O homem preso após o assassinato de Alan Souza Cerqueira, de 37 anos, na Barra Sul, em Balneário Camboriú, nega ter cometido o crime e afirma que recebeu a arma de outra pessoa para escondê-la. A versão, segundo o secretário de Segurança de Balneário Camboriú, Carlos Alberto de Araújo Gomes Júnior, contrasta com os elementos reunidos pelas equipes que fizeram a prisão em flagrante, entre eles imagens de câmeras de segurança e relatos de testemunhas.
Em entrevista ao Página 3, o secretário detalhou a atuação das forças municipais no domingo (27), explicou como o monitoramento ajudou a esclarecer a dinâmica do crime e afirmou que, até o momento, não há uma motivação esclarecida para o ataque.
Alan foi atingido na cabeça no acesso ao Molhe da Barra Sul, recebeu atendimento de emergência e foi encaminhado ao Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, onde morreu. O suspeito, de 22 anos, natural do Rio Grande do Sul, foi preso nas proximidades por equipes da Guarda Municipal e dos agentes de trânsito que já estavam na região.
Suspeito nega o crime e diz que esconderia arma para outra pessoa
Segundo Araújo Gomes, durante o contato com as equipes responsáveis pelo flagrante, o homem preso não apresentou uma explicação para o ataque porque sustentou que não havia sido o responsável pelos disparos. “O discurso dele, até onde tivemos contato com ele na prisão em flagrante, é que não foi ele.
Diz que foi outra pessoa, que essa pessoa teria entregado a arma para ele esconder e que foi preso injustamente”, relatou.
O secretário afirmou que o suspeito estava alterado no momento da abordagem. As equipes compararam as características do homem e suas roupas com as imagens disponíveis, além de localizar a arma nas proximidades do trajeto percorrido por ele (a arma foi descartada). Também houve questionamentos sobre o fato de o preso aparecer de camiseta, enquanto o homem registrado no momento do crime usava um moletom. Segundo Araújo Gomes, a peça havia sido abandonada durante a fuga.
Araújo Gomes ressaltou que os elementos encontrados justificaram a prisão em flagrante, mas que a apuração da autoria e das circunstâncias do homicídio cabe à Polícia Civil.
Câmeras ajudaram a descartar participação de um segundo suspeito
Além de permitir a comparação das roupas e da aparência do homem detido, o monitoramento foi importante para esclarecer uma informação que circulou nos primeiros momentos após os disparos: a possibilidade de haver duas pessoas envolvidas no ataque. Segundo o secretário, as equipes chegaram a procurar um segundo suspeito porque pessoas que estavam no local relataram ter visto outro homem correndo. A análise das imagens mostrou, porém, que se tratava de um amigo de Alan, que fugiu ao presenciar o crime.
De acordo com Araújo Gomes, as imagens indicaram que o atirador agiu sozinho. Ele acrescentou que testemunhas também apontaram o homem que acabou preso.
O secretário explicou ainda que o suspeito não estava foragido da Justiça. Por isso, segundo ele, o reconhecimento facial não teria gerado um alerta por essa condição antes do crime.
Testemunha relatou ataque pelas costas, sem discussão anterior
Um dos pontos destacados pelo secretário é a ausência, nos relatos reunidos até então, de uma discussão ou de outro sinal que permitisse perceber uma escalada de violência antes do disparo.
Segundo ele, uma testemunha contou que o atirador se aproximou pelas costas de Alan. Quando percebeu a movimentação e olhou, a arma já estava apontada para a cabeça da vítima. “Não houve aviso ou início de briga, troca de ofensas. Por isso é difícil de prevenir”, afirmou Araújo Gomes.
Até aquele momento, também não havia informação de que Alan conhecesse o suspeito. Conforme o secretário, o irmão da vítima disse nunca ter visto o homem preso e desconhecer qualquer desavença que pudesse explicar o ataque.
Como o suspeito nega a autoria, ele também não apresentou às equipes uma versão sobre o que teria motivado o crime. A eventual existência de uma relação anterior entre os dois e as circunstâncias que antecederam os disparos permanecem entre os pontos a serem esclarecidos pela investigação.
Alan havia se mudado para trabalhar na construção civil
Natural de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, Alan estava morando em Balneário Camboriú havia sete meses. Segundo as informações relatadas pelo secretário, ele veio para trabalhar na construção civil, era casado e tinha filhos.
