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Censura tornou-se um obstáculo definitivo para o teatro político, diz Lauro César Muniz
Divulgação
O dramaturgo Lauro Cézar Muniz

Sexta, 14/12/2018 9:09.

LAURA MATTOS (FOLHAPRESS)

Autor que faria telenovelas de sucesso, como "Roda de Fogo" (1985) e "O Salvador da Pátria" (1989), Lauro César Muniz já era um dramaturgo conhecido do teatro paulista nos anos 1960, quando utilizava o codinome Jordão nas reuniões clandestinas do Partido Comunista.

Em 13 de dezembro de 1968, escutava música pelo rádio quando a programação foi interrompida para o anúncio do Ato Institucional número 5, que concedeu poderes quase ilimitados ao presidente.

Mais tarde, no Gigetto, tradicional restaurante de São Paulo, ele e outros militantes do teatro perceberam a gravidade de situação, beberam e tentaram "rir da tragédia", comentando que, a partir dali, nem comédias de puro entretenimento escapariam da censura.

Diante das notícias de prisão e de morte de amigos, Lauro sabia o perigo que corria. Chegou a ir ao consulado da Tchecolosváquia tentar um exílio, mas desistiu. Estava decepcionado com o socialismo soviético implantado no país. Escondeu-se no apartamento do sogro, ex-piloto da Força Aérea Brasileira que perdera parte da audição na Segunda Guerra e que, apoiador do golpe, respondia, sorrindo, às críticas do genro aos militares: "Estou cada dia mais surdo". Aos 80, o dramaturgo relembra a militância e como o endurecimento da censura após o AI-5 o levou à TV.

PERGUNTA - Como estava a sua vida em 1968?
LAURO CÉSAR MUNIZ - Tinha dois filhos, morava na rua Pamplona (São Paulo) e desfrutava de um sucesso teatral, "A Infidelidade ao Alcance de Todos". Em 1965, deixara a estável profissão de engenheiro para me dedicar ao teatro e ao cinema.

P - E o envolvimento com o Partido Comunista?
LCM - Começou quando era engenheiro à tarde e estudante de teatro à noite, na Escola de Arte Dramática. Uma companheira de chope frequentava célula do Partidão. No início, fui mais pela companhia dela do que pelas palavras marxistas/leninistas. Claro, tratava-se de uma versão que capturava sonhos. A União Soviética estava no auge com seus sputiniks e propaganda que chegava ao Ocidente. Quando entendi a teoria socialista, deixei as tarefas de pichar paredes e organizar greves, o chope e a garota e passei a frequentar um grupo mais filosófico. Liguei-me seriamente ao PC em 1961 e minha função, já dramaturgo, era popularizar as ideias socialistas. A cada reunião, íamos para um lugar desconhecido, onde os nomes eram todos trocados. Eu era Jordão.
Recebíamos companheiros do teatro há tempos com o PC, como o [Gianfrancesco] Guarnieri, que nos aconselhavam a abordar questões socialistas nas obras. Mas entendi que palavras de ordem minavam o trabalho artístico, e que as bases de reflexões estavam nas contradições da sociedade. Com o tempo, percebi que meu caminho era o humor como base de crítica.

