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Maiores youtubers apostam em conteúdo anti-Bolsonaro e atraem paixão e ira

Segunda, 7/1/2019 7:15.
Reprodução.

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ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Sempre que você achar que não é bom o suficiente, lembre-se: o comentarista do SuperPop e deputado que ficou 30 anos sem aprovar um projeto virou PRESIDENTE", escreveu no segundo dia de 2019 Felipe Neto, um dos maiores influenciadores digitais do Brasil, a seus 8,3 milhões de seguidores no Twitter –três vezes mais que os 2,85 milhões que Jair Bolsonaro tem na rede social.

"Você pode alcançar tudo o que sonhar", ele continua. "Basta não ter escrúpulos e mentir descaradamente para um público-alvo desesperado."

Gestada no 2018 eleitoral, a politização do Twitter de Neto veio junto com uma onda de haters, como são chamados aqueles que se dedicam a odiar alguém na internet.

Como este que, ante o tuíte de quarta-feira (2), ironizou: "Verdade, grande Felipe, mas isso já foi demonstrado por um garoto que faz vídeos ensinando como cagar na casa da namorada, imitar foca, entre outras imbecilidades, e mesmo com zero de conteúdo ficou muito rico e famoso".

Neto não está só no grupo de estrelas digitais que costumavam falar à geração 2000 e agora despertam a fúria de admiradores de todas as idades do novo presidente. Outros nomes pop nas redes sociais também viraram alvo preferencial da direita nacional.

O MBL (Movimento Brasil Livre) pôs na mira a youtuber Kéfera Buchmann, que teria dado "um show de arrogância" na edição de 13 de dezembro do Encontro com Fátima Bernardes (Globo), ao bater boca com um rapaz na plateia.

Foi Fátima quem o interpelou. O tema: feminismo. Ele, que se identificou como Wallace, disse então que, "na teoria, elas falam que tem que respeitar, tem que ser isso e tem que ser aquilo, mas na prática começam com agressões".

Citou o caso de um homem que excluiu seus perfis em redes sociais após parecer que "atacou uma colmeia" ao falar algo que desagradou feministas. "Os direitos não são iguais. Quando elas falam em assédio, de direitos, tudo bem, mas..."

Kéfera o interrompe: "Oi? Explica mais? Wallace, o que você está fazendo é mansplaining, que é o homem explicando o feminismo para uma mulher. Não é necessário. A gente sabe muito bem o que é".

Ele tenta se explicar, e Kéfera o detém mais uma vez: "Agora você está manterrupting, que é quando você tenta interromper uma mulher explicando o feminismo pra ela".

Em seu portal, o MBL destacou a reação de Kéfera à avalanche de críticas -ela escreveu no Twitter "quero que você se exploda e que a minha bunda cresça haha"- e gravou um vídeo com Wallace.

O jovem diz que a youtuber "ficou alterada e respondeu de forma agressiva", o que o deixou "meio, assim, assustado".

"Nós a criticamos porque foi um ato de proselitismo burro que reflete de maneira cômica a dissonância moral de classe artística alienada dos valores e preocupações do povo brasileiro", diz Pedro Ferreira, cofundador do MBL.

Procurada, Kéfera disse que críticas são normais, ainda mais "quando nos posicionamos sobre política ou alguma ideologia". "Mas ninguém é obrigado a concordar com o modo que cada um pensa, é normal haver divergências de opiniões."

Na internet circula uma lista de "inimigos de Bolsonaro" que inclui tanto Kéfera quanto Neto, além de artistas como Caetano Veloso e Pabllo Vittar. Se hoje está no índex bolsonarista, ele já foi um dos xodós do grupo quando disse que preferia Bolsonaro a Lula.

"Não existe votar em alguém corrupto, não existe. [...]", afirmou em 2017, completando: até numa disputa entre o ex-presidente e "o gorila Malaguias" o PT perdia seu voto.

Mudou de ideia. Aderiu ao #EleNão, mote anti-Bolsonaro, e à beira do segundo turno apoiou o candidato petista, apesar do seu "ódio ao PT". "Irei de Haddad sem orgulho algum, mas pela democracia."

Felipe é um carioca de 30 anos que promete mudar a cor do cabelo quando alcança uma marca de seguidores em seu canal no YouTube -as madeixas azuladas mudarão se chegar a 30 milhões, avisa (está com 29 milhões).

