Na fase anterior ao Modernismo, três artistas brasileiras, hoje quase esquecidas nas brumas do tempo, foram as precursoras, abrindo caminho para Tarcila do Amaral, Anita Malfatti, Djanira e outras. Corajosamente enfrentaram o machismo do século XIX e hoje estão sendo redescobertas e valorizadas porque, com suas criações ajudaram a retratar e definir a sociedade brasileira. Algumas admitidas na Escola Nacional de Belas Artes, cujas portas para as mulheres somente se abriram em 1889, pois eram sempre consideradas amadoras e preteridas nos prêmios e salões.
As brasileiras esquecidas no tempo, Julieta de França, Georgina de Albuquerque e Abigail de Andrade têm suas obras revisitadas graças a pesquisa de Ana Paula Simioni, para sua tese de doutorado na USP. Sua conclusão foi que, no Brasil, tudo que foi criado antes da Semana da Arte de 1922, era visto como arte menor, cópia da arte europeia, arte desvalorizada, daí a importância de seu lavoro:
Julieta de França, nascida em Belém,1870, escultora, foi das primeiras admitidas na Escola Nacional de Belas Artes, em 1889, também foi a primeira a conseguir uma vaga numa viagem ao exterior, promovida pela Escola. Em Paris teve aulas com Auguste Rodin. No retorno, 1908, inscreveu uma obra para um monumento que celebraria o centenário da Independência do Brasil, mas foi desclassificada. Inconformada voltou à França por sua conta e submeteu a obra a Rodin e outros recebendo opiniões favoráveis. Pediu revisão da decisão do júri, sendo novamente não só rejeitada como sua fama de “brigona” a levou ao ostracismo. Não perdoaram a audácia de uma mulher que tentou se equiparar aos homens.
Georgina de Albuquerque, de Taubaté, provocou revolução na pictografia brasileira ao retratar o momento da independência do país na obra, “Sessão do Conselho de Estado”, 1922, onde a futura imperatriz Leopoldina ocupa o centro da tela, em meio a todos os homens, desafiando padrões da época e declarando a intenção de colocar a mulher no centro político. Naquela época, às mulheres era reservado apenas o espaço para pintarem cenas domésticas e naturezas mortas. A obra histórica da “Sessão do Conselho de Estado”, encontra-se no Museu Histórico Nacional, no Rio.
Abigail de Andrade, carioca, retratista, foi uma das primeiras mulheres a se destacar na arte, no Brasil. Premiada no Salão Imperial de 1884 feito raro para uma mulher. Gozou relativo prestígio, mas cometeu o pecado máximo do seu tempo, envolveu-se com o caricaturista Ângelo Agostini, seu professor, casado e engravidou dele. Proscritos da sociedade refugiaram-se em Paris onde nasceu a filha, 1888. Abigail faleceu três anos depois do nascimento da filha, Angelina Agostini, que mais tarde se tornaria uma pintora conhecida. Estudando com o pai, já no Rio, Angelina produziu várias obras, a maioria estão em coleções privadas. Algumas encontram-se no MNBA, Museu Nacional de Belas Artes onde podem ser apreciadas.
Também nas artes, como em outras atividades ditas como exclusivas do sexo masculino, a mulher teve que trilhar um longo e árduo caminho para ter seu trabalho reconhecido. Ainda nestes dias, de pós-modernidade, não alcançou espaço e valorização qualitativa concernente à sua arte, bem assim, em atividades como a política, a administração pública e afins, o espaço é conquistado palmo a palmo.

