
“Suas noites são festivas e aproximam corações, cidade hospitaleira, quem a conhece nunca mais a esquecerá, princesa do meu Brasil, cidade de belezas mil”. Poucas cidades brasileiras carregam em seu próprio hino uma referência tão explícita à vida noturna quanto Balneário Camboriú. Muito antes de ser reconhecida pelos arranha-céus, pelo metro quadrado mais valorizado do país ou pelos empreendimentos turísticos que hoje atraem visitantes durante todo o ano, a cidade construiu sua fama através das noites movimentadas, das pistas de dança lotadas e da capacidade de reunir pessoas de diferentes estados em busca de diversão.
Ao longo dos seus 62 anos, comemorados na segunda-feira (20), a noite de Balneário Camboriú acompanhou as transformações da própria cidade. Das primeiras discotecas improvisadas aos grandes complexos de entretenimento, da concentração histórica na Barra Sul aos clubes que hoje movimentam toda a região, muita coisa mudou.

Se antes a Barra Sul reunia dezenas de casas noturnas disputando turistas noite após noite, hoje apenas uma permanece naquele tradicional endereço da Avenida Atlântica: a SHED Club. A casa nasceu há 14 anos como SHED Western Bar e, em 2021, no cenário pós-pandemia, passou por uma completa reinvenção. Tornou-se SHED Club, ampliando a experiência ao unir música, gastronomia e entretenimento em um mesmo espaço, sem perder a identidade construída ao longo dos anos.

Atualmente pertencente aos sócios Roberto Castagnaro, Camila Castagnaro, Sabrina Dalmas e Neto Von Borstel, a SHED continua abrindo de quinta-feira a sábado e mantém um público fiel, principalmente apaixonado pelo sertanejo. Pelo palco da casa passaram alguns dos maiores nomes do gênero, como Luan Santana, Gusttavo Lima, Gustavo Mioto, Felipe Araújo, Munhoz & Mariano, Henrique & Diego, Bruninho & Davi, Luan Pereira, entre tantos outros artistas nacionais.
Apesar de hoje ser a única sobrevivente da antiga concentração de casas noturnas da Barra Sul, o cenário pode voltar a ganhar um novo capítulo. O Página 3 apurou que uma nova casa noturna deverá ser inaugurada ainda neste segundo semestre, também na Avenida Atlântica. Os empresários envolvidos preferem manter sigilo sobre o projeto neste momento, mas confirmaram que o empreendimento está em andamento.
É diante dessa história, que ajudou a moldar a identidade turística da cidade, que o Página 3 apresenta esta reportagem especial.
Antes dos arranha-céus, existia o Baturité

Antes de Ibiza, Greenvalley, Warung ou SHED, havia um nome que praticamente se confundia com a própria noite de Balneário Camboriú. Baturité. Para milhares de pessoas que frequentaram a cidade entre as décadas de 1980 e 1990, falar em Balneário Camboriú era falar na lendária casa que funcionava na Barra Sul e se transformou em referência nacional.

Um dos principais responsáveis por essa história é o argentino Juan Carlos Amaya. Hoje aos 77 anos, ele costuma brincar que sua história se mistura com a da própria cidade. “Quando cheguei aqui, Balneário Camboriú era uma adolescente. Hoje ela faz 62 anos e eu estou com 77. Crescemos praticamente juntos”, diz.

Juan morava em Buenos Aires quando recebeu um convite que mudaria completamente sua vida. Um amigo o chamou para conhecer um lugar chamado Balneário Camboriú. Ele sequer sabia onde ficava. Aceitou. Na época, o tradicional Rancho Baturité já existia. O proprietário pretendia reformar uma antiga boate anexa ao restaurante e acreditava que Juan, por conhecer a noite de Buenos Aires, poderia ajudá-lo como sócio. O argentino voltou para casa, vendeu o carro, reuniu todas as economias e decidiu apostar tudo naquela pequena cidade catarinense.
Em setembro de 1980, a nova Baturité abriu as portas. “O mais difícil foi aprender português”, lembra, entre risos. O restante foi acontecendo naturalmente. Juan distribuía convites em bares, restaurantes e hotéis. Conversava pessoalmente com turistas. Na mesma época existia outra famosa discoteca na cidade, a Disco Laser. Quando ela fechou para reforma, boa parte do público migrou para o Baturité. Depois da reinauguração da concorrente, Juan imaginou que perderia os clientes. Foi justamente o contrário. “As pessoas foram conhecer a Disco Laser reformada, mas no fim da noite voltaram para o Baturité.”
A partir dali, a casa se consolidou definitivamente. Em pouco tempo, o Baturité deixou de ser apenas uma boate. Transformou-se em um fenômeno turístico. Durante um período, funcionava literalmente todos os dias da semana. “Cheguei a colocar duas mil pessoas em uma única noite. Era uma loucura.”

