Delcy recebe aval militar para liderar Venezuela, e Trump faz ameaças

Para Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, empresa de pesquisa em segurança com sede em Washington, o ataque de Trump deixou claro que o objetivo principal é a busca por petróleo. Porém, isso é tarefa difícil.

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(FOLHAPRESS) – No dia seguinte ao ataque em larga escala dos Estados Unidos contra a Venezuela que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro, os centros de poder em Caracas se reorganizaram ao redor da vice, Delcy Rodríguez , que obteve neste domingo (4) o crucial respaldo das Forças Armadas.

O poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino, falou em violação de soberania do país e disse que os militares “rechaçam contundentemente o covarde sequestro” de Maduro.

Ainda na noite de sábado (3), a Câmara Constitucional do Supremo Tribunal da Venezuela havia ordenado que Delcy assumisse o comando interino.

Enquanto isso, em uma mostra do cenário incerto em que se encontra a Venezuela, Edmundo González, o opositor reconhecido por vários países como o vencedor das eleições de 2024 e hoje em autoexílio na Espanha, declarou ser agora o presidente do país, pedindo apoio dos militares.

Em reação aos sinais enviados por Caracas, o governo Donald Trump demonstrou ter aceitado, por ora, a permanência de Delcy no Palácio de Miraflores. O secretário de Estado americano e principal voz a favor de uma intervenção, Marco Rubio, se disse aberto a negociar com a vice de Maduro e outros líderes chavistas desde que tomem “boas decisões”. Trump, por sua vez, foi mais duro e ameaçou Delcy.

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“Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”, disse o republicano no domingo à revista The Atlantic. “Reconstruir o país e mudar o regime, como quiser chamar, é bem melhor do que acontece agora, porque [a situação na Venezuela] não tem como piorar.”

No sábado, Trump havia dito que os EUA governariam a Venezuela com o objetivo de abrir o setor petrolífero à exploração de empresas americanas -uma proposta ainda sem detalhes. O republicano não descartou ainda invasão e ocupação militar do país sul-americano.

No domingo, em entrevista à CBS News, Rubio se esquivou de perguntas sobre como seria o controle americano da Venezuela, dizendo apenas que os EUA usarão o bloqueio das exportações de petróleo para pressionar Caracas a promover mudanças políticas. Ao mesmo tempo, afirmou que nada está descartado.

Para Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, empresa de pesquisa em segurança com sede em Washington, o ataque de Trump deixou claro que o objetivo principal é a busca por petróleo. Porém, isso é tarefa difícil.

“Seriam necessários bilhões de dólares e pelo menos uma década para tornar as instalações petrolíferas da Venezuela operacionais novamente”, diz ele. “O petróleo venezuelano é difícil de processar, e não há escassez [da commodity] no mercado global.”

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A permanência de Delcy no poder, se confirmada, também levanta questões sobre como foi possível a operação militar transcorrer no coração da capital sem haver grande resistência -segundo os EUA, nenhum militar americano foi morto, e Caracas fala em “assassinato a sangue-frio” da equipe de segurança de Maduro. Segundo informações de uma autoridade venezuelana ao New York Times, ao menos 80 pessoas teriam morrido.

“O fato de a operação ter sido tão bem-sucedida para o lado americano traz um clima conspiratório aos acontecimentos”, diz Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp e especialista em Venezuela.

Para ela, há indícios de colaboração interna que viabilizou a captura de Maduro. “Uma hipótese plausível é a de que Delcy estivesse negociando em paralelo uma transição com os EUA.”

De qualquer forma, apesar das declarações de González, parece improvável que haja a mudança política almejada pela oposição venezuelana, ora escanteada por Trump -o republicano disse que María Corina Machado, Nobel da Paz e principal líder antichavista da Venezuela, não tem o apoio ou o respeito do povo para governar.

“Se o objetivo fosse uma transição democrática, eles teriam reconhecido González e María Corina como líderes legítimos e tentado trazê-los de volta”, diz Douglas Farah. “Mas desqualificá-la no momento em que anunciam a operação destrói qualquer possibilidade de restaurar um governo democraticamente eleito.”

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Pedroso afirma que, para ficar no poder, Delcy terá de acomodar o legado político do chavismo com uma nova realidade de interferência dos EUA.

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