Texto: Renata Rutes
A preocupação provocada pelos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 começou a se transformar em uma articulação regional nesta quinta-feira (3), em Balneário Camboriú.
Prefeitos, secretários municipais, gestores escolares e representantes da Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí (Amfri) reuniram-se com o Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE/SC) para conhecer um projeto de apoio à gestão educacional e discutir sua implantação conjunta nos municípios da região.
A reunião, realizada na sede do Sinduscon, foi proposta pela prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, após a divulgação dos resultados do Ideb e a constatação de que as dificuldades não estavam concentradas em uma única cidade. O encontro representou o primeiro passo concreto de uma mobilização que pretende reunir as prefeituras da Amfri em torno de um diagnóstico comum, de estratégias compartilhadas e de ações que possam começar a ser aplicadas já no próximo ano letivo.
TCE/SC: modelo de transformação
O TCE/SC apresentou o Projeto de Apoio do Controle Externo à Gestão da Educação, uma iniciativa voltada à transformação da gestão educacional com foco na aprendizagem. O modelo não se limita à análise do Ideb nem à fiscalização posterior dos resultados: parte de um diagnóstico estruturado de cada rede, estabelece planos de curto, médio e longo prazo e prevê acompanhamento durante a execução das medidas.
A experiência de Florianópolis, que registrou forte crescimento no Ideb de 2025 após iniciar uma parceria com o Tribunal e com o movimento Todos Pela Educação, foi apresentada como uma das principais referências. Representantes de Joinville também detalharam o trabalho desenvolvido no município, que inclui avaliações trimestrais utilizadas para identificar estudantes que precisam de apoio e encaminhá-los ao reforço escolar.
Além da aprendizagem, a reunião abriu espaço para uma discussão mais ampla sobre saúde mental, condições de trabalho dos professores, frequência escolar, convivência nas unidades e desenvolvimento integral dos estudantes.
A Universidade do Vale do Itajaí (Univali) apresentou o programa Vida na Escola, realizado em parceria com a Prefeitura de Itajaí, que mantém equipes de psicologia e serviço social inseridas na rede municipal de educação.
Ao final do encontro, os representantes dos municípios manifestaram interesse em seguir com a proposta.
A Amfri deverá receber do TCE/SC as orientações e a minuta do termo de cooperação, levar o tema ao Colegiado de Educação e formalizar o interesse regional.
Os prefeitos também pretendem se reunir em Florianópolis com o conselheiro substituto Gerson dos Santos Sicca, relator temático da Educação no Tribunal. A agenda está sendo buscada, inicialmente, para 14 de setembro.
“A principal ponte e a base de tudo é a educação”

Ao abrir a discussão, Juliana Pavan afirmou que a reversão dos indicadores não depende somente de uma prefeitura ou de uma secretaria, mas de um esforço que envolva municípios, órgãos de controle, universidades, gestores escolares, professores e demais profissionais que conhecem diariamente a realidade das escolas.
Segundo a prefeita, o TCE/SC colocou-se prontamente à disposição para participar de um debate regional, apresentar as experiências já desenvolvidas e ajudar a avaliar de que maneira essas ações podem ser fortalecidas e adaptadas à realidade da Amfri.
Juliana observou que os municípios da região mantêm uma relação direta e enfrentam problemas semelhantes. Por isso, em sua avaliação, não faria sentido cada cidade procurar isoladamente uma resposta para indicadores que preocupam praticamente toda a associação.
“Nós precisamos colocar na mesa quais ações estão sendo desenvolvidas, compreender o que está acontecendo e pensar de que maneira podemos fortalecer esse trabalho. Existe uma movimentação regional e, por isso, o trabalho também precisa ser coletivo. Cabe a nós, gestores, dar continuidade à excelência do ensino público e avançar em conjunto”, afirmou.
A prefeita agradeceu à Amfri e aos demais prefeitos por aceitarem a proposta e compreenderem a importância de levar a educação ao centro das discussões da associação.
Ela lembrou que os gestores debatem frequentemente obras, infraestrutura e grandes projetos regionais, mas ressaltou que nenhuma estrutura é mais decisiva para o futuro das cidades do que a educação.
“Nós falamos muito sobre obras estruturantes, sobre pontes e outras demandas da região, mas a principal ponte e a base de tudo é a educação. Os resultados do Ideb trouxeram uma preocupação muito grande e nós precisamos enfrentar isso juntos, de frente”, declarou.
