Laura Porto *
Foi em um daqueles dias meio tristes, meio marrons, quando o perfume tímido das rosas insistia em atravessar o vento, que descobri uma das maiores verdades da existência: o lugar mais difícil de habitar é justamente o meio do caminho. E, talvez por isso, seja também o mais importante.
Foi entre as folhas espalhadas pelo chão e o soprar delicado do orvalho que compreendi o verdadeiro peso de sentir. O amargo da vida não está apenas na dor que nos acontece, mas na coragem de enxergar aquilo que sempre evitamos ver em nós mesmos.
Havia uma espécie de fuligem sobre as árvores. As folhas úmidas permaneciam presas ao chão, o ar carregava a densidade da chuva, e a terra exalava aquele cheiro profundo que só existe depois da tempestade. As lágrimas, silenciosas, pareciam cavar pequenos abismos onde caíam, como se também quisessem encontrar um lugar para repousar.
Entre o sentir e o resistir, percebi que o que realmente me sustentava não era a força, mas a alma. Uma alma cansada, é verdade, mas ainda sedenta de redenção.
Existe uma vertigem estranha na maldade humana e uma soberania igualmente perigosa na vaidade. Ambas nos afastam daquilo que somos e nos fazem acreditar que viver é apenas sobreviver aos dias. Mas a vida nunca foi sobre sobreviver. Sempre foi sobre atravessar.
Então fiz de conta.
Fiz de conta que compreendia todas as respostas. Fiz de conta que havia caído em um campo de girassóis e que o amarelo das pétalas seria suficiente para iluminar todas as minhas sombras. Convenci-me, por alguns instantes, de que tudo havia se tornado leve, bonito e simples.
Mas a vida não aceita fingimentos por muito tempo.
Ela espera, pacientemente, até que sejamos capazes de olhar para dentro sem máscaras, sem desculpas e sem os enfeites que costumamos colocar sobre as nossas próprias dores.
E foi exatamente quando deixei de fingir que ela chegou.
A primavera.
Não fez barulho. Não pediu licença. Apenas abriu as janelas da minha alma e permitiu que a luz encontrasse lugares onde eu já acreditava não existir mais esperança.
Veio vestida de perfume, de cor e de recomeço.
Resgatou-me do bege dos dias comuns, do frio de um outono quase cinzento, das estações em que tudo parecia morrer lentamente dentro de mim.
Percebi, então, que a primavera nunca chega para apagar o outono. Ela chega para agradecer por ele.
Porque nenhuma flor nasce sem que antes a terra aceite perder suas folhas.
Nenhuma alma floresce sem atravessar seus próprios invernos.
Hoje compreendo que a beleza nunca esteve apenas nas flores que desabrocham. Ela mora, sobretudo, na coragem de permanecer quando tudo em nós parece estar caindo.
Entre o outono e a primavera existe um território invisível onde a vida nos reconstrói em silêncio.
E talvez seja exatamente ali, onde quase desistimos, que Deus continua, delicadamente, semeando flores.
* Laura Porto integra a Academia de Letras de Balneário Camboriú.


