O futuro do turismo de Balneário Camboriú está em debate. A construção do Plano Municipal de Turismo segue em andamento, reunindo representantes do poder público, entidades, empresários e profissionais do setor para discutir estratégias, prioridades e caminhos para o desenvolvimento da atividade nos próximos anos.
Mais do que um documento técnico, o plano servirá como um norte para as políticas públicas e ações voltadas ao turismo, um dos principais motores da economia local.
Entre os temas que costumam integrar esse tipo de planejamento estão infraestrutura, mobilidade, qualificação profissional, promoção do destino, sustentabilidade, inovação e a diversificação da oferta turística.
Diante da importância da iniciativa para o futuro da cidade, o Página 3 ouviu diferentes profissionais e lideranças ligadas ao turismo de Balneário Camboriú para saber: o que não pode faltar no Plano Municipal de Turismo? Qual seria a sua contribuição para ajudar a construir uma cidade ainda mais preparada para receber visitantes e fortalecer o setor?
Confira as respostas.

Juliana Pavan, prefeita de Balneário Camboriú – “Segurança. Acredito que segurança é um dos principais fatores que movimentam o nosso turismo, tanto que recentemente nós tivemos uma pesquisa, em que 98% dos turistas destacam a segurança pública como fator positivo em Balneário Camboriú. Então eu tenho certeza absoluta que o que não pode faltar nesse Plano Municipal de Turismo é a atenção voltada para a segurança pública que já está sendo trabalhada de forma positiva pelo nosso governo”.

Geninho Goes, CEO da BNT Mercosul – “Como profissional de turismo, vejo a atividade como algo dinâmico e que precisa de ações concretas. Um plano pode ser lindo no papel, mas precisa ter no anexo um cronograma com ações práticas, onde tenha a data de conclusão, qual a atividade e o responsável. Eu sempre fui de colocar planos em ação. Então eu mudaria o nome para PLANO DE AÇÕES para o turismo. Menos teoria e mais prática! Envolvendo poder público, entidades , iniciativa privada… porque turismo é feito por todos”.

Margot Rosenbrock Libório, hoteleira e vice-presidente de Promoção de Destino do BC Convention & Visitors Bureau – “Eu acredito que na hora de planejar é necessário planejar ações que nos encaminhem para 100% de balneabilidade em todas as praias da cidade. Não existe turismo de qualidade sem ter 100% de balneabilidade. Acredito que muitas questões são importantes para o futuro da cidade, mas todas elas irão passar por essa questão. Atitudes que, se nós não fizermos, vamos prejudicá-la, ou outras atitudes que, se forem tomadas, nos levarão à perda ainda maior da balneabilidade. Eu acho que tudo passa olhando a cidade como um destino turístico – para ser um destino turístico de qualidade, para aumentar o ticket médio, para ter turismo, sim, durante o ano todo, as nossas águas 100% limpas são essenciais”.

Thiago Velasques, gerente comercial do Grupo Oceanic – “O que Balneário Camboriú quer ser nos próximos 10 anos?” Essa talvez seja a principal pergunta que precisa nortear o novo Plano Municipal de Turismo. Como alguém que ocupou a cadeira de secretário de turismo e hoje atua diretamente na gestão comercial em São Paulo, um dos maiores centros de negócios, eventos e conexões da América Latina, consigo perceber de forma muito clara que o turismo mudou. O visitante mudou. O mercado mudou. E os destinos que irão crescer nos próximos anos serão aqueles que entenderem isso antes dos demais. Balneário Camboriú não compete mais apenas como destino de praia. A cidade passou a disputar espaço no cenário nacional como um destino de experiências, entretenimento, esportes, eventos, gastronomia, inovação e qualidade de vida. O turista de hoje busca viver algo memorável. Busca destinos ativos o ano inteiro, com agenda, movimento, segurança, experiências compartilháveis e conexão emocional. E Balneário Camboriú já começou essa transformação. Nos últimos anos, vimos o fortalecimento dos eventos, do turismo esportivo, das ativações de marca, da integração com a iniciativa privada, da valorização da experiência turística e da capacidade da cidade em atrair investimentos, mídia e grandes oportunidades. Mas o novo plano precisa ir além do presente. Ele precisa projetar o futuro. Precisamos pensar em uma Balneário Camboriú que: seja referência nacional em turismo de experiência; consolide-se como destino premium e internacional; fortaleça sua vocação para eventos e esportes; avance como cidade inteligente e conectada; mantenha o turismo ativo nos 12 meses do ano; e transforme o turismo em um dos principais motores econômicos da cidade. Mais do que promover o destino, o turismo hoje movimenta comércio, serviços, hotelaria, gastronomia, construção civil, entretenimento e desenvolvimento urbano. Ele gera emprego, atrai investimentos e fortalece a identidade da cidade. O novo Plano Municipal de Turismo precisa nascer moderno, conectado com as tendências globais e, principalmente, alinhado com a realidade de quem vive o turismo diariamente, tanto na gestão pública quanto no mercado. Balneário Camboriú já deixou de ser apenas uma cidade turística. Agora, precisa decidir qual protagonismo quer assumir no Brasil nos próximos 10 anos”.