P - O sr. fez viagem pelos países socialistas em 1968 e voltou empolgado com a liberdade que percebeu em Praga, mas decepcionado com a repressão e a corrupção em Berlim Oriental e Moscou. Ao narrar os problemas ao Partido Comunista no Brasil, foi acusado de "revisionista". Quando sua ligação com o PC balançou, veio o AI-5.
LCM - Sim, foi um momento de muito questionamento. No mesmo tour socialista, havia passado por Madri, que vivia sob a ditadura militar franquista, e sido preso por ter feito um discurso subversivo e brigado com um espanhol importante no governo. Fui solto com a ajuda de um amigo, após ler texto de desculpas ao militar. Na sequência, vieram as experiências que me levaram da alegria à frustração nos países socialistas. Estava confuso, mas me mantive no PC porque era a forma de resistir à ditadura.
Naquele ano foi importante a 1ª Feira Paulista de Opinião, do Teatro de Arena, com a pergunta: "Que pensa você do Brasil de hoje?", e seis autores: Plínio Marcos, Guarnieri, Augusto Boal, Jorge Andrade, Bráulio Pedroso e eu.
As peças foram duramente censuradas. Foi quando veio o AI-5, que estilhaçou o país. Reuniões estavam proibidas e cada vizinho, cada porteiro era visto como um dedo duro. Meu apartamento havia sido invadido em 1965 pela polícia, para procurar coisas, eu tinha escondido ou jogado fora livros "subversivos".
Depois do AI-5, ninguém do partido se comunicou comigo. Só os "cardeais" talvez ainda se reunissem. No Gigetto, recebíamos informações no início, mas foram diminuindo. Aqui e ali alguém contava sobre a prisão e até a morte de um amigo.

P - Lembra-se do anúncio do AI-5?
LCM - A notícia interrompeu o programa de música, na rádio Eldorado, acho, e o AI-5 foi divulgado sem críticas ou observações. Senti que havia a confirmação do que já esperávamos. Mais tarde, no Gigetto, com amigos, entendemos a gravidade.
A censura, que já estava pesada, tornou-se um obstáculo definitivo para o teatro político. Chegamos a brincar que faríamos peças de vaudeville [entretenimento popular] e que nem Martins Penna, grande autor de comédias do início da República, escaparia. Tentávamos a ironia para suportar o machado que nos cortaria a cabeça. Talvez tenhamos consumido mais cerveja do que nas noites anteriores. Fuga? Não, defesa.

P - O AI-5 trouxe quais consequências para a sua vida?
LCM - Muitos pensaram em abandonar o país. Tentei Praga, onde havia conhecido um paraíso socialista. Cheguei a visitar o consulado tcheco, mas fui desaconselhado por um alto funcionário: deixar o país significa nunca mais voltar. Ele disse: "Talvez sua luta seja aqui, fazer o que for possível para um dia o país voltar à liberdade". Claro que o funcionário viveu essa contradição quando a Tchecoslováquia foi dominada pela URSS.
Esquerda e direita muitas vezes se encontram no mesmo saco de farinha. Sem a possibilidade de fazer teatro político, decidi outra via, a TV. Precisava sustentar a família. A TV, na ditadura, apesar de impor férrea censura, manteve autores, diretores e atores.

P - Teve de se esconder?
LCM - Fiquei escondido no apartamento de meu sogro, ex-piloto de caça da Força Aérea Brasileira, que perdeu parte da audição em um bombardeio na Segunda Guerra. Nós nos respeitávamos. Quando eu deixava escapar uma frase mais agressiva contra os militares, ele sorria e dizia: "Estou, a cada dia que passa, mais surdo...".

P - Como avalia o AI-5?
LCM - Quando o AI-5 foi revogado [1979], já havíamos chorado bastante pelo desaparecimento de amigos. Vi no ano passado, no centro de São Paulo, jovens pregando intervenção militar. Fiz grande esforço para me manter calado. Talvez tenha errado, me senti sozinho. Temos que buscar caminhos que nos protejam de uma "influência" inconstitucional.
O teatro resistiu, como pôde, ao golpe e ainda é vanguarda no pensamento político. Assim como o cinema e muitas vezes, sutilmente, a TV, continuam conscientes da importância de cantar a liberdade democrática. Que essa liberdade continue gerando qualidade e valor.

LAURO CÉSAR MUNIZ, 80
Dramaturgo reconhecido nos palcos paulistas em 1968, era militante do Partido Comunista. Com o acirramento da censura, foi para a TV, onde criou novelas de sucesso para a Globo como "Roda de Fogo" (1985). Nos anos 2000, na nova teledramaturgia da Record, teve bom desempenho de audiência com "Cidadão Brasileiro" (2006) e "Poder Paralelo" (2009). Segue atualmente com projetos de roteiros para TV, cinema e teatro.