A articulação, segundo Juliana, pretende unir a Amfri para melhorar a qualidade do ensino público e não apenas elevar uma nota. A intenção é compreender o que está por trás dos números, aprender com quem conseguiu avançar e estabelecer políticas capazes de produzir resultados duradouros.
Profissionais da ponta deverão participar da construção
Juliana também defendeu que o programa seja construído com a participação de quem trabalha diretamente nas unidades. Para ela, prefeitos, secretários e equipes técnicas podem definir diretrizes, mas são professores, diretores e demais profissionais da educação que conhecem a rotina, as limitações e as necessidades concretas dos estudantes.
A prefeita agradeceu a presença de diretores, gestores e representantes das secretarias e afirmou que o processo deverá combinar decisões administrativas com as contribuições das equipes escolares.
O Colegiado de Educação da Amfri deverá reunir as considerações apresentadas pelos municípios e elaborar uma ata com os encaminhamentos do encontro. Durante a reunião, representantes do colegiado ressaltaram o trabalho realizado diariamente nas escolas e comemoraram a realização de uma manhã inteira dedicada ao debate da educação em nível regional.
TCE diz que atuação vai além da análise das contas

O conselheiro Luiz Eduardo Cherem, o Dado Cherem, responsável pela área da Saúde no TCE/SC, afirmou que o Tribunal participou da reunião com uma proposta eminentemente técnica, de parceria e de apoio aos municípios. Ele explicou que o papel contemporâneo do órgão não está limitado à verificação de números ou à identificação de irregularidades depois que uma política pública já foi executada. O Tribunal também atua na governança pública, avaliando a qualidade dos gastos e ajudando os gestores a aperfeiçoar os serviços entregues à população.
Para o conselheiro, os indicadores educacionais da Amfri chamaram a atenção justamente porque se trata de uma região considerada economicamente forte. Diante desse contraste, o órgão entendeu que poderia contribuir tecnicamente com as administrações municipais.
Cherem disse que conversou com Juliana Pavan sobre a necessidade de ampliar a discussão para toda a Amfri e considerou positiva a mobilização ocorrida em pouco tempo. “A proposta foi apresentada na semana passada e hoje já tivemos a reunião. Foi possível perceber a empolgação dos prefeitos e o interesse real em fazer esse trabalho”, avaliou.
“Nós demos um passo significativo”
Juliana Pavan classificou o encontro como um passo significativo em favor de um tema que, apesar de sua importância, muitas vezes acaba ficando em segundo plano diante das demandas diárias das administrações.
“Não tem como esperar. O negócio precisa andar. Nós demos um passo significativo em relação a um tema que muitas vezes fica em segundo plano porque somos consumidos por demandas diárias que acabam se tornando prioritárias”, afirmou.
Para a prefeita, discutir desenvolvimento educacional e Ideb é falar de muito mais do que notas e indicadores.
“Estamos falando de desenvolvimento, de crescimento e de impacto social. Essa soma de esforços do Tribunal de Contas, dos municípios da Amfri, da Univali e de cidades que não fazem parte da associação, mas apresentaram resultados positivos, só tende a trazer resultados rápidos e positivos para a nossa região”, disse.
Segundo Juliana, todos os municípios da Amfri estiveram representados no encontro.
“Isso demonstra que existe uma compreensão regional sobre a importância e a urgência do tema”, destacou.
Como funciona o projeto apresentado pelo Tribunal

O projeto do TCE/SC foi apresentado por Thanderson Pereira de Sousa, assessor técnico do conselheiro substituto Gerson dos Santos Sicca, que não pôde comparecer à reunião. Sicca é o relator temático da Educação no Tribunal e deverá participar das próximas etapas da articulação.
A iniciativa é denominada Projeto de Apoio do Controle Externo à Gestão da Educação. Seu objetivo é preparar a gestão educacional para promover uma transformação estrutural das redes municipais, fortalecendo a capacidade de planejar, executar, monitorar e aperfeiçoar políticas públicas. A aprendizagem dos estudantes deve permanecer como o resultado central de todas as decisões.
De acordo com a apresentação, o modelo adota uma visão sistêmica da educação. Isso significa que os resultados escolares não são tratados como consequência de um único fator, mas da interação entre crianças e jovens, professores, práticas de ensino e aprendizagem, escolas e secretarias municipais.
