Antes da cidade, o mar: os 61 anos de Balneário Camboriú contados por quem chegou antes 

61 anos da cidade, mas (mais de) 100 anos da pesca

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Barra Norte terá um píer

O IMA liberou a Licença Ambiental de Instalação para um píer na Barra Norte, a ser construído pelo pessoal...

Dos verões à inovação: aos 62 anos, Balneário Camboriú se consolida como destino turístico para o ano inteiro

Cidade amplia oferta de experiências, fortalece turismo de eventos, recebe novos investimentos e projeta um futuro ainda mais diversificado

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O mar que embala Balneário Camboriú desde muito antes de sua emancipação carrega histórias que não cabem em livros, mas que resistem no olhar e nas mãos calejadas de quem sempre esteve aqui: os pescadores do Bairro da Barra. 

Falar dos 61 anos da cidade, celebrados neste domingo (20), é impossível sem lembrar daqueles que, muito antes da verticalização e do asfalto, já conheciam cada curva do rio, cada sinal do tempo e até o silêncio do mar.

Câmara homenageou centenário da Z7 (Divulgação/CVBC)

No último dia 7 de julho, uma Sessão Solene marcou os 100 anos da Colônia de Pescadores Z-7, símbolo vivo dessa ancestralidade. Na ocasião, o jornal Página 3 ouviu alguns desses personagens que ajudam a contar – com voz, memória e coração – a verdadeira história de Balneário Camboriú. Eles são os protagonistas desta reportagem especial de aniversário.

Mulheres dos líderes também foram homenageadas (Divulgação/CVBC)
Sessão solene homenageou pioneiros da pesca (Divulgação/CVBC)

Histórias da praia e de um bairro que mudaram

(Foto: Renata Rutes)

José Pinto Felipe, 77 anos

“De pesca, eu tive uns 30 anos, né? E depois eu vim pro ramo da peixaria, mas continuo trabalhando com o produto, com a pesca, diretamente, né? Indireto, mas sempre trabalhei com o setor da pesca. A minha peixaria vai para 48 anos agora no final do ano, segue ativa na Barra, graças a Deus. A homenagem que a gente recebeu na Câmara veio para trazer, para resgatar a pesca antiga, porque a gente sofreu muito na pesca, entendeu? A pesca hoje não é tão sofrida, mas antigamente a pesca era sofrida, a gente sofreu muito na pesca. E hoje está mais folgada. Hoje tem a safra da tainha, tem a safra do camarão. Hoje é tudo safra, bem dizer, né? 

As histórias se cruzam. Quando iniciou a colônia, era Camboriú, né? Depois aqui foi desmembrada, né? Ela voltou na ativa novamente, a colônia, que iniciou em 1925, só que em 42, 43, isso meu pai contava, por conta da Segunda Guerra Mundial ela (a colônia Z7) foi desativada. E até ali passou a escola, sabia? Eu estudei ali onde era a colônia antiga. Aí em 64 teve a ordem para reativar, onde ela iniciou novinha, mais ou menos, de 64 para cá, praticamente junto com o município de Balneário Camboriú, que passou a ser outra cidade independente de Camboriú, entendeu?

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Década de 1960, lance de tainha. Acervo de Antonio Jorge Borba

Lembrando de como era antes, ah, era outra cidade… Não, não tem como nem comparar, meu Deus, não existia. Eu ontem ainda comentei com um rapaz lá como nós vendíamos o produto que nós pescávamos antigamente. Nós vendíamos na praia, botávamos num balaio e saía vendendo de porta em porta. Na época não era turista, eram os alemão que vieram de Blumenau, de Rio do Sul, e nós para vender o camarão, nós contávamos… não tinha balança, então nós contávamos um por um assim para vender, um queria 300, vendia 200, 400, então nós contávamos assim para poder vender o camarão. E conseguia vender, e peixe também, enfiava no baú, no cambu, e tudo enfiado e saia pela praia fora vendendo. 

