Há uma pergunta que a água faz sem pronunciar uma única palavra: por que continuamos construindo nossas tragédias nos mesmos lugares? Os rios conhecem seus caminhos. Nós é que insistimos em esquecê-los.
No Vale do Itajaí, as águas fazem parte da história desde o século XIX. Blumenau conhece as grandes inundações desde 1848. Não estamos diante de uma surpresa da natureza, mas de uma advertência que atravessa gerações. A água sobe, invade, destrói e recua. Deixa, entretanto, aquilo que nenhuma fotografia consegue registrar inteiramente: o medo, a perda, a casa vazia e a dignidade de quem precisa recomeçar.
Precisamos distinguir: enchente é a elevação do nível dos rios; inundação ocorre quando transbordam e ocupam áreas normalmente secas; alagamento é o acúmulo de água nas cidades por deficiência de drenagem.
O El Niño altera a circulação atmosférica e favorece chuvas intensas no Sul. O aquecimento global acrescenta outra dimensão: uma atmosfera mais quente retém mais vapor d’água, potencializando precipitações extremas. Não existe uma causa isolada, mas uma combinação de fenômenos que exige ciência, planejamento e responsabilidade.
E há uma descoberta que merece nossa atenção. Em estudo publicado em 2025, na revista científica Integrated Environmental Assessment and Management, pesquisadores analisaram os estoques de carbono da Bacia do Itajaí-Açu. Estimaram aproximadamente 262,6 milhões de toneladas de carbono armazenadas em 2020. Entre 2010 e 2020, porém, houve emissões líquidas associadas às mudanças no uso do solo. Preservar florestas significa conservar biodiversidade, proteger o clima e manter serviços ambientais indispensáveis à vida.
Outro dado extraordinário surgiu no diagnóstico apresentado pela AMVE, CIMVI e ICLEI em outubro de 2026: os 17 municípios estudados conservam 67% de formações naturais e abrigam mais de 11 mil nascentes. São milhares de fontes de água que precisam ser protegidas. O mesmo levantamento identificou erosão elevada em diferentes municípios, revelando uma contradição: temos uma riqueza natural extraordinária, mas também vulnerabilidades que ameaçam esse patrimônio.
A parceria entre AMVE, CIMVI e ICLEI, formalizada em 2025, avança na construção do Plano Regional de Ação Climática. O trabalho inclui diagnóstico ambiental, inventário de emissões, identificação de vulnerabilidades e estratégias de adaptação e redução de riscos. É um caminho promissor: os fenômenos climáticos não respeitam fronteiras municipais; a prevenção também não pode respeitá-las.
O que as prefeituras podem fazer? Mapear áreas inundáveis, encostas instáveis e nascentes; impedir ocupações em zonas de risco; recuperar matas ciliares; fiscalizar o uso do solo; ampliar a drenagem sustentável; criar parques alagáveis, jardins de chuva e pavimentos permeáveis. Precisamos de cidades-esponja, capazes de receber a água sem transformá-la imediatamente em ameaça. Também precisamos de radares, pluviômetros, alertas antecipados, rotas de evacuação e abrigos preparados.
Existe ainda uma inundação silenciosa: a que acontece dentro das pessoas. Perder a casa, fotografias e lembranças produz feridas que permanecem depois que a água baixa. A ecoansiedade é o sofrimento diante de um futuro ambientalmente ameaçado. Reconstruir exige acolher pessoas, não apenas levantar paredes.
Em “A Água que Aprende Nomes”, livro que escrevi em 2025, inspirado nas enchentes e inundações do Sul, procurei compreender o que acontece quando a natureza invade aquilo que julgávamos definitivamente nosso.
Não podemos impedir a chuva. Podemos impedir que a negligência transforme fenômenos naturais em tragédias anunciadas.
Governantes precisam investir antes da catástrofe. Cidadãos precisam conhecer os riscos e respeitar os alertas. Prevenir custa menos do que reconstruir e vale infinitamente mais do que contabilizar vidas perdidas.
A água não é nossa inimiga. Nossa inimiga é a arrogância de imaginar que podemos ignorar seus caminhos.
Quantas casas ainda precisarão desaparecer? Quantas famílias precisarão perder tudo para que a prevenção deixe de ser discurso e se transforme em prioridade?
A água aprende nomes. Que nós aprendamos, finalmente, a proteger vidas.
Siglas: A AMVE (Associação de Municípios do Vale Europeu) reúne prefeituras para articular políticas públicas e soluções regionais. O CIMVI (Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí) permite que municípios compartilhem serviços e projetos, especialmente nas áreas ambiental e de resíduos sólidos. Já o ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) é uma organização internacional que auxilia cidades a enfrentar as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável.
Juntas, essas instituições, com a participação do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), trabalham na elaboração do Plano Regional de Ação Climática do Vale Europeu. A iniciativa busca identificar riscos, proteger nascentes e florestas, preparar as cidades para enchentes, inundações e outros eventos extremos e planejar ações de prevenção. O objetivo é simples e fundamental: antecipar problemas, reduzir prejuízos e proteger vidas. Referências
- Estudo sobre carbono: Dal Bosco, Fernanda; Refosco, Julio Cesar; Vogel, Everton. Biophysical and economic assessment of carbon dynamics in the Itajaí-Açu Valley Basin in Southern Brazil. Publicado em 2025, na revista Integrated Environmental Assessment and Management. Consultar estudo científico.
- Diagnóstico dos serviços ecossistêmicos: levantamento da AMVE, CIMVI e ICLEI, apresentado em 29 de outubro de 2026. Identifica 67% de formações naturais, mais de 11 mil nascentes e áreas de concentração de estoques de carbono. (https://www.google.com/s2/favicons?domain=https://jornalparole.com.br\&sz=32
- Plano Regional de Ação Climática: parceria entre AMVE, CIMVI, BRDE e ICLEI, formalizada em fevereiro de 2025. Consultar anúncio institucional.
- Eventos extremos na Bacia do Itajaí: pesquisa de doutorado do INPE sobre cenários de mudanças climáticas, inundações e secas. Consultar pesquisa do INPE.
- Caracterização da Bacia do Itajaí: Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde de Santa Catarina. Consultar dados hidrográficos.
- Observação: Uma precisão importante: são mais de 11 mil nascentes. O dado refere-se à região abrangida pelo diagnóstico dos 17 municípios, não à totalidade de todas as nascentes da bacia hidrográfica. A estimativa de carbono, por sua vez, refere-se à Bacia do Itajaí-Açu e não deve ser confundida com o levantamento específico dos 17 municípios.