O irmão também havia se mudado para a cidade em busca de trabalho, cerca de quatro meses antes.
Ainda conforme Araújo Gomes, as informações reunidas sobre Alan indicavam que ele era evangélico, não usava drogas e não consumia bebidas alcoólicas. O único boletim de ocorrência mencionado pelo secretário em relação à vítima era de 2022, quando Alan registrou ter sido vítima de ameaça.
Já em relação ao suspeito, o secretário informou a existência de registros policiais anteriores: um por agressão, em 2023, ocasião em que foi preso; outro por dano, em 2025, envolvendo a quebra do celular da companheira; e um por porte ilegal de arma de fogo, em 2026. Outras informações estão sendo apuradas com a polícia gaúcha.
A arma relacionada a esse registro anterior, segundo Araújo Gomes, não é a mesma apreendida após o crime de domingo.
Operação próxima ao molhe permitiu prisão rápida
No momento dos disparos, equipes da BC Trânsito e Guarda Municipal participavam de uma operação nas proximidades. Segundo o secretário, estavam presentes agentes de trânsito, guardas municipais, integrantes da Ronda Ostensiva Municipal (Romu) e um cão farejador de drogas.
Araújo Gomes explicou que a atuação fazia parte do reforço de presença na Avenida Atlântica, especialmente na Praia Central.
Ele também diferenciou as atribuições das equipes na operação. Segundo o secretário, a Guarda Municipal presta apoio à fiscalização realizada pelo BC Trânsito, com atenção a situações criminais que possam ser identificadas durante as abordagens, como a presença de armas, drogas ou veículos furtados e roubados. “A GM não faz blitz de trânsito, e sim apoia o BC Trânsito”, explicou.
Após os disparos, os gritos das pessoas que estavam no local chamaram a atenção das equipes. Os guardas seguiram na direção indicada e interceptaram o suspeito. “Essa presença garantiu a prisão. O homem saiu correndo, a população gritou, a GM foi na direção, interceptou, encurralou e fez a prisão”, relatou.
“Todos os mecanismos que fariam não cometer o crime, ele ignorou”
Na avaliação de Araújo Gomes, o crime reuniu características que dificultam a prevenção: ocorreu durante o dia, em um domingo, em um espaço com testemunhas e câmeras, próximo de uma operação de segurança. O secretário afirmou que esses fatores normalmente funcionam como elementos de inibição, mas não impediram o ataque.
“Fez o crime próximo de câmeras, durante o dia e em um domingo, no meio de testemunhas, sem rota de fuga e com operação policial a poucos metros do crime. Todos os mecanismos que o fariam não cometer, ele ignorou”, disse.
Para Araújo Gomes, o que se conhece até agora sugere um ataque súbito. Ele mencionou a possibilidade de uma ação por impulso e a frieza da conduta, sem apontar uma motivação definida.
O secretário sustentou que, mesmo se houvesse um policial no molhe, seria difícil antecipar uma agressão sem sinais prévios. Ao abordar a possibilidade de revistas, afirmou que a atuação das equipes também encontra limites legais e que só pode acontecer mediante suspeita.
Secretário diferencia prevenção de resposta ao crime
Para explicar sua avaliação, Araújo Gomes comparou a situação a uma agressão repentina dentro de uma casa noturna com seguranças. Segundo ele, uma discussão que evolui, com ameaças ou troca de ofensas, oferece sinais para uma intervenção. Já um ataque inesperado pode ocorrer antes que a equipe consiga agir.
“Se no local tivesse ocorrido alguma discussão, briga, provavelmente teriam feito intervenção, alguém teria chamado os GMs, que estavam próximos”, afirmou.
Na análise do secretário, a presença das equipes foi decisiva para impedir a fuga, embora não tenha evitado o disparo. Ele classificou a ocorrência como um fato atípico e defendeu que houve uma resposta rápida das forças municipais. “Aconteceu o crime, mas rapidamente havia guardas próximos. A GM estava presente, atuante. Senão, ele poderia ter conseguido fugir”, completou.
A investigação da Polícia Civil deverá esclarecer a motivação do homicídio, confrontar a versão do suspeito com as imagens e os depoimentos e apurar as circunstâncias da morte de Alan Souza Cerqueira.

