(FOLHAPRESS) – No final dos anos 1970, Leonel Brizola, então um dos mais bem vigiados exilados brasileiros, deu um nó na cabeça dos arapongas do Serviço Nacional de Informações da ditadura militar.
De maneira repentina, Brizola se viu expulso do Uruguai, onde vivia como asilado político desde o golpe de 1964. No dia 15 de setembro de 1977, o político brasileiro foi informado de que deveria deixar o país até o pôr do sol do dia 20. “E se chover?”, perguntou, gaiato, ao funcionário uruguaio que lhe apresentou o ultimato.
Com o fim do prazo, o político brasileiro deixou a América do Sul em um voo da Aerolíneas Argentinas. Não tinha como destino Cuba, com cujo governo havia tramado a resistência armada ao golpe militar no Brasil, anos antes, ou algum país governado pela social-democracia europeia, que em breve lhe estenderia tapete vermelho.
Ia de mala e cuia de chimarrão para os Estados Unidos, antes inimigos figadais, agora presididos pelo democrata Jimmy Carter, adversário das ditaduras do Cone Sul.
Em uma comunicação interna, o SNI se perguntaria, pouco tempo depois, se a própria expulsão do Uruguai não faria parte de uma jogada combinada entre Brizola e os americanos, “um sutil plano, elaborado com a finalidade de desgastar e comprometer o governo brasileiro perante a opinião pública interna e externa”.
A perplexidade do serviço secreto, nesse episódio, é uma das muitas descobertas feitas pela notável pesquisa da jornalista Karla Monteiro na preparação da biografia do líder trabalhista, “Brizola: Lobisomem contra o império”. O primeiro dos dois volumes da empreitada chega às livrarias na semana que vem.
Narrada perto do fim do livro, a peripécia ilumina uma característica central do personagem: Brizola sempre foi enigmático, até para quem vigiava cada passo seu.
Ao jogar luz sobre essa característica, sem tentar dissolvê-la, Monteiro torna a história que nos conta ainda mais interessante. O que fará em seguida o protagonista ardiloso e multifacetado, cheio de idas e vindas, sem Ítaca para onde voltar?
De um ponto de vista mais amplo, a complexidade de Brizola ajuda a tornar também a história do Brasil no século 20 ou pelo menos alguns dos seus episódios mais palpitantes, aqueles que contaram com o protagonismo do líder gaúcho mais rica e complexa, menos povoada por simples mocinhos e bandidos, à esquerda ou à direita.
O fumo de mistério que sempre acompanhou a figura de Brizola era em parte deliberado, disse Monteiro à Folha. “Ele era extremamente desconfiado, não falava de todos os assuntos com todas as pessoas”, a ponto de compartimentalizar as conversas, explicou a jornalista. “Isso é da personalidade dele.”
Mas também contribuiu um estilo camaleônico que surgia das mudanças constantes dos ventos da história, bem como do oportunismo e da capacidade de adaptação intuitiva do líder gaúcho. Houve vários Brizolas na vida pública brasileira.
No livro, é possível acompanhar a formação e as transformações do líder político reformista, populista, golpista, revolucionário, defensor da anistia ampla, geral e irrestrita, interlocutor da centro-esquerda democrática europeia, social-democrata.
Ainda bebê, Brizola perdeu o pai, morte que causou o empobrecimento de uma família até então remediada. O menino andava descalço, teve que trabalhar desde cedo e enfrentou dificuldades para se manter nos bancos escolares. Com persistência, acabou por se formar em engenharia, quase aos 30 anos.
Por afinidade social, Brizola se viu seduzido na juventude pelo trabalhismo varguista. Um dos intelectuais gaúchos do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o advogado Alberto Pasqualini foi decisivo na formação dos princípios ideológicos do jovem militante.
Em meados da década de 1940, Pasqualini era simultaneamente crítico das desigualdades do capitalismo e das arbitrariedades do comunismo. Dizia que cabia ao Estado proteger os humildes, “porque ninguém é pobre ou rico por sua exclusiva culpa ou iniciativa”.
Mas alertava que, no comunismo, juiz e patrão se fundiam na mesma figura. Nos regimes aliados à União Soviética, “a tendência é de se formarem duas classes: uma, dos que mandam e estão de cima, e a outra dos que obedecem e estão de baixo”, ele dizia.