Turistas chegavam apenas para passar a noite em Balneário Camboriú. Segundo Juan, não existia a preocupação excessiva que hoje faz parte do cotidiano. “As pessoas iam de carona, iam a pé, muitas vezes sem dinheiro nenhum. O importante era encontrar os amigos e se divertir.”

Foi também no Baturité que ele conheceu a esposa. Os dois se casaram em 1984, no Hotel Fischer. Mais tarde, o empresário expandiria seus negócios para Blumenau, Florianópolis, Itajaí e outras cidades. Ao todo, chegou a administrar 12 casas noturnas, tornando-se conhecido como o “rei da noite catarinense”. Também foi responsável pela criação do primeiro teatro de Balneário Camboriú e participou da fundação do Círculo Argentino da cidade, entidade que neste ano completa 31 anos. A Câmara de Vereadores chegou a homenageá-lo pela contribuição ao turismo do município. “Balneário Camboriú me deu tudo o que eu tenho. Toda a minha vida aconteceu aqui”, afirmou.
O restaurante que recebia Gilberto Gil e Caetano Veloso
Quem viveu aquela época lembra que o Baturité não era apenas uma boate. Antes dela, havia o famoso restaurante. O músico Maurício Jorge Simas, o Escova, de 68 anos, lembra que trabalhou lavando copos ainda muito jovem no local. Segundo ele, o responsável pelo restaurante era o empresário Dimas Campos, um visionário para a época. “Hoje chamam de backstage. Naquela época ele já tinha um espaço reservado para receber artistas”, conta.

Gilberto Gil, Caetano Veloso, Novos Baianos e tantos outros músicos passavam por ali praticamente como convidados da casa. Muitos chegavam de lancha. Atrás do restaurante existia um deck que facilitava o desembarque. “O Rancho já não comportava tanta gente. Então veio a ideia de criar a boate. Foram duas fases de um mesmo lugar”, relembra.

Foi justamente a partir dessa expansão que a Barra Sul começou a consolidar sua vocação como polo do entretenimento. Escova acompanhou tudo de perto. “Eu me tornei quem sou naquela região. Trabalhei no Baturité, depois tive o Estação Final e vivi praticamente todas as fases da noite de Balneário Camboriú”, diz.
“Vendíamos um sonho”: quando Balneário Camboriú virou a ‘capital’ das grandes festas

Se o Baturité foi responsável por consolidar Balneário Camboriú como destino da diversão nas décadas de 1980 e 1990, a virada do milênio marcou uma nova transformação. A cidade passou a ser conhecida também pela música eletrônica, pelos grandes eventos temáticos e por festas que atraíam milhares de pessoas de todo o país. Foi nesse cenário que nasceu um dos nomes mais emblemáticos da história da noite catarinense: o Ibiza.
Instalada na Barra Sul, a casa rapidamente ultrapassou a condição de boate para se tornar um verdadeiro fenômeno cultural. Para Gabriel Rossato, um dos idealizadores do empreendimento, o sucesso do Ibiza só foi possível porque encontrou um terreno já preparado por quem veio antes. “O Ibiza não surgiu do nada. Ele foi uma reconstrução de tudo aquilo que o Baturité já representava. Balneário Camboriú já possuía identidade de cidade da festa. Nós simplesmente chegamos para fazer parte dessa história”, afirma.

O grupo já operava unidades da marca no Rio Grande do Sul e em Florianópolis, mas acreditava que nenhuma cidade brasileira combinava tanto com o conceito quanto Balneário Camboriú. “Nós queríamos estar inseridos naquilo que a cidade vivia. Achávamos que o Ibiza era perfeito para Balneário Camboriú e realmente foi”, comenta.
A estrutura construída na Barra Sul superou, segundo ele, todas as unidades anteriores. O Ibiza rapidamente se transformou em um divisor de águas. Ao contrário do que muita gente imagina hoje, Gabriel explica que o Ibiza nunca foi apenas uma casa de música eletrônica. “O que vendíamos era um sonho”, diz.
Segundo ele, o público não escolhia apenas um DJ ou uma banda. Escolhia viver uma experiência. “Queríamos que as pessoas fossem pela festa, pelo glamour, pelos artistas, pelos performers, pela diversão. Existia uma conexão enorme entre os DJs, bailarinos, artistas locais, prefeitura, empresários e comunidade”, aponta.