No centro dessa estrutura estão os estudantes, com aspectos como acesso à creche, frequência e permanência, transporte escolar e alimentação. Em relação aos professores, entram questões como planejamento da força de trabalho docente, carreira, desenvolvimento profissional e valorização.
Na dimensão do ensino e da aprendizagem, o projeto considera currículo, material didático, práticas pedagógicas, avaliação, apoio e supervisão, formação continuada e acompanhamento dos estudantes. Ao redor desses eixos aparecem ainda gestão escolar, educação integral, infraestrutura, tecnologia, quadro técnico, ambiente acolhedor, participação das famílias, estrutura organizacional, processos e sistemas de gestão.
A lógica apresentada pelo TCE/SC é fazer com que decisões pedagógicas, administrativas, orçamentárias e de gestão convirjam para o mesmo propósito: garantir que os estudantes aprendam mais e melhor.
Diagnóstico será o ponto de partida

O primeiro passo previsto é a realização de um diagnóstico estruturado das redes municipais. O levantamento deverá identificar desafios, potencialidades, prioridades e condições de implementação em cada cidade. A partir dele, serão elaborados planos de ação de curto, médio e longo prazo, adaptados à realidade local. A proposta considera que algumas medidas precisam produzir respostas imediatas, porque os estudantes atualmente matriculados não podem esperar anos para receber o apoio de que necessitam. Outras dependem de mudanças estruturais e precisam ser mantidas ao longo do tempo.
Thanderson destacou que se trata de um trabalho completo e complexo. Segundo ele, a melhoria da educação exige medidas que combinem urgência e continuidade.
“Existem ações de curto, médio e longo prazo, mas nós também precisamos considerar que, de imediato, as crianças precisam avançar em suas capacidades”, explicou durante a apresentação.
O acompanhamento do Tribunal pretende evitar que o acordo se transforme em mais um documento formal sem consequências práticas. Por isso, uma das exigências para a adesão será o comprometimento efetivo dos gestores e das equipes responsáveis.
Adesão exigirá liderança, dados e compromisso com a execução
Entre as condições apresentadas pelo TCE/SC estão liderança política engajada, liderança pedagógica definida, equipe técnica responsável, disponibilidade dos dados da rede, governança da implementação e compromisso com a execução e com o acompanhamento do Tribunal.
Thanderson ressaltou que a iniciativa só poderá funcionar se houver disposição real para executar as ações, abrir informações e manter o trabalho durante o período necessário.
O objetivo, segundo ele, é impedir que o projeto seja tratado apenas como mais uma parceria assinada pelos municípios.
“É necessário comprometimento, com gestores de fato engajados, para que não seja apenas mais uma parceria firmada”, afirmou.
A proximidade entre as cidades da Amfri foi apontada como uma vantagem. Os municípios poderão trocar experiências, comparar estratégias, identificar dificuldades comuns e compartilhar soluções, sem deixar de considerar as particularidades de cada rede.
Caminho começa com ofício da Amfri

O TCE/SC também apresentou as etapas administrativas para a formalização da parceria. O primeiro movimento deverá ser o encaminhamento de um ofício de interesse ao Tribunal, que pode ser enviado por um município ou pela própria associação.
Como a proposta é regional, a expectativa é que a manifestação seja apresentada pela Amfri após a consolidação da posição dos prefeitos e das secretarias municipais.
Depois do recebimento do ofício, o Tribunal fará uma avaliação das condições iniciais de implementação e solicitará as informações necessárias para elaborar uma manifestação técnica preliminar.
O processo deverá resultar em um acordo de cooperação técnica. Uma vez firmado o acordo, o TCE/SC acompanhará e monitorará sua execução, buscando transformar as medidas em políticas permanentes.
“O Tribunal acompanha e monitora o acordo para que ele seja perenizado, para que não seja uma política pública que se esvaia, mas que consolide resultados concretos e positivos. O objetivo é que a educação transforme, de fato, a vida de crianças e adolescentes”, disse Thanderson.
Cooperação com o TCE não terá custo
Uma das questões questionadas pelo Página 3 foi o custo da participação do Tribunal. Dado Cherem esclareceu que a cooperação técnica com o TCE/SC nã
Uma eventual contratação poderá ocorrer apenas em uma etapa posterior, caso os prefeitos decidam buscar uma consultoria ou outro tipo de assessoria para auxiliar a implantação das ações. Essa escolha ainda não foi feita.
