Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Política
“Acho que política deve ser feita em torno de causas, não de pessoas”, diz Túlio Gadêlha

Sexta, 26/7/2019 19:17.
Fotos Renata Rutes

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Por Renata Rutes

O deputado federal Túlio Gadêlha (PDT/PE) esteve quinta-feira (25) em Balneário Camboriú, onde palestrou sobre educação. Antes de conversar com o público, que lotou o plenário da Câmara de Vereadores, Gadêlha concedeu entrevista ao Página 3.

Túlio falou para um auditório lotado, estava apoiado em dados e gráficos do Governo Federal e foi bem recebido, inclusive sendo aplaudido de pé pelos companheiros de partido ao final do debate. Ele citou a namorada, Fátima Bernardes, em meio a um momento em que um ouvinte leu uma poesia para ele, dizendo que era o ‘Encontro com Túlio’, e logo em seguida ficou visivelmente tímido em tocar no assunto com o público.


Confira abaixo a entrevista:

Página 3 - Como você vê a questão da idolatria do público com os políticos? Que afeta tanto a direita como também a esquerda...

Túlio Gadêlha: Eu acho que a idolatria da política é muito ruim em todos os sentidos, na esquerda e na direita. Eu fui um dos que estive com o ex-presidente Lula um dia antes de ele ser preso. Fui ver ele por perceber o quanto no Nordeste tivemos desenvolvimento econômico e social, de fato conseguiu-se dar mais oportunidades para as pessoas mais pobres na minha região, e também facilitou o acesso às universidades. Fui visitar o Lula como um gesto de reconhecimento a um pernambucano que fez muito pelo seu povo, mas eu fiquei surpreso, quando eu saí de lá, com essa idolatria. Acho que política deve ser feita em torno de causas, e não de pessoas. Quando a política é feita em torno de pessoas, às vezes a gente se decepciona, porque as pessoas são passíveis de erro. E essa forma de se fazer política torna ela cada vez mais perigosa. Não existem heróis, essa é a grande verdade.

Como você vê os ataques da direita e toda essa cultura de ódio que dividiu o país em dois?

Túlio Gadêlha: Todos os dias vivencio isso, mas aí a gente tem que tentar estudar mais o comportamento do ser humano mesmo: por que ele está se expressando dessa forma? Já que o Brasil nunca teve uma sociedade que propagou tanto ódio, né, intolerância. Infelizmente temos vivido esse momento no país, mas eu acho que é passageiro, sou otimista. Acho que isso tudo é fruto de uma campanha que foi construída a base do ódio. A banalização da política não é nada interessante, porque não existem apenas dois lados, não existe só preto e branco. Como se diz, tem mais de 50 tons de cinza. A coisa banalizou de uma forma que realmente dividiu o país. Um exemplo é aquela imagem do impeachment da Dilma, um lado vermelho e o outro verde e amarelo e o povo na rua. As pessoas não estão se suportando, tudo vira motivo de briga, dentro de casa até. Se a política fosse feita em torno de causas eu acho que não estaríamos tão divididos.

Como você analisa o governo do presidente Bolsonaro?

Túlio Gadêlha: Acho que as declarações dele são desastrosas. Todas as declarações que ele tem dado são desastrosas, porque quando ele fala, por exemplo, que ‘um pai quer o melhor para um filho e se pudesse dar filé, eu daria filé para o meu filho’, ele não para pra refletir que esse filé é comprado com o dinheiro do povo brasileiro, né. Dentre essa, tem tantas outras declarações que ele dá, em incentivo ao trabalho infantil, que é algo que a gente abominou em 1995, quando o Brasil reconheceu que existia de fato o trabalho infantil e o trabalho escravo no Brasil, e desde então tenta se combater isso. As declarações dele são xenofóbicas, machistas, homofóbicas. Infelizmente a gente tem essa pessoa como representante, como líder da nossa nação.

Você foi candidato a vereador em 2012, candidato a deputado em 2014, e mesmo assim você ganhou uma grande projeção nacional só quando assumiu o namoro com a jornalista Fátima Bernardes. Como você lida com isso?