Essa integração acabou se tornando uma das grandes marcas daquele período. “O Ibiza era extremamente democrático. Tratávamos todo mundo da mesma maneira. Todos queriam viver aquilo junto conosco”, diz.

Para Gabriel, havia um sentimento coletivo difícil de reproduzir atualmente. “Não era algo fabricado. Foi acontecendo naturalmente. As pessoas compraram a ideia e fizeram parte dela”, afirma.
Quando a cidade inteira trabalhava para a noite
Na avaliação de Gabriel, um dos grandes diferenciais de Balneário Camboriú era justamente a união entre os empresários. As casas noturnas não funcionavam apenas como concorrentes. Na prática, ajudavam umas às outras. A programação era praticamente organizada de forma conjunta: “A quarta-feira tinha Armazém. Quinta-feira era a espuma do Ibiza. Sexta era Warung. No sábado funcionavam Ibiza e Baturité ao mesmo tempo. O Rancho Maria’s tinha seu espaço, na segunda-feira. O Baturité abria praticamente todos os dias”, explica.
Os empresários divulgavam os eventos uns dos outros. “Havia uma parceria muito grande. A prefeitura também entendia a importância disso. O então secretário de Turismo, Mazoca, caminhava junto conosco. O prefeito Leonel Pavan incentivou muito também. Nós queríamos que o Brasil inteiro conhecesse Balneário Camboriú. Conseguimos”, salienta.
As festas que entraram para a história
Quem frequentou o Ibiza dificilmente esquece algumas noites que entraram para a memória da cidade. Uma das mais famosas eram as festas da espuma. As máquinas utilizadas vieram diretamente da lendária Amnesia Ibiza, na Espanha. “O técnico veio instalar os equipamentos aqui. Nós tínhamos exatamente a mesma qualidade de espuma de Ibiza”, comenta.

O sucesso foi tão grande que a estrutura acabou sendo utilizada até em um Carnaval infantil que reuniu cerca de quatro mil crianças.
Mas as lembranças vão muito além disso. Foi no Ibiza que o holandês Tiësto, então eleito o melhor DJ do mundo pela revista DJ Mag, fez sua primeira apresentação em Santa Catarina. “O único dia disponível era um domingo. Fizemos mesmo assim. Foi uma noite histórica”, relembra.

Vieram ainda artistas como Miss Kittin, Vitalic, Scott Bond e inúmeros nomes do house, trance e música eletrônica internacional. Ao mesmo tempo, a casa transitava entre o underground e o comercial. “Nós nunca fomos concorrentes do Baturité. Também não fomos concorrentes do Warung. Existia espaço para todos”, afirma.
O entretenimento que ajudou a construir a cidade
Na opinião de Gabriel Rossato, o impacto da vida noturna ultrapassou o turismo. Ela ajudou a moldar a própria economia de Balneário Camboriú. “O turismo noturno abriu caminho para aquilo que veio depois”, afirma.
Segundo ele, foi justamente a movimentação intensa de visitantes que despertou o interesse de investidores e incorporadoras. “O mercado imobiliário de luxo começou a ganhar força naquele período. O Rogério Rosa, da Embraed, já tinha essa visão”, diz.

Para Gabriel, existe uma relação direta entre a consolidação da cidade como destino turístico e o crescimento da construção civil. “Sem as casas noturnas, Balneário Camboriú não teria acontecido da forma como aconteceu”, completa.
A segunda-feira mais famosa

Enquanto Ibiza consolidava a música eletrônica, outra casa escrevia sua própria história. O Rancho Maria’s, inaugurado em meados de 1996, surgiu praticamente como uma aposta improvável. Funcionava apenas às segundas-feiras. O público-alvo eram estudantes universitários. Pouco tempo depois, transformou-se em uma das maiores festas realizadas nesse dia da semana no Brasil.
“O nosso foco inicial era regional. Depois a coisa tomou uma proporção gigantesca”, lembra Eduardo Philipps, fundador do Rancho Maria’s e também um dos criadores do Greenvalley.
A inauguração já mostrou o potencial da casa. O primeiro grande show foi com o Barão Vermelho. Depois vieram dezenas de atrações nacionais. “O movimento cresceu tanto que tivemos de sair da segunda-feira e migrar para o fim de semana”, comenta.

