracismo, Clube Militar volta ao centro do poder com Bolsonaro
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Sábado, 13/4/2019 7:21.

FÁBIO ZANINI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - No hall de entrada do Clube Militar, no centro do Rio de Janeiro, uma placa homenageia "o movimento democrático de 31 de março".

Outra lista militares que durante o regime instaurado em 1964 "tombaram como vítimas de atos praticados por terroristas que queriam implantar uma ditadura comunista em nosso país".

Após décadas sendo desprezado como uma instituição anacrônica de saudosistas da ditadura, o Clube Militar pode-se dizer vingado. Afinal, a visão benevolente que a instituição tem há anos sobre o golpe agora é parte do senso comum, ao menos na mais alta esfera de poder do país.

A direção do Clube e o generalato que ocupa importantes cargos no governo de Jair Bolsonaro têm antigas relações pessoais. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, comandou a entidade até tomar posse. O próprio presidente da República sempre foi figura assídua por ali.

"Bolsonaro vinha muito, almoçava aqui e ficava conversando com o pessoal", diz o coronel Ivan Cosme, diretor de Comunicação Social, que me guiou por uma visita no prédio de 18 andares no último dia 3.

O Clube Militar ostenta orgulhoso o título de "A Casa da República", e tem motivos para isso. Sua história e a do regime republicano se confundem, a começar pelo fato de três de seus presidentes também terem governado o país: Deodoro da Fonseca, Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra. ("Teremos outro em breve?", perguntei, em referência a Mourão, mas a piadinha ficou sem resposta).

Deodoro foi o primeiro presidente do Clube, dois anos antes de proclamar a República. Em duas horas de visita, o que mais me chamou a atenção foi a riqueza do material ali disponível, extremamente bem conservado, que rivaliza com o dos melhores museus históricos do país.

E que é acessado por pouquíssimos visitantes.

A maior preciosidade guardada é um documento que pode ser considerado "a ata de fundação da República". Em 9 de novembro de 1889, seis dias antes da derrubada de Dom Pedro 2º portanto, o Clube Militar se reuniu sob a presidência de Benjamin Constant (Deodoro estava ausente). A reunião oficializou o apoio dos militares à República, e deu o empurrão final para o movimento que derrubou a Monarquia.

No museu do Clube, há ainda tesouros como a cadeira usada por Deodoro na Presidência, móveis originais do Barão do Rio Branco e documentos curiosos, como a ficha de aceitação do "aspirante" Humberto Alencar Castelo Branco, futuro presidente da República, como membro do Clube, em 1911, quando tinha 11 anos de idade.

Quem cuida de tudo é a museóloga Sueli Almeida, cuja dedicação ao acervo é admirável. Há 33 anos ela, praticamente sozinha, cataloga, restaura e preserva milhares de itens. "Não são muitos os visitantes", diz.

O prédio em si, de 1941, já vale a visita (a sede anterior funcionava no mesmo local e foi demolida no final da década de 1930). Para quem passa pela avenida Rio Branco, o edifício é apenas mais um espremido entre galerias meio decadentes e restaurantes a quilo, e não chama muito a atenção. Dentro, contudo, há belos salões decorados com lustres de cristal e piso de mármore, repletos de fotografias e pinturas de cenas de batalha e de líderes militares.

Há duas bibliotecas charmosas, uma delas com o acervo doado pelo marechal Juarez Távora (1898-1975), um dos militares mais influentes do século passado. São mais de 50 mil títulos abertos para consulta do público.

Numa sala, uma placa marca a importância da entidade na campanha "O Petróleo é Nosso", nos anos 1950. Outra local de destaque, motivo de orgulho da instituição, é a "sala do xadrez", esporte que o estatuto proíbe que seja eliminado do calendário cultural do Clube.

Sim, porque o Clube Militar não é apenas um grupo de aposentados falando sobre o passado. Além da sede no centro, onde fica sua diretoria e são realizados debates e eventos políticos, há outra na Lagoa Rodrigo de Freitas, que aí sim é um clube nos moldes tradicionais, com piscinas e quadras, além de uma terceira em Cabo Frio, na região dos Lagos.

