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Balneário Camboriú

Racismo em Balneário Camboriú: Página 3 escutou as partes envolvidas e a polícia

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Um caso explícito de racismo, envolvendo os influenciadores digitais Ed Rocha Junior e Tiane Felix, veio à tona nesta semana com novos embates com o músico MC Misa. Houve vazamento de textos, áudios e acusações de ambas as partes. O jornal ouviu os envolvidos, assim como o delegado que investiga o assunto Artur Nitz.

Ed Rocha Junior

Ed Rocha Jr. (Arquivo pessoal)

Ed Rocha Junior é produtor de conteúdo e se define como ‘influenciador digital local’. Diariamente ele fala de assuntos de Balneário Camboriú em suas redes sociais.

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Em 2019, ele gerou um debate sobre casas noturnas e a falta de representatividade negra em suas publicidades que priorizariam modelos brancos nas divulgações.

“Apareceram perfis fakes atacando, tínhamos desconfiança de quem era, o juiz na época pediu quebra do IP e descobrimos que era tudo ele [Misael]. No inquérito do Ministério Público, ele está como autor e não como investigado. Mesmo assim, eu nunca publiquei nada sobre ele diretamente, nunca o citei, porque vejo que não se combate crime com crime. Nunca foi exposto o nome dele”, informou.

Este ano, Misael e Ed voltaram a ter problemas após o recente caso de agressão envolvendo a Guarda Municipal na Casa do Rap, no Bairro da Barra.

Ed se posicionou como ativista negro, já que luta pela causa e sempre a representou.

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Misa teria contraposto e enviado um áudio para Ed, onde imita um macaco, com xingamentos sobre a raça do influenciador.

“Ele deixou claro o racismo no áudio. Ele já esteve muito envolvido em outras polêmicas nacionais, é conhecido, e inclusive em outros casos de racismo, há vídeos no YouTube. É uma denúncia e um caso tão sério, e parece que estamos lidando com uma criança. Ele pode até discordar de mim, mas cometeu um crime. O caso de 2019 continua aberto, mas está parado com diligências na delegacia de Camboriú desde outubro/2020”, acrescentou.

Ed trabalhou na prefeitura de Balneário Camboriú e um dos apontamentos de Misa é sobre o influenciador ter criticado o prefeito Fabrício Oliveira. Ed relatou que isso interferiu em seu emprego na época.

“Sou produtor de conteúdo e falo de coisas locais, tenho papel de discutir a cidade, mas nunca critiquei o Fabrício especificamente. Jamais fiz [críticas] porque tenho bom senso, trabalhei no governo dele, ajudei ele a se eleger. Mas ele [o Misael] fez prints onde ele dizia que eu disse que eu sabia de ‘podres’ do prefeito e que por isso ele não me demitiria. Vazou isso e vieram me questionar. Não gosto de lembrar, pois sofri muito na época, prejudicou até o meu trabalho. E isso é crime [falsificação de prints], é falsidade ideológica”, comentou.

Ed afirma que nunca viu Misael pessoalmente.

“Nunca, nunca, nunca, nunca. Não conheço esse cara. Repito várias vezes que não o conheço e nunca o vi pessoalmente. Ele é bloqueado em todas as minhas redes sociais, não tenho acesso a ele, meu advogado o segue para acompanhar as coisas, o monitoramos porque temos processo contra ele, mas não sou eu, Ed, e sim meu advogado. Podem discordar de mim, o que eu estou discutindo é o crime que ele cometeu. Não foi para mim e sim de forma ampla. Eu tenho uma vida, carreira, sou profissional, não preciso disso para me promover, é um caso de racismo sério, ele me chamou de macaco”, explicou.

Há um print onde Ed aparece pedindo dinheiro (R$ 800 mil) para Misael, o qual ele diz que é falso.

“Estou dando minha cara a tapa, sou influenciador digital público, ganho dinheiro com o Instagram, tenho 12 contratos com empresas de BC, eu nunca colocaria minha credibilidade em jogo, estou inclusive correndo vários riscos por estar denunciando. Assessoria jurídica não é barato, pago todo mês para investigar esse caso, e não é de hoje. É um crime! Eu nunca tive contato com ele, nunca pedi dinheiro a ele. Eu não preciso disso, não estou fazendo por dinheiro, é justiça porque ele cometeu crime. Só queremos ele preso”, afirmou.

