Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Consultas de rotina e tratamentos de doenças crônicas prejudicados pela pandemia

Médicos especialistas falam sobre a situação em Balneário Camboriú

Quinta, 4/6/2020 15:10.

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Renata Rutes e Marlise Schneider Cezar

O isolamento social que o Coronavírus determinou trouxe inquietude, ansiedade e muitas dúvidas em todos os setores, mas principalmente na área da saúde, com relação a consultas agendadas antes da pandemia, tratamentos e terapias em andamento.

As consultas devem ser adiadas? Os tratamentos devem ser interrompidos? Especialistas vem orientando que pessoas saudáveis que fazem exames para cumprir agenda de rotina, tipo check up, devem adiar. Ou conversar com seu médico antes para uma decisão conjunta. Mas recomendam que pessoas com doenças crônicas ou em tratamento oncológico não devem cancelar consultas nem terapias.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBP) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) milhares de diagnósticos de câncer deixaram de ser feitos no país desde a chegada do Covid-19 e a situação continuará, podendo alcançar 50 mil casos não diagnosticados. A Associação Brasil AVC reforçou sua campanha com o slogan #AVC Não Fique em Casa, porque é uma doença que pode ser prevenida, quando surgem os primeiros sintomas, mas os números de consultas reduziram muito nos últimos dois meses.

E nas outras especialidades que exigem acompanhamento médico constante como está a situação?

Esta semana a reportagem consultou médicos especialistas para saber como está o cenário em Balneário Camboriú. Os médicos responderam sobre consultas de rotina e em que grau foram afetadas; explicaram sobre os procedimentos em consultórios; qual a recomendação e se a Telemedicina, pode ajudar neste momento de pandemia.

Acompanhe o que eles disseram:

SAÚDE MUNICIPAL

Consultas eletivas estão voltando, mas prioridade é urgência e emergência

As consultas eletivas da rede municipal de saúde de Balneário Camboriú não foram totalmente paralisadas durante a pandemia, mas sofreram uma considerável redução, com os profissionais focando principalmente nas urgências e emergências.

Especialidades como odontologia e oftalmologia, que necessitam de contato muito próximo entre o dentista e o oftalmologista, foram suspensas por um tempo, mas já retornaram. O único serviço que não está recebendo o público é o Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI), já que é focado na terceira idade, um dos principais grupos de risco. Porém, a Secretaria de Saúde está estudando maneiras do atendimento retornar – até o momento está acontecendo tudo por telefone, como dúvidas do público e renovações de receitas.

Grupos de risco e colaboradores

A secretária de Saúde, Andressa Hadad, salienta que no início do isolamento social, as consultas eletivas foram paralisadas, considerando as restrições e também para proteger pacientes e profissionais. Inclusive houve corte no quadro de colaboradores da área, já que, segundo Andressa, muito deles têm acima de 60 anos ou possuem alguma comorbidade.

“Mesmo assim muitos atenderam aos pacientes por telefone. A telemedicina realmente nos ajudou muito nesse período. Alguns atenderam nas barreiras de trânsito. Sempre buscamos formas de atender ao público neste momento e conseguimos perceber o quanto o ‘time da saúde’ é unido, solícito. Se uniram por essa causa, e quem se afastou foi por ser um grupo muito de risco”, diz.

NAI sem atendimentos presenciais

O Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) permanece sem atendimentos presenciais, já que o foco do local é atender os 60+, que integram um dos principais grupos de risco da pandemia. Mesmo assim, os médicos estão tirando dúvidas por telefone, além de renovar receitas de medicação, assim como a utilização da telemedicina.

“Vamos apresentar um plano de retomada de trabalho e ver junto do Comitê do Covid-19 como podemos proceder, mas se voltarmos será com inúmeras restrições. Preferimos que os idosos vão até o NAI do que ao hospital, por exemplo”, acrescenta.

O geriatra Sérgio Monteiro atua no NAI, e explica que as consultas de rotina permanecem suspensas, assim como Andressa citou.

“Estamos seguindo as orientações da OMS. No NAI estou renovando receitas e pedindo para que um familiar vá até lá buscar, pois é o público que mais deve ficar em casa”, afirma.

As áreas mais afetadas

Quem mais ‘sentiu’ as diferenças geradas pela pandemia, por conta da diminuição de consultas, segundo a secretária, foram os anestesistas e dentistas, já que as cirurgias diminuíram e a odontologia, que tem um risco altíssimo de contaminação, também foram afetadas, focando principalmente nas urgências e emergências.

“No caso dos dentistas, os consultórios são desinfetados e só podem receber pacientes uma hora depois do anterior, devido ao aerossol gerado e a alta probabilidade de contaminação. O COE (Centro de Odontologia Especializada) só está focando em urgências e emergências (o tratamento de canal, por exemplo) e em um só período. É um novo formato de atendimento”, salienta.

A diretora de Saúde Bucal do COE, Priscila Teixeira, acrescenta que estão seguindo a determinação do Departamento de Saúde Bucal do Estado, atendendo atualmente urgências em todos os postos de saúde da cidade (a maioria nos dois períodos) e no COE somente das 7h às 13h.

“As urgências aumentaram bastante, nos primeiros dias eram 10, 15 atualmente passa de 30 por dia, isso digo somente no COE”, comenta. Priscila diz que as principais mudanças que sentiram foram em relação ao uso das EPIs, utilizando macacão, máscara N95, face shield.

“Os dentistas não trabalham nas urgências em quatro mãos (quando o técnico auxilia diretamente), procuramos atender somente o odontólogo na sala. O atendimento odontológico gera muito aerossol, que sai direto da boca do paciente, então quanto menos pessoas próximas melhor, em alguns casos há necessidade de trabalharmos a quatro mãos, mas é mais difícil”, explica.

A diretora aproveita para lembrar que a odontologia é a área mais propensa a se contaminar, já que os profissionais precisam examinar a boca do paciente, trabalhando diretamente em contato com a saliva e ainda gerando aerossol no ambiente, rosto e pescoço do dentista.

“O estresse é grande entre os profissionais nesse momento, mas temos todos os equipamentos de proteção e foi a profissão que escolhemos, diante de pandemia ou não, temos que estar ali sempre prontos. Não tivemos nenhum caso de dentista que se contaminou durante o atendimento na rede até agora. Estamos tomando todos os cuidados possíveis”, completa.

Diminuição na procura

A secretária de Saúde, Andressa Hadad, cita que o momento de pandemia fez com que os profissionais que atuam na área precisassem se reinventar, principalmente aqueles que precisaram atender aos pacientes sem a presença física deles.

“É difícil, mas conseguimos. A telemedicina realmente foi essencial, mas houve casos em que tivemos que atender de forma presencial, como um paciente hipertenso que ‘descompensou’. Era uma consulta eletiva, mas precisou ser atendido. Nada será como antes, estamos analisando as estruturas das unidades, todos se protegendo, mas não paramos totalmente, pois as doenças continuam”, pontua.

Ela cita que o Hospital Municipal Ruth Cardoso ‘segue lotado sempre, com internações e casos graves, mas a recepção sem lotação’, mas os Prontos Atendimentos dos bairros Nações e Barra tiveram redução de procura, ‘já que as pessoas têm medo de se expor’.

“As pessoas estão entendendo que só devem procurar atendimento médico se necessário”, afirma.

Porém, em casos urgentes, como uma queda, pulso ou tornozelo quebrados, as cirurgias e consultas serão feitas. Há a preocupação com agendamento para não expor tanto o paciente quanto o médico, já que, segundo a secretária, na hora de entubar o paciente acontece ‘uma eliminação gigantesca de aerossol’, além da imunidade do paciente, que também sofre redução.

Avaliação da Fila de Espera e retorno das consultas

A prefeitura está passando por um problema com o sistema online para acompanhar a Fila de Espera das consultas eletivas, mas isso deve ser resolvido em breve.

“Estamos analisando a fila, estamos muito preocupados com a retomada das consultas. Queremos que os pacientes tenham certeza que serão atendidos, e se houver alguma emergência podem ir até as unidades básicas de saúde ou ligar para a secretaria”, diz.

Andressa aproveita para acrescentar que há planos de fazerem mutirões em todas as especialidades assim que a situação da pandemia se regularize, tanto aos finais de semana como também com horário estendido.

“Também estamos cogitando procurar empresas para nos apoiarem”, completa.


