Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Variedades
'Design não é mais luxo, é essencial', diz diretor de arte

Segunda, 10/12/2018 15:04.
Reprodução
Roger Black

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MARCELO PLIGER(FOLHAPRESS)

Roger Black foi pioneiro no uso da tecnologia digital para desenvolver projetos gráficos de periódicos.

Foi diretor de arte da revista Rolling Stones nos anos 1970, quando ajudou a consolidar a personalidade visual mantida até hoje. Na década seguinte, trabalhou para o New York Times, a Newsweek e a New York. Desde então roda o mundo como consultor no redesenho de publicações como Esquire e Washington Post.

Nos anos 2000, foi contratado pelo New York Times para elaborar o projeto gráfico do primeiro site de notícias do jornal. Apaixonado por tipografia, edita hoje a revista Type e é o principal palestrante do Dia Tipo, evento sobre o tema que acontece em São Paulo a partir desta terça (11).

PERGUNTA - Quais inovações no design de notícias têm chamado a sua atenção?
ROGER BLACK - Infográficos. Há uma intensidade e um nível de detalhamento totalmente novos. As amplas visualizações das eleições de 2018 nos EUA são um exemplo. O New York Times e o Washington Post competiram em mostrar quem coletava a mais informação sobre a disputa.
Quando o boom dos infográficos começou nos anos 1970, o Sunday Times, o USA Today e a Time faziam gráficos simples e açucarados, similares a cartoons. O declínio das fazendas familiares era mostrado como um gráfico de barras pintado numa vaca. Parecia que não se podia oferecer muito conteúdo num único gráfico. Quarenta anos depois, eles são muito mais ricos.

P - Como o design pode ajudar empresas de notícias a fornecer conteúdo de qualidade e monetizar o trabalho?
RB - Design não é mais um luxo, é essencial. O pessoal de marketing chama de branding, mas é mais do que apenas identidade visual, é produção de conteúdo visual. Trata-se de conduzir o noticiário por um processo de design. Isso faz com que os leitores permaneçam mais tempo se informando, se entretendo e se familiarizando com o ambiente em que estão imersos. Esse hábito vem morrendo no antigo modelo de negócios. Estamos tendo de resgatá-lo para sobreviver.

P - O pay wall é uma solução definitiva?
RB - A palavra definitivo me dá um certo medo. Sabemos que o conteúdo gratuito é apenas gratuito. A publicidade não é suficiente para pagar pela redação ou não veríamos os sites jornalísticos cobertos cada vez mais com anúncios intrusivos e as patéticas caixas de isca de clique.

P - O design ajuda ou atrapalha a combater as fake news?
RB - Funciona nos dois sentidos. Em 2016, os russos descobriram que, se usassem bons modelos de sites de notícia (como muitos jornais reais), as pessoas não diriam imediatamente que chegaram a uma página de notícias falsas. A resposta não é apenas usar design, mas usar design original, até mesmo design exclusivo. Você precisa criar um visual que se destaque assim como você tem que oferecer conteúdo original, exclusivo e útil.

P - Nos anos 1980 você se destacou por usar tipografia forte com sabor artesanal para criar personalidade exclusiva em revistas e jornais.
RB - Com o Los Angeles Times e o Washington Post, produzimos tipografias únicas que criassem um forte senso de reconhecimento pelos leitores. Tanto na versão impressa quanto na internet ou nos aplicativos, basta ver algumas páginas para você saber que está no LAT ou no Wapo.
Essa ideia é usada no mundo todo agora, e não é coincidência que as fontes originais sejam usadas pelas publicações de maior sucesso. Além dos que mencionei, o Wall Street Journal, o Guardian, o Monde, o Frankfurter Allgemeine, a Folha de S.Paulo, todos têm seus próprios tipos de letra.

P - Essa tipografia artesanal ainda faz sentido no ambiente digital?
RB - A tipografia é ainda mais importante hoje. Nos primórdios da internet, todos os sites usavam fontes do sistema –Times Roman, depois Arial e Georgia–, o que fazia todos os sites de notícias parecerem iguais. Com a tipografia para web começamos a obter alguma distinção. Ainda assim, por que o Google Fonts é gratuito vemos muito a fonte Roboto. Existem muitas fontes boas no Google, mas quando encontra uma você descobre que ela foi baixada 10 milhões de vezes na semana passada e 120 mil sites a usam.

P - Como foi trabalhar com o designer Lou Silverstein no New York Times dos anos 1980?
RB - Lou foi o maior designer de notícias de todos os tempos. Ele nos ensinava algo todo dia. Uma das frases de que eu mais gostava era "Antes de mostrar uma página para a aprovação de um editor, pergunte-se onde estão as notícias nessa página". Ele estava constantemente questionando, "como você chama a atenção do leitor e faz com que ele leia essa história?".

ROGER BLACK
Diretor de arte americano, foi pioneiro no uso da tecnologia digital para criar projetos gráficos. Trabalhou em publicações como Rolling Stone, New York Times, Newsweek e Esquire. Recebeu da Society for News Design um prêmio vitalício pelo conjunto de sua produção.