Quando bastava estacionar o carro
Eduardo acredita que o grande diferencial de Balneário Camboriú era a concentração de opções na Barra Sul. “As pessoas estacionavam o carro e podiam escolher onde queriam entrar”, diz.

Era possível circular entre Rancho Baturité, Baturité, Saloon, Rancho Maria’s e outros estabelecimentos praticamente caminhando poucos metros. Isso transformava a região em um enorme corredor de entretenimento. “O turista vinha pela praia durante o dia e pela noite quando o sol se punha.”

Segundo ele, o público era extremamente diversificado. Havia gaúchos, catarinenses, paranaenses, empresários do Mato Grosso, famílias inteiras e jovens universitários convivendo nos mesmos espaços. “Cada casa tinha sua personalidade.”
Na avaliação do empresário, aquele movimento ajudou diretamente no desenvolvimento imobiliário da cidade. “Não tenho dúvida de que a vida noturna foi um dos grandes motores da construção civil. Muitos empresários compravam apartamentos porque os filhos queriam passar as férias em Balneário Camboriú.”

Uma história ilustra bem aquele período. Em um show do Cidade Negra, as vendas antecipadas estavam abaixo do esperado. Eduardo decidiu buscar Tony Garrido no hotel e levá-lo até a Praia Brava. “O pessoal fez uma roda enorme em volta dele. Aquilo virou propaganda espontânea.”
Naquela mesma noite, a casa lotou.
Quando a Barra Sul ficou pequena
Com o passar dos anos, os grandes terrenos da orla começaram a desaparecer. Os edifícios ocuparam o espaço das antigas casas noturnas. Foi então que Eduardo e seus sócios decidiram olhar para Camboriú. Em 2007 nasceu o Greenvalley, instalado em uma área afastada das residências, um lugar onde a música não incomodasse. A aposta deu certo. O clube se transformou em uma referência internacional, foi eleito diversas vezes o melhor clube do mundo pela DJ Mag e permanece há anos entre os principais do ranking mundial.

Hoje, o antigo Rancho Maria’s deu lugar ao The Forest Convention Center, integrado ao Complexo Vila Maria’s, que recebe formaturas, casamentos, congressos e grandes eventos corporativos. “O entretenimento muda de formato, mas continua sendo essencial. Nada substitui a experiência ao vivo”, afirma.

O pub que virou símbolo de uma geração
Enquanto as grandes boates movimentavam milhares de pessoas, Balneário Camboriú também viu surgir casas que ajudaram a mudar a noite e a forma como o entretenimento era oferecido ao público. Entre elas, uma ocupa lugar especial na memória de quem viveu os anos 1990 e o início dos anos 2000: a Mein Bier.

Instalada na Avenida Atlântica, de frente para o mar, a cervejaria e casa noturna comandada por Narbal Busato de Souza, o Babau, tornou-se um dos principais pontos de encontro da cidade. Inspirada nos pubs europeus, reunia restaurante, choperia, banda ao vivo e boate em um único espaço, quando esse conceito ainda era novidade em Balneário Camboriú.

Hoje diretor da Rádio Menina, Babau acredita que a Mein Bier representou uma mudança importante na maneira como as casas noturnas eram concebidas. “Até então existiam bares e restaurantes muito simples. A Mein Bier foi construída para aquela finalidade. Houve um investimento grande em arquitetura, em conforto e em qualidade.”
A inovação aparecia em detalhes que hoje parecem comuns, mas eram inéditos para a época. “Tínhamos consumação por cartão, sistema self-service de chope, banda ao vivo, boate… era uma mudança muito grande para a cidade.”
Segundo ele, a partir daquele momento outros empresários passaram a investir também em estruturas mais modernas. “O pessoal começou a entender que não bastava abrir uma casa. Era preciso entregar uma experiência.”
O Instagram da vida real

Se hoje toda festa termina publicada nas redes sociais, na Mein Bier isso acontecia muito antes da internet. A responsável por eternizar aqueles momentos era a relações públicas Georgia de Mello, que coordenou centenas de eventos na casa. Ela lembra que uma das atrações mais aguardadas da semana nem acontecia na pista de dança. Acontecia logo na entrada. Durante as festas, um fotógrafo circulava registrando os frequentadores. Depois, Georgia escolhia pessoalmente as melhores imagens, que eram reveladas e expostas em um enorme painel. “As pessoas adoravam chegar para procurar suas fotos. Era o nosso Instagram da vida real.”