A prefeita Juliana disse que uma das possibilidades é firmar uma parceria com Joinville, que apresentou sua experiência durante o encontro e não contratou consultoria para desenvolver as ações. Outra alternativa seria uma contratação conjunta por meio da Amfri.
“É importante copiar e seguir os passos daquilo que está dando certo. Joinville trouxe exemplos claros, com dados, indicadores e demonstrações de como conseguiu avançar. Esse é um dos caminhos que nós podemos adotar e que não teria custo [caso seja via parceria com Joinville]”, afirmou.
A decisão deverá ser tomada conjuntamente após a análise da minuta, a manifestação do Colegiado de Educação e a reunião com o conselheiro Gerson Sicca.
Florianópolis foi apresentada como referência

A experiência de Florianópolis ocupou uma parte importante da apresentação. A capital firmou um acordo de cooperação técnica para adotar uma visão sistêmica da gestão educacional e desenvolveu ações em parceria com o TCE/SC e a organização Todos Pela Educação.
O plano de curto prazo apresentado no encontro incluiu oito frentes principais: expansão da carga horária de aulas; priorização do currículo e do material didático; trilha formativa de professores com foco no material; uso pedagógico de avaliações formativas e somativas; formação de gestores com foco na gestão da aprendizagem; acompanhamento pedagógico; ações de acompanhamento e incentivo à frequência; e reconhecimento e premiação.
Segundo os dados exibidos pelo Tribunal, Florianópolis foi a capital que mais cresceu no Ideb nos últimos dez anos.
Entre 2023 e 2025, a nota dos anos iniciais avançou de 5,8 para 6,7, uma elevação de 0,9 ponto. Nos anos finais, passou de 4,6 para 5,4, aumento de 0,8 ponto.
A capital também registrou avanços expressivos nas proficiências de Língua Portuguesa e Matemática. Nos anos iniciais, a pontuação em Língua Portuguesa passou de 209,3 para 226,4, crescimento de 17,1 pontos. Em Matemática, saiu de 214,6 para 241,3, aumento de 26,7 pontos.
Nos anos finais, Língua Portuguesa avançou de 243,7 para 264,1, crescimento de 20,4 pontos. Em Matemática, o resultado passou de 240,1 para 262,6, acréscimo de 22,5 pontos.
A avaliação apresentada pelo TCE/SC é que esses avanços representam aproximadamente um ano adicional de aprendizagem dos estudantes avaliados em 2025 na comparação com os alunos que fizeram as provas em 2023.
Avanço ocorreu também entre estudantes com maior defasagem
Outro dado destacado foi a redução da proporção de alunos dos anos iniciais que se encontravam em defasagem nas escalas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Em Língua Portuguesa, o percentual passou de 13% em 2023 para 6% em 2025, queda de 54%. Em Matemática, recuou de 20% para 9%, redução de 55%.
A experiência de Florianópolis serviu para ilustrar o tipo de transformação que o projeto procura estimular: não somente elevar uma média, mas identificar alunos com maiores dificuldades, acompanhar o desenvolvimento deles e impedir que uma parte da rede permaneça para trás.
Joinville utiliza avaliações trimestrais como instrumento de apoio
Joinville também apresentou sua experiência de parceria com o Tribunal e os avanços alcançados no Ideb. Um dos pontos abordados foi a realização de avaliações trimestrais.
Durante a exposição, os representantes ressaltaram que o Ideb, apesar de importante, não pode ser a única base para as decisões das redes. Como é divulgado em ciclos e retrata um momento específico, o índice não oferece sozinho a rapidez necessária para orientar as intervenções durante o ano letivo.
As avaliações trimestrais permitem que a rede identifique, em intervalos menores, quais estudantes não estão acompanhando os conteúdos e precisam de suporte adicional.
O instrumento, conforme foi explicado, não é utilizado como mecanismo de controle ou punição de professores e escolas. Ele serve como apoio pedagógico, permitindo direcionar alunos ao reforço, rever estratégias, reorganizar atividades e agir antes que as dificuldades se acumulem.
A experiência chamou a atenção dos gestores da Amfri porque combina acompanhamento contínuo, utilização de dados e ações práticas dentro das unidades.