Segundo o influenciador, após o processo criminal que está correndo, ele pretende processar Misael civilmente.

“Vou pedir indenização por todos os danos morais. Tenho laudo que adquiri doença nervosa por essa situação, dermatite, minha cabeça chega a sangrar. Essa briga não é pessoal, eu nunca o vi pessoalmente, é tudo sobre o racismo, o ponto é esse. Não se trata de mim, o que aconteceu foi crime”, completou.

MC Misa admite áudio racista

MC Misa é conhecido nacionalmente, já lançou músicas com o famoso selo Kondzilla. Ele conversou com o Página 3 por telefone na noite de terça-feira (15), onde relembrou o início de toda a situação em 2019.

Segundo o músico, Ed disse que não havia representatividade nas casas noturnas de Balneário e uma das citadas pelo influenciador seria de sociedade de seu pai.

“Eu disse que tínhamos promoters negros, mas que não são os donos que escolhem quem vai na festa, que não tínhamos controle disso. Os fotógrafos batiam fotos e colocavam nas redes, e ele [Ed] já veio dizendo que eu era racista. Eu tenho amigos negros, acho que ele não sabe, mas minha mãe é negra. O Ed então chamou uma amiga em comum que temos para gravar um vídeo e continuou a me chamar de racista”, relembra.

Misa também citou o caso envolvendo o trabalho de Ed na prefeitura – e também a saída do cargo.

“Quando ele saiu, ele começou a falar mal do prefeito e eu defendi o Fabrício. Ele já disse que eu era racista e de direita. Felizmente sou de direita, mas não sou racista”, afirma.

Ao contrário do que Ed disse, Misael conta que eles se viram pessoalmente na delegacia, em 2019, e também uma vez no McDonald’s.

“Houve um encontro nosso presencial na delegacia, e uma vez eu estava comendo no McDonald’s e ele foi lá. Já em 2020 eu fui em um show do Emicida em Floripa e fiz uma foto com ele, coloquei na legenda ‘fogo nos racistas’ e o Ed veio me xingar de ‘branquinho lixo’, por isso perdi minha conta no Instagram”, diz.

Dias atrás, Misa usou suas redes sociais para opinar sobre a situação ocorrida no Bairro da Barra, dizendo que se os envolvidos não tivessem reagido à abordagem não teriam sido agredidos.

“O Ed veio falar que eu estava do lado da Guarda, que sou preconceituoso. Eu disse que não concordo com a agressão, mas que poderia ter sido evitado. E o Ed voltou a me chamar de racista, fazendo postagens. Eu pedi para ele parar, ele não parou, ele chamou meus pais de racista e aí eu não aguentei e mandei o áudio chamando ele de neguinho de merda. Quis tentar ofendê-lo, mas não no sentido racista. Fiz o som de macaco, mas cheguei nesse ponto depois de dois anos que o Ed vem me perturbando. Se eu fosse racista, teria enviado antes. Não sou louco de xingar de macaco e ser racista por nada. Eu não sou racista, nunca tinha xingado de macaco antes”, pontua.

O músico conta que foi informado que o caso de 2019 não terá continuidade, e que o caso de 2021 está ocorrendo de forma paralela.

“Eu mandei o áudio, sim, mas para chegar nisso passei por muita coisa, fui atacado de várias formas. Prestei depoimento, falei com o delegado, e ele diz que não há provas. Se eu estou errado, me culpem, mas não culpem o município e policiais [há um print onde Ed teria xingado a polícia]. Eu levei broncas, até entenderem [a polícia] a situação foi complicado. O Ed fez 26 BOs contra mim, cada mensagem ele fazia BO”, explica.

Sobre o assunto com a influenciadora Tiane Felix, Misa diz que foi chamado de racista e preconceituoso.

“Ela disse que eu sou negro e eu neguei, falei que estava queimado do sol. Eu mandei a foto da arma, mas tenho arma, tenho porte, é legalizada. Realmente enviei a foto. Mas eles [Tiane e Ed] se aproveitaram do áudio que eu enviei e forjaram mensagens. Não tem mensagem digitada depois do áudio. Nenhum dos prints que ele postou são verdadeiros, a única coisa foi o áudio e a foto da arma. Eu não tenho interesse em afetar negros e sim o Ed”, acrescenta.

