“Acham que eu sou o Einstein” e “Não gosto que fiquem me testando.” As frases são de estudantes do Polo de Altas Habilidades e Superdotação de Balneário Camboriú e ajudam a entender uma parte dessa experiência que nem sempre aparece quando se fala no assunto: a cobrança para saber tudo, acertar sempre e provar, a qualquer momento, que se tem uma habilidade acima da média.
Escritas pelos próprios alunos em uma atividade sobre como se sentem, as mensagens mostram por que o atendimento precisa ir além do desenvolvimento de talentos.
É necessário também acolher, orientar as famílias e ajudar as escolas a compreender crianças e adolescentes que podem ter grande facilidade em uma área e precisar de apoio em outras.
O Página 3 esteve na sede do Polo, na Rua 2400, no Centro, na tarde desta sexta-feira (23). Entre laboratórios, projetos e atividades em grupo, o espaço atende atualmente 118 estudantes, do primeiro ao nono ano do Ensino Fundamental, com idades entre seis e 15 anos.

À frente do serviço, a gestora Fernanda Guedes conhece esse percurso por diferentes perspectivas: é professora da rede municipal, pesquisa altas habilidades no mestrado e começou sua relação com o Polo como mãe de um aluno.
Hoje, um dos seus principais esforços é desfazer a ideia de que o atendimento se destina somente a crianças com desempenho extraordinário em matemática ou que aprendem tudo sem dificuldade.
“Não é inteligente em tudo. É em determinada área, e ele precisa de uma rede de apoio”, explica.
Um atendimento que cresceu com a identificação nas escolas
O trabalho com estudantes com altas habilidades/superdotação em Balneário Camboriú começou em 2019. Conforme Fernanda, a identificação de alunos nas escolas e o aumento dos encaminhamentos levaram à ampliação do atendimento e à necessidade de uma sede própria.
Antes de funcionar na Rua 2400, o serviço esteve na Rua Brusque. A mudança acompanhou o crescimento das matrículas e a organização de uma equipe para atuar desde a investigação inicial das potencialidades até o chamado enriquecimento curricular.
As atividades acontecem no contraturno escolar e suplementam a aprendizagem. Isso significa oferecer oportunidades de aprofundamento de acordo com os interesses e as necessidades de cada estudante. Há alunos que vão somente uma vez na semana, outros que vão duas, até três ou quatro vezes – depende de cada caso.
O trabalho também chega às escolas. Quando um professor precisa de orientação sobre como atender determinado aluno, pode recorrer à equipe do Polo. A formação continuada dos profissionais da rede é outra frente considerada essencial, tanto para reconhecer características que merecem investigação quanto para apoiar o estudante no cotidiano da sala de aula.
Segundo Fernanda, essa formação tem contribuído para ampliar os encaminhamentos e diversificar o olhar sobre quem pode precisar do serviço.
Altas habilidades não se resumem a cálculos e notas

A associação entre altas habilidades e raciocínio lógico ainda aparece com frequência, mas Fernanda explica que o potencial elevado pode se manifestar de diferentes maneiras. Há quem se destaque pela capacidade de investigar um problema, quem encontre várias soluções para a mesma proposta e quem demonstre habilidades na música, nas artes, na comunicação ou na liderança.
A gestora cita o perfil produtivo-criativo: o estudante que recebe uma ideia ou um material e consegue construir algo a partir daquilo, explorando possibilidades que nem sempre são as mais óbvias.
Na música, os interesses podem envolver canto, instrumentos de corda ou de sopro. Nas artes, podem aparecer na pintura, no desenho, no grafismo ou nas histórias em quadrinhos. Na área de linguagens, há espaço para trabalhar oratória, expressão e comunicação.