Ideb não é o único indicador, mas não pode ser ignorado
A secretária de Educação de Balneário Camboriú, Zélia Zanella, avaliou que a entrada do TCE/SC na discussão representa um avanço importante. Professora de carreira, ela afirmou nunca ter visto o Tribunal inserido dessa maneira nos municípios, com preocupação direta sobre o desenvolvimento da educação.
Zélia ressaltou que os relatos apresentados no encontro mostraram que as dificuldades de Balneário Camboriú não são isoladas.
“A educação não é compacta. Nós ouvimos aqui que os municípios da região da Amfri possuem dificuldades semelhantes. Esse é um passo muito importante porque a Secretaria de Educação não se sente e não caminha sozinha. Nós temos um amparo, e a prefeita está muito preocupada com isso”, afirmou.
A secretária observou que o Ideb deve ser analisado em conjunto com outros dados, mas não pode ser desconsiderado. “O Ideb não é a única indicação de resultados, mas ele nos dá um resultado, e nós não podemos ignorá-lo”, pontuou.
Segundo ela, Balneário Camboriú já começou a adotar medidas para fortalecer a aprendizagem, especialmente na alfabetização do primeiro e do segundo ano do ensino fundamental.
Para o próximo ano, a Secretaria pretende ampliar esse trabalho e construir uma base mais sólida desde o Jardim II. “As crianças já chegam preparadas, mas queremos dar um suporte ainda maior aos professores, para que elas estejam ainda mais prontas para iniciar o processo de alfabetização no primeiro e no segundo ano”, explicou Zélia.
Resultados de Balneário Camboriú motivaram reação

A mobilização regional começou depois da divulgação do Ideb de 2025. Em Balneário Camboriú, os anos iniciais do ensino fundamental obtiveram média 6,0. O número representa uma pequena melhora sobre 2021 e 2023, quando a rede registrou 5,9, mas permanece abaixo dos 6,4 alcançados em 2015 e 2017. Em 2019, a média havia sido 6,1.
Nos anos finais, o município ficou com 5,0, repetindo o resultado da avaliação no ano anterior.
Os números gerais também escondem diferenças expressivas entre as escolas. Nos anos iniciais, quatro das 14 unidades avaliadas alcançaram ou superaram o patamar de 6,7: CEM Giovania de Almeida, CEM Vereador Santa, CEM Taquaras e CEM Professor Antônio Lúcio.
Outras dez ficaram abaixo desse nível. Entre as menores notas estavam o CEM Tomaz Francisco Garcia, com 5,4, e o CAIC Ayrton Senna da Silva, com 4,9.
Nos anos finais, somente duas das 14 unidades chegaram ou ultrapassaram o patamar de 5,5 utilizado na análise: o CEM Giovania de Almeida, com 6,5, e o CEM Professor Armando Cesar Ghislandi, com 5,6.
O CAIC Ayrton Senna da Silva teve a menor média nessa etapa, com 4,2. Também ficaram entre os resultados mais baixos o CEM Tomaz Francisco Garcia, com 4,4, e os centros educacionais Professor Antônio Lúcio, Ariribá e Dona Lili, todos com 4,6.
O CEM Giovania de Almeida, localizado no Estaleirinho, obteve o melhor desempenho da rede, com Ideb 7,2 nos anos iniciais e 6,5 nos anos finais.
“O resultado me incomodou demais”
Juliana disse que recebeu os dados com grande preocupação e que a reação não pode ser a de normalizar os resultados ou se convencer de que a situação está satisfatória.
“Não podemos nos convencer de que está tudo bem. Precisamos avançar juntos e agir de forma imediata”, declarou.
Ela lembrou que já discutia o tema quando exercia o mandato de vereadora e afirmou que os resultados mais recentes reforçaram a necessidade de uma estratégia regional.
“O resultado do Ideb me incomodou demais. Eu não fiquei feliz com esse resultado. Enquanto vereadora, já lutava muito em função disso. Esse trabalho precisa ser feito regionalmente. Não podemos olhar somente para o nosso município; precisamos promover um debate regional”, afirmou.
Segundo Juliana, o Ideb divulgado agora é resultado de um processo de avaliação iniciado anteriormente. Isso aumenta a urgência de agir, porque os efeitos das medidas adotadas em 2026 e 2027 somente aparecerão plenamente em ciclos posteriores.
“Não queremos olhar apenas para o resultado do Ideb. Queremos entender os dados, aprender uns com os outros, saber como agir e efetivar esse trabalho. Isso não pode esperar; precisava ter sido feito ontem”, acrescentou.