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Censura tornou-se um obstáculo definitivo para o teatro político, diz Lauro César Muniz

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O dramaturgo Lauro Cézar Muniz
O dramaturgo Lauro Cézar Muniz
Sexta, 14/12/2018 9:09.

LAURA MATTOS (FOLHAPRESS)

Autor que faria telenovelas de sucesso, como "Roda de Fogo" (1985) e "O Salvador da Pátria" (1989), Lauro César Muniz já era um dramaturgo conhecido do teatro paulista nos anos 1960, quando utilizava o codinome Jordão nas reuniões clandestinas do Partido Comunista.

Em 13 de dezembro de 1968, escutava música pelo rádio quando a programação foi interrompida para o anúncio do Ato Institucional número 5, que concedeu poderes quase ilimitados ao presidente.

Mais tarde, no Gigetto, tradicional restaurante de São Paulo, ele e outros militantes do teatro perceberam a gravidade de situação, beberam e tentaram "rir da tragédia", comentando que, a partir dali, nem comédias de puro entretenimento escapariam da censura.

Diante das notícias de prisão e de morte de amigos, Lauro sabia o perigo que corria. Chegou a ir ao consulado da Tchecolosváquia tentar um exílio, mas desistiu. Estava decepcionado com o socialismo soviético implantado no país. Escondeu-se no apartamento do sogro, ex-piloto da Força Aérea Brasileira que perdera parte da audição na Segunda Guerra e que, apoiador do golpe, respondia, sorrindo, às críticas do genro aos militares: "Estou cada dia mais surdo". Aos 80, o dramaturgo relembra a militância e como o endurecimento da censura após o AI-5 o levou à TV.

PERGUNTA - Como estava a sua vida em 1968?
LAURO CÉSAR MUNIZ - Tinha dois filhos, morava na rua Pamplona (São Paulo) e desfrutava de um sucesso teatral, "A Infidelidade ao Alcance de Todos". Em 1965, deixara a estável profissão de engenheiro para me dedicar ao teatro e ao cinema.

P - E o envolvimento com o Partido Comunista?
LCM - Começou quando era engenheiro à tarde e estudante de teatro à noite, na Escola de Arte Dramática. Uma companheira de chope frequentava célula do Partidão. No início, fui mais pela companhia dela do que pelas palavras marxistas/leninistas. Claro, tratava-se de uma versão que capturava sonhos. A União Soviética estava no auge com seus sputiniks e propaganda que chegava ao Ocidente. Quando entendi a teoria socialista, deixei as tarefas de pichar paredes e organizar greves, o chope e a garota e passei a frequentar um grupo mais filosófico. Liguei-me seriamente ao PC em 1961 e minha função, já dramaturgo, era popularizar as ideias socialistas. A cada reunião, íamos para um lugar desconhecido, onde os nomes eram todos trocados. Eu era Jordão.
Recebíamos companheiros do teatro há tempos com o PC, como o [Gianfrancesco] Guarnieri, que nos aconselhavam a abordar questões socialistas nas obras. Mas entendi que palavras de ordem minavam o trabalho artístico, e que as bases de reflexões estavam nas contradições da sociedade. Com o tempo, percebi que meu caminho era o humor como base de crítica.