O rio Camboriú tinha tainha de caniço, a gente pegava bastante tainha de caniço, pegava tarrafa, pegava com rede. A rede não existia naquela época, mas era a tarrafa e o anzol. Era robalo, era bagre, tinha um peixe que nós chamava de carapeva, tinha o peixe escrivão, tudo isso era criado dentro do rio ali. Até a própria corvina dava uma maré, dava grande, dava água muito limpa, muito clara, que não se compara hoje. A nossa praia também. A gente via o fundo. Nossa praia era de extensão, era grande, porque a Avenida Atlântica, pelo que eu me lembro, ela foi praticamente feita ali em cima da praia. A praia era bem distante, dava uma, puxava a rede, então a distância de 30 metros, um atrás do outro. Era quatro homens ou três homens numa ponta. Pra tu ver como ela era grande, lá na beira d’água, passava uma hora e vinha puxando pra cima. Quando isso aqui soltava, o outro já tava pegando lá. Então, a praia era bem grande, tinha bastante extensão de praia. E também tinha roseta na areia, né? Meu Deus. Tinha que ter cuidado pra não machucar o pé.

Década de 1960 – Flagrante de pesca de cação mangona na Avenida Atlântica, em frente a Ilha das Cabras. Acervo de Antonio Jorge Borba. 

E tu sabia como era a praça do Pescador? Já era praça, sempre foi praça. Ali do lado da Casa Linhares, na época que eu me criei ali tu encontrava… bem, era um zoológico! Tinha cabra, tinha porco, tinha vaca, tinha tudo, peru, ganso… era uma coisa de louco! (risos). Criavam todos os animais, era da família do seu Lindolfo, da Dona Izolina. Eu chegava a entrar debaixo do assoalho da casa, tinha uma filha do seu Lindolfo, com o nome de Tide, e ela entrava com um cesto para coletar ovo de galinha, porque era muita galinha! e então botava o ovo lá debaixo do soalho, ela pedia, ‘vai, meu filho’, levava um balaio, vinha cheio de ovo que estava debaixo do soalho da casa. E tinha 70 casas, no máximo! Isso na Barra. Mas não era muito mais do que isso, porque o grande movimento era aqui. Na época eu tinha uns 10 anos de idade. Eu e minha mãe nos sentávamos e brincávamos de contar as casas, dava pra identificar a casa de fulano e dava pra contar do pé do morro de Laranjeiras, do morro velho, vinha cá na subida do morro do barranco, ali, onde passa aquele esgoto da Emasa, ali, debaixo da BR, até ali, depois voltava um pedacinho lá para o Nova Esperança, era 70 casas no máximo. E todo mundo se conhecia, desde a ponta de cá até a ponta de lá, todo mundo se conhecia. Hoje não se conhece mais. Os nativos são bem poucos, de agora já tem mais nativos, mas são os novatos que estão vindo e que já estão nascendo ali, né, mas os nativos antigos… já é o ‘filho de fulano’.”


Família histórica na pesca: avô de Santinho foi o primeiro presidente da colônia

(Foto: Renata Rutes)

Emanuel Santos Stuck, 70 anos

“O pescador mesmo era o meu avô, que bem pouco pescou também. Meu avô foi o primeiro presidente da colônia de pesca da Barra. Foi por 39 anos presidente da colônia de pesca. Quando eu tinha 10 anos eu comecei a pescar, depois dei uma parada, e agora eu voltei, em 89, e comecei a trabalhar com a pesca e tô até agora com a pesca. 

Acho que a noite de homenagem faz bem pra reconhecer os pescadores, que foi tudo lá na Barra que começou, tem que deixar o pessoal explicar, que a gente sempre viveu da pesca a Barra. 

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Lance de 15.000 tainhas. Acervo de Antonio Jorge Borba

Ah, tem muita diferença, né? Da cidade. Eu, quando era pequeno, eu vinha com meu avô pro centro, era mato, né? Hoje é uma cidade. Nós saía, nós vimos o Balneário crescer, né? E antes de sair de lá, eu me lembro da construção do hotel Miramar, do prédio do Maresol, esses tudo a gente se lembra das construções desses prédios. O primeiro prédio com estaca de ferro do Balneário Camboriú é o edifício Itamaraty. Tudo isso eu acompanhei. E agora vem aí o maior prédio do mundo. 