Túlio Gadêlha: (risos) Olha, eu fui muito bem votado em 2012, e muito bem votado em 2014. Você pega um jovem universitário, pede para ele ser candidato sem estrutura financeira, sem apoio político e esse jovem tem 3.500 votos, né. Eu sempre tive as minhas propostas muito coerentes com a minha militância, com o meu posicionamento. Desde 2014 eu me preparo para disputar o mandato de 2018. Venho constituindo grupos, pequenos núcleos, nas cidades, participando de debates. Eu acho que a política precisa da juventude. Eu tenho 12 anos de filiação partidária. Tenho 31 anos, comecei muito jovem, aos 19, sempre no PDT. E o meu relacionamento é no campo pessoal. As pessoas falam ‘ah, foi eleito porque se tornou uma pessoa famosa’. No meu Estado tem o Reginaldo Rossi, um cantor de brega que é muito mais famoso, todo mundo conhece ele não só no Estado como no país todo. Ele foi candidato e não foi eleito. Lá tem também uma figura chamada Ni do Badoque, que é um comediante que tem 10 vezes mais seguidores do que eu tenho nas redes sociais, e ele também não se elegeu. Eu acho que a eleição é o reflexo da tua história, da tua vida, da tua militância, da sua dedicação às causas sociais.

Hoje você é considerado uma nova liderança política, a que você atribui isso?

Túlio Gadêlha: Sou muito avesso a essa ideia de liderança, eu acho que a gente sempre trabalhou muito, sempre falou de liderança, mas as pessoas não querem mais um líder para seguir. A gente quer uma pessoa comum ali, que tenha as mesmas características que a gente tem, que tenha enfrentado as mesmas dificuldades. Eu sou um jovem, fui estudante de classe média, passei dificuldades no mercado de trabalho. Enfrentei todas as dificuldades que os brasileiros enfrentam. Eu acho que isso foi o que também nos levou ao mandato, não foi pelo fato de ser liderança. Assim como eu existem centenas de milhares de jovens no país lutando. As nossas causas são as causas que a gente acha justas, a gente tem um país que ranqueia em 9º lugar em economia mundial, mas ainda somos 8º em desigualdade social. E boa parte da população ainda sofre com a exclusão social, com a falta de oportunidades. Uma boa parcela ainda sofre com o preconceito. A gente que representa o povo tem o dever de defender essas pessoas, de se fazer justiça social.

Você veio para Balneário Camboriú falar sobre educação. Como vê o atual cenário da educação no país, os cortes no nível superior, as possíveis mudanças no Enem?

Túlio Gadêlha: Tem muitos projetos novos que eu não me sinto a vontade de falar, porque ainda não há muitas informações sobre. Esse tem sido um grande erro do governo também, a gente não sabe em que ele (o Bolsonaro) tem pensado, quais são os dados, as estatísticas que ele levanta para defender essas políticas públicas que ele quer aprovar. Isso é muito ruim porque o governo vem ignorando em todos os sentidos, tanto nos estatísticos, quando no da valorização da ciência, da tecnologia, das bolsas de extensão e da pós-graduação. Eu às vezes me assusto e me preocupo porque parece que esse é um governo que está combatendo o pensamento intelectual e o pensamento crític. Ele deu declaração de que queria acabar com os cursos de Filosofia e Sociologia ou reduzir as vagas, por exemplo. Isso é muito grave. O que é mais grave é que a gente sempre teve no Brasil uma cultura de discussão, um espaço onde a sociedade civil participou, através dos conselhos, da implementação das políticas públicas. E o que a gente percebe é que hoje isso não vem acontecendo. O Governo tem colocado projetos de cima para baixo sem explicar como eles chegaram a construção daquele projeto e sem a participação da sociedade. Acho que isso é o mais grave: essa forma de autoritária de se governar o país.

Como você vê o Brasil no futuro? E o seu futuro na política?

Túlio Gadêlha: O Ciro Gomes e o Carlos Lupi, o Ciro foi nosso candidato a presidente e o Lupi é o presidente nacional do partido. Eles querem muito, já falaram outras vezes, pra gente disputar a prefeitura da nossa cidade, Recife. Mas eu acho que é o momento da gente discutir o país, e seria até irresponsável com poucos meses de mandato começar a pensar em um projeto político municipal estando o país em risco com suas instituições sendo desmontadas, com suas empresas públicas estratégicas sendo entregues, com tantos ataques a direitos e a conquistas sociais... eu acho que o momento é de olhar para o país e eu estou muito contente com a nossa atuação no Congresso, também sabendo da responsabilidade que eu tenho tido lá hoje, por isso eu não acho que seja o momento de tentar se projetar em outros espaços. O povo brasileiro é muito forte, muito inteligente. É um povo caloroso que tem o amor e a compaixão acima de tudo, eu acho que o que está passando agora é uma onda de intolerância, de ódio, e isso vai passar. Tenho fé que dias melhores virão.


