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Uruguai recorda fuga de trinta e oito presas políticas
Divulgação

Domingo, 14/4/2019 8:27.

Em um episódio pouco conhecido até mesmo entre uruguaios, homens cavaram por dez dias um túnel de 18 metros ligado à rede de esgoto de Montevidéu. A obra, planejada por um engenheiro, permitiu a maior fuga de presas políticas da história do Uruguai.

Trinta e oito mulheres militantes de esquerda, a maioria do movimento Tupamaro, escaparam da prisão de Cabildo, em Montevidéu, na noite de 30 de julho de 1971. Elas estavam presas por ações políticas e armadas ocorridas antes do início da ditadura uruguaia, que endureceu a repressão.

A história agora é relembrada no livro "38 Estrellas" –sem edição no Brasil–, da jornalista argentina Josefina Licitra, para quem o esquecimento está ligado à condição feminina das protagonistas.

Enquanto os incidentes envolvendo homens resultaram em livros e filmes –como o recente "Uma Noite de 12 Anos" (2018), que mostra o isolamento de presos, entre eles o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica–, pouco se fala sobre as mulheres.

"As mulheres tupamaras não exibem suas conquistas. Os homens contam, publicam, recriam, canonizam e filmam", disse Licitra à Folha de S.Paulo.

"Elas caíram em um silêncio que reflete uma época. Nas décadas de 1960 e 1970, a esquerda podia ser ou tentava ser vanguarda em aspectos políticos, mas em outros tinha o mesmo atraso da sociedade em que estava imersa."

Foi justamente esse silêncio uma das razões que motivaram a escritora a investigar o episódio. "Esse mutismo também me chamou a escrever, porque não era um silêncio ingênuo. Esse silêncio dizia coisas", afirma a escritora.

Entre as "38 estrelas", algumas se tornaram líderes políticas após o fim da ditadura, como as gêmeas Topolansky –Lucía, atual vice-presidente do Uruguai, ex-senadora e ex-primeira-dama, companheira de Mujica, e María Elia, conhecida como "La Parda".

Antes de o GPS ou fotos aéreas por drone facilitarem a geolocalização nas cidades, os tupamaros possuíam detalhados mapas de Montevidéu, que indicavam a altura dos prédios e até caminhos subterrâneos. Esses mapas foram feitos com ajuda de María Elia.

Anos antes de ser presa, a jovem caminhava pelo esgoto para mapeá-los. Era comum que os militantes levassem uma gaiola com um pássaro, pois seu comportamento indicava falta de oxigênio nas galerias ou a presença de gás metano, inflamável e liberado por materiais orgânicos.

Quando a escavação do túnel que ligava a prisão a uma casa alugada foi concluído, os militantes se prepararam para sair. Amarraram um barbante no pé e, a cada 20 minutos, o companheiro de trás puxava o da frente, para garantir que estava acordado, em caso de falta de ar.

Na prisão, controlada por freiras, as presas não podiam dividir o mate, bebida tradicionalmente compartilhada. Elas precisavam tomar banho de túnica e não podiam dar demonstrações de carinho –as freiras temiam a possibilidade de relações homossexuais, um tabu na época e no movimento de esquerda.

Quando María Elia chegou ao Cabildo, percebeu que as tupamaras organizavam uma fuga. Elas faziam barulhos para que a obra não fosse percebida, mas foram descobertas pela colega. "Conheço os túneis do esgoto porque todo esse mapa do subsolo fui eu que fiz", disse às demais.

Na noite da fuga, ligaram os rádios sem sintonizá-los para gerar ruídos, fizeram bonecas com pijamas para deixar nas camas e saíram, uma a uma.

Licitra perguntou a uma das estrelas, Graciela Jorge, que décadas depois foi coordenadora da Secretaria de Direitos Humanos de Mujica, se era mais difícil para as mulheres falarem sobre a fuga. "Eu diria que quase ninguém nos perguntou", respondeu. 