A ideia deu tão certo que acabou inspirando também a criação da Revista Mein Bier, publicação idealizada por ela com apoio de Babau e distribuída aos clientes em uma época em que as redes sociais sequer existiam. “Antes da internet, as pessoas queriam se ver nas fotos. Aquilo fazia parte da experiência da festa.”

Carnavais históricos e celebridades
A Mein Bier rapidamente se transformou em palco de alguns dos eventos mais lembrados da cidade. As quintas-feiras eram dedicadas às tradicionais festas universitárias. Nos finais de semana, bandas ao vivo dividiam espaço com DJs. Mais tarde vieram também noites dedicadas ao pagode e ao sertanejo. Mas foi o Carnaval que entrou definitivamente para a história.

Cada noite possuía uma camiseta-convite de cor diferente e, em uma das edições, o Olodum comandou a festa. Foi também na Mein Bier que Joana Prado, então conhecida como Feiticeira, realizou uma de suas primeiras apresentações. Georgia lembra que, para montar o palco, acabou utilizando parte da decoração da sala de casa. “A decoração do palco foi elaborada com metade da decoração da sala da minha mãe em tons pastéis e mostarda na época (risos). Tivemos “Tiazinha”, várias celebridades em desfiles da Levi’s, Colcci, Alla Z, como Carlos Casagrande, Cássio Reis, Gianni Albertoni, Paulo Zulu, outras festas temáticas como “Best Friends”, “Top Girls”, “Feijoada do Túlio”, tivemos show com Lobão, pessoal do Pânico, Sideral, banda Catedral, Cogumelo Plutão, etc.”, recorda.
Ao todo, Georgia estima ter participado da produção de cerca de 300 eventos. “Eu, o Babau e a Mylene trabalhávamos em completa sintonia.”
A cidade também mudou de público
Para Babau, é comum atribuir o desaparecimento das grandes casas apenas à especulação imobiliária. Ele discorda. Na avaliação do empresário, a mudança no comportamento das pessoas teve peso semelhante. “O jovem sai menos do que saía antigamente.”
Segundo ele, o consumo de bebidas caiu, as redes sociais mudaram a forma como as pessoas se relacionam e surgiram novas maneiras de lazer. “Hoje existem muitas outras formas de encontrar os amigos.”
Ao mesmo tempo, Balneário Camboriú passou a investir em atrações que praticamente não existiam há duas décadas. “Vieram a roda-gigante, o teleférico, o aquário… são equipamentos turísticos que atraem outro perfil de visitante, mais familiar, e isso também é muito positivo.”
Ainda assim, ele acredita que a vida noturna continuará fazendo parte da identidade da cidade. “Sempre haverá demanda para sair à noite. Talvez menor do que antes, mas ela sempre vai existir.”
“Quem viveu, viveu”
Georgia de Mello enxerga a transformação por outro ângulo. Para ela, os grandes empreendimentos imobiliários mudaram definitivamente a paisagem da orla. “O mercado imobiliário de luxo tomou conta de Balneário Camboriú e, aos poucos, as casas noturnas deram lugar aos prédios.”

Ela reconhece que a cidade ganhou novos atrativos e elogia a visão de empresários que levaram o entretenimento para outras áreas, como o Greenvalley. Mesmo assim, acredita que aquela fase dificilmente voltará. “Nós que vivemos e fizemos parte da gloriosa night life de Balneário Camboriú podemos nos considerar sortudos. Quem viveu, viveu.”
“Eu cresci junto com a noite de Balneário Camboriú”
Poucas pessoas acompanharam tantas fases da vida noturna quanto o músico Maurício Jorge Simas, o Escova. Hoje aos 68 anos, ele costuma dizer que sua própria história profissional nasceu dentro das casas noturnas da cidade. Ainda adolescente, conseguiu um dos primeiros empregos levantando os pinos de um antigo boliche que funcionava próximo à Praça Almirante Tamandaré. Depois veio o Rancho Baturité. “Lavei copos, trabalhei no restaurante, toquei em bares… Balneário Camboriú sempre incentivou quem gostava da vida noturna.”