O QUE DIZEM MÉDICOS ESPECIALISTAS

“Cerca de 10% dos pacientes que vêm com sintomas, estão com ansiedade”

credito - Waldemar Cezar Neto

Pedro Cabral, pneumologista

“As consultas de rotina foram bastante afetadas, principalmente em algumas especialidades como dermatologia, oftalmologia, neurologia, cardiologia, as pessoas ficaram com medo de ir ao consultório, que é sempre um local onde existem doenças. De certa forma isso é bom, porque as pessoas só iriam mesmo ao médico de maneira necessária, para questões de rotina, acabam não indo. De outro lado, tem pacientes com sintomas de gravidade, algum alerta, que estão deixando de ir no hospital e quando vão já chegam num estado mais grave. Alguns colegas perderam mais de 70% de pacientes no consultório.

A minha especialidade é diferenciada, porque faz parte do que está acontecendo na pandemia. Nós fazemos uma filtragem, a minha secretária faz uma triagem para saber os sintomas que o paciente está sentindo, então orientamos, muitas vezes não precisam vir naquele momento, ou fazemos contato por whats ou email, os que têm alguma alteração precisam vir ao consultório, chamamos, mas sempre com toda segurança, espaços maiores entre uma consulta e outra, para que os pacientes nem se encontrem na sala de espera.

Registrei uma outra particularidade no meu consultório, muitos pacientes estão chegando com falta de ar ou dor no peito e a gente precisa investigar, às vezes até fazer exames, mas já é possível reconhecer que uns 10% dos que chegam com esses sintomas, é por ansiedade, acabam somatizando, muitas informações, ficam muito ligados e começam a ter sintomas e às vezes só conversando, fazendo um contato com o médico, orientando, eles já saem mais tranquilos, algumas vezes nem precisa pedir exame, é um quadro claro de ansiedade.

Quanto à Telemedicina ela é uma realidade no mundo todo, bem antes da pandemia, os médicos terão que se adaptar com isso. Em Santa Catarina ela é praticada há muito tempo com exames de imagens, eletrocardiogramas, exames laboratoriais, feitos no interior e algum especialista na capital fica dando os laudos, para facilitar a vida do paciente e do médico. Acho que a pandemia só veio acelerar esse tipo de medicina, ela veio para ficar sim”.


“Na oncologia, o tempo de espera é crucial para a gravidade da doença”

credito – Divulgação

Gabriel Quintela, oncologista

“Todas as consultas foram afetadas. Percebemos inicialmente uma descrença que a situação poderia chegar onde chegou, seguido por um medo geral o que motivou redução da quantidade de consultas não só de rotina mas também as de urgências e emergências. Por algumas semanas, os pronto atendimentos viram uma redução geral do número de consultas.

Na oncologia, temos a questão do tempo de espera ser crucial para a gravidade da doença. Batalhamos todos os anos para a busca e conscientização do diagnóstico precoce. E o que aconteceu e está acontecendo no geral é uma menor quantidade de exames de rastreamento, diagnósticos e cirurgias oncológicas. Nos EUA, saiu uma pesquisa recente mostrando que os oncologistas perceberam uma redução de 37% no volume de trabalho.

Procuramos manter os atendimentos normalizados para pacientes em tratamento com quimioterapia bem como aqueles que acabaram de receber o diagnóstico de câncer . Pacientes em seguimento, foram orientados a adiar seus retornos. Se tivesse que mostrar algum exame, esse seria visto pelos médicos e orientaria em caso de alguma alteração.

No meio privado, alguns planos de saúde como a Unimed disponibilizaram um telefone de contato específico para dúvidas sobre Covid 19. No meio público, os hospitais de referência tentaram entrar em contato com pacientes para orientação possíveis adiamentos ou reforçar a manutenção dos tratamentos vigentes. Na oncologia temos uma relação muito próxima com pacientes, então em muitos casos fizemos um contato direto como uma telemedicina para orientar, consultar e informar dúvidas sobre Covid 19 ainda que não tivesse relação com oncologia.

Estamos entrando no pico da disseminação da doença ainda que nosso estado tenha uma realidade “melhor” em relação a outras regiões do país. Por isso, já está provado que o isolamento social é a melhor maneira de acabar com a doença. E nossos pacientes em tratamento devem seguir as orientações do seu oncologista. Evitar sair de casa (a não ser que seja para seguir tratamento) já que estar em tratamento com quimioterapia configura um grupo de risco de evoluir com Covid 19 de forma mais grave.

No consultório, estamos usando máscaras assim como os pacientes. Mantemos um distanciamento físico maior nos consultórios exceto quando há necessidade de exame médico. Reduzimos a quantidade permitida de acompanhantes. Mantemos os ambientes mais arejados.

A Telemedicina pode ajudar sim. Mas como a necessidade surgiu de forma inesperada, poucos locais tinham estrutura preparada para esse modo de consulta. E como há um custo para desenvolvimento desse modelo, o que vejo atualmente é a Telemedicina ainda como uma ideia a ser desenvolvida. Com relação a educação médica, tivemos que que nos adaptar a realidade dos Congressos virtuais, reuniões multidisciplinares virtuais. Acho que essas opções de educação médica deram muito certo e serão mantidas e aperfeiçoadas cada vez mais”.


“O importante é não perder a relação médico paciente”

credito Divulgação

Umberto D´Avila, urologista e presidente da Unimed Litoral

“As consultas de rotina foram afetadas. Primeiro houve uma solicitação da Secretaria de Saúde do Estado para que fossem suspensos os atendimentos em clínicas e depois com a reabertura foi feita uma programação para que as consultas fossem feitas mais espaçadas e só agendar aqueles pacientes que não teriam nenhum risco de infecção. Depois de algumas semanas isso foi liberando mais e com a estrutura dos locais de atendimento de casos suspeitos, tanto municipal, como na Unimed, os consultórios ficaram mais destinados às consultas eletivas que estão voltando, mas com menos frequência.

A agenda de todos os médicos que conversamos diminuiu o número de consultas nesse período. Recebemos muitas ligações de pacientes e criamos o Alô Doutor, que é o tratamento do Covid, na Praia Brava, para usuários da Unimed, onde tem um médico o dia todo respondendo dúvidas e orientando pacientes. Nos casos eletivos, os pacientes também perguntam se devem consultar agora ou esperar e dentro do tempo que o paciente fez a última consulta e das suas queixas, o médico pode protelar para dentro de dois, três meses sem maior risco, quando o paciente está bem e não houve mudança do quadro.

A recomendação para pacientes que têm exames com menos de um ano, que estão normais e não mudou o quadro clínico, que esperem um pouco para fazer o exame de rotina. A não ser aqueles pacientes que o seu médico orientou que devem voltar com menor periodicidade devido algum estado crônico que precisa ser acompanhado, como pacientes cardíacos, outros com risco de câncer, ou controlando medicações.

A Telemedicina que o Conselho Regional orientou é sobre o atendimento do Covid. A Telemedicina é uma ferramenta para ajudar consultas médicas, o importante é não perder a relação médico paciente onde o exame físico, o contato com o paciente é fundamental para que o diagnóstico seja melhor, só que isso, nessa fase, exige alguns cuidados para que o paciente não seja colocado em risco, mas acredito que depois de julho, essa rotina vai voltar a normalizar”.


“Os problemas cardiovasculares podem aumentar com a ansiedade”

José Lago, cardiologista

“Ficamos parados por duas semanas, sem atender aos pacientes de forma presencial, depois voltamos, mas seguimos limitando as consultas, e percebo que o pessoal também está com medo de ir ao consultório, principalmente nos casos das consultas de rotina. Há aqueles que marcaram e não vão também. Vi uma pesquisa de Nova York que apontou que as pessoas estão falecendo de infarto em casa oito vezes mais do que antes, porque estão com medo de ir para o hospital, acham que vai passar e acaba complicando. Aumentou também derrame, AVC. Tem muita gente morrendo, infelizmente. Também há a questão de que as pessoas estão mais depressivas, ansiosas, comendo mais, ganhando peso, o que é uma preocupação para quem é cardíaco, além ainda do consumo de álcool. Ficar em casa deprime e os problemas cardiovasculares podem aumentar com a ansiedade. Eu atendo principalmente a faixa etária de maior risco, que são os idosos. Uma paciente que atendi esta semana me disse que estava saindo pela primeira vez desde o início da pandemia. Ela estava com pressão alta. Meus atendimentos diminuíram de 30 a 40%, diariamente eu atendia 15 pacientes, agora são cerca de 10. Diminuímos também o número de cadeiras na sala de espera, por conta do distanciamento, temos à disposição álcool gel, além da obrigação do uso de máscara. Seguimos todos os cuidados de higiene recomendados, evitamos aglomeração marcando as consultas de forma mais espaçada, para não haver encontros na recepção. Recomendo que os pacientes tentem sair um pouco de casa, dar uma volta, mas seguindo todos os cuidados. Isso também melhora a ansiedade. Sou a favor do isolamento seletivo, quem for de risco deve ficar em casa. Grandes empresas precisam fazer um controle periódico, isolar suspeitos. Eu não sou a favor de fecharmos tudo totalmente, a depressão mata, assim como problemas econômicos também. Há muitos problemas além da pandemia acontecendo, assim como a violência doméstica e a pedofilia, que também vem aumentando. Acredito que os casos devem diminuir no segundo semestre, mas devem continuar até sair a vacina, o que deve acontecer até o começo de 2021”.


