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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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A CIDADE PERDIDA DO POVO UPANO 

A cada nova pesquisa, arqueólogos redefinem nosso conceito sobre a ocupação das Américas. Desde 2015, a aplicação da tecnologia LiDAR – Laser Imaging Detection and Ranging – nas florestas da Mesoamérica mudaram drasticamente nosso conhecimento sobre a civilização maia. Capaz de rastrear por disparo de laser vestígios arqueológicos abaixo da terra e das copas de árvores, o LiDAR revolucionou o método como se faz escavação. Expedições em solo agora são alinhadas e direcionadas de acordo com os resultados do bombardeamento de laser em terras inóspitas e de difícil acesso. Poupa-se recursos com projetos caros, o risco de vidas em florestas perigosas e, principalmente, a agressão ao meio ambiente com escavações aleatórias. 

Contudo, as novas descobertas – agora na América do Sul – começam a impor aos historiadores e arqueólogos não apenas uma revisão do tamanho das antigas civilizações pré-colombianas. Os questionamentos recaem também na percepção do extermínio real que foi a invasão europeia nas Américas, com respeito ao confronto bélico e, principalmente, quanto a mortandade dos povos nativos com a disseminação de doenças aqui desconhecidas. A mortandade foi muito, mas muito maior do que podemos imaginar! Antigas regiões e centros urbanos, antes imaginados com poucas centenas de vidas, alcançaram com os resultados do LiDAR, a cifra de muitos milhares de almas. Cidades pré-colombianas que, em ocupação humana, rivalizavam com as maiores cidades europeias do século XVI.

Essa visão ganhou recentemente um reforço irrefutável com a revelação das pesquisas do arqueólogo francês Stéphen Rostain (CNRS – Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica), que há cerca de 20 anos estuda os vestígios arqueológicos localizados na floresta equatoriana, a leste dos Andes, no Vale de Upano. Rostain levou muito tempo para entender o sentido daquilo que se figurava abaixo da floresta: inúmeras plataformas de terra que se assemelhavam a um enorme complexo agrícola, ladeado pelo que pareciam ser canais e estradas. Apenas depois da aplicação do sistema LiDAR em uma área de 300 km², o arqueólogo conseguiu planificar o que havia descoberto. Tratava-se de não menos que 15 assentamentos diferentes, conectados por uma rede de estradas – algumas atingiam entre 10 e 25 km de extensão – comportando mais de 6 mil plataformas de diversos tamanhos e canais de drenagem.

As pesquisas sobre o que de fato existe no Vale de Upano levarão décadas para serem compreendidas; mas as primeiras análises apontam que o complexo foi habitado de forma contínua pelos povos Upano e Kilamope entre 500 a.C. e 600 d.C. A visão de nativos habitando pequenas aldeias e vivendo de caça e pesca na floresta Amazônica definitivamente caiu por terra. Os povos originários da floresta em época pré-colombiana, eram sofisticados e mostravam uma enorme capacidade em manipular a paisagem e o meio ambiente a seu favor. As primeiras estimativas, que ainda carecem de comprovação, apontam para uma população que pode chegar a 100 mil habitantes. 

Ainda não se sabe qual a ligação desses assentamentos com os demais povos pré-colombianos da América do Sul ou mesmo como interagiam com eles. Contudo, começa a ficar claro que existia um padrão de construção desses senhorios que ocupavam as terras baixas de nosso continente. O arqueólogo José Iriarte (University of Exeter, Inglaterra) lembra que “Incas e Maias construíam com pedras, mas que as pessoas na Amazônia geralmente não tinham pedra disponível para construir, então trabalhavam com barro”. Assim como Iriarte, outros pesquisadores começam a perceber o incrível esforço humano que foi mobilizado para o deslocamento de toneladas de terra. Isso aponta também para uma fantástica capacidade de mobilização social e estratégia arquitetônica. 

Em 2022, o mesmo sistema LiDAR revelou outro grande conjunto de edificações da comunidade Casarabe no sudeste da Amazônia boliviana, datado entre 500 e 1400 d.C. Isso acrescenta mais uma peça neste intrincado “quebra-cabeças” que nos ensina sobre a antiga ocupação humana nas densas florestas. Ainda não sabemos qual a ligação direta dessas descobertas com os geoglifos encontrados no Brasil (Acre) ou como esses povos interagiam comercialmente com os demais senhorios existentes além da Cordilheira dos Andes, mas é praticamente certa que esta relação existia, com maior ou menor intensidade ao longo dos séculos que antecedem a chegada dos invasores europeus. 

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui)
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