
O Dia Nacional do Idoso (1 de outubro) foi criado em 2006, para lembrar à sociedade que o envelhecimento é uma etapa da vida que exige mais atenção, cuidados, conscientização, respeito e valorização.
Sobretudo, para lembrar que é uma fase da vida em que a saúde fica mais fragilizada, que a auto estima precisa ser valorizada, que a inclusão social precisa ser estimulada e que os direitos precisam ser assegurados de todas as formas. Fazer o que gosta de fazer é o básico para viver melhor nesta fase da vida.
Em Balneário Camboriú vivem muitos idosos e a cidade se consolidou, tornou-se conhecida pela atenção e dedicação que oferece a este público, através da Secretaria da Pessoa Idosa (SPI) e de programas específicos acessíveis a todos.

Um exemplo recente é o lançamento do livro “O Fascinante Diário Secreto de Mima”, o segundo da baiana Miriam Leal, frequentadora assídua das oficinas da SPI, desde que veio morar na cidade, em 2017. Ela começou a escrever depois que participou da oficina “História da Minha Vida”, ministrada pela voluntária Alda Dudek, que incentiva as pessoas a escreverem sobre suas vidas, como forma de relaxamento emocional.
Em julho deste ano, a prefeitura incluiu o Baile Memória Viva, na programação festiva dos 61 anos de emancipação do município. Neste baile, a prefeita Juliana Pavan homenageou duas mulheres que fizeram e continuam fazendo história na cidade, porque fazem o que gostam de fazer: a cantora Eulina Ladewig Silveira, 95 anos e a artista Aracy Salomoni, 98 anos.
Além de Eulina e Aracy, a reportagem ouviu outros ‘maiores de 60’ que, mesmo aposentados, ocupam seu tempo, fazendo o que gostam de fazer, servindo de exemplo para tantos idosos que preferem se isolar nesta fase da vida.
Para todos, foram feitas três perguntas iguais:
- Qual a importância de fazer o que gosta?
- Há quanto tempo faz o que gosta?
- Além de fazer o que gosta, quais outras atividades realiza no seu dia-a-dia?
Acompanhe as respostas:
Carlos Alberto Schlup, 72 anos, engenheiro mecânico e de segurança aposentado, casado, natural de Rio do Sul, mora em Balneário Camboriú desde 1963.

“Fazer o que se gosta é o fundamento para promover a satisfação pessoal e como decorrência, temos o alívio das tensões diárias e a diminuição dos riscos de problemas de saúde. Como diz a ciência, quando a endorfina é liberada, esse analgésico natural promove uma sensação de bem-estar”.
“Não gosto de ficar parado, sou inquieto e diversifico as atividades no dia-a-dia. Faço reparos da casa, sou um meia colher entre a argamassa e a cerâmica, e o serrote está cortando bem. Busco de tudo um pouco na internet. Considerando uma atividade que tenho dispendido mais tempo e há um bom tempo, posso citar um comparativo hidrográfico que estou fazendo de BC, entre 1938 e atualmente. A base do levantamento é um mapa do município de Camboriú (1938), fotos aéreas de décadas subsequentes (1938, 1957 e 1978) que obtive na Secretaria de Desenvolvimento de SC, e o levantamento aerofotogramétrico de 1969, feito durante o governo Pio. Estou identificando lagoas e ribeirões que existiam e que sucumbiram sob o traçado de ruas, galerias e da construção civil. Este levantamento já consta de vinte e cinco itens, que estão sendo apresentados no Arquivo Histórico. Também participamos de um grupo de colaboradores do AH, quanto à adequação das informações contidas em fotografias antigas de BC.
Aracy Salomoni, 98 anos, gaúcha de Erechim, moradora de Balneário Camboriú há 70 anos, viúva, auto suficiente, foi Rainha da Terceira Idade, é artista, pinta quadros, distribui poemas com mensagens de carinho, participa da ‘Mateada’ na Secretaria da Pessoa Idosa.