“As rotinas de consultórios e exames caíram aproximadamente 60%”

Wislen Roberto dos Santos Braga, oftalmologista

“Na quarentena todas as consultas, exames e cirurgias de rotina foram interrompidos e o Hospital de Olhos manteve-se fechado obedecendo as orientações dos poderes públicos. Abríamos todos os dias de 15.00 a 16.00 horas para urgências, com o Dr. Eduardo atendendo, os pacientes eram orientados por um telefone celular fixado à porta do estabelecimento para esse atendimento.

Quando fomos liberados para consultas, aumentamos os espaços entre as consultas e os exames. O paciente e os profissionais de atendimento usam máscaras e, a cada paciente, uma colaboradora faz a assepsia dos aparelhos com álcool a 70%.

As cirurgias eletivas estão sendo marcadas em menor quantidade para não haver contatos entre os pacientes.

As rotinas de consultórios e exames caíram em aproximadamente 60% e as cirurgias em 80%.

A Telemedicina em oftalmologia é impraticável pois dependemos de microscópico clínico (biomicroscópico) para diagnósticos e, rotineiramente, necessitamos saber a pressão ocular antes de prescrevermos medicações oculares e, às vezes, por Via Oral”.


“As consultas de pré-natal não devem ser adiadas”

Delmo Dumke, ginecologista

“Tenho consultório de manhã e à tarde com marcação de 30 em 30 minutos. No período da pandemia estamos restringindo o número de consultas com intervalo entre consultas e restrição de acompanhantes e seguindo cuidados de higienização. Algumas consultas foram remarcadas e as eletivas foram postergadas, mas algumas já estão remarcando. Antes eu atendia cerca de 15 pacientes/dia, agora são cerca de 10. Infelizmente, há muitas informações divergentes, em Santa Catarina fizeram quarentena em março que foi antes da hora, e agora que está pior não há condições de fechar novamente. A imprensa e os órgãos governamentais esqueceram que existem doenças que também matam, como diabetes, hipertensão, AVC, câncer, dentre outras. Nos serviços de saúde ficou precário o atendimento para estas patologias. As pessoas ficaram trancadas em casa, não podiam fazer caminhadas, até ir na praia foi proibido. Agora vamos pagar a conta com desemprego e aumento da criminalidade. Pacientes entraram em contato com dúvida se deveriam ir consultar ou não, algumas, conforme o problema, foram adiadas. As consultas de pré-natal não devem ser adiadas, pois cada fase é muito importante. Precisamos avaliar a gestante a cada mês. Vejo que o paciente esperar ficar grave para então procurar atendimento médico pode ser tarde em muitas patologias, como apendicite, diabete, hipertensão, cardíacos, infecções e o próprio Covid-19”.


“Recomendo que consultem só se for muito necessário”

Maria Cláudia Peixoto Cenci, endocrinologista

“O Coronavírus acabou impactando bastante em meus atendimentos, já que os pacientes são normalmente diabéticos, obesos e idosos também, que são grupos de risco. Recomendo que eles consultem só se for muito necessário. Mesmo os pacientes mais jovens estamos espaçando mais as consultas, antes eu atendia cerca de 15 pacientes/dia, hoje reduziu para seis ou sete. Caiu 50%. Mantemos as janelas do consultório sempre abertas, utilizando as EPIs, gorrinho, máscara... se precisar examinar o paciente uso óculos, álcool gel está sempre à disposição para todos, também passamos álcool nas cadeiras, bancadas, estamos sempre desinfetando. Vejo que o Coronavírus é um problema de saúde pública muito importante, precisamos nos cuidar para que haja vagas nos hospitais caso tenhamos a doença, que é muito contagiosa. Há inclusive pacientes que me ligam com dúvidas sobre os sintomas do Corona, recomendo que eles avaliem a temperatura em casa, e caso percebam que pioraram procurem o hospital. No próximo semestre acredito que há previsão de melhora, considerando que isso está acontecendo na Europa, e por isso o isolamento social é tão fundamental”.


“Nos voltamos para as urgências e emergências”

Hélio Cezar Gomes dos Reis, ortopedista e professor do curso de Medicina da Univali, trabalha no Hospital Marieta Konder Bornhausen e no Hospital do Coração

“A nossa rotina com o advento do novo Coronavírus realmente mudou bastante. Somos profissionais que estamos constantemente correndo, atividades em consultório, hospital, centro cirúrgico na área de ortopedia e traumatologia, ambulatórios e prontos-socorros sempre lotados, uma agenda sempre cheia. Com a pandemia, ainda em meados de março, tivemos que parar tudo, e isso realmente exigiu uma adaptação. Suspendemos os principais atendimentos de rotina e nos voltamos para as urgências e emergências. Passada a primeira fase, até abril, voltamos com os atendimentos mais espaçados, em torno de 30, 40 minutos cada consulta, pronto-socorro limitado aos atendimentos de urgência, e cirurgias basicamente também voltadas para urgência e emergência. Muitos pacientes optaram por adiarem as suas consultas, enviam exames para serem analisados por WhatsApp, deixamos receitas prontas. O atendimento online intensificou bastante. Com o isolamento social também diminuíram os acidentes de trânsito, consequentemente diminuindo o número de urgências e emergências. Estamos conseguindo marcar cirurgias, já que antes a agenda era um pouco mais complicada. Outra rotina que tivemos que cumprir é a higienização das mãos e álcool gel, máscaras, que já era uma constante, mas se fez ainda mais intensa, orientando ainda os pacientes quanto a isso. É o que chamamos de ‘um novo normal’, já pensamos ao acordar no uso frequente do álcool gel, sair de casa com máscara, cuidados com a roupa, higienização dos materiais que utilizamos, como celular, óculos, relógio. Tive colegas médicos idosos ou com alguma comorbidade, que fizeram quarentena e estão retornando agora. O novo Coronavírus é um vírus de exclusividade que ataca somente a espécie humana, é uma doença nova, a medicina está precisando se adaptar a essa nova realidade, mas acredito que vamos ter que seguir tendo os cuidados que já tivemos com outras doenças infectocontagiosas, de higiene, isolamento, evitar aglomerações; existe uma curva de ascensão dos casos e depois acaba reduzindo. O que é diferente nessa doença é que houve um risco de complicações respiratórias que acaba levando o paciente a UTI, e muitas regiões não tem o número de leitos necessários. Pacientes que têm comorbidades também evoluem mais rápido para a morte, é o que chamou a atenção nessa doença. Acredito que venha uma vacina até o final do ano, mas se a população conseguir seguir todas as orientações médicas de prevenção vamos conseguir ultrapassar essa crise com o menor risco possível. A doença ainda está em atividade, não podemos relaxar agora, ela não é inofensiva e as estatísticas mostram que ainda estamos na curva ascendente. O uso de máscara de forma contínua, e lavá-las, é essencial; o ideal é ter duas, para conseguir revezar, e usá-las da forma correta, além de evitar aglomeração, principalmente em áreas fechadas”.


“Não estou passando dietas extremamente radicais”

Gustavo Melegassi, nutricionista

“Nesse período, os clientes estão me procurando também focados na imunidade, não só voltados para a parte estética, mas preocupando-se com a saúde e questão alimentar para melhorar a imunidade. No meu consultório, estou evitando marcar pacientes com horários muito próximos para evitar aglomerações. Nas avaliações utilizo luvas descartáveis, tudo é higienizado com frequência (com álcool), disponibilizo álcool gel para os pacientes também, que sempre usam máscara. O Conselho Federal de Nutrição concedeu pela primeira vez na história a autorização para fazermos consultas online, o que abriu um leque para atender pacientes que não podem se deslocar até o consultório, por exemplo. Eu percebi que durante a pandemia meus atendimentos aumentaram, considerando que em janeiro e fevereiro perco alguns clientes por conta do verão, Carnaval; março foi quarentena total, então abril e maio até agora foram os melhores meses. Por dia atendo de quatro a cinco pacientes. A pandemia e o isolamento social também estão deixando as pessoas mais ansiosas, e sei que há uma grande dificuldade com a alimentação nesse sentido, por isso não estou passando dietas extremamente radicais, cuidando ainda com a compulsão alimentar, acompanhando pacientes que se enquadram nesses casos, e nos mais graves trabalho em parceria também com psicólogos e psiquiatras. Vejo que o Coronavírus está mais brando em Balneário, considerando boa parte do Brasil. Santa Catarina fechou os comércios, escolas e transporte público de forma antecipada, e mesmo tendo grandes cidades, como Floripa e Joinville, não há grandes aglomerações, como no metrô, por exemplo. Mas mesmo estando mais brando, exige atenção, uso de máscara. Ambientes como academia exigem cuidado. Acredito que no segundo semestre a situação pode melhorar, mas medicação e vacina de forma realmente efetiva acredito que só teremos em 2021. Não podemos parar tudo até melhorar, é importante mantermos uma rotina de trabalho, exercícios, estudo, e a economia também precisa seguir”.


