Jornal Página 3
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Pedreiros de Balneário Camboriú relatam como escaparam do andaime durante o ciclone

É uma nova chance, vamos continuar a vida

Sexta, 3/7/2020 13:38.
Arquivo pessoal
Momentos do salvamento

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Uma imagem rodou o Brasil nesta semana, a dos pedreiros de Balneário Camboriú surpreendidos pelo ciclone em jaús (andaimes sustentados por cordas) enquanto trabalhavam numa obra em um prédio de 29 andares, o Number One, na Avenida Atlântica. Houve ocorrências parecidas com a do Number One em outros dois edifícios de Balneário, um que fica na Rua 704 e outro da Avenida Atlântica, mas todos os trabalhadores estão bem, apesar de abalados.

Da equipe de oito pedreiros que faziam manutenção no Number One, cinco estavam em jaús, três deles concederam entrevista ao jornal Página 3 na manhã desta sexta-feira(3) e relataram os momentos de tensão vividos na última terça-feira (30): Adilson Garcia, 45, morador do Bairro dos Municípios, com 25 anos de experiência em construção civil, e os irmãos Ademar de Souza, 36 e Alex de Souza, 27, moradores de Camboriú.

Ademar estava sozinho em um dos três jaús, o que mais balançou com o ciclone. Adilson que estava em uma sacada ao lado, utilizava uma lixadeira no momento em que o ciclone chegou, e a máquina voou da mão e só foi localizada na quarta-feira (1º). Além disso, ele teve que se proteger de uma ‘chuva de madeirite’. Alex, o irmão mais novo de Ademar, estava no térreo quando tudo aconteceu e atuou no resgate junto com a sub-síndica do prédio, a economista Juliana Buerger.

Ciclone veio ‘de repente’

Ademar e Adilson, que estavam no jaú e na sacada, respectivamente, relembram que o tempo estava bom e que o ciclone chegou ‘do nada’.

“Não deu nem tempo de descer o jaú, só pensei em me proteger. A única maneira que eu achei foi um carrinho, aí eu entrei embaixo. Naquela hora eu achei que não ia sair dessa, mas, graças a Deus, Ele estava com nós e nos livrou dessa”, relembra Ademar.

Adilson também confessou que chegou a pensar que não iria sobreviver. O medo era os cabos que sustentam o jaú romper. “Como a ancoragem estava muito bem feita lá em cima, graças a Deus não aconteceu isso, mas tive medo do jaú despencar e a gente ficar se debatendo com o vento, porque aí não teríamos como sobreviver. Eu não via a hora de sair daquela situação, porque eu via que eu não tinha muita chance”, avalia Ademar.

Momentos de tensão

Adilson conseguiu se proteger com um madeirite, espécie de placa feita com lâminas de madeira, mas outros caíam em cima dele, ‘como lâminas’. Nenhum dos pedreiros se feriu. “Não me machuquei nada, mas caía tudo em cima de mim. Não sei como, mas não pegou nenhum. Eu só via a chuva de madeirite, o vento trazia tudo na minha direção”, afirma.

No andar onde Ademar estava com o jaú havia morador e ele conseguiu ser resgatado um pouco antes dos outros. No Number One, segundo Juliana, a maioria dos donos dos apartamentos não reside no local, por isso tiveram um pouco de dificuldade. Por sorte, o zelador do prédio possui todas as chaves, mas foi preciso correr – literalmente – contra o tempo para abrir os apartamentos e ver se era a altura correta para conseguir socorrer os trabalhadores.

“Ficamos apavorados, nosso prédio possui muito idosos, então ficamos muito assustados, os andaimes batiam, era coisa voando. Foi realmente muito assustador. Todos queriam ajudar, a sensação deles estarem bem foi o mais importante, ficamos muito contentes”, comenta a economista.

Alex subiu e desceu 29 andares 5 vezes

Um dos envolvidos no 'resgate' foi Alex, que percebeu que o irmão Ademar estava em um dos jaús. Ele conta que subiu e desceu os 29 andares de escada ‘pelo menos cinco vezes’, já que o local ficou sem energia elétrica.

“Foi um desespero, subi correndo a escadaria, chorando, orando por todos eles. O único que eu não via era o meu irmão. Quando eu cheguei lá em cima eu pensei que poderia fazer alguma coisa por eles, mas estava apavorado, de mãos atadas. Entrei em desespero, não tinha como tirar eles rápido, e era muita chuva de madeirite. Vai ficar na memória. Eu nem cheguei a ver a nuvem, não deu tempo de avisar eles, foi só correr. Pensei que eu ia perder o meu irmão. Quando eu vi ele, foi sem palavras, foi aquele encontro como quando nós éramos moleques e brincávamos juntos”, explica.