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“Acho que política deve ser feita em torno de causas, não de pessoas”, diz Túlio Gadêlha

Fotos Renata Rutes

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Sexta, 26/7/2019 19:17.

Por Renata Rutes

O deputado federal Túlio Gadêlha (PDT/PE) esteve quinta-feira (25) em Balneário Camboriú, onde palestrou sobre educação. Antes de conversar com o público, que lotou o plenário da Câmara de Vereadores, Gadêlha concedeu entrevista ao Página 3.

Túlio falou para um auditório lotado, estava apoiado em dados e gráficos do Governo Federal e foi bem recebido, inclusive sendo aplaudido de pé pelos companheiros de partido ao final do debate. Ele citou a namorada, Fátima Bernardes, em meio a um momento em que um ouvinte leu uma poesia para ele, dizendo que era o ‘Encontro com Túlio’, e logo em seguida ficou visivelmente tímido em tocar no assunto com o público.


Confira abaixo a entrevista:

Página 3 - Como você vê a questão da idolatria do público com os políticos? Que afeta tanto a direita como também a esquerda...

Túlio Gadêlha: Eu acho que a idolatria da política é muito ruim em todos os sentidos, na esquerda e na direita. Eu fui um dos que estive com o ex-presidente Lula um dia antes de ele ser preso. Fui ver ele por perceber o quanto no Nordeste tivemos desenvolvimento econômico e social, de fato conseguiu-se dar mais oportunidades para as pessoas mais pobres na minha região, e também facilitou o acesso às universidades. Fui visitar o Lula como um gesto de reconhecimento a um pernambucano que fez muito pelo seu povo, mas eu fiquei surpreso, quando eu saí de lá, com essa idolatria. Acho que política deve ser feita em torno de causas, e não de pessoas. Quando a política é feita em torno de pessoas, às vezes a gente se decepciona, porque as pessoas são passíveis de erro. E essa forma de se fazer política torna ela cada vez mais perigosa. Não existem heróis, essa é a grande verdade.

Como você vê os ataques da direita e toda essa cultura de ódio que dividiu o país em dois?

Túlio Gadêlha: Todos os dias vivencio isso, mas aí a gente tem que tentar estudar mais o comportamento do ser humano mesmo: por que ele está se expressando dessa forma? Já que o Brasil nunca teve uma sociedade que propagou tanto ódio, né, intolerância. Infelizmente temos vivido esse momento no país, mas eu acho que é passageiro, sou otimista. Acho que isso tudo é fruto de uma campanha que foi construída a base do ódio. A banalização da política não é nada interessante, porque não existem apenas dois lados, não existe só preto e branco. Como se diz, tem mais de 50 tons de cinza. A coisa banalizou de uma forma que realmente dividiu o país. Um exemplo é aquela imagem do impeachment da Dilma, um lado vermelho e o outro verde e amarelo e o povo na rua. As pessoas não estão se suportando, tudo vira motivo de briga, dentro de casa até. Se a política fosse feita em torno de causas eu acho que não estaríamos tão divididos.

Como você analisa o governo do presidente Bolsonaro?

Túlio Gadêlha: Acho que as declarações dele são desastrosas. Todas as declarações que ele tem dado são desastrosas, porque quando ele fala, por exemplo, que ‘um pai quer o melhor para um filho e se pudesse dar filé, eu daria filé para o meu filho’, ele não para pra refletir que esse filé é comprado com o dinheiro do povo brasileiro, né. Dentre essa, tem tantas outras declarações que ele dá, em incentivo ao trabalho infantil, que é algo que a gente abominou em 1995, quando o Brasil reconheceu que existia de fato o trabalho infantil e o trabalho escravo no Brasil, e desde então tenta se combater isso. As declarações dele são xenofóbicas, machistas, homofóbicas. Infelizmente a gente tem essa pessoa como representante, como líder da nossa nação.

Você foi candidato a vereador em 2012, candidato a deputado em 2014, e mesmo assim você ganhou uma grande projeção nacional só quando assumiu o namoro com a jornalista Fátima Bernardes. Como você lida com isso?