“As medidas de proteção precisarão continuar durante um bom tempo”

Ricardo Quírico Pinheiro Machado, dentista

“Antes eu tinha um fluxo de pacientes, quando eu estava atendendo um, chegava o próximo e ficava esperando; agora não há mais esse ‘cruzamento’ de pacientes na recepção. A gente ou termina um pouco antes, marca outro um pouco mais tarde, para que dê tempo do paciente sair e fazermos a desinfecção de todo o consultório, com um produto a base de peróxido, que mata tudo, vírus, bactérias, e tudo mais. Antes já tínhamos essa biossegurança bem ativa, então não precisamos mudar nada. Acabamos marcando menos pacientes por dia, por conta do intervalo entre um e outro. Tivemos que comprar novos equipamentos de proteção individual, macacão impermeável, óculos de proteção, gorro, máscara com proteção maior, filtro (PFF2 ou PPF3), e por cima a nossa máscara clínica, e ainda a face shield, que é tipo um escudo de acrílico. Agora está voltando ao normal, durante a quarentena não houve atendimento, quando voltamos os pacientes que não tinham emergência preferiram adiar, como limpeza (profilaxia, jato de bicarbonato – esse pode contaminar bastante o ambiente, e não está sendo feito), estéticos, isso tudo adiamos. Idosos preferimos adiar as consultas também, nesta semana que alguns estão ligando e falando que querem consultar. Durante a quarentena eu avisei os pacientes que estava no consultório para emergências, mas que atendimentos normais não estavam acontecendo. Me preocupo bastante com o Coronavírus por conta da minha profissão, que é de alto risco. Estamos mexendo justamente na boca, que é a região contaminada. É um vírus de altíssimo contágio e com índice de mortalidade baixo. Dizem que 80% da população será contaminada, então tem uma virulência muito alta, e acredito que por isso não irá mudar tão cedo a nossa rotina no consultório, ao menos que saia uma vacina, mas isso ainda está longe de acontecer, porque ainda é um vírus muito novo e pesquisas científicas precisam de mais tempo. Até lá estaremos bem resguardados, cuidando muito com tudo que fazemos. Balneário e SC tem vantagem de não ter contaminação tão alta como RJ, SP, e isso nos dá mais tranquilidade para trabalhar. A questão economia e política, as informações cruzadas, também confundem a população, fica ‘um diz que me diz que’, um achismo, e isso é muito perigoso. As medidas de proteção precisarão continuar durante um bom tempo. Vejo uma disputa entre profissionais da saúde, Ministério da Saúde, puxando a sardinha para o lado deles, defendendo a saúde e isolamento social, e do outro lado pessoas defendendo a economia. Deveria ter uma força conjunta, um meio-termo, mas não vejo isso acontecer em lugar nenhum”.


“O emocional também afeta o físico”

Rodolfo Gabriel de Campos Maciel, fisioterapeuta

“Estou tendo atendimentos mais específicos, de casos mais urgentes, como pacientes que estão com muita dor e sensibilidade. O emocional também afeta o físico. Diminuiu a porcentagem de continuidade de tratamento, principalmente que estava na fase de restauração e manutenção acabamos adiando as consultas, mas aumentaram as emergenciais. No início a maioria das pessoas ficou 15, 20 dias só em casa, sem atividade física, e isso acarretou no aumento dessa demanda. O movimento baixou, mas também equilibrou para não acontecer aglomeração na recepção, por exemplo. Utilizamos as EPIs, máscara, jaleco, avental, luvas não dá porque na maioria dos casos o manuseio precisa ser pele a pele. Os pacientes idosos praticamente quase nenhum está nos procurando, mantemos os atendimentos da osteopatia, mas há poucas consultas; muitos pacientes nos ligam, tentamos ajudá-los por telefone, e quando são idosos e que precisam ir no atendimento presencial marcamos logo cedo. Vejo que há pessoas que precisam sair de casa, há pacientes com dor e nem sempre é um desconforto simples que pode ser resolvido com medicação, há casos que precisam ser atendidos presencialmente. Uma paciente minha, o marido dela teve Coronavírus, ela ligou no meio da quarentena falando que estava com muita dor. Eu falei que podia ser pneumonia, mas ela foi ao médico e viu que era mais muscular, e nesta semana ela foi consultar. Quem pode ficar em casa, fique, mas quem precisa ir a luta, principalmente os fisioterapeutas, se cuidem 100%. Acredito que é uma questão muito delicada falar de futuro diante da pandemia, com base nos outros países vejo que no segundo semestre pode haver redução nos casos, mas vacina e medicações vai levar certo tempo, e mesmo com isso ainda vai ter casos, como acontece com a Febre Amarela, H1N1. Vejo que nós do sul temos mais imunidade, nos cuidamos com a alimentação, temos rotina de exercícios físicos, que são essenciais para esse momento, por isso acabamos tendo mais resistência”.


“A nossa palavra de ordem é orientação, pois é isso que conseguimos fazer agora”

Vera Ligia Bento Galli, fisioterapeuta e professora do curso de Fisioterapia da Univali

“A clínica de Fisioterapia da Univali é aberta para toda a comunidade, mas é preciso apresentar o encaminhamento médico (pode ser da unidade básica de saúde ou de médico particular). Vemos a área em que a pessoa se encaixa, se é ortopédico, neurológico, respiratório, pediatra. E quando há horário, chamamos a pessoa. A fila de espera, infelizmente, é um pouco grande. Quem atende são os nossos alunos do último ano, sempre supervisionados pelos professores. A pandemia foi complicada porque de um dia para o outro paramos com os atendimentos, que retornaram há 20 dias. Quando é o caso do recesso de fim de ano temos várias semanas para preparar o paciente, nos esforçamos para que ele possa continuar sozinho, fazendo exercícios em casa, o que não foi possível fazermos agora. Estudamos possibilidades para fazer teleatendimento, o Conselho de Fisioterapia permite isso, e assim começamos há 20 dias, por entendemos que os pacientes teriam prejuízo se não recebessem esse atendimento remoto, que é focado em orientá-los. Convidamos eles para continuarem conosco, dessa forma online, e a maioria topou, foi uma grata surpresa. Houve alguns casos de pessoas que não têm WhatsApp, e para elas conseguimos fazer por ligações normais, mas boa parte tem sido por vídeo-chamada. Os alunos criam o material e encaminham para os pacientes, que filmam ou fotografam para ver como está acontecendo o tratamento. As consultas à distância tem sido de no máximo 20 minutos, a presencial era de 50 (e sempre uma vez por semana). O nosso objetivo é auxiliá-los, pois já havíamos avaliado e conhecemos esses pacientes. A nossa palavra de ordem é orientação, pois é isso que conseguimos fazer agora. Escutamos, falamos o que eles podem fazer, damos dicas de exercícios e posições que eles podem seguir enquanto realizam suas tarefas cotidianas, compressa quente ou fria, automassagem. O foco é na melhora dos hábitos de vida, minimizando os desconfortos. Ouvimos relatos de pacientes que não tinham dificuldade para dormir e agora tem, isso tem sido muito comum, pois a ansiedade realmente afeta dessa forma. Recomendamos mudar a altura do travesseiro, usar apoio nas costas ou nas pernas, exercício respiratório também, escalda-pés. A resposta tem sido muito positiva, pois o paciente percebe que não está sozinho. Nos preocupamos também com a fila de espera, que é muito grande, e é algo que se reflete na saúde municipal de cada cidade da região. Estamos analisando sobre entrar em contato com essas pessoas, sabemos que se o isolamento social persistir vamos precisar fazer isso. Penso em quem fez cirurgia ainda antes da pandemia e não fez fisioterapia em todo esse tempo. Vamos selecionar casos emergências e orientá-los, minimizando então esse período de espera. A Univali está muito preocupada com retornar de forma responsável com as atividades presenciais. Existe a possibilidade de liberarmos estágios e atividades práticas em meados de junho, mas as aulas seguem sem previsão, estamos construindo possibilidades e seguindo os decretos”.