Região apresentou dificuldades, com exceções positivas
A avaliação discutida pelos prefeitos é que a preocupação com o Ideb não está restrita a Balneário Camboriú. O quadro se repete em praticamente toda a Amfri.
Luiz Alves foi apontado como a principal exceção positiva entre os municípios da associação. Nos demais, os resultados gerais indicam a necessidade de melhorar tanto a aprendizagem quanto a gestão das redes.
A proposta regional pretende utilizar essa proximidade para comparar dados, compartilhar práticas e construir soluções comuns.
O objetivo não é impor um modelo idêntico a cidades com realidades diferentes, mas aproveitar experiências que funcionaram e adaptá-las às particularidades de cada município.
Saúde mental entrou definitivamente na agenda

A presença de Dado Cherem, responsável pela área da Saúde no TCE/SC, reforçou uma dimensão que apareceu desde a preparação da reunião: os resultados escolares não dependem apenas de currículo, avaliações e práticas pedagógicas. Questões de saúde mental, frequência, convivência, violência, condições de trabalho e acolhimento também interferem na aprendizagem e no ambiente escolar.
O prefeito de Camboriú, Leonel Pavan, defendeu que o debate sobre o Ideb caminhe ao lado da discussão sobre saúde mental. Ele citou a apresentação da Univali e agradeceu ao TCE/SC por demonstrar preocupação não somente com as contas, mas com a educação e o desenvolvimento social e humano.
Para Leonel, a postura do Tribunal é inovadora e amplia a possibilidade de apoio aos municípios. Ele também parabenizou Juliana Pavan e a Amfri por proporem uma articulação voltada a toda a região, e não somente a Balneário Camboriú.
“Os municípios dependem uns dos outros. É importante que exista essa preocupação regional, porque a educação e o desenvolvimento humano ultrapassam os limites de cada cidade”, afirmou.
Dado Cherem também destacou a importância de cuidar dos professores para que esses profissionais sejam valorizados, estimulados e tenham condições de continuar apoiando os estudantes.
Para o conselheiro, a educação é uma das áreas mais importantes de uma sociedade. Ele citou o investimento realizado por países desenvolvidos e a valorização dos docentes como exemplos da centralidade que o ensino deve receber nas políticas públicas.
Univali apresenta experiência do Vida na Escola

A Universidade do Vale do Itajaí participou do encontro e apresentou o programa Vida na Escola, desenvolvido em parceria estratégica com a Secretaria Municipal de Educação de Itajaí. A iniciativa integra educação, bem-estar e desenvolvimento integral. O objetivo é construir uma rede de apoio que fortaleça o ambiente escolar e promova o desenvolvimento de estudantes, profissionais da educação e famílias.
O programa está relacionado à implementação da Lei Federal nº 13.935, sancionada em dezembro de 2019, que prevê a prestação de serviços de psicologia e serviço social nas redes públicas de educação básica.
A apresentação ressaltou que a legislação representa um marco no reconhecimento da importância do cuidado integral, da saúde mental e do desenvolvimento social dentro das escolas. No entanto, as equipes não atuam como simples extensão dos serviços de saúde. O trabalho é guiado pelos objetivos da política educacional, apoiando professores e estudantes nos processos de ensino, aprendizagem e convivência escolar.
Projeto em Itajaí passou por planejamento, implantação e consolidação
A trajetória apresentada pela Univali começou com o planejamento, a elaboração do projeto e a definição de diretrizes.
A parceria com o município foi assinada em setembro de 2025 e as atividades nas escolas começaram em novembro daquele ano. Depois da contratação das equipes, integração dos profissionais e início dos trabalhos nas unidades, o programa avançou para uma fase de consolidação, monitoramento, avaliação e ampliação das práticas.
A apresentação mostrou ações realizadas diretamente nas escolas, com atividades coletivas, oficinas, intervenções de convivência, acompanhamento das equipes e apoio a situações específicas. O programa busca articular as necessidades pedagógicas e sociais sem transformar a escola em unidade de atendimento clínico. Quando necessário, situações que exigem cuidados especializados são encaminhadas para a rede adequada.
Mais de 1,9 mil acolhimentos individuais de estudantes
Os números apresentados pela Univali mostram a dimensão da demanda existente nas unidades de Itajaí. O programa contabilizou cerca de 1,9 mil acolhimentos individuais de estudantes.