Seus vídeos, que em 2019 tiveram 3,1 bilhões de visualizações, costumam ser inofensivos, como mostrar "animais fofos que te matam" e "produtos bizarros do Mercado Livre". À reportagem ele diz que no YouTube é um, "já na redes sociais sou o Felipe, um cara que acompanha política e adora escrever sobre isso".

E não pretende parar. "Defendo um modelo baseado no nórdico, com valores da direita na economia e da esquerda no social. Por isso, acabo levando xingamentos dos dois lados. Mas, sinceramente, isso incomoda muito pouco."

Hoje, a cólera vem mais de conservadores, que lhe deixam mensagens como "Filipx tá tomando a frente na resistência ao lado do Boulos. Um tenta invadir casas e o outro tenta invadir mentes. Esse moleque não sabe o que fala!".

A recente rixa de admiradores do novo presidente com o youtuber levou a uma situação curiosa: unidos pelo ódio da mesma direita que já os elogiou, ele e a jornalista Rachel Sheherazade se reconciliaram. Em 2014, Neto a chamara de "exemplificação exata da bosta conservadora".

Sheherazade já ganhou de blogueiros progressistas o título de "princesa do conservadorismo brasileiro", mas virou persona non grata na direita por suas críticas a Bolsonaro.

Neto disse que ela deu "uma aula" ao rebater assim um seguidor que defendera o regime militar como forma de livrar o país de virar "uma Cuba": "Acorda, criança! A Guerra Fria foi o pano de fundo para autoritários tomarem o poder à força na América Latina".

Neto pediu no Twitter que seus fãs pedissem para Sheherazade o desbloqueasse na rede social. "Com tudo que ela vem postando sobre Bolsonaro, queria segui-la com prazer. Acredito muito na mudança das pessoas (vide eu mesmo)." A jornalista cedeu aos apelos.

As consequências não se restringem à bolha virtual. Em novembro, o humorista Marcelo Adnet, que durante as eleições fez uma série de vídeos parodiando os candidatos à Presidência, relatou que foi num mercado na Barra da Tijuca e, na saída, viu "um senhor fazer gesto de armas com as mãos e gritar 'vaza', 'vai embora', 'tá olhando o quê?'".

Entrou no carro e escutou outra pessoa engrossando o coro: "Vaza vagabundo!".

"O mais agressivo são os comentários nas redes", disse Adnet à Folha de S.Paulo antes da posse de Bolsonaro. Estava, segundo ele, numa espécie de calmaria que precede a tempestade: "Os ataques deram uma esfriada porque o clima está, digamos, em suspensão. Mas a relativa tensão segue".

E seguiu: na quinta (4), voltou a ser vidraça após publicar uma foto com camisa rosa, uma troça com a ministra Damares Alves e sua declaração de que meninos vestem azul e meninas, rosa. Um dos ricochetes à postagem: "Apareceu mais um da turma da lacração! Não vi nenhum desses na era Lula/Dilma/Temer, estranho! #acabouaputaria".

PC Siqueira, com milhões de seguidores espalhados por várias redes sociais, desativou comentários de um vídeo pós-primeiro turno em que explicou por que não votaria em Jair Bolsonaro. Já previa a onda de "haters", justificou.

Neste domingo (6), Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, o chamou de "corno" no Twitter.

Para Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, influenciadores acabam numa posição delicada "na medida em que são pressionados por sua audiência a dizer o que pensam", e isso por dois fatores:

1) "Com a polarização típica das redes, quando o assunto é política, ficar no meio do caminho não é necessariamente opção. Muitas vezes essa posição acaba atraindo críticas de ambos os lados e minando a viabilidade do influenciador".

Exemplo: no período eleitoral, a cantora Anitta primeiro disse que não tomaria partido, foi elogiada por Flávio Bolsonaro e então, emparedada por seus fãs, deu nova declaração dizendo que não votaria "em candidato machista, homofóbico, racista e por aí vai" e acabou trucidada por eleitores do presidenciável do PSL.

2) "Ao criar conteúdo", diz Cruz, "influenciadores são atraídos para questões divisivas, que atraem a atenção de audiências. A eleição é um fenômeno com forte força gravitacional. Quando se fala sobre todos os assuntos do momento, silenciar nas eleições é cortar essa continuidade".