“Sempre fiz e continuo fazendo as coisas que gosto. Desde os 14 anos pinto quadros, até quinta-feira minha exposição de quadros estava na Câmara Municipal. Continuo pintando até hoje. Uso chapéus porque não gosto de sol e uso eles conforme o vestido, então faço chapéu azul, verde, amarelo, vermelho, de qualquer cor, contanto que combine com a roupa que vou usar”.
“Também gosto de música, eu tocava violino, um irmão tocava bandoneon, outro pandeiro, uma família musical”.
“Sempre gostei de ajudar os outros. Consegui cadeiras de roda, já encaminhei cinco crianças órfãs para famílias, ajudo quem precisa até hoje. Vou na Secretaria do Idoso, abraço e beijo todos, porque acho que ali tem muitos que não recebem um abraço. Gosto de fazer tudo que é bom, só não gosto de gente que grita nem de gente que chora, porque nunca chorei até hoje na minha vida”.
Eulina Ladewig Silveira, 95 anos, catarinense de Gaspar, reside em Balneário Camboriú desde 1998, viúva, aposentada do Judiciário de SC (escrivã cível). Desde que chegou a Balneário, firmou carreira como cantora da Terceira Idade e seresteira. Aqui fundou o grupo Luzes do Atlântico, show que levou para várias partes do país. Em Balneário Camboriú apresentou seu show no Teatro Municipal. Há 15 anos, Eulina canta aos sábados na Feira da Praça da Cultura.

“A importância de fazer o que gosto é muito gratificante, canto porque é o que mais gosto de fazer desde meus 56 anos quando me aposentei. Na época, sempre cantando em serestas em casas. Depois decidimos morar em Balneário Camboriú e aqui iniciei minhas apresentações de canto e serestas em eventos públicos, no Teatro Municipal e em várias cidades brasileiras”.
“Faz 15 anos que canto na praça da Cultura dessa cidade, todos os sábados das 10 às 12 horas, para um público de pessoas 60+ que se diverte muito. Eles ficam muito felizes ainda dançam e muitas pessoas dizem que eu sou a “médica dos idosos”, pois naqueles momentos eles estão super alegres, não sentem tristeza nem dores, o que me deixa muito feliz e realizada também. Tudo isso faço por amor à arte.
Também sou membro do Apostolado da Oração do Sagrado Coração de Jesus, desde que cheguei em Balneário Camboriú”.
Erotides da Silva Campos, 73 anos, nascida em Camboriú, reside em Balneário Camboriú há 49 anos, casada, é professora aposentada da educação municipal de Balneário Camboriú.

“Desde menina aprendi e sempre gostei de fazer crochê e tricô e até hoje com mais intensidade realizando trabalhos para mim, a família, amigos e crianças necessitadas. Sempre procuro me envolver em atividades que sejam benéficas dentro de minhas limitações em ser útil na vida das pessoas, entidades e na minha família e assim minha mente está sempre exercitando a lucidez”.
“Participo há algum tempo do ‘Café com Histórias de BC’, promovido pela Fundação Cultural, um importante resgate da história desse Município. Também faço parte como Sociedade Civil Organizada da Comissao Própria de Avaliação (CPA) da Univali/Itajai e de mais duas comissões da Univali”.
“No Sítio Granja Campos, que possuímos há 41 anos, me realizo em alguns afazeres pertinentes. E a pedido de clientes faço mussi de bananas sem açúcar, receita que aprendi com minha mãe maravilhosa”.
Sérgio Sales Graeff, 64, gaúcho de Carazinho, mora há mais de 30 anos em Balneário Camboriú. É divorciado, corretor de imóveis e artista plástico. Atualmente é o Rei 60+, concurso realizado pela Secretaria da Pessoa Idosa.

“Há décadas faço o que gosto e nos últimos anos me dedico às artes plásticas, onde me identifiquei muito com esse mundo de cores, texturas, que me permite criar e viajar neste universo tão diversificado onde relaxo, me realizo e estou montando um curso com aulas online que irá proporcionar eu transmitir meu conhecimento e alcançar milhares de pessoas”.
“Realizo também atividades na área da corretagem onde interajo com um público bem diversificado em busca de realizar sonhos de morar na praia, é algo que me proporciona muita satisfação por fazer parte e ser instrumento para alcançar esse objetivo na vida das pessoas”.
“Faço trabalho voluntário na Secretaria da Pessoa Idosa na oficina de Cantoterapia, e atualmente sou o Rei 60+ de Balneário Camboriú, que me permite interagir com muitas pessoas, divulgar e convidar a usufruírem das mais de 50 oficinas que a SPI disponibiliza aos idosos. No segundo sábado de cada mês promovo um encontro com amigos regado a queijos e vinhos, feijoada, galinhada, sempre com cardápios variados, para comemorar o mês aniversário, e a vida que merece ser festejada sempre. O próximo será dia 10 de outubro. Estou engajado com a fotógrafa Carina Boguetti, na quarta edição do projeto ‘Mulheres Contemporâneas’, o qual reunirá 25 mulheres com projeção em Santa Catarina, as quais serão fotografadas e será montado um quadro surrealista que fará parte de uma vernissage, no dia 8 de maio de 2026, onde estarão presentes um grupo restrito de até 250 personalidades importantes do Estado de Santa Catarina”.
Lenita Novaes, 86 anos, paranaense de Ribeirão Claro, reside em Balneário Camboriú, desde 1977. É psicóloga, desde 1992 coordena o Grupo Terapêutico de Psicodrama 60+; há 30 anos faz atendimentos individuais na Clínica Sentir e desde 1992 é atriz.