Reconhecer essa diversidade é importante também para evitar cobranças equivocadas. Um aluno com grande habilidade artística não precisa apresentar o mesmo desempenho em matemática. Da mesma forma, facilidade com números não significa que ele terá a mesma relação com a escrita.
Segundo Fernanda, essa expectativa de excelência em tudo é uma das questões que precisam ser trabalhadas com estudantes, famílias e escolas.
Como uma criança chega ao Polo

O acesso ao atendimento ocorre por encaminhamento da unidade escolar. A rede municipal possui um fluxo interno, e estudantes das redes estadual e privada também podem ser recebidos, conforme os critérios do serviço.
A família pode ser a primeira a perceber características que merecem atenção. Nesse caso, a orientação é procurar a escola para conversar sobre o que foi observado e dar início ao encaminhamento. Isso não impede que os responsáveis procurem o Polo para esclarecer dúvidas. Fernanda ressalta que a equipe presta orientações presencialmente e pelos canais de atendimento, em horário comercial, mas o ingresso no processo depende da tramitação pela escola.

Após o encaminhamento, começa um estudo de caso. São reunidas informações da família, da unidade escolar e dos atendimentos realizados com o estudante. Na fase exploratória, a equipe observa interesses, formas de aprender e áreas em que aparecem indicadores de potencial elevado. O processo costuma envolver de oito a 10 encontros, mas esse tempo pode ser ampliado.
Fernanda explica que o vínculo com o profissional e o contexto em que a criança está inserida interferem no que ela consegue demonstrar. Um aluno pode não se sentir à vontade inicialmente e precisar de outras propostas ou de mais tempo. Relatórios e avaliações apresentados pela família também são considerados. Um documento de um neuropsicólogo, por exemplo, entra como informação complementar ao estudo, sem substituir o processo pedagógico desenvolvido no Polo.
O que acontece nos laboratórios
O atendimento está organizado em oito laboratórios, com propostas que abrangem diferentes interesses e possibilidades de aprendizagem.
A Exploratória é o espaço de observação e investigação inicial.
O Laboratório de Enriquecimento Curricular acompanha pedagogicamente o desenvolvimento dos estudantes atendidos.
Em Ciências e Invenções, as atividades envolvem investigação, experimentação, formulação de hipóteses e busca de soluções.
A Gamificação utiliza jogos de estratégia e desafios cognitivos, enquanto o Pensamento Lógico e Estratégico trabalha raciocínio abstrato, dedução e resolução de problemas.

Os Processos Criativos, em arte e música, contemplam diferentes formas de expressão.
Em Linguagens Globais, são desenvolvidas propostas relacionadas à comunicação, à oratória e às expressões culturais e linguísticas.
O laboratório de Inovação, Robótica e Pensamento Computacional estimula a criação e a experimentação de soluções tecnológicas.
A participação é definida pela equipe a partir do estudo de caso, considerando o perfil de cada estudante. Os encaminhamentos são acompanhados e podem ser revistos ao longo do atendimento.
Fernanda observa que, mesmo com essa organização, surgem necessidades que exigem novas estratégias.
“Cada dia é um dia, cada caso é um caso”, resume.
Por isso, a equipe também busca parcerias e desenvolve projetos específicos. Uma mesma área pode reunir interesses muito diferentes, o que exige dos profissionais disposição para pesquisar, adaptar atividades e construir caminhos junto aos alunos.
“Não é um troféu”: o trabalho com as famílias

A identificação não encerra o processo. Para Fernanda, ela abre uma etapa que precisa ser construída em conjunto. No projeto “Vamos falar de altas habilidades”, as famílias conversam sobre o que significa essa identificação e sobre como apoiar a criança ou o adolescente.
“Não é um troféu”, afirma a gestora.
O reconhecimento de uma potencialidade não elimina dificuldades. Segundo ela, o atendimento também recebe demandas relacionadas ao perfeccionismo, à frustração e à intensidade emocional.
A expectativa de acertar sempre pode tornar um erro especialmente difícil. E a ideia de que o estudante deveria conseguir fazer tudo sozinho pode impedir que suas necessidades sejam percebidas.
O Polo também atende alunos com dupla excepcionalidade, quando as altas habilidades coexistem com outra condição, como o autismo. Nesses casos, Fernanda destaca a importância de articular informações e estratégias com os demais serviços que acompanham o estudante.
O objetivo é compreender cada caso e construir o apoio necessário, evitando que uma característica seja usada para explicar, sozinha, toda a experiência daquela criança.
O que os próprios estudantes dizem