São 38 mil associados, das três Forças, da reserva e da ativa. O Clube se sustenta com mensalidades e o aluguel de alguns imóveis que possui. Não recebe dinheiro das Forças Armadas.

O espírito de "irmandade" entre as gerações da família militar é uma prioridade. Uma das ações sociais que o Clube promove é organizar a doação de espadas de militares que se aposentam para cadetes de baixa renda que se formam (o preço de uma nova pode passar de R$ 1.000).

Agora que está mais perto do poder, a instituição quer intensificar sua atuação junto à sociedade. Está marcado para maio um debate com o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Uma visita do próprio Bolsonaro não deve tardar.

Campanhas como as realizadas no passado também devem ser retomadas. Uma com boa aceitação, lembra o coronel Cosme, foi a "Campanha pela Moralidade Nacional", realizada em 2015, que teve uma série de debates sobre combate à corrupção e o resgate de valores tradicionais.

O Clube, afinal, é abertamente conservador, como, de resto, é a classe militar em sua maioria. Também é uma instituição profundamente zelosa da participação das Forças Armadas na história nacional. As placas em defesa de 1964 são apenas um mostruário da linha que segue a entidade.

Durante os debates da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final identificou 434 mortos e desaparecidos durante a ditadura, o Clube foi a principal voz a denunciar suas conclusões.

Quadros com a imagem dos generais-presidentes do período militar se espalham pelo prédio. Um salão contíguo ao gabinete do presidente do Clube Militar (atualmente, o general de Divisão Eduardo José Barbosa) foi batizado em homenagem ao presidente Emílio Médici, em cujo governo (1969-74) a repressão a opositores da ditadura viveu seu auge.

Em 132 anos de história, foram diversos momentos de prestígio e ostracismo. Hoje, após décadas em que líderes perseguidos pelo regime militar como Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff ocuparam o Palácio do Planalto, há um otimismo palpável no venerável prédio da avenida Rio Branco.

Quem quiser visitar o acervo do museu do Clube Militar pode marcar sua visita no tel. 21-3125-8284, de 2ª a 6ª, das 13h às 17h. O endereço é av. Rio Branco, 251, Centro, Rio de Janeiro. 

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Após anos de ostracismo, Clube Militar volta ao centro do poder com Bolsonaro

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Sábado, 13/4/2019 7:21.

FÁBIO ZANINI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - No hall de entrada do Clube Militar, no centro do Rio de Janeiro, uma placa homenageia "o movimento democrático de 31 de março".

Outra lista militares que durante o regime instaurado em 1964 "tombaram como vítimas de atos praticados por terroristas que queriam implantar uma ditadura comunista em nosso país".

Após décadas sendo desprezado como uma instituição anacrônica de saudosistas da ditadura, o Clube Militar pode-se dizer vingado. Afinal, a visão benevolente que a instituição tem há anos sobre o golpe agora é parte do senso comum, ao menos na mais alta esfera de poder do país.

A direção do Clube e o generalato que ocupa importantes cargos no governo de Jair Bolsonaro têm antigas relações pessoais. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, comandou a entidade até tomar posse. O próprio presidente da República sempre foi figura assídua por ali.

"Bolsonaro vinha muito, almoçava aqui e ficava conversando com o pessoal", diz o coronel Ivan Cosme, diretor de Comunicação Social, que me guiou por uma visita no prédio de 18 andares no último dia 3.

O Clube Militar ostenta orgulhoso o título de "A Casa da República", e tem motivos para isso. Sua história e a do regime republicano se confundem, a começar pelo fato de três de seus presidentes também terem governado o país: Deodoro da Fonseca, Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra. ("Teremos outro em breve?", perguntei, em referência a Mourão, mas a piadinha ficou sem resposta).

Deodoro foi o primeiro presidente do Clube, dois anos antes de proclamar a República. Em duas horas de visita, o que mais me chamou a atenção foi a riqueza do material ali disponível, extremamente bem conservado, que rivaliza com o dos melhores museus históricos do país.

E que é acessado por pouquíssimos visitantes.

A maior preciosidade guardada é um documento que pode ser considerado "a ata de fundação da República". Em 9 de novembro de 1889, seis dias antes da derrubada de Dom Pedro 2º portanto, o Clube Militar se reuniu sob a presidência de Benjamin Constant (Deodoro estava ausente). A reunião oficializou o apoio dos militares à República, e deu o empurrão final para o movimento que derrubou a Monarquia.