Uma das principais denúncias que Misa faz é de que Ed teria pedido R$ 800 mil para ele. O influenciador teria enviado a mensagem e apagado rapidamente, mas MC Misa conseguiu registrar.

“Eu tenho provas disso tudo. Não sou o bandido que estão colocando. Eu posso ser um bosta, mas não sou racista. A partir do Ed tomei nojo porque olho e me imagino sendo acusado de coisas que não fiz, mas se um branco me fizer mal eu também vou ter nojo. A Polícia Civil realmente fez o trabalho dela, de verdade mesmo. Não viraram as costas para o Ed, ele diz que não está tendo apoio, mas está sim. Deram apoio para ele várias vezes. Eu não sei ele [Ed] é louco, ele fala que toma remédio, tem seguidores comprados também, mas o que eu quero é que vejam que não sou racista”, finalizou.

Tiane Felix

Tiane Felix (Arquivo pessoal)

Tiane Felix é amiga próxima de Ed, também militante da causa negra e modelo plus size. Ela acompanha o caso desde 2019 e conta que também teria sofrido ameaças na época.

“Através de perfis anônimos diziam que iam me matar, citaram meu endereço, mas desta vez ele (o Misael) veio com perfil normal. No sábado (12) ele mandou mensagem dizendo que estava em Balneário e que era para eu encontrar ele, sem ameaça até então. Eu não registrei [na delegacia] porque não houve ameaça até então. Mas na segunda-feira (14) ele realmente me ameaçou, dizendo que ia cumprir o que prometeu, com ataques gordofóbicos, montagens sobre o Ed com imagens de macacos e a foto da arma”, relembra.

A influenciadora digital diz que não quer ser indenizada por Misa e sim que ele responda criminalmente.

“Desde 2019 eu nunca fui chamada para prestar depoimento, o Ed já. Não sei onde está o inquérito, em que pé anda. Em 2019 foi muito explícito tudo o que me falaram. Em uma das ameaças eu estava em casa, tomando café na cozinha, e me falaram que iam me esquartejar na cozinha, onde eu coincidentemente estava. Achei que estavam me vigiando, fiquei fechada em casa, saía só acompanhada, evitava sair. Tive muito medo”, relata.

Desde então, Tiane faz acompanhamento psicológico e tenta combater a insegurança, já que trabalha como modelo e precisa se expor.

“Eu tenho dermatite atópica e com o nervosismo piora. Desde 2019 a minha pele não é mais a mesma. Eu quero que ele [o Misael] seja preso, ele cometeu crime racial e cibernético. Fere igual, mesmo que fosse só ameaça. Ele disse coisas muito graves e precisa pagar. Não foi um caso pontual, foi recorrente”, pontua.

Assim como Ed disse, Tiane afirma que nunca viu Misa pessoalmente. “Nunca! A gente nunca se viu. O Ed teve reunião com o delegado e na sexta-feira (18) vamos prestar esclarecimento, estamos no aguardo”, completa.

O que diz a Polícia Civil

O delegado Artur Nitz disse nesta quarta-feira (16) que o caso está em fase de oitiva, lembrando que a pena envolvendo injúria qualificada (racial) é alta: detenção de um a três anos.

“A de injúria em si, quando ofende a dignidade, é de um a seis meses, mas a qualificada é maior, é um crime muito grave. Até o momento tenho a versão do Edvaldo (Ed Rocha Junior), o Misael (MC Misa) ainda não foi ouvido. Vou ouvir o Edvaldo oficialmente, junto com a Tiane Felix, na sexta-feira (18) e na próxima semana pretendo inquerir e ouvir o Misael”, informou.

Por ainda não ter ouvido todas as partes envolvidas, o delegado diz que não pode fazer ‘juízo de valor’.

“Só após a conclusão do inquérito posso me pronunciar. O Edvaldo prometeu trazer áudios e mensagens. Sei que há outro caso envolvendo eles que tramita desde 2019, são fatos distintos e o inquérito foi feito pela delegacia de Camboriú. Vou juntar os processos e analisar tudo muito criteriosamente”, afirmou.

O delegado pretende analisar diretamente os celulares, já que impressões não podem ser provas, pois são passíveis de falsificação (montagens) – como inclusive Ed e Misael acusam um ao outro.

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