Laboratório Fisioterapia da Univali


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Consultas de rotina e tratamentos de doenças crônicas prejudicados pela pandemia

Médicos especialistas falam sobre a situação em Balneário Camboriú

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Quinta, 4/6/2020 15:10.
Renata Rutes e Marlise Schneider Cezar

O isolamento social que o Coronavírus determinou trouxe inquietude, ansiedade e muitas dúvidas em todos os setores, mas principalmente na área da saúde, com relação a consultas agendadas antes da pandemia, tratamentos e terapias em andamento.

As consultas devem ser adiadas? Os tratamentos devem ser interrompidos? Especialistas vem orientando que pessoas saudáveis que fazem exames para cumprir agenda de rotina, tipo check up, devem adiar. Ou conversar com seu médico antes para uma decisão conjunta. Mas recomendam que pessoas com doenças crônicas ou em tratamento oncológico não devem cancelar consultas nem terapias.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBP) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) milhares de diagnósticos de câncer deixaram de ser feitos no país desde a chegada do Covid-19 e a situação continuará, podendo alcançar 50 mil casos não diagnosticados. A Associação Brasil AVC reforçou sua campanha com o slogan #AVC Não Fique em Casa, porque é uma doença que pode ser prevenida, quando surgem os primeiros sintomas, mas os números de consultas reduziram muito nos últimos dois meses.

E nas outras especialidades que exigem acompanhamento médico constante como está a situação?

Esta semana a reportagem consultou médicos especialistas para saber como está o cenário em Balneário Camboriú. Os médicos responderam sobre consultas de rotina e em que grau foram afetadas; explicaram sobre os procedimentos em consultórios; qual a recomendação e se a Telemedicina, pode ajudar neste momento de pandemia.

Acompanhe o que eles disseram:

SAÚDE MUNICIPAL

Consultas eletivas estão voltando, mas prioridade é urgência e emergência

As consultas eletivas da rede municipal de saúde de Balneário Camboriú não foram totalmente paralisadas durante a pandemia, mas sofreram uma considerável redução, com os profissionais focando principalmente nas urgências e emergências.

Especialidades como odontologia e oftalmologia, que necessitam de contato muito próximo entre o dentista e o oftalmologista, foram suspensas por um tempo, mas já retornaram. O único serviço que não está recebendo o público é o Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI), já que é focado na terceira idade, um dos principais grupos de risco. Porém, a Secretaria de Saúde está estudando maneiras do atendimento retornar – até o momento está acontecendo tudo por telefone, como dúvidas do público e renovações de receitas.

Grupos de risco e colaboradores

A secretária de Saúde, Andressa Hadad, salienta que no início do isolamento social, as consultas eletivas foram paralisadas, considerando as restrições e também para proteger pacientes e profissionais. Inclusive houve corte no quadro de colaboradores da área, já que, segundo Andressa, muito deles têm acima de 60 anos ou possuem alguma comorbidade.

“Mesmo assim muitos atenderam aos pacientes por telefone. A telemedicina realmente nos ajudou muito nesse período. Alguns atenderam nas barreiras de trânsito. Sempre buscamos formas de atender ao público neste momento e conseguimos perceber o quanto o ‘time da saúde’ é unido, solícito. Se uniram por essa causa, e quem se afastou foi por ser um grupo muito de risco”, diz.

NAI sem atendimentos presenciais

O Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) permanece sem atendimentos presenciais, já que o foco do local é atender os 60+, que integram um dos principais grupos de risco da pandemia. Mesmo assim, os médicos estão tirando dúvidas por telefone, além de renovar receitas de medicação, assim como a utilização da telemedicina.

“Vamos apresentar um plano de retomada de trabalho e ver junto do Comitê do Covid-19 como podemos proceder, mas se voltarmos será com inúmeras restrições. Preferimos que os idosos vão até o NAI do que ao hospital, por exemplo”, acrescenta.

O geriatra Sérgio Monteiro atua no NAI, e explica que as consultas de rotina permanecem suspensas, assim como Andressa citou.

“Estamos seguindo as orientações da OMS. No NAI estou renovando receitas e pedindo para que um familiar vá até lá buscar, pois é o público que mais deve ficar em casa”, afirma.

As áreas mais afetadas

Quem mais ‘sentiu’ as diferenças geradas pela pandemia, por conta da diminuição de consultas, segundo a secretária, foram os anestesistas e dentistas, já que as cirurgias diminuíram e a odontologia, que tem um risco altíssimo de contaminação, também foram afetadas, focando principalmente nas urgências e emergências.

“No caso dos dentistas, os consultórios são desinfetados e só podem receber pacientes uma hora depois do anterior, devido ao aerossol gerado e a alta probabilidade de contaminação. O COE (Centro de Odontologia Especializada) só está focando em urgências e emergências (o tratamento de canal, por exemplo) e em um só período. É um novo formato de atendimento”, salienta.

A diretora de Saúde Bucal do COE, Priscila Teixeira, acrescenta que estão seguindo a determinação do Departamento de Saúde Bucal do Estado, atendendo atualmente urgências em todos os postos de saúde da cidade (a maioria nos dois períodos) e no COE somente das 7h às 13h.

“As urgências aumentaram bastante, nos primeiros dias eram 10, 15 atualmente passa de 30 por dia, isso digo somente no COE”, comenta. Priscila diz que as principais mudanças que sentiram foram em relação ao uso das EPIs, utilizando macacão, máscara N95, face shield.

“Os dentistas não trabalham nas urgências em quatro mãos (quando o técnico auxilia diretamente), procuramos atender somente o odontólogo na sala. O atendimento odontológico gera muito aerossol, que sai direto da boca do paciente, então quanto menos pessoas próximas melhor, em alguns casos há necessidade de trabalharmos a quatro mãos, mas é mais difícil”, explica.

A diretora aproveita para lembrar que a odontologia é a área mais propensa a se contaminar, já que os profissionais precisam examinar a boca do paciente, trabalhando diretamente em contato com a saliva e ainda gerando aerossol no ambiente, rosto e pescoço do dentista.

“O estresse é grande entre os profissionais nesse momento, mas temos todos os equipamentos de proteção e foi a profissão que escolhemos, diante de pandemia ou não, temos que estar ali sempre prontos. Não tivemos nenhum caso de dentista que se contaminou durante o atendimento na rede até agora. Estamos tomando todos os cuidados possíveis”, completa.

Diminuição na procura

A secretária de Saúde, Andressa Hadad, cita que o momento de pandemia fez com que os profissionais que atuam na área precisassem se reinventar, principalmente aqueles que precisaram atender aos pacientes sem a presença física deles.

“É difícil, mas conseguimos. A telemedicina realmente foi essencial, mas houve casos em que tivemos que atender de forma presencial, como um paciente hipertenso que ‘descompensou’. Era uma consulta eletiva, mas precisou ser atendido. Nada será como antes, estamos analisando as estruturas das unidades, todos se protegendo, mas não paramos totalmente, pois as doenças continuam”, pontua.

Ela cita que o Hospital Municipal Ruth Cardoso ‘segue lotado sempre, com internações e casos graves, mas a recepção sem lotação’, mas os Prontos Atendimentos dos bairros Nações e Barra tiveram redução de procura, ‘já que as pessoas têm medo de se expor’.

“As pessoas estão entendendo que só devem procurar atendimento médico se necessário”, afirma.

Porém, em casos urgentes, como uma queda, pulso ou tornozelo quebrados, as cirurgias e consultas serão feitas. Há a preocupação com agendamento para não expor tanto o paciente quanto o médico, já que, segundo a secretária, na hora de entubar o paciente acontece ‘uma eliminação gigantesca de aerossol’, além da imunidade do paciente, que também sofre redução.

Avaliação da Fila de Espera e retorno das consultas

A prefeitura está passando por um problema com o sistema online para acompanhar a Fila de Espera das consultas eletivas, mas isso deve ser resolvido em breve.

“Estamos analisando a fila, estamos muito preocupados com a retomada das consultas. Queremos que os pacientes tenham certeza que serão atendidos, e se houver alguma emergência podem ir até as unidades básicas de saúde ou ligar para a secretaria”, diz.

Andressa aproveita para acrescentar que há planos de fazerem mutirões em todas as especialidades assim que a situação da pandemia se regularize, tanto aos finais de semana como também com horário estendido.

“Também estamos cogitando procurar empresas para nos apoiarem”, completa.