Domingos Casemiro Pinheiro, mais conhecido como Gunga, é o sócio-diretor do Barco Pirata – “No meu entendimento precisa-se fazer 100% do esgoto tratado em todas as praias de Balneário Camboriú”.

Mano Neves, gerente comercial do Cristo Luz – “Eu acho que o principal é o diálogo. Acima de qualquer definição que você for ter em cima de um plano que envolve tantos serviços, um segmento na cidade de uma economia tão pulsante como é o turismo em Balneário, eu acho que o principal seria ouvir todos os envolvidos e dialogar. Eu acho que quando você tem uma comunicação, você consegue fazer uma estratégia e ter um bom planejamento”.

Osny Maciel Junior, gerente do Hotel Sibara – “Minha principal preocupação é a qualificação dos profissionais que trabalham no turismo. A Univali está lançando novos cursos, mas ainda enfrentamos dificuldades para encontrar mão de obra capacitada. Ao mesmo tempo, não adianta falar apenas em qualificação sem discutir questões estruturais que impactam diretamente quem trabalha no setor. Precisamos pensar em moradia acessível, transporte público eficiente e horários que atendam à realidade do turismo. Em um hotel, por exemplo, há equipes que começam a trabalhar às 4h da manhã para preparar o café da manhã dos hóspedes. Para que essa engrenagem funcione, é necessário oferecer condições para que as pessoas possam morar na cidade, se deslocar e se qualificar. Também acredito que a mobilidade precisa ser debatida dentro do Plano Municipal de Turismo. Uma das ideias que apresentei foi a criação de uma linha turística gratuita ligando a Barra Norte à Barra Sul e vice-versa, com um ônibus temático e atrativo para os visitantes. Enquanto isso, o transporte convencional poderia ganhar mais horários e mais opções para atender melhor os moradores. Estamos iniciando as discussões do novo plano e esse é o momento de avaliar o que foi alcançado no planejamento anterior e definir os próximos passos para os próximos anos. Há muitos temas importantes para serem debatidos, mas, para mim, a qualificação profissional e as condições para que esses trabalhadores permaneçam na cidade são prioridades”.

Humberto Giovanni Capelim, gerente de produtos Brasil na Cativa Operadora – “Balneário Camboriú é um destino turístico completo, com uma oferta diversificada de atrativos, infraestrutura e serviços capazes de atender diferentes perfis de visitantes. Dentro da operadora, inclusive, uma das minhas defesas é ampliar o tempo de permanência dos turistas na cidade, incentivando que eles aproveitem mais experiências e permaneçam mais dias no destino. Pensando no Plano Municipal de Turismo, acredito que um dos pontos que merece atenção é a conectividade aérea. O fortalecimento da malha aérea regional é fundamental para ampliar o acesso de visitantes e aumentar a competitividade de Balneário Camboriú no cenário nacional. Investimentos das companhias aéreas e a ampliação da oferta de voos nos aeroportos da região podem contribuir significativamente para o crescimento do turismo local”.