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Página 3
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Roger Black
Roger Black

'Design não é mais luxo, é essencial', diz diretor de arte

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Segunda, 10/12/2018 15:04.

MARCELO PLIGER(FOLHAPRESS)

Roger Black foi pioneiro no uso da tecnologia digital para desenvolver projetos gráficos de periódicos.

Foi diretor de arte da revista Rolling Stones nos anos 1970, quando ajudou a consolidar a personalidade visual mantida até hoje. Na década seguinte, trabalhou para o New York Times, a Newsweek e a New York. Desde então roda o mundo como consultor no redesenho de publicações como Esquire e Washington Post.

Nos anos 2000, foi contratado pelo New York Times para elaborar o projeto gráfico do primeiro site de notícias do jornal. Apaixonado por tipografia, edita hoje a revista Type e é o principal palestrante do Dia Tipo, evento sobre o tema que acontece em São Paulo a partir desta terça (11).

PERGUNTA - Quais inovações no design de notícias têm chamado a sua atenção?
ROGER BLACK - Infográficos. Há uma intensidade e um nível de detalhamento totalmente novos. As amplas visualizações das eleições de 2018 nos EUA são um exemplo. O New York Times e o Washington Post competiram em mostrar quem coletava a mais informação sobre a disputa.
Quando o boom dos infográficos começou nos anos 1970, o Sunday Times, o USA Today e a Time faziam gráficos simples e açucarados, similares a cartoons. O declínio das fazendas familiares era mostrado como um gráfico de barras pintado numa vaca. Parecia que não se podia oferecer muito conteúdo num único gráfico. Quarenta anos depois, eles são muito mais ricos.

P - Como o design pode ajudar empresas de notícias a fornecer conteúdo de qualidade e monetizar o trabalho?
RB - Design não é mais um luxo, é essencial. O pessoal de marketing chama de branding, mas é mais do que apenas identidade visual, é produção de conteúdo visual. Trata-se de conduzir o noticiário por um processo de design. Isso faz com que os leitores permaneçam mais tempo se informando, se entretendo e se familiarizando com o ambiente em que estão imersos. Esse hábito vem morrendo no antigo modelo de negócios. Estamos tendo de resgatá-lo para sobreviver.

P - O pay wall é uma solução definitiva?
RB - A palavra definitivo me dá um certo medo. Sabemos que o conteúdo gratuito é apenas gratuito. A publicidade não é suficiente para pagar pela redação ou não veríamos os sites jornalísticos cobertos cada vez mais com anúncios intrusivos e as patéticas caixas de isca de clique.

P - O design ajuda ou atrapalha a combater as fake news?
RB - Funciona nos dois sentidos. Em 2016, os russos descobriram que, se usassem bons modelos de sites de notícia (como muitos jornais reais), as pessoas não diriam imediatamente que chegaram a uma página de notícias falsas. A resposta não é apenas usar design, mas usar design original, até mesmo design exclusivo. Você precisa criar um visual que se destaque assim como você tem que oferecer conteúdo original, exclusivo e útil.

P - Nos anos 1980 você se destacou por usar tipografia forte com sabor artesanal para criar personalidade exclusiva em revistas e jornais.
RB - Com o Los Angeles Times e o Washington Post, produzimos tipografias únicas que criassem um forte senso de reconhecimento pelos leitores. Tanto na versão impressa quanto na internet ou nos aplicativos, basta ver algumas páginas para você saber que está no LAT ou no Wapo.
Essa ideia é usada no mundo todo agora, e não é coincidência que as fontes originais sejam usadas pelas publicações de maior sucesso. Além dos que mencionei, o Wall Street Journal, o Guardian, o Monde, o Frankfurter Allgemeine, a Folha de S.Paulo, todos têm seus próprios tipos de letra.

P - Essa tipografia artesanal ainda faz sentido no ambiente digital?
RB - A tipografia é ainda mais importante hoje. Nos primórdios da internet, todos os sites usavam fontes do sistema –Times Roman, depois Arial e Georgia–, o que fazia todos os sites de notícias parecerem iguais. Com a tipografia para web começamos a obter alguma distinção. Ainda assim, por que o Google Fonts é gratuito vemos muito a fonte Roboto. Existem muitas fontes boas no Google, mas quando encontra uma você descobre que ela foi baixada 10 milhões de vezes na semana passada e 120 mil sites a usam.

P - Como foi trabalhar com o designer Lou Silverstein no New York Times dos anos 1980?
RB - Lou foi o maior designer de notícias de todos os tempos. Ele nos ensinava algo todo dia. Uma das frases de que eu mais gostava era "Antes de mostrar uma página para a aprovação de um editor, pergunte-se onde estão as notícias nessa página". Ele estava constantemente questionando, "como você chama a atenção do leitor e faz com que ele leia essa história?".

ROGER BLACK
Diretor de arte americano, foi pioneiro no uso da tecnologia digital para criar projetos gráficos. Trabalhou em publicações como Rolling Stone, New York Times, Newsweek e Esquire. Recebeu da Society for News Design um prêmio vitalício pelo conjunto de sua produção.


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