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Maiores youtubers apostam em conteúdo anti-Bolsonaro e atraem paixão e ira

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Segunda, 7/1/2019 7:15.

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Sempre que você achar que não é bom o suficiente, lembre-se: o comentarista do SuperPop e deputado que ficou 30 anos sem aprovar um projeto virou PRESIDENTE", escreveu no segundo dia de 2019 Felipe Neto, um dos maiores influenciadores digitais do Brasil, a seus 8,3 milhões de seguidores no Twitter –três vezes mais que os 2,85 milhões que Jair Bolsonaro tem na rede social.

"Você pode alcançar tudo o que sonhar", ele continua. "Basta não ter escrúpulos e mentir descaradamente para um público-alvo desesperado."

Gestada no 2018 eleitoral, a politização do Twitter de Neto veio junto com uma onda de haters, como são chamados aqueles que se dedicam a odiar alguém na internet.

Como este que, ante o tuíte de quarta-feira (2), ironizou: "Verdade, grande Felipe, mas isso já foi demonstrado por um garoto que faz vídeos ensinando como cagar na casa da namorada, imitar foca, entre outras imbecilidades, e mesmo com zero de conteúdo ficou muito rico e famoso".

Neto não está só no grupo de estrelas digitais que costumavam falar à geração 2000 e agora despertam a fúria de admiradores de todas as idades do novo presidente. Outros nomes pop nas redes sociais também viraram alvo preferencial da direita nacional.

O MBL (Movimento Brasil Livre) pôs na mira a youtuber Kéfera Buchmann, que teria dado "um show de arrogância" na edição de 13 de dezembro do Encontro com Fátima Bernardes (Globo), ao bater boca com um rapaz na plateia.

Foi Fátima quem o interpelou. O tema: feminismo. Ele, que se identificou como Wallace, disse então que, "na teoria, elas falam que tem que respeitar, tem que ser isso e tem que ser aquilo, mas na prática começam com agressões".

Citou o caso de um homem que excluiu seus perfis em redes sociais após parecer que "atacou uma colmeia" ao falar algo que desagradou feministas. "Os direitos não são iguais. Quando elas falam em assédio, de direitos, tudo bem, mas..."

Kéfera o interrompe: "Oi? Explica mais? Wallace, o que você está fazendo é mansplaining, que é o homem explicando o feminismo para uma mulher. Não é necessário. A gente sabe muito bem o que é".

Ele tenta se explicar, e Kéfera o detém mais uma vez: "Agora você está manterrupting, que é quando você tenta interromper uma mulher explicando o feminismo pra ela".

Em seu portal, o MBL destacou a reação de Kéfera à avalanche de críticas -ela escreveu no Twitter "quero que você se exploda e que a minha bunda cresça haha"- e gravou um vídeo com Wallace.

O jovem diz que a youtuber "ficou alterada e respondeu de forma agressiva", o que o deixou "meio, assim, assustado".

"Nós a criticamos porque foi um ato de proselitismo burro que reflete de maneira cômica a dissonância moral de classe artística alienada dos valores e preocupações do povo brasileiro", diz Pedro Ferreira, cofundador do MBL.

Procurada, Kéfera disse que críticas são normais, ainda mais "quando nos posicionamos sobre política ou alguma ideologia". "Mas ninguém é obrigado a concordar com o modo que cada um pensa, é normal haver divergências de opiniões."

Na internet circula uma lista de "inimigos de Bolsonaro" que inclui tanto Kéfera quanto Neto, além de artistas como Caetano Veloso e Pabllo Vittar. Se hoje está no índex bolsonarista, ele já foi um dos xodós do grupo quando disse que preferia Bolsonaro a Lula.

"Não existe votar em alguém corrupto, não existe. [...]", afirmou em 2017, completando: até numa disputa entre o ex-presidente e "o gorila Malaguias" o PT perdia seu voto.

Mudou de ideia. Aderiu ao #EleNão, mote anti-Bolsonaro, e à beira do segundo turno apoiou o candidato petista, apesar do seu "ódio ao PT". "Irei de Haddad sem orgulho algum, mas pela democracia."

Felipe é um carioca de 30 anos que promete mudar a cor do cabelo quando alcança uma marca de seguidores em seu canal no YouTube -as madeixas azuladas mudarão se chegar a 30 milhões, avisa (está com 29 milhões).