Andrezza Negrini, hoteleira e vice-presidente de Gestão de Finanças do BC Convention – “Acredito que o Plano Municipal de Turismo deve ter como pilares a sustentabilidade, a inclusão social e a educação. O turismo sustentável não é apenas uma tendência, mas uma necessidade para garantir o desenvolvimento do destino a longo prazo. Além disso, é um diferencial que fortalece a imagem da cidade e contribui para sua promoção. Também é importante compreender que Balneário Camboriú só será um destino cada vez melhor para os turistas se continuar sendo uma boa cidade para os moradores. Muitas pessoas escolheram viver aqui justamente por tudo o que o turismo proporcionou ao município ao longo dos anos, mas nem sempre percebem a importância da atividade para a economia, para a geração de empregos e para a qualidade de vida local. Por isso, acredito que é fundamental investir em ações de conscientização e educação turística desde a base, nas escolas, aproximando as novas gerações dessa realidade e mostrando como o turismo faz parte da identidade da cidade. Quando moradores compreendem e valorizam essa vocação, tornam-se também agentes de acolhimento e desenvolvimento do destino. Sustentabilidade, inclusão social e educação são temas que precisam estar presentes em qualquer discussão sobre o futuro do turismo de Balneário Camboriú.
Uma contribuição importante para o Plano Municipal de Turismo é refletir sobre os critérios de escolha das pessoas que ocupam cargos estratégicos na área. Acredito que os profissionais indicados para representar o turismo no poder público deveriam passar por uma avaliação técnica, construída com a participação do próprio setor, para garantir que tenham conhecimento, experiência e visão compatíveis com a importância que o turismo possui para Balneário Camboriú. O turismo é uma das principais atividades econômicas da cidade e exige gestores preparados para compreender sua complexidade, seus desafios e seu potencial de desenvolvimento. Por isso, considero fundamental que as nomeações para funções ligadas ao setor levem em conta não apenas aspectos administrativos, mas também a capacidade técnica e o entendimento das demandas do turismo contemporâneo. Não se trata de uma crítica pessoal a qualquer gestor específico, mas de uma reflexão sobre a necessidade de fortalecer a governança turística e assegurar que os profissionais responsáveis pela condução das políticas públicas da área estejam alinhados com os desafios e oportunidades que Balneário Camboriú terá pela frente”.

Marcos Arnhold Junior, coordenador do curso de Gastronomia da Univali – “Por ser um documento que vai orientar as ações do setor nos próximos anos, acredito que o Plano Municipal de Turismo precisa contemplar tanto os aspectos em que Balneário Camboriú já se destaca quanto os desafios que ainda precisam ser enfrentados. Não podemos olhar apenas para novas atrações ou para a promoção do destino. Precisamos garantir que a cidade continue oferecendo qualidade de vida para moradores e visitantes. Por isso, temas como segurança pública, saneamento básico, educação e mobilidade urbana precisam estar presentes no plano. São questões que impactam diretamente a experiência de quem vive e de quem visita a cidade. Mais do que problemas, são desafios permanentes que precisam ser acompanhados e solucionados para que não se tornem obstáculos ao crescimento do turismo. Ao mesmo tempo, é fundamental que o plano estabeleça ações voltadas para a melhoria contínua da qualidade dos serviços oferecidos. Isso passa pela qualificação profissional, por treinamentos constantes e pela preparação das pessoas que atuam diretamente no atendimento ao turista. Precisamos investir na formação desses profissionais, inclusive no domínio de outros idiomas, para que estejam preparados para receber visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo.
Também acredito que devemos olhar para a construção de carreiras dentro do turismo. É importante que as pessoas enxerguem oportunidades de crescimento profissional em Balneário Camboriú, seja na hotelaria, na gastronomia, nos atrativos turísticos ou em outros segmentos ligados ao setor. O profissional precisa perceber que pode entrar na atividade em uma função operacional e, com qualificação e experiência, alcançar cargos de liderança e gestão.
Outro tema que merece atenção é a qualidade de vida dos trabalhadores do turismo. Hoje, muitas empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas, e isso não acontece apenas por falta de mão de obra.
É preciso discutir questões como moradia, mobilidade e condições de trabalho. Muitos profissionais acabam morando em cidades vizinhas por conta do custo da habitação e enfrentam deslocamentos longos diariamente. Além disso, o turismo possui características próprias, com jornadas que envolvem madrugadas, noites, fins de semana e feriados.
Precisamos pensar em soluções que tornem a atividade mais atrativa para quem trabalha nela. Isso inclui discutir políticas de valorização profissional, oportunidades de crescimento, qualificação e condições que permitam conciliar trabalho e qualidade de vida. No fim das contas, a hospitalidade que oferecemos aos visitantes depende diretamente das pessoas que atuam no setor. Se queremos continuar sendo um dos principais destinos turísticos do Brasil, precisamos cuidar também daqueles que fazem o turismo acontecer todos os dias. Por isso, acredito que o Plano Municipal de Turismo deve ter uma visão ampla, olhando para infraestrutura, qualificação, desenvolvimento econômico e, principalmente, para as pessoas que constroem a experiência turística de Balneário Camboriú”.

