A democracia é uma casa construída enquanto seus moradores ainda discutem a planta. Às vezes, as janelas permanecem abertas, as luzes acesas, as vozes circulam pelos cômodos. Mas há momentos em que o ar começa a faltar sem que ninguém abandone o endereço.
No Brasil, governar exige acomodar diferenças. O presidencialismo de coalizão nasce dessa necessidade: partidos dividem responsabilidades e assumem compromissos para manter um governo de pé. Negociar faz parte da convivência entre os que não pensam igual. A democracia precisa dessa difícil arquitetura compartilhada.
A cooptação começa a corroê-la quando o compromisso público cede lugar à compra de apoios por vantagens particulares. Cargos e recursos deixam de sustentar uma obra comum e passam a funcionar como tijolos de fidelidades pessoais. O Parlamento continua sentado à mesa, mas já não ajuda a preparar a refeição: tornou-se parte do banquete. E o cidadão, que imaginava ter escolhido um caminho, descobre que também foi incluído na escritura da negociação.
As redes de informação podem juntar multidões em torno de mapas falsos sem aproximá-las do território real. A inteligência artificial amplia esse risco ao participar da fabricação das histórias com que tentamos compreender o mundo. Ela não precisa construir uma mentira impecável; basta entregar a cada grupo uma paisagem confortável, plausível o bastante para ser repetida e emocional demais para ser examinada.
Lidas à luz desse alerta, nossas engrenagens políticas revelam uma ameaça: enquanto se trocam chaves e cômodos nos gabinetes, nas telas pode-se erguer um altar à devoção que dispensa perguntas. Cada cidadão recebe um retrato que confirma seu rosto; pouco a pouco, perde a porta por onde poderia encontrar o outro.
A esquerda e a direita parecem duas cores disputando o mesmo tecido, cada uma tentando tingir o país inteiro com sua própria tinta. Ambas dizem proteger a democracia, mas só reconhecem como legítimo o desenho feito com seus pigmentos. A esquerda denuncia a captura do Estado, mas frequentemente silencia quando a captura favorece seus aliados. A direita condena o aparelhamento dos cargos, mas costuma chamar de eficiência a submissão das instituições ao líder que admira. Ambas exigem transparência do adversário e concedem indulgência ao próprio campo. Ambas transformam princípios em ferramentas descartáveis e depois se espantam quando ninguém mais confia na palavra “princípio”.
Essa lógica de cores também alcança ministros do Supremo Tribunal Federal quando suas decisões parecem carregar a tonalidade partidária de um lado ou de outro. A toga deveria simbolizar a distância necessária entre a Justiça e as paixões eleitorais. Quando um ministro é percebido como militante de uma corrente política, a autoridade da instituição se desbota, ainda que a decisão tenha fundamento jurídico. Se desejam atuar como protagonistas partidários, deveriam tirar as togas e disputar eleições, submetendo suas ideias ao voto popular e às regras da política. A democracia não pode ter árbitros que pareçam entrar em campo vestindo a camiseta de uma das equipes.
É assim que imagino uma democracia morrendo de olhos abertos: quando fiscalizar parece incendiar a casa, discordar se torna uma mancha na família e o governante passa a ser protegido justamente onde deveria ser examinado. Ela não desaparece necessariamente sob tanques, baionetas ou decretos. Pode continuar realizando eleições, mantendo tribunais, transmitindo sessões e publicando discursos, enquanto a obediência se disfarça de participação e a propaganda se apresenta como consciência.
Na véspera de uma eleição presidencial, o desafio é escapar do Fla-Flu, do Grenal permanente entre esquerda e direita. O voto não deveria ser um uniforme vestido por reflexo emocional virado em guerra, mas uma escolha responsável sobre os próximos anos para o país. É preciso comparar propostas (esperamos que sejam apresentadas hoje no debate), examinar resultados (economia, social, saúde, educação, previdência, segurança, projeto para os próximos 30 anos), avaliar caráter, competência, experiência, respeito às instituições e capacidade de conviver com quem pensa diferente. Nenhum candidato merece um cheque em branco apenas por usar a camiseta da nossa cor.
O perigo maior talvez não esteja apenas no político que mente, mas no cidadão que prefere a mentira quando ela protege sua identidade, suas crenças e a suas cores. A manipulação prospera onde a vaidade partidária vale mais que os fatos, onde a indignação é pintada conforme a conveniência e onde a própria tribo é tratada como régua de todas as coisas.
Por isso, é preciso ir às urnas. Votar é mais do que escolher quem ocupará o palco: é assumir responsabilidade pelo país que ajudamos a montar. Os jovens de hoje chegarão aos 70 ou 80 anos carregando a herança das decisões tomadas agora. Que Brasil receberão? Uma casa reconciliada com a democracia ou uma sociedade dividida em torcidas incapazes de reconhecer a humanidade de quem veste outra cor?
E, depois da apuração, será necessário aceitar o resultado das urnas. Em uma eleição, pode-se perder por uma diferença mínima, por um placar numérico apertado. O que não se pode perder é a grandeza da democracia. O derrotado deve reconhecer a decisão popular; o vencedor deve lembrar que não recebeu autorização para humilhar, perseguir ou governar apenas para os seus.
Talvez a liberdade comece nesse pequeno desconforto: pedir explicações a quem recebeu a nossa confiança. Sustentar a pergunta mesmo quando a resposta ameaça a nossa certeza. Desconfiar também daquilo que gostaríamos de pendurar na parede. Recusar o aplauso automático, inclusive quando ele vem acompanhado da bandeira, da causa e das cores que aprendemos a amar.
Porque um povo também perde a voz quando só sabe bater palmas. E talvez a perca antes mesmo de perceber que, enquanto gritava contra o autoritarismo do outro lado, já havia entregado a própria consciência à cor que escolheu vestir.