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Uruguai recorda fuga de trinta e oito presas políticas

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Domingo, 14/4/2019 8:27.

Em um episódio pouco conhecido até mesmo entre uruguaios, homens cavaram por dez dias um túnel de 18 metros ligado à rede de esgoto de Montevidéu. A obra, planejada por um engenheiro, permitiu a maior fuga de presas políticas da história do Uruguai.

Trinta e oito mulheres militantes de esquerda, a maioria do movimento Tupamaro, escaparam da prisão de Cabildo, em Montevidéu, na noite de 30 de julho de 1971. Elas estavam presas por ações políticas e armadas ocorridas antes do início da ditadura uruguaia, que endureceu a repressão.

A história agora é relembrada no livro "38 Estrellas" –sem edição no Brasil–, da jornalista argentina Josefina Licitra, para quem o esquecimento está ligado à condição feminina das protagonistas.

Enquanto os incidentes envolvendo homens resultaram em livros e filmes –como o recente "Uma Noite de 12 Anos" (2018), que mostra o isolamento de presos, entre eles o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica–, pouco se fala sobre as mulheres.

"As mulheres tupamaras não exibem suas conquistas. Os homens contam, publicam, recriam, canonizam e filmam", disse Licitra à Folha de S.Paulo.

"Elas caíram em um silêncio que reflete uma época. Nas décadas de 1960 e 1970, a esquerda podia ser ou tentava ser vanguarda em aspectos políticos, mas em outros tinha o mesmo atraso da sociedade em que estava imersa."

Foi justamente esse silêncio uma das razões que motivaram a escritora a investigar o episódio. "Esse mutismo também me chamou a escrever, porque não era um silêncio ingênuo. Esse silêncio dizia coisas", afirma a escritora.

Entre as "38 estrelas", algumas se tornaram líderes políticas após o fim da ditadura, como as gêmeas Topolansky –Lucía, atual vice-presidente do Uruguai, ex-senadora e ex-primeira-dama, companheira de Mujica, e María Elia, conhecida como "La Parda".

Antes de o GPS ou fotos aéreas por drone facilitarem a geolocalização nas cidades, os tupamaros possuíam detalhados mapas de Montevidéu, que indicavam a altura dos prédios e até caminhos subterrâneos. Esses mapas foram feitos com ajuda de María Elia.

Anos antes de ser presa, a jovem caminhava pelo esgoto para mapeá-los. Era comum que os militantes levassem uma gaiola com um pássaro, pois seu comportamento indicava falta de oxigênio nas galerias ou a presença de gás metano, inflamável e liberado por materiais orgânicos.

Quando a escavação do túnel que ligava a prisão a uma casa alugada foi concluído, os militantes se prepararam para sair. Amarraram um barbante no pé e, a cada 20 minutos, o companheiro de trás puxava o da frente, para garantir que estava acordado, em caso de falta de ar.

Na prisão, controlada por freiras, as presas não podiam dividir o mate, bebida tradicionalmente compartilhada. Elas precisavam tomar banho de túnica e não podiam dar demonstrações de carinho –as freiras temiam a possibilidade de relações homossexuais, um tabu na época e no movimento de esquerda.

Quando María Elia chegou ao Cabildo, percebeu que as tupamaras organizavam uma fuga. Elas faziam barulhos para que a obra não fosse percebida, mas foram descobertas pela colega. "Conheço os túneis do esgoto porque todo esse mapa do subsolo fui eu que fiz", disse às demais.

Na noite da fuga, ligaram os rádios sem sintonizá-los para gerar ruídos, fizeram bonecas com pijamas para deixar nas camas e saíram, uma a uma.

Licitra perguntou a uma das estrelas, Graciela Jorge, que décadas depois foi coordenadora da Secretaria de Direitos Humanos de Mujica, se era mais difícil para as mulheres falarem sobre a fuga. "Eu diria que quase ninguém nos perguntou", respondeu. 

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