Em agosto, a equipe propôs uma atividade para ouvir os alunos: “Eu tenho altas habilidades, e agora?”. As respostas foram registradas em um cartaz, com as palavras e a letra de cada participante. Entre elas, apareceram o desconforto de ser comparado a Einstein, a cobrança de ser bom em tudo e a irritação com pessoas que transformam uma conversa em um teste.
Fernanda conta que os relatos ajudam a orientar o trabalho com o grupo. Além de desenvolver suas habilidades, os estudantes precisam compreender o que essa identificação significa e encontrar formas de se posicionar diante das expectativas dos outros.
O Polo também se torna um espaço de convivência com colegas com quem podem compartilhar interesses e experiências.
Segundo a gestora, o sentimento de pertencimento é forte a ponto de alguns dizerem que gostariam de frequentar apenas o serviço.
Nessas situações, a equipe precisa reforçar o papel do contraturno e trabalhar, junto à escola e à família, para que o aluno encontre apoio também no ensino regular.
Uma torre de macarrão para aprender a ouvir

Uma atividade conduzida por um psicólogo da equipe multiprofissional da Secretaria de Educação ilustra como esse trabalho acontece. Divididos em dois grupos, os estudantes receberam fios de macarrão, fita e um marshmallow. A missão era construir uma torre e deixar o doce na ponta, dentro do tempo estabelecido.
Uma equipe conseguiu se organizar e concluir a tarefa. Na outra, surgiram divergências, materiais foram ao chão e a construção não deu certo. Mais do que avaliar a torre, a proposta permitiu observar como cada grupo lidava com planejamento, escuta e divisão de tarefas.
Segundo Fernanda, na equipe que não conseguiu terminar, a frustração veio acompanhada da tentativa de responsabilizar o colega. Depois, o psicólogo conduziu uma conversa sobre a experiência. O assunto foi para casa e chegou aos responsáveis. Em uma reunião, a gestora explicou o percurso da atividade e a importância de ajudar os filhos a lidar com situações em que uma habilidade individual não basta.
A equipe que concluiu a proposta conseguiu ouvir, distribuir funções e construir em conjunto. A outra precisou trabalhar justamente essas questões. Fernanda relata que atividades posteriores já mostraram avanços. A circulação por diferentes laboratórios também favorece esse aprendizado: em uma proposta, um aluno se destaca; em outra, é o colega quem tem mais facilidade.
Da insegurança ao reconhecimento
Entre os casos que marcaram a trajetória de Fernanda está o de um aluno que foi encaminhado pela escola e acompanhado por ela na fase exploratória. A gestora lembra que ele era um aluno tímido, envergonhado e que não acreditava no próprio potencial. Aos poucos, o atendimento evidenciou suas habilidades em raciocínio lógico, enquanto a equipe trabalhava para encorajá-lo, com participação da família.
Segundo Fernanda, ele conquistou um primeiro lugar nacional em uma competição de matemática e, após a repercussão do resultado, recebeu uma bolsa integral em uma escola particular da cidade. A mudança de rede não interrompeu sua participação no Polo. E o raciocínio lógico é apenas uma parte da sua história: o aluno também frequenta o laboratório de música e integra a banda municipal.
Para Fernanda, acompanhar os alunos nas apresentações é outra forma de perceber o desenvolvimento. O trabalho envolve ensaios e aprendizado musical, mas também presença de palco, ansiedade e enfrentamento do medo de se apresentar.
A gestora que conheceu o Polo como mãe