Seus vídeos, que em 2019 tiveram 3,1 bilhões de visualizações, costumam ser inofensivos, como mostrar "animais fofos que te matam" e "produtos bizarros do Mercado Livre". À reportagem ele diz que no YouTube é um, "já na redes sociais sou o Felipe, um cara que acompanha política e adora escrever sobre isso".

E não pretende parar. "Defendo um modelo baseado no nórdico, com valores da direita na economia e da esquerda no social. Por isso, acabo levando xingamentos dos dois lados. Mas, sinceramente, isso incomoda muito pouco."

Hoje, a cólera vem mais de conservadores, que lhe deixam mensagens como "Filipx tá tomando a frente na resistência ao lado do Boulos. Um tenta invadir casas e o outro tenta invadir mentes. Esse moleque não sabe o que fala!".

A recente rixa de admiradores do novo presidente com o youtuber levou a uma situação curiosa: unidos pelo ódio da mesma direita que já os elogiou, ele e a jornalista Rachel Sheherazade se reconciliaram. Em 2014, Neto a chamara de "exemplificação exata da bosta conservadora".

Sheherazade já ganhou de blogueiros progressistas o título de "princesa do conservadorismo brasileiro", mas virou persona non grata na direita por suas críticas a Bolsonaro.

Neto disse que ela deu "uma aula" ao rebater assim um seguidor que defendera o regime militar como forma de livrar o país de virar "uma Cuba": "Acorda, criança! A Guerra Fria foi o pano de fundo para autoritários tomarem o poder à força na América Latina".

Neto pediu no Twitter que seus fãs pedissem para Sheherazade o desbloqueasse na rede social. "Com tudo que ela vem postando sobre Bolsonaro, queria segui-la com prazer. Acredito muito na mudança das pessoas (vide eu mesmo)." A jornalista cedeu aos apelos.

As consequências não se restringem à bolha virtual. Em novembro, o humorista Marcelo Adnet, que durante as eleições fez uma série de vídeos parodiando os candidatos à Presidência, relatou que foi num mercado na Barra da Tijuca e, na saída, viu "um senhor fazer gesto de armas com as mãos e gritar 'vaza', 'vai embora', 'tá olhando o quê?'".

Entrou no carro e escutou outra pessoa engrossando o coro: "Vaza vagabundo!".

"O mais agressivo são os comentários nas redes", disse Adnet à Folha de S.Paulo antes da posse de Bolsonaro. Estava, segundo ele, numa espécie de calmaria que precede a tempestade: "Os ataques deram uma esfriada porque o clima está, digamos, em suspensão. Mas a relativa tensão segue".

E seguiu: na quinta (4), voltou a ser vidraça após publicar uma foto com camisa rosa, uma troça com a ministra Damares Alves e sua declaração de que meninos vestem azul e meninas, rosa. Um dos ricochetes à postagem: "Apareceu mais um da turma da lacração! Não vi nenhum desses na era Lula/Dilma/Temer, estranho! #acabouaputaria".

PC Siqueira, com milhões de seguidores espalhados por várias redes sociais, desativou comentários de um vídeo pós-primeiro turno em que explicou por que não votaria em Jair Bolsonaro. Já previa a onda de "haters", justificou.

Neste domingo (6), Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, o chamou de "corno" no Twitter.

Para Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, influenciadores acabam numa posição delicada "na medida em que são pressionados por sua audiência a dizer o que pensam", e isso por dois fatores:

1) "Com a polarização típica das redes, quando o assunto é política, ficar no meio do caminho não é necessariamente opção. Muitas vezes essa posição acaba atraindo críticas de ambos os lados e minando a viabilidade do influenciador".

Exemplo: no período eleitoral, a cantora Anitta primeiro disse que não tomaria partido, foi elogiada por Flávio Bolsonaro e então, emparedada por seus fãs, deu nova declaração dizendo que não votaria "em candidato machista, homofóbico, racista e por aí vai" e acabou trucidada por eleitores do presidenciável do PSL.

2) "Ao criar conteúdo", diz Cruz, "influenciadores são atraídos para questões divisivas, que atraem a atenção de audiências. A eleição é um fenômeno com forte força gravitacional. Quando se fala sobre todos os assuntos do momento, silenciar nas eleições é cortar essa continuidade".


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