Dalí – Surrealismo e psicanálise

Vera Bedin
Colunista, artista visual, juíza de direito aposentada,TJSC.
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Salvador Dalí, com seus bigodes engomados, sua aparência estranha e suas obras surreais, em seus relógios derretidos, sua busca por identidade, sua admiração e desejo de conhecer Freud, a amizade com o grande psicanalista francês, Lacan, seu amor obsessivo por Gala e sua paranoia, são especificidades de sua personalidade.

Nasceu em Figueras, na Catalunha, em 1904. Nove meses antes do seu nascimento, o irmão de dois anos faleceu. Para minimizar a dor da perda do primogênito, os pais lhe deram o mesmo nome, Salvador Dalí, criado como reencarnação do outro. Dalí sempre se sentiu um substituto, tinha mórbida identificação com o irmão morto, e insaciável desejo de atenção, questões abordadas na sua biografia, além da adoração pela mãe.

Entrou na Escola de Belas Artes aos 21 anos. Já pintara vários quadros e ganhara prêmios. Faz profunda amizade com o poeta Garcia Lorca e o Luiz Buñuel, colaborando com dois filmes surrealistas do cineasta.

A Psicanálise foi uma das descobertas mais importantes da vida de Dalí. Quando leu A Interpretação dos Sonhos, de Freud, houve um desvelamento do inconsciente. Pelas teorias de Freud podia provar que seus sonhos e turbulentos pesadelos tinham sentido. Mergulhou numa imagética empregando nas obras, sua narrativa onírica e o automatismo movimento que buscava alguma abertura para o inconsciente. Criou o método que chamou de crítico paranoico, representando imagens suscitadas por livre associação de ideias, ao acaso, com base na tese de doutorado de Lacan: Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade.  Fez poemas e escreveu livros, entre eles: A Vida Secreta de Salvador Dalí.

Em 1929, conheceu Gala, um encontro divisor de águas. Dalí era um jovem com extremo medo de intimidade física e de doenças venéreas (o pai espalhava fotos de sífilis pela casa para o “educar”). Gala tornou-se sua amante e sua musa e em parte sua terapeuta. Viveu intensa história de um amor obsessivo até a morte dela.

Em 1938 viveu sua maior ambição: conhecer Freud, na época refugiado em Londres, fugido de Hitler. O presenteou com a obra: A Metamorfose de Narciso. Freud o considerou um fanático e não gostou de sua obra. Considerava os surrealistas “tolos completos”, no entanto, consta que reconheceu a inquestionável perfeição técnica do jovem espanhol, numa carta ao poeta Stefan Zweig.

Dalí e Jacques Lacan, o psicanalista, tiveram grande amizade de influência e fascínio intelectual recíprocos, pontuado pelo estudo da paranoia. Dalí se apoiava no estudo psicanalítico de Lacan, Lacan utilizava a produção artística de Dalí para mostrar que os delírios paranoicos funcionam como forma de interpretar o mundo. Representativa desta fase, obra prima do surrealismo, mapa da psicose e fantasias sexuais de Dalí e das teorias psicanalíticas, – O Grande Masturbador, coleção do Museu Reina Sofia, em Madri.

(@Verabedinart)    

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