Túlio Gadêlha: (risos) Olha, eu fui muito bem votado em 2012, e muito bem votado em 2014. Você pega um jovem universitário, pede para ele ser candidato sem estrutura financeira, sem apoio político e esse jovem tem 3.500 votos, né. Eu sempre tive as minhas propostas muito coerentes com a minha militância, com o meu posicionamento. Desde 2014 eu me preparo para disputar o mandato de 2018. Venho constituindo grupos, pequenos núcleos, nas cidades, participando de debates. Eu acho que a política precisa da juventude. Eu tenho 12 anos de filiação partidária. Tenho 31 anos, comecei muito jovem, aos 19, sempre no PDT. E o meu relacionamento é no campo pessoal. As pessoas falam ‘ah, foi eleito porque se tornou uma pessoa famosa’. No meu Estado tem o Reginaldo Rossi, um cantor de brega que é muito mais famoso, todo mundo conhece ele não só no Estado como no país todo. Ele foi candidato e não foi eleito. Lá tem também uma figura chamada Ni do Badoque, que é um comediante que tem 10 vezes mais seguidores do que eu tenho nas redes sociais, e ele também não se elegeu. Eu acho que a eleição é o reflexo da tua história, da tua vida, da tua militância, da sua dedicação às causas sociais.

Hoje você é considerado uma nova liderança política, a que você atribui isso?

Túlio Gadêlha: Sou muito avesso a essa ideia de liderança, eu acho que a gente sempre trabalhou muito, sempre falou de liderança, mas as pessoas não querem mais um líder para seguir. A gente quer uma pessoa comum ali, que tenha as mesmas características que a gente tem, que tenha enfrentado as mesmas dificuldades. Eu sou um jovem, fui estudante de classe média, passei dificuldades no mercado de trabalho. Enfrentei todas as dificuldades que os brasileiros enfrentam. Eu acho que isso foi o que também nos levou ao mandato, não foi pelo fato de ser liderança. Assim como eu existem centenas de milhares de jovens no país lutando. As nossas causas são as causas que a gente acha justas, a gente tem um país que ranqueia em 9º lugar em economia mundial, mas ainda somos 8º em desigualdade social. E boa parte da população ainda sofre com a exclusão social, com a falta de oportunidades. Uma boa parcela ainda sofre com o preconceito. A gente que representa o povo tem o dever de defender essas pessoas, de se fazer justiça social.

Você veio para Balneário Camboriú falar sobre educação. Como vê o atual cenário da educação no país, os cortes no nível superior, as possíveis mudanças no Enem?

Túlio Gadêlha: Tem muitos projetos novos que eu não me sinto a vontade de falar, porque ainda não há muitas informações sobre. Esse tem sido um grande erro do governo também, a gente não sabe em que ele (o Bolsonaro) tem pensado, quais são os dados, as estatísticas que ele levanta para defender essas políticas públicas que ele quer aprovar. Isso é muito ruim porque o governo vem ignorando em todos os sentidos, tanto nos estatísticos, quando no da valorização da ciência, da tecnologia, das bolsas de extensão e da pós-graduação. Eu às vezes me assusto e me preocupo porque parece que esse é um governo que está combatendo o pensamento intelectual e o pensamento crític. Ele deu declaração de que queria acabar com os cursos de Filosofia e Sociologia ou reduzir as vagas, por exemplo. Isso é muito grave. O que é mais grave é que a gente sempre teve no Brasil uma cultura de discussão, um espaço onde a sociedade civil participou, através dos conselhos, da implementação das políticas públicas. E o que a gente percebe é que hoje isso não vem acontecendo. O Governo tem colocado projetos de cima para baixo sem explicar como eles chegaram a construção daquele projeto e sem a participação da sociedade. Acho que isso é o mais grave: essa forma de autoritária de se governar o país.

Como você vê o Brasil no futuro? E o seu futuro na política?

Túlio Gadêlha: O Ciro Gomes e o Carlos Lupi, o Ciro foi nosso candidato a presidente e o Lupi é o presidente nacional do partido. Eles querem muito, já falaram outras vezes, pra gente disputar a prefeitura da nossa cidade, Recife. Mas eu acho que é o momento da gente discutir o país, e seria até irresponsável com poucos meses de mandato começar a pensar em um projeto político municipal estando o país em risco com suas instituições sendo desmontadas, com suas empresas públicas estratégicas sendo entregues, com tantos ataques a direitos e a conquistas sociais... eu acho que o momento é de olhar para o país e eu estou muito contente com a nossa atuação no Congresso, também sabendo da responsabilidade que eu tenho tido lá hoje, por isso eu não acho que seja o momento de tentar se projetar em outros espaços. O povo brasileiro é muito forte, muito inteligente. É um povo caloroso que tem o amor e a compaixão acima de tudo, eu acho que o que está passando agora é uma onda de intolerância, de ódio, e isso vai passar. Tenho fé que dias melhores virão.


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