O QUE DIZEM MÉDICOS ESPECIALISTAS

“Cerca de 10% dos pacientes que vêm com sintomas, estão com ansiedade”

credito - Waldemar Cezar Neto

Pedro Cabral, pneumologista

“As consultas de rotina foram bastante afetadas, principalmente em algumas especialidades como dermatologia, oftalmologia, neurologia, cardiologia, as pessoas ficaram com medo de ir ao consultório, que é sempre um local onde existem doenças. De certa forma isso é bom, porque as pessoas só iriam mesmo ao médico de maneira necessária, para questões de rotina, acabam não indo. De outro lado, tem pacientes com sintomas de gravidade, algum alerta, que estão deixando de ir no hospital e quando vão já chegam num estado mais grave. Alguns colegas perderam mais de 70% de pacientes no consultório.

A minha especialidade é diferenciada, porque faz parte do que está acontecendo na pandemia. Nós fazemos uma filtragem, a minha secretária faz uma triagem para saber os sintomas que o paciente está sentindo, então orientamos, muitas vezes não precisam vir naquele momento, ou fazemos contato por whats ou email, os que têm alguma alteração precisam vir ao consultório, chamamos, mas sempre com toda segurança, espaços maiores entre uma consulta e outra, para que os pacientes nem se encontrem na sala de espera.

Registrei uma outra particularidade no meu consultório, muitos pacientes estão chegando com falta de ar ou dor no peito e a gente precisa investigar, às vezes até fazer exames, mas já é possível reconhecer que uns 10% dos que chegam com esses sintomas, é por ansiedade, acabam somatizando, muitas informações, ficam muito ligados e começam a ter sintomas e às vezes só conversando, fazendo um contato com o médico, orientando, eles já saem mais tranquilos, algumas vezes nem precisa pedir exame, é um quadro claro de ansiedade.

Quanto à Telemedicina ela é uma realidade no mundo todo, bem antes da pandemia, os médicos terão que se adaptar com isso. Em Santa Catarina ela é praticada há muito tempo com exames de imagens, eletrocardiogramas, exames laboratoriais, feitos no interior e algum especialista na capital fica dando os laudos, para facilitar a vida do paciente e do médico. Acho que a pandemia só veio acelerar esse tipo de medicina, ela veio para ficar sim”.


“Na oncologia, o tempo de espera é crucial para a gravidade da doença”

credito – Divulgação

Gabriel Quintela, oncologista

“Todas as consultas foram afetadas. Percebemos inicialmente uma descrença que a situação poderia chegar onde chegou, seguido por um medo geral o que motivou redução da quantidade de consultas não só de rotina mas também as de urgências e emergências. Por algumas semanas, os pronto atendimentos viram uma redução geral do número de consultas.

Na oncologia, temos a questão do tempo de espera ser crucial para a gravidade da doença. Batalhamos todos os anos para a busca e conscientização do diagnóstico precoce. E o que aconteceu e está acontecendo no geral é uma menor quantidade de exames de rastreamento, diagnósticos e cirurgias oncológicas. Nos EUA, saiu uma pesquisa recente mostrando que os oncologistas perceberam uma redução de 37% no volume de trabalho.

Procuramos manter os atendimentos normalizados para pacientes em tratamento com quimioterapia bem como aqueles que acabaram de receber o diagnóstico de câncer . Pacientes em seguimento, foram orientados a adiar seus retornos. Se tivesse que mostrar algum exame, esse seria visto pelos médicos e orientaria em caso de alguma alteração.

No meio privado, alguns planos de saúde como a Unimed disponibilizaram um telefone de contato específico para dúvidas sobre Covid 19. No meio público, os hospitais de referência tentaram entrar em contato com pacientes para orientação possíveis adiamentos ou reforçar a manutenção dos tratamentos vigentes. Na oncologia temos uma relação muito próxima com pacientes, então em muitos casos fizemos um contato direto como uma telemedicina para orientar, consultar e informar dúvidas sobre Covid 19 ainda que não tivesse relação com oncologia.

Estamos entrando no pico da disseminação da doença ainda que nosso estado tenha uma realidade “melhor” em relação a outras regiões do país. Por isso, já está provado que o isolamento social é a melhor maneira de acabar com a doença. E nossos pacientes em tratamento devem seguir as orientações do seu oncologista. Evitar sair de casa (a não ser que seja para seguir tratamento) já que estar em tratamento com quimioterapia configura um grupo de risco de evoluir com Covid 19 de forma mais grave.

No consultório, estamos usando máscaras assim como os pacientes. Mantemos um distanciamento físico maior nos consultórios exceto quando há necessidade de exame médico. Reduzimos a quantidade permitida de acompanhantes. Mantemos os ambientes mais arejados.

A Telemedicina pode ajudar sim. Mas como a necessidade surgiu de forma inesperada, poucos locais tinham estrutura preparada para esse modo de consulta. E como há um custo para desenvolvimento desse modelo, o que vejo atualmente é a Telemedicina ainda como uma ideia a ser desenvolvida. Com relação a educação médica, tivemos que que nos adaptar a realidade dos Congressos virtuais, reuniões multidisciplinares virtuais. Acho que essas opções de educação médica deram muito certo e serão mantidas e aperfeiçoadas cada vez mais”.


“O importante é não perder a relação médico paciente”

credito Divulgação

Umberto D´Avila, urologista e presidente da Unimed Litoral

“As consultas de rotina foram afetadas. Primeiro houve uma solicitação da Secretaria de Saúde do Estado para que fossem suspensos os atendimentos em clínicas e depois com a reabertura foi feita uma programação para que as consultas fossem feitas mais espaçadas e só agendar aqueles pacientes que não teriam nenhum risco de infecção. Depois de algumas semanas isso foi liberando mais e com a estrutura dos locais de atendimento de casos suspeitos, tanto municipal, como na Unimed, os consultórios ficaram mais destinados às consultas eletivas que estão voltando, mas com menos frequência.

A agenda de todos os médicos que conversamos diminuiu o número de consultas nesse período. Recebemos muitas ligações de pacientes e criamos o Alô Doutor, que é o tratamento do Covid, na Praia Brava, para usuários da Unimed, onde tem um médico o dia todo respondendo dúvidas e orientando pacientes. Nos casos eletivos, os pacientes também perguntam se devem consultar agora ou esperar e dentro do tempo que o paciente fez a última consulta e das suas queixas, o médico pode protelar para dentro de dois, três meses sem maior risco, quando o paciente está bem e não houve mudança do quadro.

A recomendação para pacientes que têm exames com menos de um ano, que estão normais e não mudou o quadro clínico, que esperem um pouco para fazer o exame de rotina. A não ser aqueles pacientes que o seu médico orientou que devem voltar com menor periodicidade devido algum estado crônico que precisa ser acompanhado, como pacientes cardíacos, outros com risco de câncer, ou controlando medicações.

A Telemedicina que o Conselho Regional orientou é sobre o atendimento do Covid. A Telemedicina é uma ferramenta para ajudar consultas médicas, o importante é não perder a relação médico paciente onde o exame físico, o contato com o paciente é fundamental para que o diagnóstico seja melhor, só que isso, nessa fase, exige alguns cuidados para que o paciente não seja colocado em risco, mas acredito que depois de julho, essa rotina vai voltar a normalizar”.


“Os problemas cardiovasculares podem aumentar com a ansiedade”

José Lago, cardiologista

“Ficamos parados por duas semanas, sem atender aos pacientes de forma presencial, depois voltamos, mas seguimos limitando as consultas, e percebo que o pessoal também está com medo de ir ao consultório, principalmente nos casos das consultas de rotina. Há aqueles que marcaram e não vão também. Vi uma pesquisa de Nova York que apontou que as pessoas estão falecendo de infarto em casa oito vezes mais do que antes, porque estão com medo de ir para o hospital, acham que vai passar e acaba complicando. Aumentou também derrame, AVC. Tem muita gente morrendo, infelizmente. Também há a questão de que as pessoas estão mais depressivas, ansiosas, comendo mais, ganhando peso, o que é uma preocupação para quem é cardíaco, além ainda do consumo de álcool. Ficar em casa deprime e os problemas cardiovasculares podem aumentar com a ansiedade. Eu atendo principalmente a faixa etária de maior risco, que são os idosos. Uma paciente que atendi esta semana me disse que estava saindo pela primeira vez desde o início da pandemia. Ela estava com pressão alta. Meus atendimentos diminuíram de 30 a 40%, diariamente eu atendia 15 pacientes, agora são cerca de 10. Diminuímos também o número de cadeiras na sala de espera, por conta do distanciamento, temos à disposição álcool gel, além da obrigação do uso de máscara. Seguimos todos os cuidados de higiene recomendados, evitamos aglomeração marcando as consultas de forma mais espaçada, para não haver encontros na recepção. Recomendo que os pacientes tentem sair um pouco de casa, dar uma volta, mas seguindo todos os cuidados. Isso também melhora a ansiedade. Sou a favor do isolamento seletivo, quem for de risco deve ficar em casa. Grandes empresas precisam fazer um controle periódico, isolar suspeitos. Eu não sou a favor de fecharmos tudo totalmente, a depressão mata, assim como problemas econômicos também. Há muitos problemas além da pandemia acontecendo, assim como a violência doméstica e a pedofilia, que também vem aumentando. Acredito que os casos devem diminuir no segundo semestre, mas devem continuar até sair a vacina, o que deve acontecer até o começo de 2021”.


