Sinto que a velhice vem tomando minhas forças. Não sei por quanto tempo serei o guia do meu cachorro, ele já tenta me puxar por seus próprios caminhos. Meu carro já estaciona na vaga de idoso e as mulheres sorriem para mim, como se eu não representasse mais nenhum perigo.
No vão dos dias minhas mãos tremem de forma ainda quase imperceptível. Todo o meu corpo começa a se curvar diante do destino do tempo, que não poupa mesmo os mais fortes.
O tempo é o carrasco de todos os impérios.
Diante disso e por tudo que está por vir, enquanto ainda sou respeitado ou tenho forças para provocar medo, resolvi criar uma lei que será seguida por toda vizinhança. Por vizinhos, entendam todas as pessoas com quem me relaciono. Qualquer uma que me veja buzinar pelo retrovisor.
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de bem, religiosa em público, democrática quando concordam comigo e falaciosamente “armada”. Portanto, no grito, ainda bem capaz de fazer valer minhas leis sobre a vontade alheia.
A “Lei Casarinski”, como será conhecido meu bel-prazer, visa garantir que a minha vontade seja respeitada, por bem ou por mal (enquanto tenho forças) nas casas das outras pessoas.
Inicialmente, todo mundo será tarifado em 10%.
A minha vizinha de baixo, que anda me chamando de “tio”, terá uma sobretaxa adicional de 30%. Os chinesinhos inquietos do primeiro andar estão proibidos de brincar no salão de festas e seus pais serão tarifados em 150%. E o alemão, dono da padaria da esquina, que acha que é meu amigo, está terminantemente convidado a parar de vender pão de milho.
Espero de todos, a compreensão ou o medo que leva ao bom puxa saquismo, para que a Lei Casarinsky comece a valer de imediato.
Thanks you very much!
Em tempo: minha única dúvida é se pinto ou não meus cabelos esbranquiçados de laranja (e não estou perguntando a opinião de ninguém).
Claudemir Casarin é psicólogo e reside em Balneário Camboriú