Os valores democráticos e de justiça social aprendidos com Pasqualini não impediram que, nas eleições locais e estaduais da década de 1950, Brizola repetidamente se aliasse ao PRP (Partido de Representação Popular), agremiação dos antigos integralistas, liderada por Plínio Salgado que Monteiro apresenta ao leitor, sem meias palavras, como “fascista até o último fio de cabelo”.
A autora acrescenta que, nessa época, Brizola “fazia qualquer negócio” para conquistar parte do eleitorado conservador.
O rompimento com esse setor social e eleitoral aconteceu depois que o líder trabalhista assumiu o governo do Rio Grande do Sul, em 1959, o ano da Revolução Cubana. Um dos pontos altos do livro é alcançado nesse período, quando Leonel Brizola está no Palácio Piratini: a defesa que ele faz da ordem constitucional e da posse de João Goulart como presidente da República, logo depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961.
Do palácio do governo em Porto Alegre, com metralhadora no ombro e uma saraivada de discursos diários transmitidos para todo o país por uma cadeia de rádios, conhecida como a Cadeia da Legalidade, Brizola comandou a resistência à tentativa de golpe militar contra Jango.
Nos anos seguintes, Brizola se radicalizaria, buscando reformas sociais, como a redistribuição de terras, se necessário às custas da ordem democrática. Uma parte relevante do Exército, especialmente nas baixas patentes, parecia disposta a acompanhá-lo em um movimento de ruptura. Do outro lado das trincheiras estava a direita golpista, liderada por Carlos Lacerda, que também fazia uso instrumental da democracia e seus planos de golpe militar precediam o protagonismo nacional de Brizola.
Durante o governo de João Goulart, segundo a ótima síntese da cientista política Argelina Figueiredo, “os grupos esquerdistas e pró-reformas buscavam essas reformas ainda que ao custo da democracia”. A direita, por outro lado, “sempre esteve pronta a quebrar as regras democráticas, recorrendo a essas regras apenas quando lhes eram úteis para defender interesses entrincheirados”.
Entre as descobertas de Karla Monteiro está o fato de que Brizola chegou a negociar com o então embaixador de Cuba no Brasil a possibilidade de apoio cubano para resistir ao golpe. Fidel Castro prometeu dinheiro para Brizola, segundo Monteiro, e Che Guevara mandou recado de que estava disposto a participar da guerrilha no Brasil, se fosse necessário.
Segundo Monteiro, o embaixador só voltou de Cuba às vésperas do golpe, quando Brizola estava no Rio Grande do Sul, e os militares derrubaram Jango antes que os cubanos e o líder gaúcho pudessem voltar a se falar. Já no exílio, a ligação entre o brasileiro e os cubanos seria refeita, com ajuda da ilha no treinamento e financiamento da guerrilha, rapidamente frustrada, que Brizola chegou a comandar, do Uruguai.
O Brizola revolucionário dessa época tem sido recuperado por parcelas da juventude atual, em um momento de crise da democracia liberal, diz Monteiro. “A garotada está usando” a imagem de Brizola “como se fosse um Che Guevara”, observou a jornalista.
O próprio Brizola, contudo, não ficou parado no tempo. Depois das derrotas dos anos 1960, seguiu em frente, mudando, amadurecendo. No final da década seguinte, iria surpreender arapongas e militares, com sua guinada social-democrata e sua vontade de fazer concessões em nome da volta da democracia no Brasil.
Dessa época, o hoje deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ) se lembra de ouvir Brizola em Lisboa “contando histórias sem fim”. Segundo Minc, “ele falava sem parar”, e “o público jovem ali, […] vidrado nele”. Isso nunca mudou, na trajetória inteira do líder trabalhista: a encantadora capacidade retórica.
E houve outra característica de Leonel Brizola que não mudou, mesmo depois de tantas derrotas. Quem reparou foi o cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil, no final dos anos 1970, ao se encontrar com o líder trabalhista nos Estados Unidos.
“Ele é igualzinho nas fotos”, escreveu o cartunista. “Mas o que as fotos não mostram é o brilho nos olhos. […] Brilho de quem se jogou todo. […] Brilho de quem se vê conduzido pelo momento histórico.”
BRIZOLA: LOBISOMEM CONTRA O IMPÉRIO – VOLUME 1
– Preço R$ 99,90 (456 págs.)
– Autoria Karla Monteiro
– Editora Companhia das Letras