A colônia é mais velha do que a cidade. O cemitério é mais velho que a cidade e mais velho que a colônia! Eu acho que a nossa cidade é um privilégio pra nós que nascemos aqui, né? Pequena de tamanho e grande pra cima. Então, eu acho que é o que eu sempre digo – todos os prefeitos do Balneário foram bons. Sempre aparece, fizeram alguma coisa pro Balneário de Camboriú. Dou parabéns e que Balneário cresça cada vez mais, né? Continue crescendo!”.


Levi ajudou a reativar e fortalecer a presença da colônia na cidade

(Foto: Renata Rutes)

Levi Elias Vicente, mais conhecido como Levi da Pesca, 52 anos

“Eu comecei a pescar no Bairro da Barra. Eu tinha 8 anos. O primeiro homem com quem eu pesquei já faleceu, mas o primeiro homem com quem eu trabalhei, com 9 anos, ainda existe. É o João Percilio Jacinto. Esse é vivo ainda. Então, para mim, eu já tive esses anos todo pescando. Depois que eu assumi a colônia, em 2013, fiquei por 4 mandatos ali, 12 anos! E a gente lutou muito mesmo. Quando eu assumi, a colônia não tinha essa visibilidade que ela tem hoje. Então, para mim, foi um privilégio trabalhar firme, com responsabilidade. Lutei muito para hoje ela ser referência no Estado na organização e na estrutura. Hoje é o décimo quarto presidente. Eu fui o décimo terceiro. É uma honra ter feito parte dessa história do centenário da colônia de pescadores. 

Presidentes da Colônia Z7 ao longo dos anos. Quadros decoram a atual sede da associação. (Foto: Yasmim Primieri Kochhann)

A pesca é o seguinte – para mim, ela é tudo. Foi onde eu iniciei a minha profissão. Trabalhei até 2012 na pesca. Até 2012, fiz a minha vida na pesca, depois que eu assumi a colônia como presidente, aí eu não pesquei mais, entendeu? Mas hoje se eu for pro mar, é tranquilo, porque a minha vida toda foi no mar, aqui pelo litoral catarinense, litoral de São Paulo. A gente conhece todo esse litoral. Essa homenagem da Câmara eu digo que é mais do que merecida pela luta, pela persistência, que hoje a gente vê a dificuldade que temos a nível nacional, sobre licença para pesca, sobre muitos critérios que eles criaram, que dificultou o pescador e os filhos dos pescadores estão desistindo pela dificuldade que está tendo. 

Placa oficial de implementação da Colônia de Pescadores Z7. (Foto: Yasmim Primieri Kochhann)

A pesca não vai acabar, mas assim, os pescadores atuais eles sempre aproveitam as licenças que existem, eles não estão acrescentando as licenças. Por exemplo, se eu tenho uma licença, eu vendo a minha embarcação, e aquela embarcação usam a mesma licença, fazem a mesma metragem, não estão criando, só continuam. É por isso que eu digo que não vai acabar, eu creio que não vai acabar. Daqui uns 10 anos, pode dar uma caída, mas acabar não, porque sempre tem gente, os corajosos, que insistem em pescar. 

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Com certeza, a nossa cidade mudou e muda muito, o tempo todo. A pesca hoje, no bairro da Barra… foi onde tudo começou. Meu avô era de Laranjeiras, tinha canoa, de arrasto de praia, pegava tainha, meu pai também era pescador. E assim, nessa época, Balneário não era nada, não era nada. Hoje, o pescador faz parte do turismo de Balneário Camboriú. É por isso que eu lutei muito para que a colônia começasse a reviver e acender novamente e hoje ela é valorizada, ela é reconhecida através de um trabalho com responsabilidade que faz. E eu só tenho a agradecer por ter feito parte dessa classe, que é uma classe maravilhosa. Eu amo essa classe”.

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