“As rotinas de consultórios e exames caíram aproximadamente 60%”

Wislen Roberto dos Santos Braga, oftalmologista

“Na quarentena todas as consultas, exames e cirurgias de rotina foram interrompidos e o Hospital de Olhos manteve-se fechado obedecendo as orientações dos poderes públicos. Abríamos todos os dias de 15.00 a 16.00 horas para urgências, com o Dr. Eduardo atendendo, os pacientes eram orientados por um telefone celular fixado à porta do estabelecimento para esse atendimento.

Quando fomos liberados para consultas, aumentamos os espaços entre as consultas e os exames. O paciente e os profissionais de atendimento usam máscaras e, a cada paciente, uma colaboradora faz a assepsia dos aparelhos com álcool a 70%.

As cirurgias eletivas estão sendo marcadas em menor quantidade para não haver contatos entre os pacientes.

As rotinas de consultórios e exames caíram em aproximadamente 60% e as cirurgias em 80%.

A Telemedicina em oftalmologia é impraticável pois dependemos de microscópico clínico (biomicroscópico) para diagnósticos e, rotineiramente, necessitamos saber a pressão ocular antes de prescrevermos medicações oculares e, às vezes, por Via Oral”.


“As consultas de pré-natal não devem ser adiadas”

Delmo Dumke, ginecologista

“Tenho consultório de manhã e à tarde com marcação de 30 em 30 minutos. No período da pandemia estamos restringindo o número de consultas com intervalo entre consultas e restrição de acompanhantes e seguindo cuidados de higienização. Algumas consultas foram remarcadas e as eletivas foram postergadas, mas algumas já estão remarcando. Antes eu atendia cerca de 15 pacientes/dia, agora são cerca de 10. Infelizmente, há muitas informações divergentes, em Santa Catarina fizeram quarentena em março que foi antes da hora, e agora que está pior não há condições de fechar novamente. A imprensa e os órgãos governamentais esqueceram que existem doenças que também matam, como diabetes, hipertensão, AVC, câncer, dentre outras. Nos serviços de saúde ficou precário o atendimento para estas patologias. As pessoas ficaram trancadas em casa, não podiam fazer caminhadas, até ir na praia foi proibido. Agora vamos pagar a conta com desemprego e aumento da criminalidade. Pacientes entraram em contato com dúvida se deveriam ir consultar ou não, algumas, conforme o problema, foram adiadas. As consultas de pré-natal não devem ser adiadas, pois cada fase é muito importante. Precisamos avaliar a gestante a cada mês. Vejo que o paciente esperar ficar grave para então procurar atendimento médico pode ser tarde em muitas patologias, como apendicite, diabete, hipertensão, cardíacos, infecções e o próprio Covid-19”.


“Recomendo que consultem só se for muito necessário”

Maria Cláudia Peixoto Cenci, endocrinologista

“O Coronavírus acabou impactando bastante em meus atendimentos, já que os pacientes são normalmente diabéticos, obesos e idosos também, que são grupos de risco. Recomendo que eles consultem só se for muito necessário. Mesmo os pacientes mais jovens estamos espaçando mais as consultas, antes eu atendia cerca de 15 pacientes/dia, hoje reduziu para seis ou sete. Caiu 50%. Mantemos as janelas do consultório sempre abertas, utilizando as EPIs, gorrinho, máscara... se precisar examinar o paciente uso óculos, álcool gel está sempre à disposição para todos, também passamos álcool nas cadeiras, bancadas, estamos sempre desinfetando. Vejo que o Coronavírus é um problema de saúde pública muito importante, precisamos nos cuidar para que haja vagas nos hospitais caso tenhamos a doença, que é muito contagiosa. Há inclusive pacientes que me ligam com dúvidas sobre os sintomas do Corona, recomendo que eles avaliem a temperatura em casa, e caso percebam que pioraram procurem o hospital. No próximo semestre acredito que há previsão de melhora, considerando que isso está acontecendo na Europa, e por isso o isolamento social é tão fundamental”.


“Nos voltamos para as urgências e emergências”

Hélio Cezar Gomes dos Reis, ortopedista e professor do curso de Medicina da Univali, trabalha no Hospital Marieta Konder Bornhausen e no Hospital do Coração

“A nossa rotina com o advento do novo Coronavírus realmente mudou bastante. Somos profissionais que estamos constantemente correndo, atividades em consultório, hospital, centro cirúrgico na área de ortopedia e traumatologia, ambulatórios e prontos-socorros sempre lotados, uma agenda sempre cheia. Com a pandemia, ainda em meados de março, tivemos que parar tudo, e isso realmente exigiu uma adaptação. Suspendemos os principais atendimentos de rotina e nos voltamos para as urgências e emergências. Passada a primeira fase, até abril, voltamos com os atendimentos mais espaçados, em torno de 30, 40 minutos cada consulta, pronto-socorro limitado aos atendimentos de urgência, e cirurgias basicamente também voltadas para urgência e emergência. Muitos pacientes optaram por adiarem as suas consultas, enviam exames para serem analisados por WhatsApp, deixamos receitas prontas. O atendimento online intensificou bastante. Com o isolamento social também diminuíram os acidentes de trânsito, consequentemente diminuindo o número de urgências e emergências. Estamos conseguindo marcar cirurgias, já que antes a agenda era um pouco mais complicada. Outra rotina que tivemos que cumprir é a higienização das mãos e álcool gel, máscaras, que já era uma constante, mas se fez ainda mais intensa, orientando ainda os pacientes quanto a isso. É o que chamamos de ‘um novo normal’, já pensamos ao acordar no uso frequente do álcool gel, sair de casa com máscara, cuidados com a roupa, higienização dos materiais que utilizamos, como celular, óculos, relógio. Tive colegas médicos idosos ou com alguma comorbidade, que fizeram quarentena e estão retornando agora. O novo Coronavírus é um vírus de exclusividade que ataca somente a espécie humana, é uma doença nova, a medicina está precisando se adaptar a essa nova realidade, mas acredito que vamos ter que seguir tendo os cuidados que já tivemos com outras doenças infectocontagiosas, de higiene, isolamento, evitar aglomerações; existe uma curva de ascensão dos casos e depois acaba reduzindo. O que é diferente nessa doença é que houve um risco de complicações respiratórias que acaba levando o paciente a UTI, e muitas regiões não tem o número de leitos necessários. Pacientes que têm comorbidades também evoluem mais rápido para a morte, é o que chamou a atenção nessa doença. Acredito que venha uma vacina até o final do ano, mas se a população conseguir seguir todas as orientações médicas de prevenção vamos conseguir ultrapassar essa crise com o menor risco possível. A doença ainda está em atividade, não podemos relaxar agora, ela não é inofensiva e as estatísticas mostram que ainda estamos na curva ascendente. O uso de máscara de forma contínua, e lavá-las, é essencial; o ideal é ter duas, para conseguir revezar, e usá-las da forma correta, além de evitar aglomeração, principalmente em áreas fechadas”.


“Não estou passando dietas extremamente radicais”

Gustavo Melegassi, nutricionista

“Nesse período, os clientes estão me procurando também focados na imunidade, não só voltados para a parte estética, mas preocupando-se com a saúde e questão alimentar para melhorar a imunidade. No meu consultório, estou evitando marcar pacientes com horários muito próximos para evitar aglomerações. Nas avaliações utilizo luvas descartáveis, tudo é higienizado com frequência (com álcool), disponibilizo álcool gel para os pacientes também, que sempre usam máscara. O Conselho Federal de Nutrição concedeu pela primeira vez na história a autorização para fazermos consultas online, o que abriu um leque para atender pacientes que não podem se deslocar até o consultório, por exemplo. Eu percebi que durante a pandemia meus atendimentos aumentaram, considerando que em janeiro e fevereiro perco alguns clientes por conta do verão, Carnaval; março foi quarentena total, então abril e maio até agora foram os melhores meses. Por dia atendo de quatro a cinco pacientes. A pandemia e o isolamento social também estão deixando as pessoas mais ansiosas, e sei que há uma grande dificuldade com a alimentação nesse sentido, por isso não estou passando dietas extremamente radicais, cuidando ainda com a compulsão alimentar, acompanhando pacientes que se enquadram nesses casos, e nos mais graves trabalho em parceria também com psicólogos e psiquiatras. Vejo que o Coronavírus está mais brando em Balneário, considerando boa parte do Brasil. Santa Catarina fechou os comércios, escolas e transporte público de forma antecipada, e mesmo tendo grandes cidades, como Floripa e Joinville, não há grandes aglomerações, como no metrô, por exemplo. Mas mesmo estando mais brando, exige atenção, uso de máscara. Ambientes como academia exigem cuidado. Acredito que no segundo semestre a situação pode melhorar, mas medicação e vacina de forma realmente efetiva acredito que só teremos em 2021. Não podemos parar tudo até melhorar, é importante mantermos uma rotina de trabalho, exercícios, estudo, e a economia também precisa seguir”.