No museu do Clube, há ainda tesouros como a cadeira usada por Deodoro na Presidência, móveis originais do Barão do Rio Branco e documentos curiosos, como a ficha de aceitação do "aspirante" Humberto Alencar Castelo Branco, futuro presidente da República, como membro do Clube, em 1911, quando tinha 11 anos de idade.

Quem cuida de tudo é a museóloga Sueli Almeida, cuja dedicação ao acervo é admirável. Há 33 anos ela, praticamente sozinha, cataloga, restaura e preserva milhares de itens. "Não são muitos os visitantes", diz.

O prédio em si, de 1941, já vale a visita (a sede anterior funcionava no mesmo local e foi demolida no final da década de 1930). Para quem passa pela avenida Rio Branco, o edifício é apenas mais um espremido entre galerias meio decadentes e restaurantes a quilo, e não chama muito a atenção. Dentro, contudo, há belos salões decorados com lustres de cristal e piso de mármore, repletos de fotografias e pinturas de cenas de batalha e de líderes militares.

Há duas bibliotecas charmosas, uma delas com o acervo doado pelo marechal Juarez Távora (1898-1975), um dos militares mais influentes do século passado. São mais de 50 mil títulos abertos para consulta do público.

Numa sala, uma placa marca a importância da entidade na campanha "O Petróleo é Nosso", nos anos 1950. Outra local de destaque, motivo de orgulho da instituição, é a "sala do xadrez", esporte que o estatuto proíbe que seja eliminado do calendário cultural do Clube.

Sim, porque o Clube Militar não é apenas um grupo de aposentados falando sobre o passado. Além da sede no centro, onde fica sua diretoria e são realizados debates e eventos políticos, há outra na Lagoa Rodrigo de Freitas, que aí sim é um clube nos moldes tradicionais, com piscinas e quadras, além de uma terceira em Cabo Frio, na região dos Lagos.

São 38 mil associados, das três Forças, da reserva e da ativa. O Clube se sustenta com mensalidades e o aluguel de alguns imóveis que possui. Não recebe dinheiro das Forças Armadas.

O espírito de "irmandade" entre as gerações da família militar é uma prioridade. Uma das ações sociais que o Clube promove é organizar a doação de espadas de militares que se aposentam para cadetes de baixa renda que se formam (o preço de uma nova pode passar de R$ 1.000).

Agora que está mais perto do poder, a instituição quer intensificar sua atuação junto à sociedade. Está marcado para maio um debate com o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Uma visita do próprio Bolsonaro não deve tardar.

Campanhas como as realizadas no passado também devem ser retomadas. Uma com boa aceitação, lembra o coronel Cosme, foi a "Campanha pela Moralidade Nacional", realizada em 2015, que teve uma série de debates sobre combate à corrupção e o resgate de valores tradicionais.

O Clube, afinal, é abertamente conservador, como, de resto, é a classe militar em sua maioria. Também é uma instituição profundamente zelosa da participação das Forças Armadas na história nacional. As placas em defesa de 1964 são apenas um mostruário da linha que segue a entidade.

Durante os debates da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final identificou 434 mortos e desaparecidos durante a ditadura, o Clube foi a principal voz a denunciar suas conclusões.

Quadros com a imagem dos generais-presidentes do período militar se espalham pelo prédio. Um salão contíguo ao gabinete do presidente do Clube Militar (atualmente, o general de Divisão Eduardo José Barbosa) foi batizado em homenagem ao presidente Emílio Médici, em cujo governo (1969-74) a repressão a opositores da ditadura viveu seu auge.

Em 132 anos de história, foram diversos momentos de prestígio e ostracismo. Hoje, após décadas em que líderes perseguidos pelo regime militar como Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff ocuparam o Palácio do Planalto, há um otimismo palpável no venerável prédio da avenida Rio Branco.

Quem quiser visitar o acervo do museu do Clube Militar pode marcar sua visita no tel. 21-3125-8284, de 2ª a 6ª, das 13h às 17h. O endereço é av. Rio Branco, 251, Centro, Rio de Janeiro. 

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