Reação das famílias

Adilson tem seis filhos. Os irmãos Ademar e Alex, ambos casados, são pais de uma filha de cinco anos e duas filhas de dois e seis anos, respectivamente.

Ademar mostrou o vídeo para os pais deles somente no outro dia, e então eles entenderam a gravidade da situação.

“Eles acharam que era um simples vento, mas quando eles viram o vídeo falaram ‘realmente você nasceu de novo’, acreditaram em tudo o que eu havia contado”, diz.

Adilson contou que é visto como ‘brincalhão’, e que por isso inicialmente a família pensou que ele estava mentindo. “Acharam que eu estava exagerando, mas quando o vídeo apareceu pediram até pra tirar foto comigo (risos), viram que eu não menti”, salienta.

Emoção e futuro

Ademar e Adilson relatam que quando conseguiram ser socorridos e entraram em um dos apartamentos foi como ‘nascer de novo’.
“É outro aniversário agora, foi bem emocionante”, diz Ademar.

A equipe voltou a trabalhar normalmente na quinta-feira (2), e os três vêem que precisam disso (voltar para a rotina).

“Não podemos parar. Ficamos parados por uns 15 dias, não pretendemos ficar em casa agora. É uma nova chance, vamos continuar a vida”, completa Adilson.

Ano desafiador

A sub-síndica Juliana acrescenta que 2020 tem sido um ano muito desafiador, citando a pandemia, quarentena, chuva de gafanhotos e agora o ciclone.

“Quando eles desceram, que a gente conseguiu abrir os apartamentos para eles pularem, foi muito emocionante. Eles se abraçaram, choraram. Nós fizemos um momento de oração, agradecendo a Deus por estarem todos salvos. A oração que eles fazem diariamente é muito importante, Deus existe para todos, independente da religião. Eles pedem para Deus abençoar o dia de trabalho deles todas as manhãs, e Ele ouviu”, pontua.

Alex, Adilson e Ademar (credito - Renata Rutes)
Number One (credito Renata Rutes)


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Página 3
Arquivo pessoal
Momentos do salvamento
Momentos do salvamento

Pedreiros de Balneário Camboriú relatam como escaparam do andaime durante o ciclone

É uma nova chance, vamos continuar a vida

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Sexta, 3/7/2020 13:38.

Uma imagem rodou o Brasil nesta semana, a dos pedreiros de Balneário Camboriú surpreendidos pelo ciclone em jaús (andaimes sustentados por cordas) enquanto trabalhavam numa obra em um prédio de 29 andares, o Number One, na Avenida Atlântica. Houve ocorrências parecidas com a do Number One em outros dois edifícios de Balneário, um que fica na Rua 704 e outro da Avenida Atlântica, mas todos os trabalhadores estão bem, apesar de abalados.

Da equipe de oito pedreiros que faziam manutenção no Number One, cinco estavam em jaús, três deles concederam entrevista ao jornal Página 3 na manhã desta sexta-feira(3) e relataram os momentos de tensão vividos na última terça-feira (30): Adilson Garcia, 45, morador do Bairro dos Municípios, com 25 anos de experiência em construção civil, e os irmãos Ademar de Souza, 36 e Alex de Souza, 27, moradores de Camboriú.

Ademar estava sozinho em um dos três jaús, o que mais balançou com o ciclone. Adilson que estava em uma sacada ao lado, utilizava uma lixadeira no momento em que o ciclone chegou, e a máquina voou da mão e só foi localizada na quarta-feira (1º). Além disso, ele teve que se proteger de uma ‘chuva de madeirite’. Alex, o irmão mais novo de Ademar, estava no térreo quando tudo aconteceu e atuou no resgate junto com a sub-síndica do prédio, a economista Juliana Buerger.

Ciclone veio ‘de repente’

Ademar e Adilson, que estavam no jaú e na sacada, respectivamente, relembram que o tempo estava bom e que o ciclone chegou ‘do nada’.

“Não deu nem tempo de descer o jaú, só pensei em me proteger. A única maneira que eu achei foi um carrinho, aí eu entrei embaixo. Naquela hora eu achei que não ia sair dessa, mas, graças a Deus, Ele estava com nós e nos livrou dessa”, relembra Ademar.