As situações acompanhadas incluem alunos angustiados após conflitos familiares, adolescentes que relatam isolamento, dificuldades de retorno à sala depois de crises emocionais, ansiedade, luto e problemas de adaptação.
Também foram relatadas intervenções em casos de intenção suicida, risco de autoagressão, violência, risco de agressão, crise de pânico intensa e ameaça. Além dos acolhimentos individuais, a apresentação registrou atendimentos emergenciais, construção de planos de desenvolvimento individual, avaliações psicológicas, aplicação de instrumentos e outras formas de apoio. Esses dados foram apresentados como exemplos de situações que já existem no cotidiano escolar e precisam ser identificadas e encaminhadas de maneira estruturada.
Professores também recebem acompanhamento
O Vida na Escola não concentra sua atuação apenas nos estudantes. Professores e demais profissionais da educação também recebem acolhimento, orientação e formação. Entre as situações acompanhadas estão docentes afetados por episódios de violência, sobrecarga em contextos específicos, crises ocorridas em sala, conflitos familiares, morte de estudantes, episódios discriminatórios, ameaças e sofrimento relacionado ao trabalho.
As ações incluem formação, reuniões pedagógicas, participação em conselhos de classe, acolhimentos individuais, orientação técnica, compartilhamento de materiais e outras atividades.
As formações abordam temas como manejo de conflitos, saúde mental e sinais de alerta, desenvolvimento infantil, práticas pedagógicas, inclusão e acessibilidade, comunicação não violenta, prevenção da automutilação, proteção integral e relações étnico-raciais.
A exposição reforçou um dos pontos defendidos durante toda a manhã: não é possível melhorar a aprendizagem sem considerar as condições emocionais e profissionais de quem ensina e de quem aprende.
Próxima etapa será dentro da Amfri
Após a manifestação favorável dos prefeitos, a discussão deverá seguir para o Colegiado de Educação da Amfri. O grupo analisará a proposta, registrará as considerações das equipes e participará da construção do modelo regional.
A Amfri deverá receber a minuta do termo de cooperação e encaminhá-la aos prefeitos e às secretarias de Educação.
Depois dessa etapa, a associação formalizará o interesse junto ao TCE/SC.
O Tribunal avaliará as condições iniciais dos municípios, pedirá dados e documentos e apresentará uma manifestação técnica preliminar.
Ainda será necessário definir se todos os municípios participarão, quais dados serão utilizados, como será organizada a governança regional e qual será o caminho para a execução das medidas.
Prefeitos pretendem ir ao TCE em setembro

Juliana informou que os gestores querem ir a Florianópolis nas próximas semanas para apresentar o resultado da reunião e discutir o projeto diretamente com Gerson Sicca.
A agenda inicialmente buscada é para 14 de setembro, mas ainda depende de confirmação.
“Nós vamos levar essa etapa ao Tribunal de Contas. A minuta será enviada para a Amfri, seguirá para os prefeitos e secretarias e será debatida pelo Colegiado de Educação. Depois de homologada, a última etapa será irmos a Florianópolis, levar todo esse material ao conselheiro Sicca e debater em conjunto a forma de aplicação”, explicou.
A ida ao Tribunal deverá reunir os prefeitos da Amfri e marcar a passagem da manifestação política de interesse para a construção técnica do acordo.
A meta defendida por Juliana é concluir as etapas de alinhamento, formalização e planejamento ainda em 2026 para que o trabalho comece a aparecer diariamente nas escolas a partir de fevereiro de 2027.
“Precisamos dar a largada neste ano, porque, a partir de fevereiro do ano que vem, isso tem que estar sendo aplicado diariamente”, completou.
Um dos diferenciais apontados pelo TCE/SC é o acompanhamento da política durante sua execução. Tradicionalmente, os órgãos de controle verificam os resultados e a regularidade dos gastos depois que as ações já foram concluídas. No modelo apresentado, o Tribunal pretende acompanhar as etapas, identificar dificuldades e ajudar os gestores a corrigir os rumos.
A proposta também busca proteger o programa das mudanças administrativas e impedir que o trabalho desapareça depois de uma troca de governo ou de equipe. Para isso, serão necessários dados disponíveis, responsabilidades claramente definidas, monitoramento regular e compromisso político e pedagógico. A intenção é fazer com que as ações deixem de ser iniciativas pontuais e passem a integrar a gestão permanente.