“As medidas de proteção precisarão continuar durante um bom tempo”

Ricardo Quírico Pinheiro Machado, dentista

“Antes eu tinha um fluxo de pacientes, quando eu estava atendendo um, chegava o próximo e ficava esperando; agora não há mais esse ‘cruzamento’ de pacientes na recepção. A gente ou termina um pouco antes, marca outro um pouco mais tarde, para que dê tempo do paciente sair e fazermos a desinfecção de todo o consultório, com um produto a base de peróxido, que mata tudo, vírus, bactérias, e tudo mais. Antes já tínhamos essa biossegurança bem ativa, então não precisamos mudar nada. Acabamos marcando menos pacientes por dia, por conta do intervalo entre um e outro. Tivemos que comprar novos equipamentos de proteção individual, macacão impermeável, óculos de proteção, gorro, máscara com proteção maior, filtro (PFF2 ou PPF3), e por cima a nossa máscara clínica, e ainda a face shield, que é tipo um escudo de acrílico. Agora está voltando ao normal, durante a quarentena não houve atendimento, quando voltamos os pacientes que não tinham emergência preferiram adiar, como limpeza (profilaxia, jato de bicarbonato – esse pode contaminar bastante o ambiente, e não está sendo feito), estéticos, isso tudo adiamos. Idosos preferimos adiar as consultas também, nesta semana que alguns estão ligando e falando que querem consultar. Durante a quarentena eu avisei os pacientes que estava no consultório para emergências, mas que atendimentos normais não estavam acontecendo. Me preocupo bastante com o Coronavírus por conta da minha profissão, que é de alto risco. Estamos mexendo justamente na boca, que é a região contaminada. É um vírus de altíssimo contágio e com índice de mortalidade baixo. Dizem que 80% da população será contaminada, então tem uma virulência muito alta, e acredito que por isso não irá mudar tão cedo a nossa rotina no consultório, ao menos que saia uma vacina, mas isso ainda está longe de acontecer, porque ainda é um vírus muito novo e pesquisas científicas precisam de mais tempo. Até lá estaremos bem resguardados, cuidando muito com tudo que fazemos. Balneário e SC tem vantagem de não ter contaminação tão alta como RJ, SP, e isso nos dá mais tranquilidade para trabalhar. A questão economia e política, as informações cruzadas, também confundem a população, fica ‘um diz que me diz que’, um achismo, e isso é muito perigoso. As medidas de proteção precisarão continuar durante um bom tempo. Vejo uma disputa entre profissionais da saúde, Ministério da Saúde, puxando a sardinha para o lado deles, defendendo a saúde e isolamento social, e do outro lado pessoas defendendo a economia. Deveria ter uma força conjunta, um meio-termo, mas não vejo isso acontecer em lugar nenhum”.


“O emocional também afeta o físico”

Rodolfo Gabriel de Campos Maciel, fisioterapeuta

“Estou tendo atendimentos mais específicos, de casos mais urgentes, como pacientes que estão com muita dor e sensibilidade. O emocional também afeta o físico. Diminuiu a porcentagem de continuidade de tratamento, principalmente que estava na fase de restauração e manutenção acabamos adiando as consultas, mas aumentaram as emergenciais. No início a maioria das pessoas ficou 15, 20 dias só em casa, sem atividade física, e isso acarretou no aumento dessa demanda. O movimento baixou, mas também equilibrou para não acontecer aglomeração na recepção, por exemplo. Utilizamos as EPIs, máscara, jaleco, avental, luvas não dá porque na maioria dos casos o manuseio precisa ser pele a pele. Os pacientes idosos praticamente quase nenhum está nos procurando, mantemos os atendimentos da osteopatia, mas há poucas consultas; muitos pacientes nos ligam, tentamos ajudá-los por telefone, e quando são idosos e que precisam ir no atendimento presencial marcamos logo cedo. Vejo que há pessoas que precisam sair de casa, há pacientes com dor e nem sempre é um desconforto simples que pode ser resolvido com medicação, há casos que precisam ser atendidos presencialmente. Uma paciente minha, o marido dela teve Coronavírus, ela ligou no meio da quarentena falando que estava com muita dor. Eu falei que podia ser pneumonia, mas ela foi ao médico e viu que era mais muscular, e nesta semana ela foi consultar. Quem pode ficar em casa, fique, mas quem precisa ir a luta, principalmente os fisioterapeutas, se cuidem 100%. Acredito que é uma questão muito delicada falar de futuro diante da pandemia, com base nos outros países vejo que no segundo semestre pode haver redução nos casos, mas vacina e medicações vai levar certo tempo, e mesmo com isso ainda vai ter casos, como acontece com a Febre Amarela, H1N1. Vejo que nós do sul temos mais imunidade, nos cuidamos com a alimentação, temos rotina de exercícios físicos, que são essenciais para esse momento, por isso acabamos tendo mais resistência”.


“A nossa palavra de ordem é orientação, pois é isso que conseguimos fazer agora”

Vera Ligia Bento Galli, fisioterapeuta e professora do curso de Fisioterapia da Univali

“A clínica de Fisioterapia da Univali é aberta para toda a comunidade, mas é preciso apresentar o encaminhamento médico (pode ser da unidade básica de saúde ou de médico particular). Vemos a área em que a pessoa se encaixa, se é ortopédico, neurológico, respiratório, pediatra. E quando há horário, chamamos a pessoa. A fila de espera, infelizmente, é um pouco grande. Quem atende são os nossos alunos do último ano, sempre supervisionados pelos professores. A pandemia foi complicada porque de um dia para o outro paramos com os atendimentos, que retornaram há 20 dias. Quando é o caso do recesso de fim de ano temos várias semanas para preparar o paciente, nos esforçamos para que ele possa continuar sozinho, fazendo exercícios em casa, o que não foi possível fazermos agora. Estudamos possibilidades para fazer teleatendimento, o Conselho de Fisioterapia permite isso, e assim começamos há 20 dias, por entendemos que os pacientes teriam prejuízo se não recebessem esse atendimento remoto, que é focado em orientá-los. Convidamos eles para continuarem conosco, dessa forma online, e a maioria topou, foi uma grata surpresa. Houve alguns casos de pessoas que não têm WhatsApp, e para elas conseguimos fazer por ligações normais, mas boa parte tem sido por vídeo-chamada. Os alunos criam o material e encaminham para os pacientes, que filmam ou fotografam para ver como está acontecendo o tratamento. As consultas à distância tem sido de no máximo 20 minutos, a presencial era de 50 (e sempre uma vez por semana). O nosso objetivo é auxiliá-los, pois já havíamos avaliado e conhecemos esses pacientes. A nossa palavra de ordem é orientação, pois é isso que conseguimos fazer agora. Escutamos, falamos o que eles podem fazer, damos dicas de exercícios e posições que eles podem seguir enquanto realizam suas tarefas cotidianas, compressa quente ou fria, automassagem. O foco é na melhora dos hábitos de vida, minimizando os desconfortos. Ouvimos relatos de pacientes que não tinham dificuldade para dormir e agora tem, isso tem sido muito comum, pois a ansiedade realmente afeta dessa forma. Recomendamos mudar a altura do travesseiro, usar apoio nas costas ou nas pernas, exercício respiratório também, escalda-pés. A resposta tem sido muito positiva, pois o paciente percebe que não está sozinho. Nos preocupamos também com a fila de espera, que é muito grande, e é algo que se reflete na saúde municipal de cada cidade da região. Estamos analisando sobre entrar em contato com essas pessoas, sabemos que se o isolamento social persistir vamos precisar fazer isso. Penso em quem fez cirurgia ainda antes da pandemia e não fez fisioterapia em todo esse tempo. Vamos selecionar casos emergências e orientá-los, minimizando então esse período de espera. A Univali está muito preocupada com retornar de forma responsável com as atividades presenciais. Existe a possibilidade de liberarmos estágios e atividades práticas em meados de junho, mas as aulas seguem sem previsão, estamos construindo possibilidades e seguindo os decretos”.

Laboratório Fisioterapia da Univali

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