Adilson também confessou que chegou a pensar que não iria sobreviver. O medo era os cabos que sustentam o jaú romper. “Como a ancoragem estava muito bem feita lá em cima, graças a Deus não aconteceu isso, mas tive medo do jaú despencar e a gente ficar se debatendo com o vento, porque aí não teríamos como sobreviver. Eu não via a hora de sair daquela situação, porque eu via que eu não tinha muita chance”, avalia Ademar.

Momentos de tensão

Adilson conseguiu se proteger com um madeirite, espécie de placa feita com lâminas de madeira, mas outros caíam em cima dele, ‘como lâminas’. Nenhum dos pedreiros se feriu. “Não me machuquei nada, mas caía tudo em cima de mim. Não sei como, mas não pegou nenhum. Eu só via a chuva de madeirite, o vento trazia tudo na minha direção”, afirma.

No andar onde Ademar estava com o jaú havia morador e ele conseguiu ser resgatado um pouco antes dos outros. No Number One, segundo Juliana, a maioria dos donos dos apartamentos não reside no local, por isso tiveram um pouco de dificuldade. Por sorte, o zelador do prédio possui todas as chaves, mas foi preciso correr – literalmente – contra o tempo para abrir os apartamentos e ver se era a altura correta para conseguir socorrer os trabalhadores.

“Ficamos apavorados, nosso prédio possui muito idosos, então ficamos muito assustados, os andaimes batiam, era coisa voando. Foi realmente muito assustador. Todos queriam ajudar, a sensação deles estarem bem foi o mais importante, ficamos muito contentes”, comenta a economista.

Alex subiu e desceu 29 andares 5 vezes

Um dos envolvidos no 'resgate' foi Alex, que percebeu que o irmão Ademar estava em um dos jaús. Ele conta que subiu e desceu os 29 andares de escada ‘pelo menos cinco vezes’, já que o local ficou sem energia elétrica.

“Foi um desespero, subi correndo a escadaria, chorando, orando por todos eles. O único que eu não via era o meu irmão. Quando eu cheguei lá em cima eu pensei que poderia fazer alguma coisa por eles, mas estava apavorado, de mãos atadas. Entrei em desespero, não tinha como tirar eles rápido, e era muita chuva de madeirite. Vai ficar na memória. Eu nem cheguei a ver a nuvem, não deu tempo de avisar eles, foi só correr. Pensei que eu ia perder o meu irmão. Quando eu vi ele, foi sem palavras, foi aquele encontro como quando nós éramos moleques e brincávamos juntos”, explica.

Reação das famílias

Adilson tem seis filhos. Os irmãos Ademar e Alex, ambos casados, são pais de uma filha de cinco anos e duas filhas de dois e seis anos, respectivamente.

Ademar mostrou o vídeo para os pais deles somente no outro dia, e então eles entenderam a gravidade da situação.

“Eles acharam que era um simples vento, mas quando eles viram o vídeo falaram ‘realmente você nasceu de novo’, acreditaram em tudo o que eu havia contado”, diz.

Adilson contou que é visto como ‘brincalhão’, e que por isso inicialmente a família pensou que ele estava mentindo. “Acharam que eu estava exagerando, mas quando o vídeo apareceu pediram até pra tirar foto comigo (risos), viram que eu não menti”, salienta.

Emoção e futuro

Ademar e Adilson relatam que quando conseguiram ser socorridos e entraram em um dos apartamentos foi como ‘nascer de novo’.
“É outro aniversário agora, foi bem emocionante”, diz Ademar.

A equipe voltou a trabalhar normalmente na quinta-feira (2), e os três vêem que precisam disso (voltar para a rotina).

“Não podemos parar. Ficamos parados por uns 15 dias, não pretendemos ficar em casa agora. É uma nova chance, vamos continuar a vida”, completa Adilson.

Ano desafiador

A sub-síndica Juliana acrescenta que 2020 tem sido um ano muito desafiador, citando a pandemia, quarentena, chuva de gafanhotos e agora o ciclone.

“Quando eles desceram, que a gente conseguiu abrir os apartamentos para eles pularem, foi muito emocionante. Eles se abraçaram, choraram. Nós fizemos um momento de oração, agradecendo a Deus por estarem todos salvos. A oração que eles fazem diariamente é muito importante, Deus existe para todos, independente da religião. Eles pedem para Deus abençoar o dia de trabalho deles todas as manhãs, e Ele ouviu”, pontua.

Alex, Adilson e Ademar (credito - Renata Rutes)
Number One (credito Renata Rutes)

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