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A MISTERIOSA CERIMÔNIA MAIA

Quando estudei o lago Titicaca (Peru/Bolívia) em 1997, tive a oportunidade de conviver com moradores que se preocupavam com sua ancestralidade através de cerimônias em louvor ao sol e montanhas. Uma das mais conhecidas é, sem dúvida, a festa do Inti Raymi (Festa do Sol) comemorada em 24 de junho. Os habitantes do altiplano se referiam a ela – em especial à realizada em Cusco – como uma encenação turística; mas orgulham-se de orquestrar suas cerimônias de modo tradicional, com o sacrifício de animais como a lhama.

Este pequeno detalhe – uma encenação de sacrifício – foi uma constante no mundo pré-colombiano, seja na América do Sul, seja na Mesoamérica. Pautado neste fato, os cientistas Holley Moyes (EUA) e Jaime J. Awe (Belize), desenvolveram uma interessante teoria envolvendo sacrifícios humanos, civilização Maia e o infra mundo das cavernas em Belize.

O cenário de estudo foi a caverna ATM (Actun Tunichil Muknal) que, segundo os maias, foi uma das entradas sagradas para Xibalba, o infra mundo habitado por deuses e seres míticos. A caverna ATM é objeto de estudo arqueológico, por permanecer intocada por mais de mil anos. São 5 km de extensão, contendo salões e um piso de argila repleto de oferendas lascadas e esqueletos. Seguramente, o espaço foi utilizado como local de cerimônias em 700 a.C., quando os maias buscavam estabelecer uma conexão com suas divindades. O estudo de Holley e Awe aposta na “recriação da criação do mundo”, através de uma cerimônia de sacrifício bastante específica: a do surgimento do Deus do Milho. Esta encenação de uma antiga história indígena envolvia – a exemplo do antigo Inti Raymi – sacrifícios e oferendas. Diz a lenda, que uma terrível seca surgiu, e que então dois guerreiros gêmeos desceram ao infra mundo para apaziguar os Senhores de Xibalba. Eles desafiaram os deuses para um jogo e, ao perderem, foram sacrificados. Uma nova dupla de guerreiros repetiu o caminho da anterior, mas desta vez venceram. Assim, os deuses foram punidos apenas com oferendas lascadas; e um dos guerreiros mortos anteriormente renasceu como Deus do Milho.

Holley e Awe encontraram evidências arqueológicas que provam essa encenação teatral: corpos de dois homens sacrificados, oferendas quebradas e artefatos relacionados ao surgimento do Deus do Milho. A datação deste cenário cerimonial condiz com o período de uma devastadora seca na Mesoamérica, entre os anos de 700 e 900 d.C., quando a civilização maia entrou em colapso. Mesmo com a região desertificada, os maias continuaram por mais 50 anos, a retornar à caverna, refazendo sua encenação na esperança de que suas preces fossem atendidas. Estaríamos vivendo hoje, com as mudanças climáticas, um novo declínio da civilização? Estariam os maias da caverna ATM, nos alertando que apenas rituais já não são mais suficientes?

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor

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Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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