Escova lembra que, quando começou a sair para festas, a cidade oferecia opções para praticamente todos os estilos. Debaixo do antigo Cinerama funcionava a La Ronde, considerada um dos primeiros grandes points da cidade. “Quem tinha o adesivo da La Ronde no carro era descolado. Quem não tinha era considerado careta (risos).”
Mais tarde, sobre o cinema, surgiu o Moustache, palco de grandes shows nacionais. Também havia o Country Club, na Rua 951, onde ele assistiu ainda criança a apresentações de Benito di Paula. “A cidade era cheia de oportunidades.”

A noite não acabou – ela mudou
Escova faz questão de discordar da ideia de que Balneário Camboriú perdeu sua vocação para o entretenimento. “O pessoal fala que acabou. Eu não acho.”
Segundo ele, hoje existe menos concentração em grandes casas, mas muito mais diversidade. “Naquela época praticamente todo mundo ia para o Estação Final, para o Baturité. Hoje cada restaurante tem música ao vivo.”
Ele lembra que, quando vivia exclusivamente da música, trabalhava basicamente às sextas-feiras e aos sábados. “Hoje existem locais com shows todas as noites.”

Na opinião dele, a fama construída pela cidade continua atravessando fronteiras. “Para quem mora fora, Greenvalley e Surreal ainda são Balneário Camboriú. Warung também era associado à cidade, mesmo sendo na Brava, que já é Itajaí. A nossa marca continua sendo a vida noturna.”
Escova acredita que o fechamento das grandes casas não ocorreu apenas pela verticalização da Barra Sul. “A questão do barulho pesou muito. As festas passaram a incomodar moradores, mas a SHED continua sendo uma referência. Greenvalley e Surreal são clubes lindíssimos, com estruturas impressionantes. Nossa noite continua forte”, completa.
Cada geração viveu a sua noite

Fotógrafo e músico, Celso Peixoto, o Celsinho, também acompanhou diferentes fases da cidade. Ele lembra de uma Balneário Camboriú onde as pessoas viajavam quilômetros simplesmente para dançar. “Era uma época em que o pessoal vinha para Balneário Camboriú para dançar, encontrar amigos e se divertir.”
Na memória dele, lugares como Whiskadão, Baturité, Estação Final, 1450 e Metrô Piano’s Bar ajudavam a formar uma cidade vibrante. “O público era muito jovem e tinha muito turista. Existia uma sensação de alegria o tempo inteiro. Hoje as pessoas procuram experiências diferentes.”
Restaurantes com música ao vivo, bares temáticos, karaokês, casas menores, gastronomia sofisticada e tecnologia passaram a dividir espaço com as baladas tradicionais. “São épocas diferentes. Não acho que uma seja melhor do que a outra. São propostas diferentes.”
Mesmo com todas as transformações, ele destaca algo que permanece praticamente intacto. “Os bares de frente para a praia continuam fazendo parte da identidade de Balneário Camboriú”, pontua.
As noites continuam festivas
62 anos depois de sua emancipação, Balneário Camboriú já não possui a mesma concentração de boates que fez da Barra Sul uma referência nacional entre os anos 1980 e 2000. No lugar de fachadas icônicas, surgiram torres que mudaram a paisagem da cidade. O perfil do público evoluiu, a tecnologia transformou hábitos e novas formas de lazer passaram a disputar espaço com as pistas de dança.

Ainda assim, a essência permanece – ela está nos bares lotados da Avenida Atlântica, nos restaurantes com música ao vivo espalhados pelo município, na SHED mantendo acesa a tradição da Barra Sul, nos grandes clubes da região que continuam atraindo visitantes de todo o mundo.
Talvez as noites já não sejam exatamente como eram quando milhares de pessoas lotavam o Baturité, o Ibiza, a Mein Bier ou o Rancho Maria’s. Mas continuam reunindo amigos, criando memórias e fazendo parte da identidade da cidade. Não por acaso, décadas antes de Balneário Camboriú se tornar sinônimo de arranha-céus, luxo e inovação, seus moradores já sabiam o que fazia daquele pedaço do litoral catarinense um lugar diferente. A resposta continua eternizada no próprio hino da cidade – “Suas noites são festivas… e aproximam corações”.

