Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Polícia
Temer escreveu diário e foi chamado de professor na prisão

Domingo, 14/4/2019 6:48.
Arquivo JP3/Folhapress.

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JOSÉ MARQUES E FELIPE BÄCHTOLD
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas quatro noites em que dormiu na sede da Polícia Federal no Rio, quando ficou preso preventivamente por determinação do juiz Marcelo Bretas, o ex-presidente Michel Temer escreveu 90 páginas a mão contando as "sensações do dia". Chama o texto de "Memórias do Arbítrio".

"Dariam umas 30 páginas datilografadas", disse o ex-presidente em entrevista à Folha de S.Paulo. Ele ainda não pensa em publicar o conteúdo do diário.

Temer, que voltou à sua casa em São Paulo após habeas corpus do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, exalta-se mais ao falar das acusações às quais o Ministério Público Federal imputa a ele do que dos dias em que passou preso -ou detido, como chama.

Preso ao sair de casa no último dia 21, ele chegou à PF no Rio por volta das 19h. Faz questão de destacar a "delicadeza estupenda" com que foi tratado pela Polícia Federal.

"Primeiro me levaram para a superintendência, já tinham separado duas salas e um banheiro na corregedoria do departamento", afirma.

"Botaram uma cama. Estava tudo preparado, os delegados me receberam muito gentilmente. Aliás, tive o prazer de ouvir de vários deles e de agentes, que me chamavam de professor: 'Fiz concurso com seu livro'", diz o ex-presidente, que fez carreira como advogado constitucionalista.

No primeiro dia, os policiais federais ofereceram um jantar, mas Temer recusou e disse que estava sem apetite. Na manhã seguinte, às 8h, um delegado apareceu para perguntar se ele queria tomar café da manhã.

"Eu disse: 'O que vocês tomam aí? Café com leite e pão com manteiga? Pode trazer'", conta. Mas o delegado decidiu que ele merecia algo melhor: omelete com queijo e frutas.

A porta da prisão ficava aberta e, no fim de semana, o ex-presidente podia circular pelo corredor. Um agente ficava o vigiando, mas deixou claro que era questão de protocolo. "Ele ficava conversando comigo."

Além de escrever, o ex-presidente alternou a leitura da biografia do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) e "A Praça e a Torre", do historiador escocês Niall Ferguson.

Havia uma TV no quarto, mas Temer afirma que não chegou a ligá-la, porque "sabia que só veria notícia ruim".

Ele diz que não acreditava na possibilidade de ficar preso por anos, como outros detidos preventivamente pela Lava Jato. "Por mais que as pessoas pudessem me fustigar, era tão inadequada a decisão jurídica que eu disse: 'Isso não vai durar muito tempo, não pode, sob pena de a gente estar num regime de direito que não vale mais nada'", afirma.

Não recebeu visitas de familiares, apesar de a mulher, Marcela, e as filhas se prepararem para ir ao Rio. Temer afirma que não queria que elas o vissem "trancado, detido".

Marcela é mãe do filho mais novo de Temer, conhecido como Michelzinho, 9. Segundo o ex-presidente, ela e a filha Maristela, que é psicóloga, explicaram a situação à criança.

"Quando voltei, ele obviamente me abraçou com muito entusiasmo. Ele está muito tranquilo, não houve problema nenhum", relata.

Marcela, diz ele, ficou abalada, mas "foi forte". "Ninguém vai dizer que numa coisa dessa natureza a família não se sinta agredida, isso é inevitável."

Após sair da prisão, o ex-presidente virou réu em quatro ações. A Procuradoria recorreu para que ele volte à prisão.


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Página 3
Arquivo JP3/Folhapress.

Temer escreveu diário e foi chamado de professor na prisão

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Domingo, 14/4/2019 6:48.

JOSÉ MARQUES E FELIPE BÄCHTOLD
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas quatro noites em que dormiu na sede da Polícia Federal no Rio, quando ficou preso preventivamente por determinação do juiz Marcelo Bretas, o ex-presidente Michel Temer escreveu 90 páginas a mão contando as "sensações do dia". Chama o texto de "Memórias do Arbítrio".

"Dariam umas 30 páginas datilografadas", disse o ex-presidente em entrevista à Folha de S.Paulo. Ele ainda não pensa em publicar o conteúdo do diário.

Temer, que voltou à sua casa em São Paulo após habeas corpus do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, exalta-se mais ao falar das acusações às quais o Ministério Público Federal imputa a ele do que dos dias em que passou preso -ou detido, como chama.

Preso ao sair de casa no último dia 21, ele chegou à PF no Rio por volta das 19h. Faz questão de destacar a "delicadeza estupenda" com que foi tratado pela Polícia Federal.

"Primeiro me levaram para a superintendência, já tinham separado duas salas e um banheiro na corregedoria do departamento", afirma.

"Botaram uma cama. Estava tudo preparado, os delegados me receberam muito gentilmente. Aliás, tive o prazer de ouvir de vários deles e de agentes, que me chamavam de professor: 'Fiz concurso com seu livro'", diz o ex-presidente, que fez carreira como advogado constitucionalista.

No primeiro dia, os policiais federais ofereceram um jantar, mas Temer recusou e disse que estava sem apetite. Na manhã seguinte, às 8h, um delegado apareceu para perguntar se ele queria tomar café da manhã.

"Eu disse: 'O que vocês tomam aí? Café com leite e pão com manteiga? Pode trazer'", conta. Mas o delegado decidiu que ele merecia algo melhor: omelete com queijo e frutas.

A porta da prisão ficava aberta e, no fim de semana, o ex-presidente podia circular pelo corredor. Um agente ficava o vigiando, mas deixou claro que era questão de protocolo. "Ele ficava conversando comigo."

Além de escrever, o ex-presidente alternou a leitura da biografia do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) e "A Praça e a Torre", do historiador escocês Niall Ferguson.

Havia uma TV no quarto, mas Temer afirma que não chegou a ligá-la, porque "sabia que só veria notícia ruim".

Ele diz que não acreditava na possibilidade de ficar preso por anos, como outros detidos preventivamente pela Lava Jato. "Por mais que as pessoas pudessem me fustigar, era tão inadequada a decisão jurídica que eu disse: 'Isso não vai durar muito tempo, não pode, sob pena de a gente estar num regime de direito que não vale mais nada'", afirma.

Não recebeu visitas de familiares, apesar de a mulher, Marcela, e as filhas se prepararem para ir ao Rio. Temer afirma que não queria que elas o vissem "trancado, detido".

Marcela é mãe do filho mais novo de Temer, conhecido como Michelzinho, 9. Segundo o ex-presidente, ela e a filha Maristela, que é psicóloga, explicaram a situação à criança.

"Quando voltei, ele obviamente me abraçou com muito entusiasmo. Ele está muito tranquilo, não houve problema nenhum", relata.

Marcela, diz ele, ficou abalada, mas "foi forte". "Ninguém vai dizer que numa coisa dessa natureza a família não se sinta agredida, isso é inevitável."

Após sair da prisão, o ex-presidente virou réu em quatro ações. A Procuradoria recorreu para que ele volte à prisão.


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