Antes de atuar no serviço, Fernanda precisou compreender o que estava acontecendo com o próprio filho.
Professora da rede municipal há 10 anos, ela conta que Estevão acompanhava, durante a pandemia, as aulas on-line que a mãe ministrava. Chegou alfabetizado à escola, o CEM Iate Clube, e, posteriormente, passou a demonstrar diferenças entre o que já sabia e as propostas da turma.
Os questionamentos em sala e as dificuldades de comportamento trouxeram preocupações. Como mãe e professora, Fernanda também se perguntava como suas próprias experiências poderiam estar sendo interpretadas.
O filho passou por aceleração de estudos. Mais tarde, durante uma conversa da equipe do Polo com profissionais da escola sobre outro estudante, a supervisora reconheceu em Estevão várias das características que estavam sendo descritas.
Ele também foi encaminhado.
A partir daí, Fernanda começou a estudar o tema como mãe, participou de uma pesquisa de mestrado de uma colega e aprofundou sua formação. Depois, foi convidada a atuar como professora na etapa exploratória e, posteriormente, assumiu a gestão. Hoje, sua pesquisa de mestrado também se dedica às altas habilidades.
A experiência familiar continua trazendo reflexões, inclusive sobre a aceleração escolar. Fernanda conta que ainda observa diferenças entre o desenvolvimento do filho e o dos colegas e se questiona sobre as decisões tomadas. Ao mesmo tempo, acompanha a rapidez com que surgem novos interesses e iniciativas.
Recentemente, ao conversar com ele sobre uma mudança no perfil do celular, ouviu que estava abrindo uma empresa e se organizando para vender sites.
Para ela, situações assim reforçam a necessidade de orientação: ter ideias e conhecimento não significa saber, sozinho, como conduzi-los.
Meninas que nem sempre mostram o que sabem

Outro desafio apontado pela gestora é reconhecer potencialidades que não aparecem com tanta facilidade na sala de aula. Embora o Polo atenda meninos e meninas, os meninos são maioria. Na percepção de Fernanda, algumas meninas acompanhadas pelo serviço demoraram a demonstrar suas habilidades por medo de errar ou de se expor.
Ela relata que, em certos casos, o potencial só ficou mais evidente depois que a estudante construiu confiança no atendimento. A observação reforça a importância de reunir informações de diferentes ambientes. O que aparece em casa pode não aparecer na escola, e uma primeira atividade pode não ser suficiente para compreender o aluno. Por isso, o estudo de caso considera diferentes olhares e respeita o tempo necessário para estabelecer o vínculo.
Apoio também para os próximos passos
Entre os estudantes mais velhos, o trabalho inclui preparação para novas etapas da vida escolar. Fernanda cita grupos de estudo organizados com alunos do nono ano interessados em processos seletivos de institutos federais e de outras instituições.
O apoio começa por tarefas práticas: ler o edital com atenção, compreender as exigências e organizar os estudos de acordo com o objetivo pretendido. Segundo a gestora, alguns alunos têm facilidade para aprender, mas precisam de orientação para transformar essa capacidade em planejamento e ação.
A proposta é ajudá-los a construir os próprios caminhos, considerando seus interesses e escolhas.
Procura crescente exige planejamento
A maior visibilidade do atendimento e a formação dos professores têm ampliado a demanda. Fernanda afirma que o crescimento exige pensar em equipe, parcerias e condições para acompanhar os novos estudantes. Na data da entrevista, cerca de 20 alunos já estavam previstos para iniciar o processo em 2027.
A gestora esclarece que há situações diferentes nesse percurso: estudantes encaminhados cujas famílias ainda precisam comparecer para efetivar a matrícula e novos atendimentos que, pelo tempo necessário à fase exploratória, começarão no próximo ano.
Segundo ela, a procura de escolas particulares também aumentou, e o município busca articulações para apoiar o serviço diante dessa expansão.
Reconhecimento estadual e portas abertas em novembro
O trabalho realizado em Balneário Camboriú foi uma das nove experiências selecionadas entre 130 propostas do projeto Conecta SC, da União dos Dirigentes Municipais de Educação de Santa Catarina (Undime/SC).
A apresentação aconteceu no início de outubro, em Florianópolis, com a então secretária de Educação, Zélia Zanella. A experiência foi a única selecionada da região da Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí (Amfri).
Para Fernanda, o reconhecimento valoriza a construção coletiva e ajuda a dar visibilidade às necessidades desses estudantes.
A comunidade terá uma oportunidade de conhecer o atendimento em 25 de novembro, quando o Polo realizará uma Mostra do Conhecimento aberta ao público, com apresentação de projetos e interação com os alunos. O acolhimento será o eixo da programação. A intenção é aproximar estudantes, famílias e escolas e mostrar o que é construído no cotidiano do espaço.
“Eles têm um conhecimento, mas muitas vezes não sabem o que fazer com aquilo. Precisam dessa assistência, de um olhar específico para acolher esse público”, completa a gestora.

