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Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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A CIDADE SAGRADA DE HOJAS-JABONCILLO

Existem lugares esquecidos nas Américas, que estão envoltos em mistério e que escapam dos holofotes da imprensa midiática. Enquanto todos olham para os grandes sítios arqueológicos estudados há décadas – como Machu Picchu, Tikal e Chan Chan –, outros de igual interesse e riqueza jazem esquecidos e quase abandonados, sem patrocínio e com um número mínimo de visitantes. A cidade perdida de Hojas-Jaboncillo (Equador) é um deles locais, situado a 640 metros sobre o nível do mar, nas proximidades da costa equatoriana. 

Ao longo do século XIX, o sítio arqueológico era de conhecimento apenas dos habitantes locais. Foi apenas entre 1906-1910 que o arqueólogo Marshall Howard Saville (EUA,1867-1935) partiu para a América do Sul em busca de ruínas Incas na região do Equador. Saville não era um novato nas culturas pré-colombianas. Havia ocupado a direção do Museu do Índio Americano (Fundação Heye) e foi membro fundador do Explorers Club, criada em 1905 para apoiar explorações científicas. Em 1907, publicou um artigo no jornal New York Times intitulado “An unknown race found in the tropics”, algo como “Se encontra uma raça desconhecida nos trópicos”; deixando claro que Hojas-Jaboncillo não pertenciam aos Incas, e se tratava de uma nova civilização de alta cultura!

Apesar da descoberta, o local caiu no esquecimento. Só foi novamente estudado de modo intenso entre 2019-2020, pelo arqueólogo equatoriano Juan Jijón e pelo topógrafo Juan García. Ambos estabeleceram com a ajuda da tecnologia LiDAR (detecção a laser) que as ruínas eram maiores do que se imaginava! Os 3.500 hectares conhecidos saltaram para mais de 7 mil hectares após suas análises. Neste procedimento foram detectados mais de 900 terraços de cultivo, espalhadas pelas montanhas.

Pesquisas mostraram que a cidade pertenceu ao senhorio Manteña, que construiu uma enorme cidade entre as montanhas de Hojas e Jaboncillo, derivando daí o atual nome. Os manteños eram compostos basicamente por agricultores, pescadores, comerciantes, engenheiros e artistas. A cerâmica desenterrada mostrou uma ocupação constante do lugar entre os anos de 700 e 1530 d.C., quando entrou em decadência. O arqueólogo Jijón aponta algumas características urbanas que se aproximam bastante de outros locais, como Ciudad Perdida (Colômbia), que apresenta um assentamento sem ruas e constituído por plataformas, canais de água e terraços. Foram encontrados também estelas gravadas com imagens de jaguares e mulheres, além de cerâmica negra e conchas spondylus, que eram comercializadas com outros povos e representavam símbolos de poder. A cultura manteña estabeleceu uma liga de mercadores capacitados com uma sofisticada tecnologia de navegação,  com balsas que percorriam o litoral das Américas, oferecendo seus produtos em um comércio de longa distância, abastecendo um mercado consumidor de especiarias, pelas elites de povos pertencentes ao Tawantinsuyu (Império Inca). 

Mas de todos os artefatos encontrados, nenhum é mais enigmático que as “Cadeiras em forma de U”, cuja base é caracterizada por figuras antropomorfas distintas. Não existe um consenso sobre a peça, nem que de fato ela seja uma “cadeira” ou que tenha tal uso como assento. Um forte argumento é que os braços da suposta cadeira seriam altos demais, e que o assento baixo demais para uso de um chefe ou líder. Curioso notar que cada peça é única em tamanho e ornamentação. Foram encontradas cerca de 60 peças neste formato, todas esculpidas em um único bloco de rocha. Alguns arqueólogos sugerem que a originalidade de cada peça possa estar relacionada a personalidade de quem as encomendava aos escultores, ou a quem elas eram destinadas. Seja como for, o sítio arqueológico de Hojas-Jaboncillo é hoje Patrimônio Cultural da Nação equatoriana e aguarda por novas pesquisas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui).
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