P - O sr. fez viagem pelos países socialistas em 1968 e voltou empolgado com a liberdade que percebeu em Praga, mas decepcionado com a repressão e a corrupção em Berlim Oriental e Moscou. Ao narrar os problemas ao Partido Comunista no Brasil, foi acusado de "revisionista". Quando sua ligação com o PC balançou, veio o AI-5.
LCM - Sim, foi um momento de muito questionamento. No mesmo tour socialista, havia passado por Madri, que vivia sob a ditadura militar franquista, e sido preso por ter feito um discurso subversivo e brigado com um espanhol importante no governo. Fui solto com a ajuda de um amigo, após ler texto de desculpas ao militar. Na sequência, vieram as experiências que me levaram da alegria à frustração nos países socialistas. Estava confuso, mas me mantive no PC porque era a forma de resistir à ditadura.
Naquele ano foi importante a 1ª Feira Paulista de Opinião, do Teatro de Arena, com a pergunta: "Que pensa você do Brasil de hoje?", e seis autores: Plínio Marcos, Guarnieri, Augusto Boal, Jorge Andrade, Bráulio Pedroso e eu.
As peças foram duramente censuradas. Foi quando veio o AI-5, que estilhaçou o país. Reuniões estavam proibidas e cada vizinho, cada porteiro era visto como um dedo duro. Meu apartamento havia sido invadido em 1965 pela polícia, para procurar coisas, eu tinha escondido ou jogado fora livros "subversivos".
Depois do AI-5, ninguém do partido se comunicou comigo. Só os "cardeais" talvez ainda se reunissem. No Gigetto, recebíamos informações no início, mas foram diminuindo. Aqui e ali alguém contava sobre a prisão e até a morte de um amigo.

P - Lembra-se do anúncio do AI-5?
LCM - A notícia interrompeu o programa de música, na rádio Eldorado, acho, e o AI-5 foi divulgado sem críticas ou observações. Senti que havia a confirmação do que já esperávamos. Mais tarde, no Gigetto, com amigos, entendemos a gravidade.
A censura, que já estava pesada, tornou-se um obstáculo definitivo para o teatro político. Chegamos a brincar que faríamos peças de vaudeville [entretenimento popular] e que nem Martins Penna, grande autor de comédias do início da República, escaparia. Tentávamos a ironia para suportar o machado que nos cortaria a cabeça. Talvez tenhamos consumido mais cerveja do que nas noites anteriores. Fuga? Não, defesa.

P - O AI-5 trouxe quais consequências para a sua vida?
LCM - Muitos pensaram em abandonar o país. Tentei Praga, onde havia conhecido um paraíso socialista. Cheguei a visitar o consulado tcheco, mas fui desaconselhado por um alto funcionário: deixar o país significa nunca mais voltar. Ele disse: "Talvez sua luta seja aqui, fazer o que for possível para um dia o país voltar à liberdade". Claro que o funcionário viveu essa contradição quando a Tchecoslováquia foi dominada pela URSS.
Esquerda e direita muitas vezes se encontram no mesmo saco de farinha. Sem a possibilidade de fazer teatro político, decidi outra via, a TV. Precisava sustentar a família. A TV, na ditadura, apesar de impor férrea censura, manteve autores, diretores e atores.

P - Teve de se esconder?
LCM - Fiquei escondido no apartamento de meu sogro, ex-piloto de caça da Força Aérea Brasileira, que perdeu parte da audição em um bombardeio na Segunda Guerra. Nós nos respeitávamos. Quando eu deixava escapar uma frase mais agressiva contra os militares, ele sorria e dizia: "Estou, a cada dia que passa, mais surdo...".

P - Como avalia o AI-5?
LCM - Quando o AI-5 foi revogado [1979], já havíamos chorado bastante pelo desaparecimento de amigos. Vi no ano passado, no centro de São Paulo, jovens pregando intervenção militar. Fiz grande esforço para me manter calado. Talvez tenha errado, me senti sozinho. Temos que buscar caminhos que nos protejam de uma "influência" inconstitucional.
O teatro resistiu, como pôde, ao golpe e ainda é vanguarda no pensamento político. Assim como o cinema e muitas vezes, sutilmente, a TV, continuam conscientes da importância de cantar a liberdade democrática. Que essa liberdade continue gerando qualidade e valor.

LAURO CÉSAR MUNIZ, 80
Dramaturgo reconhecido nos palcos paulistas em 1968, era militante do Partido Comunista. Com o acirramento da censura, foi para a TV, onde criou novelas de sucesso para a Globo como "Roda de Fogo" (1985). Nos anos 2000, na nova teledramaturgia da Record, teve bom desempenho de audiência com "Cidadão Brasileiro" (2006) e "Poder Paralelo" (2009). Segue atualmente com projetos de roteiros para TV, cinema e teatro.

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