“Em 1992 o teatro também entrou na minha vida, e nunca mais saiu. Até hoje sigo no palco, seja como atriz, seja como figurinista. Atualmente dirijo o grupo teatral 60+, que me enche de orgulho e alegria”.
“Além disso, sigo envolvida em trabalhos sociais, como a reciclagem com papelão, que me conecta ao cuidado com o mundo”.
“Hoje, aos 86 anos, celebro o tempo que recebo como um presente: convivo com netos e bisnetos, com amigos, assisto a bons filmes e escrevo um livro sobre minha experiência de vida, porque ainda gosto — e muito! — de viver cada dia intensamente. Sempre fui democrática, amo meu namorado e acredito que o amor é fundamental. É ele que dá sentido a tudo o que vivi e continuo vivendo.
Rosana Jussara de Oliveira, 66 anos, natural de Curitiba, mora em Balneário Camboriú desde 2007, casada, aposentada, integrante do grupo de dança Balanço das Ondas

“A importância de fazer o que gosto é poder me renovar todos os dias”.
“Tudo que faço, faço com amor, por nenhuma obrigação, então é a vida toda que faço o que mais gosto de fazer”.
“Minhas atividades diárias além da dança são caminhadas, cuido da minha casa, cuido da minha mãe com as obrigações da casa dela também, adoro cozinhar, e no tempo livre, leituras”
Depoimento de superação e para nunca deixar de fazer o que a gente gosta
“Posso dizer que minha história se modificou, quando conheci o Programa Maturidade Saudável, nunca tinha praticado exercícios físicos, entrei no programa através da professora Marialba, a qual sou amiga até hoje, aprendi a importância dessa atividade e um tempo depois soube do grupo de dança da professora Fátima Folchini.

Aí meu mundo mudou, ela me convidou para fazer parte do Grupo de dança Balanço das Ondas, que faz coreografias para representar Balneário em festivais estaduais e interestaduais e as emoções que nunca pensei em ter, foram de suma importância em minha vida, quando se entra no palco a magia acontece, você volta a ter 20 anos de idade, não tem problemas de saúde…
Mas a vida nos prega umas surpresas, em 2022 descobri um câncer que se chama Linfoma não Hodgins, confesso que nunca tinha ouvido falar, lembro que quando consultei com a oncologista do Cepon, ela me perguntou o que eu fazia, disse com todo orgulho do mundo que participava desse grupo, o quanto amava dançar, disse a ela que naquele ano íamos dançar no Festival de Dança de Joinville, seria a primeira vez que ia ter nossa categoria 60+.
Ela me disse que infelizmente eu não ia conseguir dançar que a quimio vermelha debilita muito o corpo, olhei nos olhos dela e disse que “eu vou conseguir sim, dançar em Joinville é um sonho pra qualquer bailarino, assim como um jogador de futebol sonha em jogar numa copa do mundo.
Comecei a fazer, perdi toda massa muscular, fiquei careca, cheguei a pesar 39 quilos, mas não faltei em nenhuma aula de dança, e dancei feliz em Joinville, neste mesmo ano no Festival de Piratuba. Na semana de viajarmos tive uma caída bem forte, fiquei internada no hospital do Cepon e vendo que estava chegando o dia de ir para o festival e os médicos não me davam alta, na sexta feira me liberaram, no domingo fui para o festival, eu só conseguia sair da cama para ir na marcação de palco e na hora das apresentações, mas quando eu subia no palco estava com toda a energia do mundo, estava muito feliz.
A oncologista me disse que se todo paciente recebesse a quimio com o sorriso que eu dava, e com a força que eu tinha, o trabalho dela seria bem mais fácil, e hoje a música do Roberto Carlos “Força estranha” faz muito sentido pra mim, mas esta força eu tirei na emoção da dança, no amor da família e no aplauso dos amigos!”

